segunda-feira, agosto 12, 2019

LYOTARD, RAUL PASSOS, ODILE CRICK, ILANA BRANCO, DAMA GENEROSA, HEITOR & YARA BARBOSA – PÃO


A DAMA GENEROSA - O relógio das quinze marcou a sua chegada na tarde estival. Ela despontou extraordinária com sua pantomina: um oásis por vinte e três horas amantes como se eu tivesse deposto ou decapitado, a se expor como quem nunca foi amada e com seus mil e um encantos. Prostrado entre os fieis ao mormaço dos seus feitiços benéficos, trilhei sobressaltado insone por mais de quatrocentos e oitenta e cinco noites: quem vê, nunca esquece; encanta os olhos, toca o coração e invade evocando constelações de festa no íntimo porque é ela como o vento que enche os pulmões e se espalha com tamanho afeto por todo ser. Era a dona da luz na distribuição indiscriminada e doava, o seu era para todos. E aplacou sofrimento alheio, curou dores. Essa a sua alegria. Quantos não foram contemplados e viraram as costas. Apesar de contemplados, nunca foi amada. Enquanto os necessitados às caravanas tomavam-lhe tudo: posses, poderes, fortuna. Deles, muitas dores para ela. Relevava, distribuía generosidade, verdadeira e real. Por todos era tratada por louca disso ou daquilo; e riam, só escárnio. Também os que enlouqueceram jamais deixaram de ser tocados. Os algozes, não eram poucos, e pisavam, detratavam, condenavam. Ninguém em sua defesa. Nada a deteve: quanto mais tomavam, mais renascia das cinzas. Mais reprimiam, mais sorria. Cada vez atacada, mais salvava a si e todos. Ninguém entendia o seu sorriso, a sua dádiva. Sua infelicidade: quanto mais infeliz, mais poderosa, mais solidaria, altruísta. Sozinha, segura de si, distribuía amor, vida e luz. Viu-se só, atravessou infernos e desertos, chegou ao outro lado e cumpriu sua pena, com seu riso imune, fronte erguida, enfrentando desafios – os dela e de todos. Ela aproximou-se de mim qual bailarina nua encantadora. Fitou-me firme com seu véu de luz, um incentivo e me salvou. Sabia, ela não: era a deusa tríplice reencarnada. E sumiu no primeiro instante entre os que chegavam por terra ou por mar. Um dia, novamente a encontrei e estava se debatendo, quase exaurida. Não me reconheceu, sempre fui um estrangeiro, irreconhecível. Estava ela atolada num redemoinho, areias movediças, esvaindo-se. Os outros do outro lado, todos ocupados com seus problemas e interesses, ignoravam-na. Ninguém na sua solidão, sucumbindo a si própria. Estendi minha mão e ela me disse: Não. Tive que exorcizar com duas canções e um punhado de poemas ocultos dela jamais vê-los. Aos sobressaltos, não havia como alcançá-la. Indiferente dos meus afetos, ela afastou-se com esforço pelo charco, até preferir mãos de Judas. Sumiu como uma fumaça para eu me perder. Voltei-me, segui meu caminho. Sabia dela, de tudo salvou-se sozinha. Eu trilhava seus rastros na areia quente, entre outros anônimos que lhe serviam de plateia: eu gritava no meio da multidão e não me ouvia. Restou-me, enfim, incerta, os meus passos saíram do passado e refiz meu itinerário. Eu só tinha um dia, nada mais, e era aquele triz em que ela diante de mim, era inteira um espelho de encruzilhadas, as quais davam no que nunca tive nem terei, só pesares de agora e a graça perdida numa pedra cinzenta e supostas esferas para brincar de faz de conta entre passarelas e cataventos, palafitas e corredores, e poder dormir e sonhar. Hoje, não sei por onde anda nem o que faz, guardo comigo a sua lembrança de nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] qual o futuro de uma sociedade excludente? Talvez já estejamos vivenciando uma amostra desse futuro. O ódio, o rancor a inveja fomentados à parte do tecido social, já estão saindo “debaixo dos panos”, e invadindo a rotina das famílias mais abastadas. Antes os fatos, a resposta do caos e da desordem total chega, assim, quase à obviedade. Mas, vamos parar com essa preguiça, essa comodidade, esse “jeitinho brasileiro”, que deixa tudo como está até que o pior seja inevitável. Com força de vontade, conjunta, é possível surpreender o óbvio. O futuro, independente do presente, não deve ser encarado como um “menor”, mas sempre como uma criança.
Trecho extraído de Que futuro é esse?, da advogada e analista judiciária Ilana Branco, extraída da obra Criança cidadã: por um futuro colorido (FASA, 2004), organizado por Nildo Nery dos Santos. Veja mais aqui e aqui.

A MÚSICA DE RAUL PASSOS
Curtindo a Música da Morte (20021), 4 Prelúdios (2002), Novellete (2002), Estudo de concerto em Db+ (2002), Aos teus pés (2004), A música das almas (2005), Cadenzas para o Concerto 21, K467 em C+ de Mozart (2006), Papíllon (2007), Noturno (2008), Perpetuum Mobile (2008) e Cartas romenas (2009), do pianista, regente, compositor e poeta Raul Passos.
&
QUERUBIM, DE HEITOR VASCONCELOS
Laia, laia / Laia, laia / Laia, laia / Yara hum Nara / Todo sonho não foi capaz / De tornar real / O que satisfaz / É oficial / Teu corpo é meu porto / Sem esperar / O tempo agora é de ser feliz / Nem por um triz / Nosso forte não é fraco / Nosso beijo é blindado / Feito marfim / Minha musa / Me seduza / Sou seu anjo / Querubim / E quero bem, te quero bem / Meu amor, eu e você / E mais ninguém / Chega de passar o resto da vida / Sem abraçar-te / Quero te mostrar o quanto és linda / Mais pura arte / Então vem comigo lady / Mas sem fazer alarde / O love nos deixa crazy / Vamos matar a saudade / Minha musa / Me seduza / Sou seu anjo / Querubim / E quero bem, te quero bem / Meu amor, eu e você / E mais ninguém / Laia, laia / Laia, laia / Laia, laia / Yara hum Nara.
Músicas Querubim & Máquina do Tempo, do compositor e odontólogo Heitor Vasconcelos. Veja mais aqui.

A ARTE DE ODILE CRICK
A arte da artista britânica Odile Crick (1920-2007).
&
A ARTE DE YARA BARBOSA – PÃO
A arte da artista e designer Yara Barbosa – Pão. Veja mais aqui.

A OBRA DE LYOTARD
Todo consenso não é indicativo de verdade; mas supõe-se que a verdade de um enunciado não pode deixar de suscitar o consenso.
A obra do filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998) aqui, aqui & aqui.