QUANDO O SONHO É UMA CANÇÃO DE AMOR - Imagem: Jeanne Samary in a Low Necked Dress, do
artista plástico do Impressionismo francês, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) – Foi a paz do seu olhar fulgente
que amparou a minha vida, como se ela, na janela, à minha espera, se tornasse toda
a expressão do amor em sua plenitude. E foi nesse seu olhar cativante que me
perdi de mim e mergulhei pros sonhos mais reais que nela encontrei como quem
descobre o tesouro do que há de melhor no mundo e em mim. E nela os meus versos
se fizeram ecos da paixão em cores, luzes, harmonia e na paisagem do prazer da
vertigem de mil anos de querências atormentadoras do meu coração. E ela fez da
minha triste existência o devaneio de todas as danças com seus alados pés a me
embalar pelas ruas de Limoges, quando ela Diana caçadora, recusada no salão,
era inteira e nua nos meus braços requerentes. E fez-se Lise Trèhot, como se
estivéssemos ao ar livre em Argenteuil, a brincar nas nuvens que surgiam do
chão pelos becos em que eu era acorrentado pela atração de seu ser, a incitar
toda garra do guerreiro escondido num dançarino que não era e nunca foi. E me
levou aos risos com sua luz fulgurante pelos passeios na vida cotidiana entre
parisienses vestidas de argelianas, pelos espetáculos de rua ao camarote do meu
coração apaixonado. E os gentis floristas e jardineiros de Montmartre nos ofertavam
as flores e rosas para emoldurar o universo azul esverdeado de sua candura e o
dourado único que aureolava sua carne endeusada. E ouvimos as meninas ao piano,
o vimos o almoço dos remadores e nos envolvemos com as banhistas, quando o rio
foi nossa cama e seu torso se esmaecia com clarão da lua e a minha pena
empunhada aos pulsos para as pinceladas poéticas e pagãs no sol da Provença
panteísta, a lhe restituir o endeusamento de sua pródiga emanação. E me deu o lirismo
de suas formas de Ninfa e fez-se Vênus nas minhas quatro mil estrofes desfeitas
que compuseram os meus quatro mil poemas disformes em versos livres, a cantar o
seu ritmo, forma, alegria e a beleza do seu corpo de mulher. E na noite em que
nada se espera além dos abraços nos beijos dados e envolvendo nossos corpos no
parapeito da janela do tempo, irradiando as nossas mais profundas formas de
amar, os transeuntes curiosos flagravam nossa intimidade para que a cidade fosse
pacificada com o amor de nossa felicidade. E nos criamos amantes e recriamos a
cena e o ambiente quando ela precisava de um disfarce para a sua tímida forma
de se fazer inteira e entregue novamente. E se tornou a atriz Jeanne, a Samary
que começou Dorine no Tartuffe de Molière, e meu deu o balanço modelado às minhas
mãos sequiosas da delicadeza, a lavrar no ofício de decorador de porcelana, a
sua feição macia de seda, o seu corpo de mar a se torcer, contorcer e iluminar
a tudo como quem estivesse reaprendendo a amar. Ao meu toque ela se arrepiava como
quem descobriu a fórmula do amor e me dava o paraíso ao nos beijarmos tanto e
sempre, escondendo na
nossa hinterlândia a expectativa da próxima surpresa. E ela me presenteou seus
quereres com a avidez de ontem e não havia como medir o impacto de sua sedução,
nem eu queria saber de nada a não ser dela com sua altaneira forma de sorrir e
se dar, e deixei que ela invadisse meus meandros de alma penada e me
redescobrisse outro no élan de todo contentamento fortificante e apaziguador de
sua mão salvadora. E sua nudez me levou até Cagnes para desfrutarmos dos alpes
marítimos todo ápice do prazer. E quando o dia amanheceu, ela era o Sol
sorrindo a vida que jamais tivera. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.
Imagem: a arte do
artista plástico do Impressionismo francês, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). Veja mais aqui, aqui e aqui.
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