SOLFEJO DE UMA ÁRIA AMANHECIDA (Imagem: Invocation, do pintor e escultor alemão Max Klinger (1857-1920) - À minha volta
a sua presença era mais que o dia com todo o seu fulgor: era a celebração
infindável das entregas ilimitadas. E não atinei de nada porque de tudo me fora
dado pela graça vibrante de sua voz encantadora, sussurrando ao meu ouvido as
canções desabrochadas para fecundação do imponderável ao meu redor. À medida
que ela mais se achegava, eu sentia a palpitação de sua carne liberta como o
vento no frescor da brisa apagando o silêncio e todas as palavras vãs, enquanto
as horas minguavam suplicante da eternidade, para inquietação do meu ser na sua
dança pelas paisagens dos sonhos que teimavam sobre a vigília na espessura da
insônia. E quando anoiteceu não estremeci na escuridão, porque dela efluía mais
que um farol a me guiar pelas correntes seguras da imensidão noturna. E me era
dado ali todos os mapas estelares com todos os tesouros mais valorosos da
galáxia, porque a tinha ali, sempre dádiva dos manjares divinais do universo. E
foi pra ela que eu me fiz fiel devotado com todas as orações sacras e profanas,
e para endeusá-la acima do panteão de todas as deidades. E me tornei seguidor
de todos os seus gestos e expressões, porque dela emanava a resplandecência de
toda verdade revelada e de todos os mistérios secretos de as todas eclosões
iniciáticas e esotéricas. E foi nela que descobri a semente de todas as coisas
germinando raízes poderosas para desabrochar o segredo da existência, a procedência
de todos os seres, a ubiquidade de tudo e a presciência de todos os destinos. Foi
nela que eu vi a minha face feliz e não era um mero espelho a refletir a minha
efígie estampada: era a unificação da minha alma à sua e a toda manifestação vital
e anímica da qual jamais me dera conta na minha mais irresoluta alucinação. E me
vi solto de todas as amarras do tempo e do espaço, e toquei seu corpo como quem
dedilha uma harpa divinal a emanar todas as ondas etéreas de cores e luzes. E beijei
seus lábios como quem fosse contemplado com a sonoridade da flauta de todos os
tons envolventes da música das esferas. E abracei sua alma como quem toma posse
de todas as maviosas músicas de amor e paixão, para embalar nossas noites e dias
e termos o prazer da vida no solfejo de uma ária amanhecida. (Luiz Alberto
Machado). Veja mais abaixo & mais aqui, aqui & aqui.Vejo a educação
como a chave para um futuro melhor. É tão fácil incutir o ódio e tão difícil
incutir o amor e o respeito pelos outros... Espero que as gerações futuras
garantam que o trágico destino das vítimas permaneça inesquecível e que
ditaduras tão terríveis jamais voltem a surgir...
Pensamento da
escritora, educadora e psicologia polonesa Bat-Sheva Dagan (1925-2014),
sobrevivente de duas marchas da morte durante o Holocausto, encarcerada num gueto
de Radom com seus pais e duas irmãs, em 1940, que foram os quatro assassinados
em Treblinkla, em 1942. Ela conseguiu fugir para Alemanha, onde foi descoberta,
presa e deportada para Auschwitz, em 1943. Depois se estabeleceu em Israel e começou
a escrever livros, poemas e canções para as crianças e jovens, desenvolvendo
métodos psicológicos e pedagógicos para o ensino sobre o Holocausto às crianças.
ALGUÉM FALOU:
Eu ganhei a
convicção de que as crianças são o melhor e mais inteligente público que você
só poderia desejar como um contador de histórias. As crianças são críticos
rigorosos e incorruptíveis... Aqueles que escrevem para crianças praticam a
profissão de escritor em condições difíceis e voluntariamente. Qualquer pessoa
que escreva para adultos só escreve para adultos. Qualquer pessoa que escreva
para crianças escreve automaticamente para adultos... Porque a estupidez e a
felicidade andavam de mãos dadas com a preferência... Nenhum livro tem um fim....
Pensamento do
escritor e ilustrador alemão Otfried
Preußler (Otfried
Preussler – 1923-2013), foi convocado para a II Guerra Mundial, tendo
sobrevivido a uma ação militar na Frente Oriental e levado prisioneiro em
campos na República Tártara, sendo libertado em 1949. É autor da obra Krabat:
A Major Motion Picture and Dark YA Fantasy of 18th Century Sorcery (1971),
entre outras.
A LOUCA DE GANDOCA - [...] Sentar-se nas
praias do Refúgio Gandoca é transcender tudo, inclusive a sua própria beleza
arbitrária, as suas flores e as suas algas — eternas, perfumadas e putrescíveis. [...] Não, esta região já não nos pertence. Primeiro
deixou de ser dos indígenas, depois deixou de ser dos negros e, em seguida,
deixou de ser dos costarriquenhos em geral. Vi isso nos olhos do policial de
Puerto Viejo quando ele veio me algemar e me prender por eu me opor aos
estragos causados por uma francesa que não mora aqui há nem sequer um ano. "Não atrapalhe o
investimento estrangeiro, senhora; circule, circule." [...] Que o progresso é um trator de esteira, um rolo
compressor; que todos os consórcios europeus estão de olho em nossas costas
frágeis porque nossos dirigentes partiram para os quatro cantos do mundo
desenvolvido, como cafetões, para vender nossas praias, rebolando de forma
tentadora; e que o país já não é mais nosso. [...]. Trechos da obra La loca de
Gandoca (Legado, 2001), da escritora, tradutora e jornalista costa-riquenha Anacristina Rossi, que trabalha com grupos de defesa dos direitos
da mulher e de preservação do meio ambiente, também, autora de Limón Blues (2002).
MODO DE SEGURANÇA - Estou protegida, \ como uma cela no corredor da morte, \ um
celeiro de camponês, \ a memória de uma viúva, \ um código de cartão de
crédito, \ como uma esperança, como uma garantia. \ Acordamos em um regime que
é o melhor, \ ótimo, testado, protegido da traição do meu alter ego, \ um útero
- da gestação, uma casa - da construção. \ Estou protegida e é melhor continuar
assim, \ é melhor não colocar o futuro na balança, \ se ele me sobrecarrega, se
eu me confundo, \ se eu gosto de distrações, e sou tão preciosa, \ que nem um
centavo deveria faltar em mim, \ não devo ser despedaçada, \ não devo ser
danificada. \ Enquanto eu estiver protegida, \ sou inofensiva e não perigosa, \
não venenosa, não contagiosa, \ não assassina, não sedutora. \ Concordamos com
este regime e sabemos: \ Como revirar os olhos, virar o rosto, \ Cortar o
caminho, as veias da testa e do coração, \ O principal é, \ Fazer o condenado
durar até a execução, \ O trigo - até o inverno, \ Não macular as memórias
sexuais dos mortos, \ O prestígio dos serviços bancários. \ E pela manhã, \ Serafim
desceu e disse: \ Lá em cima, Rakhan, as festas começaram... Poema da poeta e jornalista georgiana Bela
Chekurishvili.
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: CUPIM DE IGREJA, TELHADO SEMPRE GOTEJA! - Tais sabendo? De quê? Teve um ataque de
abelhas daquelas de Cupira, uma nuvem da maior colmeia depois da trovoada braba
de madrugada, visse? Rapaz, foi o maior toró mesmo! Pois é, elas ficaram
entocadas numas baraúnas e quando se assanharam saíram zumbindo e picando o
povo agora de manhã. Como é rapaz? Quem vinha do Gravatá Açu e passava por Persinunga,
Boca da Barra, Ibiratinga e Puiraçi foram logo vitimados, atacaram sem pena. E
contam que já se alastrou por outras áreas. É o fim do mundo! Soubesse que no
Tatu de Canhotinho, o marido chegou em casa e encontrou a mulher dormindo com
outro na cama dele? E foi? Os dois nus roncavam o sono dos felizardos, o marido
pegou duma espingarda e tacou fogo nos dois. É muita sem-vergonhice! Ele se
entregou a polícia que foi ver o desmantelo na casa dele, os dois nus, tiraram
uns retratos que já revelaram e está rodando por aí de mão em mão, a nega era
gostosona, tá lá na foto de perna aberta com a priquitona aparecendo, o cabra
do lado, murcho, cotoquinho de nada, mas a ajegada toda esparramada, até morta
não perdeu o jeito de puta safada. Cadê as fotos? Ah, tá lá com o Zé Lero que
pegou com Bilaro. Cadê-lo? Tá por aí. Eu quero ver a putona arreganhada. Ela
está morta, bestão. E o que é que tem, quero só ver e bater uma bronha, é
pecado? Sei não, se é pecado ou não, não sei, tem gente que gosta de comer defunta,
eu, hem? Ah, se for uma defunta boazuda, oxe, como na hora. E se tiver gelada
de morta? Que é que tem? Oxe! Como do mesmo jeito que como comida fria ou
gelada, principalmente se for uma priquitona feito você diz, eu arregaço a
pomba e enfio na tabaca dela sem pena! Ave! Xá, comigo, cara, tenho estômago! E
a Matança da Serra do Quati? Não, que foi? Uma calamidade: faz mais de mês que
o negócio enfeiou desde o Rio Chata ao Riachão do Morais, a lei do mais forte
tá varrendo tudo! Dizem que é gente do Coronelão que ajuntou-se em Carapeba,
deixando gente morta pelos matos Guaraciaba acima, Taquara abaixo. Estão
fazendo uma limpa. De quê? Quem sabe lá o que se passa cabeça ruim daquele
homem! Ainda ontem teve um que foi encontrado crivado de balas no Riachão do
Gama. Valha-me! Soube da Maria Bunduda? Aquela mulher ruim que nem o cachorro
queria a amizade dela? Essa mesma, deu na telha, arreganhou o cu pra sorte e
acertou na milhar! Foi mesmo? Oxe, tomou um banho de loja e ainda ontem mesmo
já passava toda reboladeira e reboculosa, a macharia tá toda de queixo caído!
Hora da vingança dela. Agora ela exige que a chame pelo nome: Adelicídia! E que
agora em diante ela só vai foder com quem ela quiser e tem que ser muito macho,
do pau grande e fazer o que ela mandar! Vixe! Ela agora está montada na grana,
só vai dar pruns galegões que caírem na graça dela, num terá mais pé rapado
para enjeitá-la mais não, daqui quem quiser comer terá que ser só na punheta!
Pode um negócio desse? Que é que tem? Ainda um dia desse era a quenga mais sem
conceito, cotação lá embaixo, levava tapa na cara, comiam o cu dela na frente
de todo mundo, nem davam o menor cartaz, só cuspida, chutada, tratada às
cotoveladas, nega safada que se penitenciava para chupar os caras em troca de
um goia de cigarro, um pedaço de carne, um gole de cerveja. Quantas e quantas
vezes ela chegou pra mim: Me dá um cigarro que eu chupo você. Eu puxava ela do
lado, dava o cigarro, cerveja, cachaça, depois levava lá pra trás da igreja de
todos os santos, ela me chupava, botava no rabo dela, enfiava na boceta e fazia
ela lamber meu gozo e engoli-lo. Veja como são as coisas. Hoje a nega está toda
engaitada e só dando língua pra gente morrer de tesão na mão. Coisas da vida. E
tem outra? Lá vem tu com mais coisas... Estão falando duns branquelos matadores
de gente que apareceram no Canhoto atrás dum padre pançudo que fugiu com uma
beata bonita e safada, mulher dum rico fazendeiro daquelas bandas. Foi mesmo?
Ela fugiu com o padre e dispensou o fazendeiro? E então, vá entender mulher,
vá! E como anda a crise? Já chegou ao Bebedouro, o povo de lá invadiu os
mercadinhos com fome, estão atacando as casas e tudo. Os famélicos estão sendo
cercados pela capangagem do Coronelão que não estão dando conta. Lá na Barra do
Jardim, já tem gente de Araçatuba e Pé de Serra dos Bodes, tudo com fome e
querendo invadir as casas atrás de comida. É o fim do mundo, num disse! Esses
políticos só sabem se arrumar e fazer demagogia, roubam com a cara mais lisa, o
povo tá revoltado e passando fome. Há sempre uma capadoçada na forma do costume
e fica por isso mesmo. Tomara que fique pra lá e livre a gente daqui... Veja
mais aqui.
Ela é Elsa e
atua como se fosse a deusa Hera nua, puro deleite, com toda poesia de suas
poses & versos.
Ela é Gertrud,
mais que companheira, mais que verdadeira musa, a render-se voluptuosa lua,
para que a possua e aproveite meus diversos desvarios poéticos.



