sexta-feira, outubro 23, 2020

KOLAKOWSKI, LYGIA CLARK, MICHAEL CRICHTON, AICHA HAMU, WALTHER MOREIRA SANTOS & O TRIO DO FINCAPÉ

 

TRÍPTICO DQC: SEXTA FEIRA, O TRÂMITE DA SOLIDÃO – Olhos amanhecidos na frieza do mundo e não fosse ontem feito de mormaço, não teria eu tantas horas de sentimentos vários, dor e compaixão. Não fosse o amor o termômetro da vida, não teria eu nada para dizer agora: as palavras me escondem, jamais quisera, outro era o sonho. Só os ingênuos, quiçá, na minha alucinação; sonhadores até, sei lá, cultuarão qualquer hora do entardecer que se fez noite e se perdeu na escuridão da madrugada. De longe a montanha ao sol-posto, de onde faz sombra esfriando o meu coração erradio. E eu um relês mortal, aos olhos o monograma do Cristo, voo pela noite no mar da solidão. Na boca da noite, todas as evidências levaram a nada: fui benzido de copas, a felicidade no descarte, o doce mel que se derrama em grande profusão. Eu perdi, açoitado pelo ronco da onça suçuarana que nunca existiu, virei mundo no Rabicho da Geralda e me perdi, não sei, na quentura que se alastra. Mandei boas novas e escrevi aos familiares, nunca esperei ser louvado por virgens de vestais ou qualquer estima, consideração. Enterrei o trevo de paus na volta do cruzeiro, era o que podia fazer. Ao vencedor, salve, um laço de fita no braço, palmas e saravá. Quantas imagens, labaredas, sensaboria, defecções. Desde que me tenho por gente, vivo a morrer de sede e o que me resta. Deixo aqui nada mais que tenho, um aceno qualquer, outra direção, um adeus.

 


O TRIO DO FINCAPÉ NO PORTO DOS PATIFES– Lá estavam às bravatas no maior leriado: o desprovido disforme Mamão-o-amor-da-jumenta, aluado e capenga de pesado, sempre a flertar beldades passantes e só levando na cara: Sai pra lá, bicho feio!; o Biritoaldo das proezas empenadas, pulando num pé só por ter coisado naquela de marchar pela intervenção da ditadura e pela terra plana, até levar um peteleco de acordar sem saber quem era nem onde estava, birutando de comer merda e rasgar dinheiro; o Doro das trelas e revestrés que quer por que quer ser presidente num pleito municipal – Ah, tão me enrolando, não é pra prefeito, é pra presidente, meu! -, virado na munganga de tão arretado, de dar um bicudo num sapo-cururu de estimação para emplacar uma foto gigante do Coisonário na casa dele, tudo pra ver se a coisa dava cloro! E deu, o resultado foi sua moradia virar um criatório de pragas, isso de maribondo, mosquitos, trinca-cunhão, abelhas africanas e assassinas, escorpiões, barbeiros, moscas tsetse e dorylus e oestridae; ratos, pulgas, tarântulas, baratas, vespas japonesas gigantes, formiga-cabo-verde e de fogo, maruins, pernilongos e todo tipo de empestação: Eita, virou mesmo a boceta de Pandora! Foi numa fuga às carreiras que eles deram num entroncamento, de serem assim do nada e na hora abduzidos! Como? Sim, batem o pé. Quando deram em si estavam em... Cadê lembrarem o nome do lugar. E o disco voador e os alienígenas? Tudo desencontrado. A língua deles enrolava e a memória pifada não dava conta direito. Onde que era mesmo? Bastou uma dedada num furico de um deles e o fora duma frochosa proutro: Sai-te, patife! Pronto. É isso! Hem? É esse o nome: Porto dos Patifes! Existe isso? Foi lá que deixaram a gente, nesse lugar mesmo! Ora, ora. Nenhum mapa nem registro dalgum lugar no planeta com esse nome! Eis que lá vinha doutor Zé Gulu pro tira-teima: Ah, sim! Hem? Onde? Aqui! E abriu um livro e ao folheá-lo foi explicando: O único sujeito que diz que botou os pés nesse lugar ou inventou toda essa história, foi o escritor inglês Charles Kingsley (1819-1875), na sua publicação infantil The water-babies, a fairy tale for a land baby (1863 – MAC, 2017), e que o nome de mesmo era Polypragmosyne, também chamado de Porto dos Patifes, vejam: Reconhecem-se os nativos do lugar pelo sorriso torto e pelo ar de quem sempre sabe mais do que você. O principal monumento da ilha, de visita obrigatória, é o Panteão dos Grandes Fracassados. No interior do edifício, políticos dão palestras sobre constituições que deveriam ter funcionado, conspiradores falam de revoluções que deveriam ter mudado a face da Terra, economistas expõem planos que deveriam ter feito a fortuna de todos, e assim por diante. Em Polypragmosyne, cada pessoa exerce uma profissão que não aprendeu, porque fracassou naquelas que aprendeu ou diz ter aprendido. Ué!?! Oxe, até nisso o desgoverno Coisonário copia? Não será o Fecamepa a reedição disso? Valha-nos! Ah, me arrependi! Pois é, me enganei com a cor da chita! O douto logo advertiu usando do filósofo e historiador polonês Leszek Kolakowski (1927-2009): Em política, enganar-se não é desculpa. Aprendemos história não para saber como nos comportar ou como ter sucesso, mas para saber quem somos. Ah, mundiça, agora é tarde! Não tem outra, só consertar a desgraceira toda! Vamos aprumar a conversa!

 


ELA, DE APARIÇÕES & DESAPARECIMENTO – Imagem: arte da artista francesa Aicha Hamu – Era assim: ela ia e vinha, como queria: quantas faces, poses, jeitos. Ah, Marilena – sim, Marilena Villa Boas Pinto (1948-1971), estudante de psicologia, desaparecida pela repressão da ditadura militar -, era abril e os dias passavam, nenhuma notícia dela. Soube que foi para a Casa da Morte e de lá desapareceu com um ferimento penetrante no tórax e lesões do pulmão direito e hemorragia interna. Esse o laudo de sua clandestinidade na militância, nunca mais o ar da sua graça. Ela se foi como foram Helena, Labibe, Alceri, quantas e tantas que ainda nem sei. Indagorinha atravessou o quarto e se achegou sensual toda Lygia Clark: Nós somos os propositores: nós somos o molde, cabe a você soprar dentro dele o sentido da nossa existência. Através da outra pessoa, o indivíduo pode perceber o seu próprio sentido, conhecer-se a si mesmo. Beijou-me com saudoso afeto, alisou meus cabelos desalinhados, acariciou minhas faces e montou arrebatada sobre o meu corpo para encenar alterando a voz, o escritor estadunidense Michael Crichton (1942-2008): Todas as grandes mudanças são como a morte. A gente só enxerga o outro lado quando chega lá. Da minha parte, nunca mais iria embora, ficaria para sempre comigo e aos beijos, afagos, entregas. Mas não, tinha de ir para voltar quando quisesse. Até mais ver.

 

A ARTE DE WALTHER MORREIRA SANTOS

Cada pessoa tem um jeito só seu de enganar a tristeza. O meu é me concentrar no que estou fazendo e esquecer tudo em volta.

Trecho de Todos deveriam estudar mandarim (Multicultural, nov/2017), do escritor e ilustrador Walther Moreira Santos, autor de obras como O Ciclista (Autêntica, 2008), Para que serve um amigo? (Becca, 2000), Helena Gold (Geração, 2003), Dentro da chuva amarela (Geração, 2006), O colecionador de manhãs (Saraiva, 2009), entre outros. Veja mais aqui & aqui