terça-feira, maio 30, 2017

MACA DE SCORZA, NOITE DE ANTONIONI, A ARTE DE ABRAMOVIĆ & BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA!

BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA! – Imagem: sobre arte de Andrey Kuzmin. - Patriamada, salve, salve! Ouviram dizer que o Brasil não é um país sério. Que coisa! Pudera, ensinaram a gente escrever com “s”, enquanto o mundo todo grafa com “z”. Por que? Já expliquei isso tintim por tintim no Fecamepa. À guisa de ilustração: o com “s” foi construído pela sujeira, rapinagem e corrupção; o do “z”, sempre existiu desdantigamente no ideal humano. Trocando em miúdos: um pro nativo e, o outro, pro mundo ver, se admirar e mangar. Não bastasse isso, entre tantos papelões e presepadas, veio a cana para adoçar com o sangue escravo, ouro do muito que sumiu no estalar de dedos, maravilhas profanadas como cu-de-mãe-Joana, afora piadas que viraram uma independência comprada a peso de libra esterlina, uma república de gatos pingados e bananas, quando a dita andou dura com golpes até hoje e só deu numa coisa cantiga de grilo: salafrários no poder comandando o Estado e todos os poderes, enquanto eu e meu irmãos e irmãs à margem de tudo, com a cabeça nos ventos desde que Pindorama começou a ser saqueada pra virar a calamidade de um povo heróico o brado retumbante que as balas acham como inimigas da felicidade, porque todo mundo quer um milhão embolsado por um centavo pra comprar posses e autoridades, acreditando no milagre de cair uma bolada do céu, afinal Deus é brasileiro e protege os doidos, os bêbados e as criancinhas. Enquanto o gigante eternamente em berço esplêndido para poucos, gerações são imoladas pra sobrar Macunaímas que fazem e acontecem na base do jeitinho e findam em palpos de aranha que arranha o sarro com carteiradas e dribles, rebolados e felicidade 0800, em arranha-céus suntuosos pra miséria humana dos que são menores que seu próprio tamanho, contando cédulas e moedas pra destilar veneno sobre quem nada tem, pedindo pra chover por causa da seca e pra chuva parar pela inundação de tudo. Na verdade, confundem até Deus com uma bandeira de cores desbotadas, aos farrapos e descolorida pelos exploradores afortunados que devastam as matas e tornam o céu antes anil agora escuro sem estrela alguma pro negrume de uma gente ociosa como espantalho de olheiras e sacos vazios pelo desconsolo, acossada pelas dificuldades e imobilizada pela catatonia, ciosos apenas por se arrumar e gastar o que tem e o que não tem, afeiçoando-se pela fauna de todas as feras e mansas enquanto execra o semelhante e aposta na desgraça alheia, e que não brinca em serviço ao soltar seus coprólitos afora com as ventosidades catingosas enquanto samba no carnaval do futebol e, com perdão da má palavra, formam uma grandicíssima putaria como filhos de uma mesmíssima putada! Salve, salve! Ah, lembranças rondam, houve um tempo não muito longe, em que eu e os da minha laia, solidários aos miseráveis de todos os cantos do país, saíamos da faculdade para fazer revolução. Reuníamos em motins nos botecos, protestos inflamados nos copos, contestações revoltosas nos goles, lágrimas embriagadas por liberdade e justiça, com a fé no nosso povo e contra o vitupério da injustiça nossa de cada dia, até que um dia um raio fulminou e a gente pôde sentir o gostinho da liberdade e coisa se encaminhando para se endireitar e ficar no sério o que antes era só piada, e lavamos a alma ao eleger o que seria nosso próprio destino no meio das nossas contradições e quase seguíamos adiante pra ver o enterro hoje voltar e tudo sucumbir ao dissabor das ideologias, quando rebelados entoam a velha paródia do Hino do Soldado em concerto desafinado, tudo cheio dos quequéos da festança: Arroz comemos com feijão. A pinga tomamos com limão. Porém, se a patriamada precisar da macacada, puta merda, tá lascada. Vá se foder pelo Brasil, vá pra puta que pariu que meu cu não é fuzil. Uma nova pinóia pra sisudo dizer que é sério com todo palavrório da charlatanice e a gente só morrendo de rir quando não era pra isso, mas ficou sendo porque não se percebeu o que estava acontecendo, nem se deu conta do flagelo no meio do tiroteio de informações e contra-informações e disse-me-disse, boataria, intriga e queimação de filme. Não se sabe ao certo quantos escaparam entre mortos, tições e fulminados. Pros que não sabem, o Sol brilha no céu da pátria a todo instante e paratodos. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

MACA ALBORNOZ DE MANUEL SCORZA
[...] E vi, caralho, pela primeira vez, aqueles sóis verdes que tonteavam vindos do rosto da fêmea mais bela que avistei neste puto mundo. Assim conheci Maca. [...] A palavra beleza será sempre fraca para descrevê-la. Era tão bonita que nos tonteou. [...] Então, pela primeira vez, Maca sorriu pra mim, e juro que conheci o que provocou, caralho, a queda dos anjos. O que provocaria, maldita a hora em que nasci, o desespero que está me queimando. [...] A mulher que nos melhorava ou piorava com sua presença, reconheçamos, como homens que somos , a verdade, caralho, dançava sem parar desde o meio-dia. [...] a escuridão caluniava a beleza de Maca e que a luz mostrava um rosto que jamais ninguém, caralho, tinha visto neste mundo corno. [...] Soube aquela noite que depois de ter dormido com centenas de mulheres eu era virgem. Conheci, maldita hora em que meus pais se misturaram, conheci que o céu e o inferno têm a mesma porta morna, e que se pode viver dentro de um relâmpago. [...]. Viveu entre seus irmãos vinte anos monteses, criada como menino. E pensava que era menino [...] Curando-o descobriram aquilo que Maco, criado como homem, vestido como homem, altivo como homem, tinha esquecido: que era mulher. [...] quando se divulgou que os Albornozes eram mulheres, sacudiu Cerro de Pasco.[...] Na porta do calabouço onde conhecera o opróbrio, Maca sorriu. – Já não tenho pai nem mãe. Sou filha do ar! [...] Adeus, irmãos queridíssimos, adeus filhos de uma grandicíssima puta! [...] Como desconfiar que o que aquele horroroso Serafim desejava era demonstrar a insignificância dos homens! Eu sou, senhores, o primeiro homem que a viu nesta província e repito que vê-la é se desgraçar. [...] e ela humilha só para sorver a nata de nossa humilhação. Seduz para poder vomitar aquilo que seduz. Se descesse dos céus ou subisse dos internos uma mulher tão impiedosamente bela como essa (que como todo o mal que causou, repito, é a única que verei em minha agonia no dia que for embora deste planeta de merda que gira ao mesmo com os palermas e com os filhos da puta [...].
Trechos da obra Cantar de Agapito Robles (Civilização Brasileira, 1979), do romancista e poeta peruano Manuel Scorza (1928-1983). Imagem do pintor peruano Vitor Loli. Veja mais aqui.

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LA NOTTE DE MICHELANGELO ANTONIONI
O drama La notte (A noite, 1961), do cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), é a segunda parte da trilogia sobre alienação, solidão e a incomunicabilidade entre as pessoas na sociedade moderna, ao lado dos filmes A Aventura e L’eclipsse, contando um dia na vida de um casal – um escritor e sua esposa -, ensaiando aventuras amorosas ao serem convidados para passar uma noite em uma festa de amigos burgueses promovida por um milionário e, durante a festa, o vazio e desgaste emocional existente entre o casal é intensificado. O destaque fica por conta da atuação da atriz e cantora francesa Jeanne Moreau, e da atriz italiana de teatro e cinema Monica Vitti. Veja mais aqui, aqui e aqui.

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