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quinta-feira, fevereiro 11, 2016

THOMAS DE QUINCEY, GREGÓRIO, ISABELLE DE CHARRIÈRE, SCHOEMAN & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: OUTRA VEZ NA ESQUINA DO ACASO (Imagem Acervo ArtLAM) - Pouco tempo depois topei com Mona numa esquina dessa qualquer, olhos vivos, riso aberto, corpo reluzente num vestido branco, aos saltos por me ver: Onde você andava, menino? Eu? Procurei você por toda parte, venha! Ela me beijou ardente, demorada e despudoradamente, indiferente aos passantes que se mostravam surpresos de olhos aboticados com ela agarrada comigo. Quem é capaz de arregar diante de uma figura dessas, hem? Já disse que ela é cativante e bote imantação nisso! Não brinca em serviço e logo me beijou as faces repetidas vezes, alisou meus cabelos, passava as mãos carinhosa e detidamente sobre meu tórax, falava da saudade e da afeição profunda que nutria por mim e coisa e tal. Pergunta: quem sabe o que fazer numa hora dessas, hem? Não titubeei, oxe, correspondi aos seus beijos, abraçando-a com mãos atrevidas e ali ficamos como se estivéssemos sozinhos naquela via movimentada. Queria mais o quê? A mulher é uma perdição! Ela, então, me puxou pela mão até o seu jipe e me levou por um caminho de muitas voltas de dédalo sem fim, até o seu esconderijo. Durante a viagem me falou que já tinha batido os quatro cantos do mundo e nada de me achar, até disse que esteve lá no local do nosso primeiro encontro: Zanzei por lá manhãs, tardes e noites, nada de encontrá-lo, onde você se esconde? Eu ri e me fez trocentas perguntas durante o trajeto e que não podia deixá-la naquela angústia de não saber meu paradeiro, que desse jeito ia me trancar acorrentado para não sair de perto, amarrado nos pés da cama ou algemado na coluna da sala, coisas do tipo que a gente se ria e deixava correr. Chegando lá fomos recepcionados por sua matilha em alvoroço: a mulher tem uma tuia cachorro, tudo desajuizado feito ela. Ajudei a desembarcar as coisas que havia levado e estávamos a sós com seus cães de guarda que logo se familiarizaram comigo, estirados por toda enorme sala, na qual havia uma grandiosa biblioteca que virou o meu entretenimento. Fiquei passando o dedo e lendo as lombadas de cada volume, muitas publicações, algumas em língua estrangeira, outras que eu já tinha lido na biblioteca pública e um bocado de títulos e autores que me eram estranhos, uns grossões que nem se podia pegar direito, outros grandões de artistas que ela disse serem famosos e eu não fazia a menor ideia de quem seriam, revistas e fascículos de tudo quanto era coleção e artes. Ela saltou sobre o meu pescoço e me envolveu em seus braços num beijo apaixonado e nos alisamos, nos acariciamos, trombamos nas paredes, removemos nossas vestes e se estirou sobre a grande mesa para que eu a possuísse por inteiro ali mesmo numa vertiginosa entrega para lá de prazerosa. Quantos dias ali com ela? Não sei. Dias, tardes e noites no seu remelexo badejo, santa criatura! E por lençóis esvoaçantes, recantos, pisos, escadas, salas e quartos paradisíacos, tudo para nossa nudez impune e apaixonada. Conversamos, bebemos e nos amamos infinitamente. Logo passou a me chamar de “Meu Dojuma”, ora de “Meu Dogio”, dependendo do afeto que me dispensava terna e carinhosamente no meio da maior safadeza, língua solta no que era meu, beijoqueira de lamber minha alma e meu sexo, de me engolir por inteiro, abocanhar minhas fortalezas e beber o meu sêmen, roubando minha força e vigor. Não trastejava e estava pronto pros seus caprichos libidinosos, pra sua gula despudorada, pro seu prazer irrefreável. No seu jeito tagarela, altiva, determinada, diferente da maioria das mulheres – ela era conhecida por Maria-homem -, além do seu tempo, para mim nada mais que uma fada gentil dos sonhos, uma capetinha de zis pecados, era ela, ora com seus requebros lânguidos, vagarosos, na ponta dos pés; ora ousada, gulosa e insaciável mulher-macho que pintou e bordou no meu corpo, fez a festa em mim com todas as libações e brindes, tomou-me dos pés todos os meus caminhos, das minhas pernas todas as passadas, das minhas coxas todas as sustentações, da minha cabeça todos os pensamentos, dos meus olhos todas as paisagens, do meu nariz todos os odores e olores, da minha boca todos os gostos, do meu tórax todas as forças, dos meus braços todos os afazeres, das minhas mãos todas as minhas aptidões, do meu sexo todos os prazeres e me fez só dela e ela a mim, onde me fiz bagagem boa nos seus requebros, ah, como cheguei e lavei a jega! Chega dava vontade de poetar copiando uns versinhos do cancioneiro popular: Açucena quando nasce toma conta do jardim, eu também ando caçando quem tome conta de mim. Veja mais aqui.

 

DITOS & DESDITOS

...e eu aprendera há muito tempo que nada perdurava e que nenhuma posse podia ser considerada permanente...

Pensamento do escritor sul-africano Karel Schoeman (1939-2017), autor da obra Die uur van die engel (Human & Rousseau, 2014).

 

ALGUÉM FALOU:

Eu me divirto como uma rainha quando discuto a linguagem... Uma reflexão sobre os homens enviados para a guerra e os direitos individuais sobre a própria vida...

Pensamento da escritora holandesa Isabelle de Charrière (1740-1805). Veja mais aqui & aqui.

 

SUSPIRIA DE PROFUNDIS - [...] Tudo é finito no presente; e até mesmo esse finito é infinito em sua velocidade de fuga rumo à morte. Mas em Deus não há nada de finito... Sobre uma noite de terremoto, Ele constrói mil anos de habitações aprazíveis para o homem. Sobre a dor de uma criança, Ele frequentemente faz surgir, a partir do intelecto humano, colheitas gloriosas que, de outro modo, jamais teriam existido. [...] Diz-se, com razão, da miséria absoluta — a miséria mais extrema — que ela "não pode ser lembrada"; sendo, em si mesma, algo passível de memória, ela é tragada pelo seu próprio caos. [...] Era um vento que havia varrido os campos da mortalidade por mil séculos. Muitas vezes, desde então, num dia de verão, quando o sol está a pino, ouvi esse mesmo vento levantar-se e emitir a mesma ressonância — oca, solene, memnônica, porém santa: é, neste mundo, o único símbolo audível da eternidade. [...]. Trechos extraídos da obra Suspira de Profundis, Being a Sequel to the Confessions of an English Opium-eater (Kessinger, 2006), do escritor inglês Thomas de Quincey (1785-1859), obra que significa os "suspiros das profundezas", uma coleção de ensaios em forma de poemas em prosa, publicada pela primeira vez em 1845, ao efetuar uma análise do processo de memória influenciado pelo uso de drogas alucinógenas, foi descrita como uma das obras literárias mais conhecidas e distintas de sua época. Veja mais aqui & aqui.

 

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA: “[...] Que os brasileiros são bestas, / e estarão a trabalhar / toda vida por manter / maganos de Portugal...”. Gregório de Matos Guerra (1633-1696) está inserido no período de formação da Literatura Brasileira (1553-1810), autor de obras reunidas como Crônica do viver baiano seiscentista (Janaína, 1968), Obras de Gregório de Matos Guerra (ABL, 1923-1933), Poemas escolhidos (Cultrix, 1976), Gregório de Matos (Assunção, s.d.), Panorama da poesia brasileira (Civilização Brasileira, s.d.), Poesia Barroca (Melhoramentos, 1967), Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Colonial (Perspectiva, 1979) e Presença da Literatura Brasileira (Difel, 1966). Há que se registre que até onde se sabe, ele não publicou livro em vida. Ficou conhecido como O Boca do Inferno, tornando-se responsável pelo primeiro momento alto da poesia brasileira, barroco por excelência, tratando de temas pendulares, como o amor platônico, o devasso, o pecado e a pureza, a boemia e o moralismo, um crítico mordaz da sociedade, reconhecido pelo Padre Antônio Vieira. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

POEMAS DE GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

DÉCIMAS

A nossa Sé da Bahia.
Com ser um mapa de festas,
É um presépio de bestas,
Se não for estrebaria:
Várias bestas cada dia
Vemos, que o sinhô congrega,
Caveira mula galega,
O Deão burrinha parda,
Pereira besta de albarda
Tudo para a Sé congrega.

Tanto tem de mais valia,
Quanto tem de teso, e relho,
É semelhante ao coelho,
Que somente em cova cria:
Quer de noite, quer de dia,
Se tem pasto, sempre come,
O comer lhe acende a fome
Mas às vezes de cansado
De prazer inteiriçado
Dentro se se esconde, e some.

É da condição de Ouriço,
Que quando lhe tocam, se ama,
Ergue-se em tocando alarma
Como cavalo castiço:
É mais longo, que roliço,
De condição mui travessa,
Direi, porque não me esqueça,
Que é criado nas cavernas,
E que somente entre as pernas
Gosta de ter a cabeça.

É bem feito pelas costas,
Que parece uma banana,
Com que as mulheres engana
Trazendo-as bem decompostas:
Nem boas, nem más respostas:
Lhe ouviram dizer tantas
Porém causa efeitos tais,
Que quem experimenta, os sabe,
Quando na língua não cabe,
A conta dos seus sinais.

Este, senhora, a quem sigo,
De tão raras condições,
É caralho de culhões
Das mulheres muito amigo:
Se o tomais na mão, vos digo,
Que haveis de acha-lo sisudo;
Mas sorumbático, e mudo,
Sem que vos diga, o que quer,
Vos haveis de oferecer
A seu serviço contudo.

Se Pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteis a flor, que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
Que fico então Pica-flor.

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TODO DIA É DIA DA MULHER: SHERYL CROW
– Curtindo o álbum 100 Miles from Memphis (Polydor Records, 2010), da premiada cantora, compositora, multi-instrumentista e atriz estadunidense Sheryl Crow, que desenvolve um trabalho musical com elementos de rock, pop, country e hip-hop de muito bom gosto, afora ter feito diversas trilhas sonoras para filmes. Para se ter ideia ela já foi contemplada com nove prêmios Grammy. 


CONTROLE JUDICIAL E SILÊNCIO ADMINISTRATIVO – Para abordar este tema num trabalho acadêmico, faz-se necessário efetuar uma abordagem história acerca do controle e dos poderes do Estado, tratar sobre o controle da administração pública e, em seguida, acerca do silêncio administrativo, sua fundamentação teórica e consequências, para se abordar com análise acerca do controle externo da administração pelo Poder Judiciário e os limites desse controle. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PSICODIAGNÓSTICO – O livro Psicodiagnóstico V (ArtMed, 2007), organizado pela professora e doutora em Filosofia, Jurema Alcides Cunha, aborda temas como fundamentos do psicodiagnóstico, estratégias de avaliação e perspectivas em psicologia clínica, o contato com o paciente, recursos básicos para o diagnóstico, a entrevista clínica, a história do examinando, o exame do estado mental do paciente, estratégias específicas em entrevista, a entrevista estruturada para o DSM-IV, a entrevista motivacional, a entrevista lúdica, operacionalização do processo, passos do processo psicodiagnóstico, avaliação, métodos e técnicas, avaliação inter e transgeracional da família, avaliação prospectiva e o exame precoce da criança, avaliação psicométrica, o ABC da avaliação neuropsicológica, avaliação de sintomas demenciais em idosos, perícia psicológica na área forense, avaliação retrospectiva: autópsia psicológica para casos de suicídio, catálogo de técnicas, bender na criança e no adolescente, bender no adulto, técnicas de manchas de tinta, introdução ao Sistema Compreensivo de Exner, Rorschach Temático: um complemento significativo ao Rorschach Tradicional, a técnica de Zulliger no processo de avaliação da personalidade, Técnicas de Contar Histórias, TAT – Teste de Apercepção Temática, conforme o modelo interpretativo de Murray, 27 CAT e sua interpretação dinâmica, Teste das Fábulas, Desenvolvimentos do Procedimento de Desenhos-Estórias (D-E), Inventário Multifásico Minnesota de Personalidade, administração e orientação geral para o manejo do MMPI & escalas de validade e escalas clínicas, Códigos de dois pontos e outras abordagens do MMPI, Técnicas de Fazer Desenhos, Desenho da Figura Humana, Desenho da Família, Desenho da Casa, Árvore e Pessoa (HTP), Wechsler Intelligence Scales (WIS) & Escalas Wechsler, WISC-III, Passos Básicos do Desenvolvimento da Criança (PBDC), entre outros assuntos. Veja mais aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA;

 ELA É MINHA CIDADE...

É nela que singro todas as ermas ruas mais atrativas, seja dia ou noite, seja cedo ou arde, só sei que ela arde e a cada esquina surpreendente descoberta, cada curva uma festa, uma viagem vertiginosa por seus aclives e declives mais prazerosos, cada avanço uma volúpia, cada pegada paisagens paradisíacas. Ela é minha cidade.

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