quarta-feira, janeiro 30, 2019

HENRI LEFEBVRE, PATATIVA DO ASSARÉ, ASCENSO, THAYS GOLZ & A ESCOLA SUMIU!


E A ESCOLA SUMIU – Marcantoin não era lá muito achegado a estudo. Foi uma professorinha simpática quem o fez cativo de não arredar o pé da sala de aula. Já era galalau quando foi aprender as primeiras letras e rabiscos. O prédio escolar não era lá essas coisas todas. Pra falar a verdade, não havia nem sido acabada, nem tinha nome. Foi inaugurada antes do término das obras, e teve seu nome colocado às pressas, por morte dum poeta duma cidade vizinha que ninguém gostava dele, só o prefeito que era achegado às boêmias e homenageou-lo. Falava-se dum certo Ascenso, um homem grandão do maior vozeirão que recitava umas poesias picantes e de falas populares, chega as mulheres corarem na sua frente e os homens caírem nas gaitadas. Diziam ser ele um poeta licencioso, cheio das lábias e desbocado que só. Na cidade dele era malquisto, só desgostavam de ninguém saber ao certo a razão, se motivada por alguma proeza ou por pura inveja, parece; em Alagoinhanduba que é igual a Mariana ou Brumadinho, só uns três ou quatro cachaceiros que lhe arremedavam os versos, incluindo o prefeito, um pé-de-cana infeliz. Pois bem, lá foi Marcantoin pelegando para cair nas graças da mestra: Estuda aonde, rapaz? Sei lá o nome daquela droga, só sei o nome da professora: Gildinalda, a Naldinha do coração. Era a sua primeira paixão na vida. Do primário até parte do ginasial que ele próprio abandonou por ter dado falta dela no educandário, fincou pé: Pra quê estudar? Só tem professor chato! Além do mais, qualquer dia o mundo acaba, não adianta mesmo, só viver e mais nada. Vez em quando sem ter nada pra fazer passava pelas imediações para ver se a via, nenhum sinal dela. Que droga! O cabra cresceu com esse aperto no peito, valendo-se só do tirocínio e depois de dar meia volta e volta e meia pelos quatro cantos do mundo, já madurão, mas não menos besta que antes, voltou pra terrinha pra saber do paradeiro daquela professorinha que ainda bulia no seu íntimo. Andou que só a má notícia e chegando ao local da escola, havia sumido: Oxente! Primeiro foi a professora, agora escola também some, é? Como é que pode, hem? Nem Gidinalda nem a Escola Ascenso. Como assim? Queria saber, ora. O que ficou sabendo pela boataria: a professora zarpou enamorada na cacunda dum cavalo falso, com um príncipe fajuto pelas capoeiras adentro mundo afora; e a escola, a essa quase nem quis saber, mas apurou: uma enchente tsunâmica de bater no topo de tudo, a deixou feito profunda cratera até hoje, de ninguém sequer achar por bem de reconstruí-la. Ah, tá! Então, bem feito – disse assim meio que frustrado -, o que tem de colégio cabuloso por aí, não está no gibi, né, não? Por isso que ninguém quer estudar, escola por ginásio, serve pra nada mesmo, asseguravam os funcionários da secretaria de educação local. E o povo arremedava: Estudar endoida! Só serve pra ocupar criança, mais nada. Se ficar taludo, precisa estudar mais não, já sabe demais; basta ficar sabido pra não ser enrolado e anel no dedo só é bonito nos desdos dos outros que queimam pestanas pra não fazer nadica, só dar ordem. Isso não é pra gente não. E o nome não ajudava! Hem? Onde já se viu poeta nome de coisas, poesia não enche barriga nem enrica ninguém. Além do mais um desses que o povo fala os farrapos por seus maus procedimentos na gandaia, no meio dos gaiatos e com uma fama de gente das piores qualidades, isso lá presta! E já que não era lá tão agradável, deixaram por menos: mal exemplo que se dane, ele já morreu e que fique enterrado com tudo. E era uma vez Ascenso, o poeta reina onde estiver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Dois grupos de questões ocultaram os problemas das cidades e da sociedade urbana, duas ordens de urgência: as questões da moradia e do “habitat” (que dependem de uma política de habitação e de técnicas arquitetônicas) – as questões da organização industrial e da planificação global. As primeiras por baixo, as segundas por cima, produziram – dissimulando-o à atenção – uma explosão da morfologia tradicional das cidades, enquanto prosseguia a urbanização da sociedade. Donde uma nova contradição que se acrescentava às outras contradições não resolvidas da sociedade existente, agravando-as, dando-lhes um outro sentido. [...] Atualmente, alguns acreditam que os homens só levantam problemas insolúveis. Esses desmentem a razão. Todavia, talvez existam problemas fáceis de serem resolvidos, cuja solução está ai, bem perto, e que as pessoas não levantam. [...].
Trechos da obra O direito à cidade (Centauro, 2001), do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991). Veja mais aqui.

A ARTE DE THAYS GOLZ
A arte da bailarina Thays Golz, integrante da Pennsylvania Ballet. Veja mais aqui.

MOTE: COM O GRITO DO DINHEIRO A JUSTIÇA NÃO SE APRUMA
Glosas
Ante o seu brado guerreiro, / a honra desaparece, / a razão empalidece / com o grito do dinheiro; / o sujeito interesseiro, / que com ele se acostuma, / de qualquer forma se arruma, / desconhece o próprio pai, / pois onde o dinheiro vai, / a justiça não se apruma.
Movimenta o mundo inteiro / este metal cobiçado / tudo tudo alvoroçado / com o grito do dinheiro, / onde ele forma um berreiro, / não respeita coisa alguma, / grita, guincha, berra, espuma, / derruba a lei do conceito, / pobre ali não tem direito, / a justiça não se apruma.
Poema extraído da obra Inspiração nordestina (Fortaleza, 1999), do poeta popular, compositor, cantor e improvisador Antônio Gonçalves da Silva, mais famoso como Patativa do Assaré (1909-2002). Veja mais aqui e aqui.
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A poesia do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965) aqui
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