sexta-feira, abril 20, 2018

POE, GALEANO, RANCIÈRE, SHAKESPEARE, REDON, MARIO CRAVO NETO, SHIGERU UMEBAYASHI & DOROTHY ASHBY

É BOM QUE SEJA ASSIM... – Imagem: Autoretrato/Le Someil de Caliban, do pintor e artista gráfico francês Odilon Redon (1840-1916). – Tanto fui e até nem sei onde, talvez lugar algum, nem tão longe de outras tantas voltas a refazerem meu infindável sisifismo de nenhum porto seguro, do fruto pra raiz e vice-versa. Resta-me nada mais que o próprio chão movediço em que me perco com as passadas embaraçadas às minhas próprias sombras. Delas, lições para aprender a cada dia. Ao longo da minha vida arranquei todas as máscaras, uma a uma deposta diante do espelho, qual Caliban enfrentando a própria feiúra, a aceitação. Já não as tenho noutra descoberta: sou muitos e inconciliáveis, sobrevivente de mim mesmo, uma única face mergulhada nas minhas profundezas cavadas com as unhas da devassa e vasculhadas até me exaurir diante das tantas camadas superpostas e inexploradas. Persigo com marcha na batida de tambores diferentes por errâncias cristalizadas, a saber de nenhum lugar devido, nem seguro de nada. É bom que seja assim, ao ar livre, o indesejável fertiliza minha ascensão e sou grato dentro do que posso e tenho, a compreensão. Ao depor o orgulho inflado, nenhuma indignação soou escândalo entre as tantas rugas do que fiz e tenho feito, se tristalegre, paladino ou malfeitor. O peso da culpa não me dizia mais nada, porque enfrentei os medos e fui íntegro na minha desintegração. Dei asas à intuição e nem quis saber de mais nada, nada mais estreito ou contraído, nenhuma expectativa, apenas esvaziado por tantas falhas, quantas rejeições, de mim mesmo inaceitável, não-reconhecido, parecia-me só, como se os fracassos profusos houvessem levado uma parcela substancial do que sou. Mas não, era o caos primevo e os profundos gemidos pela pugna do eu mesmo com outros eus, entre o doloroso e o inevitável, desencaixando moldes, inquieto com a minha carne fisgada nalguma coisa que não sabia nem nunca consegui ver dos laços familiares ou dos afetos perdidos. Não havia o que vencer, nem como. Todos se superavam, nocauteando uns aos outros, migalhas de mim. Qual supremacia, nenhuma. Sentia-me por entre entulhos que emergiam do solo com pedras envoltas em lamas e detritos, ali coisas que aprendi de mim, instruções para remanescer num guia deveras de excitante aventura: conhecer a mim mesmo. Se muitos, quão controverso, assumi paradoxal. Hoje sei de nada, nem quero saber, resta-me lá e cá, ali ou acolá, e só viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor japonês Shigeru Umebayashi: In the Mood for Love, Lovers & Main Theme ; da harpista e compositora estadunidense Dorothy Ashby (1930-1986): Concierto de Aranjuez, Django/Misty & The Rubaiyat; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se a carne é falsidade assim como seus sofrimentos, o espírito é falsidade assim como seus milagres [...]. Pensamento extraído da obra Políticas da escrita (34, 1995), do filósofo e professor francês Jacques Rancière. Veja mais aqui.

REFLEXÃO - [...] Uma montanha, somente pela sensação de grandeza física que nos faz experimentar, inculca-nos um sentimento de sublime, mas não podemos dizer que experimentamos um efeito semelhante com a contemplação da própria Colombíada. Mesmo as revistas trimestrais não sentem nada [...] Se admitir que esforço constante produziu uma epopeia, admiremos, pois o esforço (se é que existe nisso alguma coisa admirável), mas certamente não a epopeia por causa do esforço [...]. Trechos extraídos da obra Contes – essais, poèmes (Laffont, 1989), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840). Veja mais aqui.

JANELA SOBRE O TEMPOEm Cajamarca, janeiro é tempo de tecer. Em fevereiro aparecem as flores delicadas e as faixas coloridas. Os rios ecoam, há carnaval. Em março ocorre a parição das vacas e das batatas. Em abril, tempo de silêncio, crescem os grãos do milho. Em maio, é tempo de colheita. Nos secos dias de junho, a terra nova é preparada. Há festa em julho, e há casamentos, e os abrolhos do Diabo aparecem nos sulcos. Agosto, céu vermelho, é tempo de ventos e de pestes. Com a lua madura, não a lua verde, semeia-se em setembro. Outubro suplica a Deus que solte as chuvas. Em novembro, os mortos mandam. Em dezembro, a vida é celebrada. Extraído da obra As palavras andantes (L&PM, 2007), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui.

CALIBAN – [...] Não tenhas medo; a ilha está cheia de ruídos, / Sons, doces melodias, que deleitam sem ferir. / Por vezes sons agudos de mil instrumentos / Zumbem aos meus ouvidos; outras vezes são vozes / Que me fazem adormecer mesmo quando desperto / Após um prolongado sono. E então, em sonhos, / Parece-me que as nuvens se abrem mostrando riquezas / Prestes a cair sobre mim, e, quando acordo, / Desespero por adormecer de novo. [...]. Trecho extraído da peça teatral A tempestade (L&PM, 2002), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), na qual Caliban é considerado um escravo selvagem e deformado, tratado com desdém e alvo de chacota. Veja mais aqui.

A ARTE DE MÁRIO CRAVO NETO
A arte do fotógrafo, escultor e desenhista Mario Cravo Neto (1947-2009). Veja mais aqui.

Estudantada com Literatura Infantil na Biblioteca Fenelon Barreto & muito mais na Agenda aqui.
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O vexame no xambrego, a literatura infantil de Monteiro Lobato, o pensamento de Marilena Chauí & a arte de Márcia Haydée aqui.
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Índio da Terra, a poesia de Manuel Bandeira, o teatro de Qorpo Santo & a arte de Belmonte aqui.
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A paixonite do besouro doido inventando moda, a música de Noel Rosa & João Bosco, a literatura de Bram Stocker, a arte de Juan Yanes & Mario Cravo Neto aqui.