RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: OUTRA
VEZ NA ESQUINA DO ACASO (Imagem Acervo ArtLAM) - Pouco
tempo depois topei com Mona numa esquina dessa qualquer, olhos vivos, riso
aberto, corpo reluzente num vestido branco, aos saltos por me ver: Onde você
andava, menino? Eu? Procurei você por toda parte, venha! Ela me beijou ardente,
demorada e despudoradamente, indiferente aos passantes que se mostravam
surpresos de olhos aboticados com ela agarrada comigo. Quem é capaz de arregar
diante de uma figura dessas, hem? Já disse que ela é cativante e bote imantação
nisso! Não brinca em serviço e logo me beijou as faces repetidas vezes, alisou
meus cabelos, passava as mãos carinhosa e detidamente sobre meu tórax, falava
da saudade e da afeição profunda que nutria por mim e coisa e tal. Pergunta:
quem sabe o que fazer numa hora dessas, hem? Não titubeei, oxe, correspondi aos
seus beijos, abraçando-a com mãos atrevidas e ali ficamos como se estivéssemos
sozinhos naquela via movimentada. Queria mais o quê? A mulher é uma perdição! Ela,
então, me puxou pela mão até o seu jipe e me levou por um caminho de muitas
voltas de dédalo sem fim, até o seu esconderijo. Durante a viagem me falou que já
tinha batido os quatro cantos do mundo e nada de me achar, até disse que esteve
lá no local do nosso primeiro encontro: Zanzei por lá manhãs, tardes e noites, nada
de encontrá-lo, onde você se esconde? Eu ri e me fez trocentas perguntas
durante o trajeto e que não podia deixá-la naquela angústia de não saber meu
paradeiro, que desse jeito ia me trancar acorrentado para não sair de perto,
amarrado nos pés da cama ou algemado na coluna da sala, coisas do tipo que a
gente se ria e deixava correr. Chegando lá fomos recepcionados por sua matilha
em alvoroço: a mulher tem uma tuia cachorro, tudo desajuizado feito ela. Ajudei
a desembarcar as coisas que havia levado e estávamos a sós com seus cães de
guarda que logo se familiarizaram comigo, estirados por toda enorme sala, na
qual havia uma grandiosa biblioteca que virou o meu entretenimento. Fiquei
passando o dedo e lendo as lombadas de cada volume, muitas publicações, algumas
em língua estrangeira, outras que eu já tinha lido na biblioteca pública e um
bocado de títulos e autores que me eram estranhos, uns grossões que nem se
podia pegar direito, outros grandões de artistas que ela disse serem famosos e
eu não fazia a menor ideia de quem seriam, revistas e fascículos de tudo quanto
era coleção e artes. Ela saltou sobre o meu pescoço e me envolveu em seus
braços num beijo apaixonado e nos alisamos, nos acariciamos, trombamos nas
paredes, removemos nossas vestes e se estirou sobre a grande mesa para que eu a
possuísse por inteiro ali mesmo numa vertiginosa entrega para lá de prazerosa.
Quantos dias ali com ela? Não sei. Dias, tardes e noites no seu remelexo
badejo, santa criatura! E por lençóis esvoaçantes, recantos, pisos, escadas,
salas e quartos paradisíacos, tudo para nossa nudez impune e apaixonada.
Conversamos, bebemos e nos amamos infinitamente. Logo passou a me chamar de
“Meu Dojuma”, ora de “Meu Dogio”, dependendo do afeto que me dispensava terna e
carinhosamente no meio da maior safadeza, língua solta no que era meu,
beijoqueira de lamber minha alma e meu sexo, de me engolir por inteiro,
abocanhar minhas fortalezas e beber o meu sêmen, roubando minha força e vigor. Não
trastejava e estava pronto pros seus caprichos libidinosos, pra sua gula
despudorada, pro seu prazer irrefreável. No seu jeito tagarela, altiva,
determinada, diferente da maioria das mulheres – ela era conhecida por
Maria-homem -, além do seu tempo, para mim nada mais que uma fada gentil dos
sonhos, uma capetinha de zis pecados, era ela, ora com seus requebros
lânguidos, vagarosos, na ponta dos pés; ora ousada, gulosa e insaciável
mulher-macho que pintou e bordou no meu corpo, fez a festa em mim com todas as
libações e brindes, tomou-me dos pés todos os meus caminhos, das minhas pernas
todas as passadas, das minhas coxas todas as sustentações, da minha cabeça
todos os pensamentos, dos meus olhos todas as paisagens, do meu nariz todos os odores
e olores, da minha boca todos os gostos, do meu tórax todas as forças, dos meus
braços todos os afazeres, das minhas mãos todas as minhas aptidões, do meu sexo
todos os prazeres e me fez só dela e ela a mim, onde me fiz bagagem boa nos
seus requebros, ah, como cheguei e lavei a jega! Chega dava vontade de poetar
copiando uns versinhos do cancioneiro popular: Açucena quando nasce toma conta do jardim, eu também ando caçando quem
tome conta de mim. Veja mais aqui.
DITOS &
DESDITOS
...e eu aprendera há muito tempo que nada perdurava e que nenhuma posse
podia ser considerada permanente...
Pensamento do escritor sul-africano Karel Schoeman (1939-2017),
autor da obra Die uur van die engel (Human & Rousseau, 2014).
ALGUÉM FALOU:
Eu me divirto
como uma rainha quando discuto a linguagem... Uma reflexão sobre os homens enviados para a guerra e os direitos
individuais sobre a própria vida...
Pensamento da escritora holandesa Isabelle de Charrière (1740-1805). Veja mais
aqui & aqui.
SUSPIRIA
DE PROFUNDIS - [...] Tudo é finito
no presente; e até mesmo esse finito é infinito em sua velocidade de fuga rumo
à morte. Mas em Deus não há nada de finito... Sobre uma noite de terremoto, Ele
constrói mil anos de habitações aprazíveis para o homem. Sobre a dor de uma
criança, Ele frequentemente faz surgir, a partir do intelecto humano, colheitas
gloriosas que, de outro modo, jamais teriam existido. [...] Diz-se, com razão, da
miséria absoluta — a miséria mais extrema — que ela "não pode ser
lembrada"; sendo, em si mesma, algo passível de memória, ela é tragada
pelo seu próprio caos. [...] Era um vento que havia varrido os campos da
mortalidade por mil séculos. Muitas vezes, desde então, num dia de verão,
quando o sol está a pino, ouvi esse mesmo vento levantar-se e emitir a mesma
ressonância — oca, solene, memnônica, porém santa: é, neste mundo, o único
símbolo audível da eternidade. [...]. Trechos extraídos da obra Suspira
de Profundis, Being a Sequel to the Confessions of an English Opium-eater (Kessinger,
2006), do escritor inglês Thomas
de Quincey (1785-1859),
obra que significa os "suspiros das profundezas", uma coleção de
ensaios em forma de poemas em prosa, publicada pela primeira vez em 1845, ao
efetuar uma análise do processo de memória influenciado pelo uso de drogas
alucinógenas, foi descrita como uma das obras literárias mais conhecidas e
distintas de sua época. Veja mais aqui & aqui.
É nela que
singro todas as ermas ruas mais atrativas, seja dia ou noite, seja cedo ou
arde, só sei que ela arde e a cada esquina surpreendente descoberta, cada curva
uma festa, uma viagem vertiginosa por seus aclives e declives mais prazerosos,
cada avanço uma volúpia, cada pegada paisagens paradisíacas. Ela é minha
cidade.









