terça-feira, outubro 08, 2019

LISZT, VALENTINA LISITSA, ALEXANDRA KOUKINOVA, CINEMA PERNAMBUCANO & ELES VOLTAM


LISZT: UM CORAÇÃO, A MÚSICA E AMORES – Putzi era eu uma criança franzina, enfermiça, até um ataúde encomendado, nascido durante a passagem de um cometa extraordinário. Ao invés disso, foi-se o irmão e eu sobrevivi à desgraça. As travessuras incluíam sons e tons, aprendia a ver com o coração: seria a esperança do triunfo onde meu pai fracassou. Enquanto crescia, me salvei de uma explosão por mim mesmo provocada: queria ver fogos de artifícios com pólvoras no fogão. Meus folguedos infantis e quase ponho fim aos planos do meu pobre pai, não fosse hábil com os dedos das mãos. Não havia tempo para ser criança e com um perfeito salto mortal no placo, ele quase morre de susto: eu havia de aprontar muitas até desvendar-lhe a sonhada segurança e futuro esperançoso. Viu-me bem encaminhado para o êxito, quase viveu a felicidade extrema, não sucumbisse repentinamente aconselhando-me dedicação à arte e distância das mulheres. O seu conselho foi logo ignorado diante de Liline, lindíssima criatura! Tornei-me professor da filha do ministro: das aulas para a paixão desmedida e abençoada pela mãe dela. Logo, um amor impossível: o conde antagonista pôs termo, contrariando o desejo materno no leito de morte, caso encerrado. Era o meu primeiro amor, o Faribolo Pastour, a Chanson du Bearn - Pastorale e eu queria me suicidar, ou ordenar-me, uma longa enfermidade e leituras amargas. Sofri demais por amor, renasci das cinzas entre convulsos arpejos e acrobacias, cadências e trilos, força de sentimentos, precisão do brilhantismo. Depois de dez anos de adoração como criança prodígio, beldades, cortesãs, condessas, princesas todas em meus braços de jovem deus irrequieto no influxo dos aplausos e dos prazeres. Era-me dado o deleite da celebridade, redimindo dores e tragédias. Marie surge, a linda condessa sedutora e intransigente, com seus cabelos dourados, seus olhos azuis ultramarinos, seu corpo esguio, uma prévia redenção. Entretanto, havia polegadas de gelo no seu coração: Vamos fugir! E ela negou-se; sofri, não era a hora certa para o bote do amor, enquanto eu queimava delirante. Forçado a me distanciar, penava solitário, até que um vulcão acendeu de paixão em seu ser. Fugimos para Genebra e fomos infelizes para sempre. Quatro anos de avassalador idílio e ganhei o mundo, três filhos, cartas para a amada, plateias ululantes, as visitas durante o verão, não havia tempo para cuidar dos filhos, fama e descontentamento, a desilusão e o ódio tomavam o seu lugar. Errava entre aplausos efusivos e a satisfação da alma, dedicava atenção quase exclusiva a um grande aluno que este, mais tarde, arrebatou minha filha numa dupla traição. Mais aprendia a ver com o coração e descobria uma nota: a do sofrimento, do desafio e rebelião ao mundo. E com ela a dança da morte, os estudos transcendentais, fantasias, prelúdios, sonatas, rapsódias: a plenitude da música. Novamente o amor: Carolyne, a nobre russa-polaca, verdadeira princesa dos contos de fadas - uma sonata e dois concertos. Um intricado processo, o marido dela e o czar revogavam o divórcio para matrimônio em Roma, o inviável e o escandaloso, a punição. A eternidade em seus braços era céu e inferno, nada mais era suficiente, só reinava a angústia. Eu me transformava em um estorvo para os filhos, os netos e para mim mesmo, um antecipado velho e tolo. O mundo danou-se com seus falsos prazeres, visualizava o claustro. Ofereci-me prisioneiro de Deus, encerrei-me num mosteiro. Tudo foi tão rápido, o coração aprendeu a ver reduzido ao desespero da solidão. Do cometa, uma lembrança de sonhos infantis com as perspectiva do reino ideal. Da arte, releituras e a explosão do talento à abstração do público até a idolatria. Da vida, o aprendizado e o abandono entre a música e o amor: a felicidade longínqua nos tons da morte, eu me rendia para nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: O artista é a expressão viva de Deus, da natureza e da humanidade. Na minha vida de artista, existiam três pastas: Na primeira, estavam as obras de minha famosa juventude, eu a fechei para sempre e joguei a chave no mar. Na segunda, havia algumas obras que perdoei devido à sua boa intenção. A terceira conterá meu trabalho autêntico e, em alguns anos, será sabido, espero, o que quero colocar nela. Dediquei-me escrupulosamente, como se fosse a tradução de um texto sagrado, a transcrever para o piano não apenas a base musical da sinfonia, mas também seus efeitos nos detalhes e na multiplicidade de combinações harmônicas e rítmicas. A música é uma linguagem poética, certamente mais apta que a própria poesia, para expressar tudo o que, dentro de nós, transcende os horizontes normais, o que escapa à análise lógica, o que está nas profundezas inacessíveis. A música instrumental é precisamente a arte de expressar sentimentos sem lhes aplicar diretamente, sem cobri-los com a alegoria dos eventos narrados pelo épico, representados no teatro de drama. Faz as paixões brilharem em sua própria essência, sem ser forçado a representá-las por personificações reais ou imaginárias. Ela as tira das circunstâncias do ambiente em que foram formadas, como um diamante precioso e brilhante. À medida que a música instrumental progride, ela tende a permear cada vez mais a idealidade que estabeleceu a perfeição das artes plásticas, a tornar-se não apenas uma simples combinação de sons, mas uma linguagem poética ainda mais apta do que a mesma poesia para expressar tudo o que em nós transcende os horizontes comuns, que fogem à análise, tudo o que é despertado em profundezas inacessíveis, em infinitos pressentimentos. Não sendo as múltiplas formas de arte, mas o fascínio diverso, destinado a evocar sentimentos e paixões, torná-los sensíveis, tangíveis de alguma forma e comunicar grandes emoções. O gênio se manifesta pela invenção de novas formas adaptadas às vezes a sentimentos que ainda não haviam surgido no círculo encantado. A técnica nasce no espírito. Pensamento do compositor erudito húngaro Franz Liszt (1811-1886), aquele que teve muitas paixões, entre elas Caroline de Saint-Cricq , (1810-1872), a Liline, sua aluna e amor proibido; a francesa Marie Catherine Sophie de Flavigny (1805-1876), a Condessa d’Agoult que se transformou em talentosa escritora, sob o pseudônimo de Daniel Stern; e a nobre russo-polaca Carolyne de Saynt-Wittgenstein (1818-1887). Veja mais abaixo & aqui, aqui e aqui.

ELES VOLTAM
Eles Voltam inicialmente foi um roteiro que escrevi em 2006. Basicamente o curta seria o prólogo do longa-metragem que o filme se tornou, mas com algumas diferenças. Os protagonistas do curta seriam ambos homens e o filme seria sobre como esses pré-adolescentes lidam com o abandono, a solidão, a sobrevivência e uma compreensão nascente de autonomia. Ganhei um prêmio de realização pelo roteiro, mas demorei 3 anos para realizá-lo. Nesse ínterim muita coisa aconteceu. Quando retomei o roteiro do curta, sentia que ele não me representava mais. Me coloquei num desafio de reescrevê-lo para ver no que dava. Em pouco tempo tinha um calhamaço de quase 110 páginas, que precisava passar por uma pesquisa in loco para poder se sustentar como roteiro de um longa-metragem.
ELES VOLTAM - O drama longa-metragem Eles Voltam (2014), dirigido por Marcelo Lordello, conta a história de Cris e Peu, seu irmão mais velho, que foram deixados na beira de uma estrada pelos próprios pais. Os irmãos foram castigados por brigar constantemente durante uma viagem à praia. Após algumas horas, percebendo que os pais não retornavam, Peu parte em busca de um posto de gasolina. Cris permanece no local por um dia inteiro e, sem notícias dos pais ou do irmão, decide percorrer ela mesma o caminho de volta para casa. Abandonada, a garota é guiada por um menino para ter o que comer e onde dormir, iniciando uma aproximação com outra realidade. Veja mais aqui.

A ARTE DE ALEXANDRA KOUKINOVA
A arte da premiada artista, cenógrafa, figurinista, artesã marionetista ucraniana Alexandra Koukinova, que é membro da União dos Artistas de Moscou e da União Criativa dos Artistas da Rússia. Veja mais aqui.

VALENTINA LISITSA & A OBRA DE LISZT
Curtindo a arte da pianista clássica ucraniana Valentina Lisitsa, no álbum Valentina Lisitsa Plays Liszt (Decca, 2013), interpretando obras do compositor erudito húngaro Franz Liszt (1811-1886). Veja mais aqui.