quarta-feira, fevereiro 24, 2021

MAYA ANGELOU, CLARISSA PINKOLA, ANNA TSYGANKOVA, DUTILLEUX, TEMPOS DE FOLIA & CASSE-NOISETTE

 

 

TRÍPTICO DQC: Viagens da janela – Ao som do concerto para violoncelo e orquestra Tout un monde lointain..., do compositor francês Henri Dutilleux (1916-2013), na interpretação da violoncelista alemã Konstanze von Gutzeit & Orchestra of the University of Music Franz Liszt Weimar, conductor: Nicolás Pasquet (2016). – Diante da noite a vida é uma incógnita! O que passou, nunca mais: se aprendi, ao meu redor não, quase ninguém. Um fantasma ronda ameaçador com as suas garras devastadoras no noticiário e quantos ignoram, parece que nem se dão conta o quão maravilhoso é viver. Ou se preferem a morte em alvoroço, alaridos de festa. Eis que se aproxima presciente, ali e acolá, não poupa quem alcança, mesmo que muitos escapem. O seu alarde me traz de onde eu vim das águas de sal e sangue: reminiscências emolduradas com os pesadelos de agora. O que estou fazendo aqui: reles equilibrista entre as lapadas das borrascas, as mordidas da indiferença e os devires movediços. Para onde vou, o que será de mim: braços abertos para o amanhã, mãos dadas com Maya Angelou: O amor não conhece barreiras. Ele salta obstáculos, pula cercas, penetra paredes para chegar ao seu destino cheio de esperança. Assim voo, viagens da janela.

 


DOIS: O Reino das Bonecas – Ao som da Suíte nº 1 – O Quebra Nozes, op. 71, do compositor russo P. I. Tchaikovsky, executada pela Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES), sob a regência de Leonardo David. – Não sei como, só sei que despertei na antecâmara de Silberhaus, na companhia de... Quem é você? Drosselmayer e me conduziu por um prado até a galeria pavimentada por macarrões e pistaches e colunas de açúcar de malte. Para onde vamos? Não me respondeu, ele apontou para as pastoras e caçadoras alvoroçadas pela floresta perfumada da aldeia de Marzipã. Às pressas fui levado por ele em uma jangada de conchas e gemas, puxadas por golfinhos de ouro, que me levaram até o bosque de Doceburgo, onde encontrei uma multidão venerando o líder espiritual deles. Quem é? Era o Confeiteiro que falava sobre metempsicose. Virei-me para ele que se mantinha mudo e disse: Isso aqui se parece com Histoire d'un casse-noisette (1844 - Nova Veja, 2018), do escritor, desenhista e compositor alemão, E. T. A. Hoffman (1776-1822), adaptado por Alexandre Dumas: Erguendo-se em esplendor na ilha havia um magnífico palácio, uma cintilante construção em pedra colorida e torreões circulares. Janelas salpicavam as torres, brilhando com cristais e vidros. Ao concluir a exposição do orientador, logo me encaminhou para o palácio – é que eu havia sido convidado para tomar chá com as princesas-bonecas de Marie, sequer sabia, mas fui servido por pequenos pajens da cabeça de pérola, corpo de rubi e esmeraldas e os pés de ouro puro. Ao tomar o primeiro gole do chá, me falaram do gigante Boca-Faminta que, naquele exato momento, comeu uma torre. E me apresentou a Hawthorn, o Regente do Reino das Flores; depois Shiver, Regente do Reino dos Flocos de Neve; e a Mãe Ginger: ...uma mulher, com um vestido de babados laranja e vinho com a barra decorada com borlas de cortinas. Os cabelos encaracolados ruivos eram fofos e estavam presos com uma fita amarela. Ela era a Regente do Reino do Divertimento. Logo me levaram a cada reino – um grandioso cenário cinematográfico, criado por Lasse Hallström e Joe Johnston -, e, ao final do passeio, em uma reunião solene me disseram: A sua missão é dizimar milhares de ratos comandados por um Rei de Sete Cabeças e, depois, enfrentar o Boca-Faminta. Eita! O inventor Drosselmayer que estava sentado sobre um relógio me disse: Você será amado por uma linda senhora! Quem será ela? Ah, é a Fada Plum! E antes mesmo de balbuciar mais qualquer sílaba, Marie, então, me deu uma espada e fui enfrentá-los: uma luta e tanto, parada dura. Uma batalha além do que podia, mas no fim saí vencedor. Confesso: para um eterno perna-de-pau em tudo, ganhar essa parada foi caisa para lá de desgastante. Pela primeira vez na vida êxito em alguma coisa, razão pela qual pude entender melhor a situação: o primeiro reino era inabitado; no segundo, o tempo transcorria muito lentamente; o terceiro, o que existia ali não poderia ser levado para o mundo real: coisas que não são possíveis aqui são possíveis no Reino; e o quarto... Era sinistro. Aí o autor apareceu de repente, veio em meu socorro: O mais feliz dos felizes é aquele que faz os outros felizes. Em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz. Ao dizer-me isso, Dumas sorriu passando seu braço sobre meu ombro e me conduzindo aos meus aposentos: Boa noite. Será? Jamais pregaria os olhos.

 


TRÊS: A DANÇA DAS SÁBIAS - Despertei no meio da noite e, ao meu lado, ela estava sensualmente sentada com os pés sobre o centro: era Keira Knightley. E me falou sobre A dança das mulheres sábias A descoberta e a aceitação do sagrado feminino e do seu poder (Marcador, 2019), da Clarissa Pinkola Estes: A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nos nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir, sentir e pressentir... Criações e realizações de todos os tipos são necessárias... Pois existem certos assuntos místicos que as palavras concretas isoladas não conseguem expressar, mas que as ciências, contemplações do que é invisível porém palpável, e as artes conseguem. E me contou de uma antiga tradição húngara sobre a ocasião do casamento de uma jovem, quando as velhas se reuniam para dançar enquanto distraiam o noivo antes dele se introduzir no quarto nupcial. Contou-me e saiu. Fiquei um tempo sozinho matutando acerca de tudo que me dissera. Logo, ela irrompeu e novamente sentou-se, agora com um vestido para lá de sedutor. Depois de um longo tempo seus olhos em mim, ela levantou-se: Não importa onde ou como vivamos, não importa em que condições... Nunca estamos sem nosso supremo aliado, pois, mesmo que nossa estrutura externa seja insultada, agredida, apavorada ou mesmo destroçada, ninguém poderá extinguir o estopim dourado, e ninguém poderá matar sua guardiã subterrânea. Sim? Novamente saiu sem dizer mais nada. Ouvi o barulho de abrir e fechar de portas. Trocou de roupa e novamente entrou como se assomasse levitando, retirou a blusa e: ...uma ocasião especial é qualquer ocasião à qual a alma esteja presente. Escolher tornar-se mais sábia significa sempre escolher aprender de novo. Deu-me a mão e me levou para a Sala dos Tronos: a música roubava meus sentidos. Ao vê-la, era ela a bailarina russa Anna Tsygankova nua a me convidar para o Pas de Deux. E se era sonho eu só queria uma coisa: nunca mais acordar. Até mais ver.

 

TEMPOS DE FOLIA



[...] Parte significativa da produção intelectual que se dedicou a pensar o frevo é constituída de crônicas, que mereciam não só estudo acurado, mas que viessem à luz em novas publicações. [...]

Trecho extraído da obra Tempos de folia: estudos sobre o carnaval no Recife (FUNDAJ/Massangana, 2018), organizado por Isabel Cristina Martins Guillen e Augusto Neves Silva, reunindo textos e autores, a exemplo de Debates historiográficos em torno do Carnaval do Recife, dos organizadores; Carnaval do Recife: a alegria guerreira de Rita de Cássia Barbosa de Araújo, O Carnaval regenerado do Recife: a consagração das elites modernas nos dias de folia da década de 1910, de Lucas Victor Silva; O Estado, a festa e a cidade: medidas de controle e ordem nos dias de Carnaval no Recife (1930-1945), de Mário Ribeiro dos Santos; Viva o frevo original: o ideal é sorrir e ao passo da Federação aderir, de Francisco Mateus Carvalho Vidal; O Carnaval tem seus direitos, quem não pode com ele não se meta! Os maracatus-nação no Carnaval do Recife no século XX, de Isabel Cristina Martins Guillen; Tristeza no reino da alegria: enfrentamentos entre o Interclubes e o Rei Momo no Carnaval de chumbo do Recife (1969-1972), de Diogo Barreto Melo; É na magia do samba que eu vou! Os duelos de Estudantes e Gigantes no Carnaval do Recife, de Augusto Neves da Silva; e Batalhas para além de confetes e serpentinas. A espetacularização no Carnaval pernambucano e nos maracatus-nação, de Ivaldo Marciano de França Lima. Veja mais aqui e aqui.