quarta-feira, fevereiro 28, 2018

SIGRID UNDSET, MOLIÈRE, IVAN LINS, FLEW, JULIANA MERÇON, MÔNICA SALMASO, GAMEIRO & CARLA VAN DE PUTTELAAR

MAIS DIA, MENOS DIA E O AMOR VALEU – Imagem: arte da fotográfa & artista plástica holandesa Carla Van de Puttelaar - UMA: QUEM SABERIA PERDER - Desde menino cara pro vento vida solta que eu sei o tempo e o vento voam. Aprendi a crescer, mas não de todo, como fruta no pé, madurando. Hoje, como na canção, vivo do que faz meu braço e a Terra manda. Fui lá e fiz, antes tarde os meus desígnios, afianço que cumpri o meu dever até agora, conquanto não tenha mais nada pra dizer, tudo é relâmpago na escuridão, pisando em falso diante das emboscadas, espias de tocaia e desforras, sem âncora nem cais, as ciladas nas surdinas da morte, acossado pela urgência, a perder o eixo nos moldes da lógica diante da desconstrução de tudo e o eterno retorno. E de noite levanto insone entre estrelas de um céu que sequer existe e a errar dos pés os caminhos do chão, pisadas sem direção pra voar, voa vento, voa tempo, os segredos perdidos que se revelam na manhã esquecida. Vejo o que não existe, a Alfa Centauro e a humanimaldade de Cummings, o peito destroçado de amores escondidos que se perderam sem saudades nem lembranças, apenas uma, definitivamente apenas uma reina no meu coração de cavaleiro sem montaria, desmontado. E o mundo cheio de gente mal-agradecida a fazer da cidade o istmo de sempre arrodeado de canavial e meretrício por todos os lados, enquanto as pessoas vivem encapsuladas nas cavernas de si mesmo de não sair jamais das janelas sem vida nas paredes desbotadas pela fé e desavença, varrendo das ruas a sanidade de viver. Eu não sabia da dor, nunca soube, menino que era e ainda sou, crescido de nada. Ontem não sabia nada, hoje muito menos, sou labaredas mesmo que vulnerável, vou além dos extremos. Já fui longe demais, acho, tanto por fazer. De que outro modo eu poderia viver, quem saberia perder? OUTRA: TINO DE CAÇADOR – Nunca levei jeito pra caçadas, nem queria. Mas com a ruma de tios, um deles, me vendo menino taludo, já me queria com jeito de homem: Hoje vai caçar comigo, seu cabra! Todo sábado, meio dia, eu escapulia. Já vinha não sei quantas vezes eu enrolava e me esgueirava mundo afora. No entanto, neste dia, não deu. O compadre Jaime me aplacou a fuga: Vai pra onde menino? Hoje você não escapa, vai com a gente. E mostrava o risinho diabólico dele. Meu tio logo chegou: Ah, capturou o fujão. Vambora. A gente amontava no jipe e rumava pra mata pertinho. Pra quê tanta arma, tio? Cada espingarda dessa é prum tipo de bicho: uma pra paca ou tatu, outra pra veados e o que aparecer de graúdo, essas mais finas pros passarinhos. Caçar passarinho? Sim. Oxe, não era pra mim não. Eu já havia soltado os das gaiolas do meu pai, arengava com os meninos da rua por conta das suas petecas, coisa mais sem propósito, imagine caçar passarinho, astúcias dessas, era pra mim não. Destá. Meu tio e o compadre eram mateiros calejados, perseguiam impenitentes todos os bichos que aparecessem na frente, vigilantes, armados até os dentes, com todo tipo de cartucho no alforje e no cinturão, tudo muito extravagante e injusto, pareciam mais cangaceiros de Lampião. Eles subiam afoitos pelas capoeiras e eu atrás, arrastavam tudo nos peitos, mata escura, somente chiados, estalidos e zoadas das mais estranhas, coisa de meter medo num sujeitinho como eu não familiarizado com as surpresas da mata. Eu pensava em Cumadre Fulosinha e noutras abusões, coisas que metem medo, e meu tio e o compadre Jaime sorriam das minhas leseiras. Todavia, no meio da pisada, um canto estranho se fez ouvir e, ao que parece, amoleceu o coração da gente bulindo na superstição, bastante conhecido sinal de advertência, coisas das ocultas e sortilégios, parece, adiava a impiedade. O compadre Jaime fez sinal de silêncio, psiu, aguçou as ouças e disse: Tem coisa! Deitou os ouvidos no chão: É bicho grande, tomara que não seja onça. Ah! É menor, parece mais veado. E ficou atento, ouvido no chão, levantava e virava a cabeça para os lados. Por prevenção, vamos subir!, mandou, e subimos cada um em árvores – eu mesmo mais que amedrontado deslizava o pé no tronco, relei-me todo para conseguir me trepar no pé de não sei o quê, um toro roliço que não dava nem para abarcar com os braços. Fiquei lá no galho, balançando as pernas, atento ao que vinha. O barulho das patas nas folhas aumentava e a música era mais audível, até então eu nem ouvia, mas agora estava nítida: as pisadas e a música. Era coisa de veado, daqueles galhudos, com mais de vinte chifres ocos e furados feito flauta, pra quando o vento soprar sair aquela pungente sonoridade. Eu num disse! O compadre Jaime já acenava pro meu tio, apontando, eu não via, ouvi quando disseram: É veado mesmo! Melhor ir embora. Arrumamos as coisas e zarpamos pro jipe do lado de fora da mata. Bem na saída já respirando o ar livre, perguntei a razão da desistência, explicaram não ser dia apropriado para caça, era dia de reunião das proteções deles, dia que não se deve caçar. Não ousavam contrariar as forças da natureza, transgredir era arcar com consequências bastante funestas, coisas do encantado que nunca se sabe. De caso pensado, retornamos, ficou pro próximo sábado. Livrei-me mais uma pra nunca mais. (Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseada em material recolhido por folcloristas brasileiros). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do cantor, compositor e pianista Ivan Lins: San Javier Jazz Live, Somos todos iguais nesta noite & Quem saberia perder; da cantora Mônica Salmaso: Voadeira, Iaiá & Alma Lírica Brasileira; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA[...] algumas das coisas tidas previamente como característica do universo que nos rodeia são na verdade propriedades da nossa própria constituição interna. [...]. Trecho da introdução à obra On human nature and the undestanding (Macmillan, 1962), do filósofo e professor britânico Antony Flew (1923-2010).

APRENDIZADO ÉTICO-AFETIVO - [...] a coesão social e a submissão às regras do Estado resultam do medo que temos de vivenciar um mal maior e da esperança de um bem maior [...] Por serem as paixões constitutivas do nosso viver, ou, em outras palavras, por não podermos ser guiadas por um pensar constantemente ativo, haverá também, na organização e regulamento das associações sociais produzidas pela educação, elementos ligados ao medo de punições e à esperança de recompensas, cuja força varia conforme experienciemos ou não a potência de nosso próprio pensar. [...] embora paixões tristes participem da formação e exercício dos poderes da educação, é também para próprio beneficio do todo social que a educação venha a promover a ativação de nosso pensar. [...] O princípio que movimenta a educação, tanto no exercício de seu poder produtor de paixões alegres como de seu poder controlador por meio das paixões tristes, é conatus da coletividade. [...] A capacidade de agir com base no conhecimento e na virtude, e não no medo ou na punição, é o que distingue uma educação sábia de uma educação que exerce um poder que se mantém pela inadequação de suas paixões e de seus mecanismos opressores. [...]. Trecho extraído da obra Aprendizado ético-afetivo: uma leitura sponizana da educação (Alinea, 2009), da educadora, professora e filósofa Juliana Merçon. Veja mais aqui.

PRIMAVERA - [...] Via-se literalmente nua, debaixo de vestes invisíveis. Parecia-lhe que estava nadando sem rumor, e sem que ninguém pudesse vê-la, no fundo de um mar de nevoeiro misturado com fumaça. Que lhe importava todo esse vaivém de gente atarefada? E todas aquelas pessoas, nenhuma das quais lhe era conhecida? Esses também escondiam, debaixo da roupa, um corpo nu, esses também tinha um “eu” que para ela era invisível. Este pensamento parecia-lhe justificação o seu desejo de solidão. Tentara, lealmente e com a melhor disposição do mundo, fazer relaç~~oes, mas não o conseguira. Agora, quando descobria que todas essas criaturas, além doq eu via delas, tinham um corpo, uma individualidade, sentia-se justificada por ter tido aquela repulsa a quase todas as pessoas com quem topara... “Tenho todo o direito de evitá-las e de exigir delas que não se dispam diante de mim...” [...] “Sou excluída das alegrias dos outros”, dizia consigo... “Os outros, esses possuem alguem a quem amam, ou com quem privam, ouy de quem falam mal, ou com quem fazem o mal, dançam, saem à rua. Quanto a mim, tenho pequenas alegrias diferentes, só minhas, e protejo-as com estas mãos, como se fossem cálidos passarinhoas”. [...] Sentira-se profundamente humilhada ao saber que ele pudera, diante de uma oportunidade, introduzir outra mulher em sua vida. Sabia hoje que uma mulher, se nada concede, nem para o bem nem para o mal, àquele que a adora, não pode pretender continuar sendo sempre a única. Pouco lhe falava, agora, para lamentar haver-se esforçado por permanecer leal e honesta com ele, e não ter usado de coquetismo ou de outras armas femininas para cativá-lo definitivamente. [...] Soava como uma música uma música maravilhosa. Era pois isto, amar. Era isto, o amor. Tomou entre as mãos, num arremesso, o rosto de Torkild e o contemplou demoradamente. Sim, era ele, o amado; ele era assim. Atraiu para a cabeça dele e, desta vez, foi ela quem o beijou, enquanto das árvores da rua tranqüila, erma, uma poeira branca e fina caia sobre ambos. [...]. Trecho extraído do romance Primavera (Delta, 1964), da escritora norueguesa & Prêmio Nobel de 1928, Sigrid Undset (1882-1949).

O AMORO amor é sempre avesso às leis da observação. / Gaba o amante na aleita os dons do coração, / nada sua paixão lhe acha de censurável. / Tudo, no amado ser, se lhe afigura amável. / Os defeitos que tem, conta-os por perfeições, / tornando-lhes gentis as denominações. / A pálida é ao jasmim, na alvura comparada; / é uma boa morena a negra desbeiçada; / a magra tem, grácil, talhe e desenvoltura; ] a que é desmazelada, imunda e displicente, / é, por atenuação, beleza negligente; / a que é alta é uma deusa aos olhos dos mortais; / a anã resume em si as graças celestiais; / faz jus a uma coroa a fonte da orgulhosa; / a hipócrita é engraçada; a idiota é generosa; / a faladeira tem agradável humor / e a muda, a sonsa, guarda um honesto puder. / Quem sente no seu peito arder do zelo a chama, / amara os erros, até da pessoa a quem ama. Poema extraído da peça O Misantropo (Zahar, 2014), cena IV, do ato I, da fala de Eliente a Celimène, do dramaturgo, ator e encenador francês Molière (Jean-Baptiste Poquelin – 1622-1673). Veja mais aqui e aqui.

INSTITUTO EDUCACIONAL SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Recepcionando a garotada estudantil do Instituto Educacional São Francisco de Assis, com as professoras Rosilda dos Santos Silva & Nataly Neves, na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares – PE.

Veja mais:
Quando a folia é maior em mim!, A árvore de Tamoromu & a música de Antúlio Madureira aqui.
O lobisomem de Alagoinhanduba aqui.
Biritoaldo: a vingança no formigueiro aqui.
Ferreira Gullar, Oscar Wilde, Lisztomania, Michel de Montaigne, Louis Malle, Luhan Dias, Juliette Binoche, Virginia Lane, O Morto & A Lua, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva aqui.
Crimes contra a pessoa aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a adversidade aperta, o biltre bota o rabinho entre as pernas aqui.
As trelas do Doro: o escambau aqui.
Antígona de Sófocles, Gradiva de Freud, Seminário As Psicoses de Jacques Lacan & Cronquetas Tataritaritatá aqui.
Charles Baudelaire, Bem na Hora & Noveletas Tataritaritatá aqui.
Jean-Paul Sartre aqui.
Francesco Petrarca, Adrian Pãunescu, Erik Axel Karlfeldt, Carlos Santana, László Modoly-Nagy, Max Liebermann, Luiz Edmundo Alves & Psicologia da Gestalt aqui.
Walter Benjamin, Philippe Ariès, Isaac Stern, Charlotte Gainsbourg, Emil Orlik, Ruy Jobim Neto, Marco Leal, Neuropsicologia & Educação Sexual aqui.
Basílio da Gama, Silviane Bellato, Odete Maria Figueiredo, Edward Hopper, Mentes & Máquinas, Gerontodrama & Neurociência, Zacarias Martins & Programa Tataritaritatá aqui.
Gaston Bachelard, Steven Pinker, Holística, Renato Borghetti, Antonio Rocco, Menalton Braff, Diego Lucas & Mácia Malucelli aqui.
Carlos Drummond de Andrade, Antônio Cândido, Adolphe-Charles Adam, Antonio Bedotti Organofone, Ana Mello & Benedito Pontes aqui.
Aldous Huxley, Terceira idade & envelhecimento, Jean-Baptiste Camille Corot, Armando José Fernandes, Ivaldo Gomes, Monica & Monique Justino aqui.
Elias Canetti, Alfredo Casella, Gestão de Pessoas, Paula Valéria de Andrade, Célia Mara & Lou Albergaria aqui.
Passando a Limpo & Zygmunt Bauman aqui.
Carl Gustav Jung, Ariano Suassuna & Programa Tataritaritatá aqui.
O retorno da deusa de Edward C. Whitmont aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Os assassinos do Frevo aqui.
A folia do prazer na ginofagia aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

A ESCULTURA DE RUY ROQUE GAMEIRO
A arte do escultor português Ruy Roque Gameiro (1906-1935).

A ARTE DE CARLA VAN DE PUTTELAAR
A arte da fotógrafa & artista plástica holandesa Carla Van de Puttelaar.


terça-feira, fevereiro 27, 2018

NÉLIDA PIÑON, HEINE, WITTGENSTEIN, CAMBADA MINEIRA, MAGDA SOARES, JULIA CRYSTAL, ONIANS, DOMINGOS SILVA & PAISÀ

UMA & OUTRA DE COISAS & COISAS – Imagem: Sensibilidade da natureza (2016), arte do pintor português Domingos Silva. UMA: EU TE AMAREI ETERNAMENTE E AINDA DEPOIS – Desde os desencontros com a Princesa de Bambuluá, insistentemente eu recitava de forma inconsciente o verso de Heine: “Eu te amarei eternamente e ainda depois”. Havia em mim uma esperança animadora que me dizia que um dia ela voltaria esclarecendo o sucedido. Sei que ano após ano, sempre no aniversário da data por ela marcada, eu caía no sono por dias e ao acordar perguntava por ela, a velha professora sempre me respondia: Você ainda espera que ela venha pra você? Desista, ele não lhe quer, nunca quis. Quanto mais ela repetia isso, ano após ano, meu coração tinha certeza que essa não era a verdade, coração bobo de enamorado. Até o Soneto de Vinicius era o meu consolo: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. Mergulhado nos meus pensamentos só pra ela, a professora idosa me fez uma surpresa, apresentando as suas lindas filhas e que eu escolhesse qual delas queria para casar. Elas eram lindíssimas, mas havia entregado meu coração à Princesa, era dela e mais ninguém. Resolvi arrumar minhas coisas e sair dalí, andando sem rumo e só muito depois é que soube que a princesa me visitava todo ano e sem poder falar comigo porque dormia a sono solto, retornava tristonha desconfiando que eu não estudei como ela desejava e que eu vivia apenas para as festas. Assim caminhei até deparar uma casa solitária, na qual um velhinho de voz macia mandou-me entrar. Fui até a cozinha e lá conversamos e contei minha história. Ele me disse ser o Príncipe dos Pássaros e convocou seus soldados para saber qual deles sabia do reinado de Bambuluá. Assim que me viram, julgaram-me inimigo e resolveram me atacar. Ele aplacou a fúria de todos e indagou acerca do reinado, nenhum deles sabia. Pediu-me então que dormisse aquela noite e no dia seguinte me mandou para procurar o pai dele, o Rei dos Pássaros. Assim fui por três dias e três noites até chegar a uma casa na enconsta de um morro distante. Lá um ancião ainda mais velho me recepcionou ouvindo atentamente a minha história. Então ele chamou todos os seus soldados e perguntou quem sabia onde ficava o reino de Bambuluá, nenhum entre eles sabia. Com isso, me aconselhou a dormir no seu regaço e na manhã seguinte eu fosse até o seu pai, o Imperador dos Pássaros, e assim se fez. Andei, andei, andei, quatro dias depois, uma casinha lá no alto da serra abrigava quem eu procurava. Lá chegando, estava ele escondido dentro de uma cabaça, suspenso em cima do fogo. Pra ele contei minha história e ao ouvi-la pegou uma gaita de pena de ema e soprou demoradamente no instrumento. Os seus soldados apareceram aos milhares e ao serem indagado onde o reino de Bambuluá, ninguém sabia. Então ele virou-se e se dirigiu para um velho urubu que estava dormindo num canto. Cochichou ao ouvido da ave que logo estirou asas enormes dizendo: O reino de Bambuluá era o meu pasto. Fica depois do Inferno. É um lugar que nenhum olho mal consegue ver, pois lá tudo é muito bonito, também povoada por uma gente simpática e agradável. O velho então mandou que eu comprasse um boi bem grande para que fosse cortado em pequenos pedaços e todos os ossos quebrados para ser dado pro urubu velho comer. Assim fiz e três dias depois o urubu estava pronto para a viagem. Fui orientado a montar no urubu segurando nos cotos de penas e com os pés cruzados embaixo das asas, olhos fechados, só os devendo abrir quando ele parasse o voo. Assim feito, entre ventos quentes, muitas voltas, o calor imenso, voando muito alto, bruscamente uma descida rápida até a terra. Abri os olhos: uma campina verde, água corrente e no cimo do morro o palácio. O urubu despediu-se e voou. Aí segui pro palácio, encontrando uma casa em que uma senhora simpática indagou o meu destino, aí contei uma parte do plano, escondi outras, ela mandou-me entrar, dizendo-me ser uma antiga criada do palácio e que eu aguardasse até ao meio dia, quando chegaria a comida vinda da cozinha real. Enquanto isso, saquei a minha rabeca e troquei as cordas pelas que a princesa me dera e comecei a tocar, todos dançavam, a velha da casa, os passantes e até os que chegaram com a comida. E mais vinham e mais dançavam, até o Rei e a Rainha, os fidalgos e suas comitivas. Aí parei de tocar e o Rei me saudou: Amanhã você fará uma festa no meu palácio! Se você não for, corto-lhe a cabeça! Todos se foram e fui descansar. Ao cochilar, dei pela presença de uma criada que me fez muitas perguntas e foi embora sem se despedir. Daí depois ela voltou e me disse que a princesa estava feliz com a minha chegada e que anunciaria amanhã na festa o seu casamento comigo. Fiquei feliz. No dia seguinte, fui para o palácio conforme o combinado e ao chegar lá muita gente me esperava para a festa. Assim que cheguei a princesa surgiu descendo a escada real do palácio mais linda que nunca e foi logo anunciando: Rei meu pai, Rainha minha mãe, todos os presentes. Se eu perdesse um presente que muito gostava e quisesse outro, e antes desse outro chegar eu encontrasse o velho presente, que deveria fazer? Todos responderam: Nenhum presente novo substituiria o velho que tanto gostava. Pois bem, aqui está meu noivo antigo que sofreu bastante por mim, me desencantou e estudou para ocupar o digno posto, vindo aqui só para me ver. Disse isso e veio em minha direção: Este é o meu noivo, o meu presente de sempre. O Rei e a Rainha felicitaram e marcaram o casamento para o dia seguinte. A partir de então dei de sonhar e nesse sonho eu e a princesa fomos felizes para sempre. (Historieta apresentadas nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseadas em material recolhido por folcloristas brasileiros) OUTRA DE PROFESSOR & ALUNO: Na sala de aula o professor notara a presença de um aluno estranhíssimo e tão esquisito que um dia levantou-se da banca e dirigiu-se à mesa dizendo: Professor! Diga! O senhor poderia fazer a fineza de me dizer se sou ou não um completo idiota? Não, não posso. Mas qual a razão da pergunta? Bem, caso eu seja um completo idiota, me dedicarei à aeronáutica; caso contrário, quero ser um filósofo. Pois bem, para que eu possa avaliar, escreva uns artigos filosóficos sobre qualquer assunto. Dias ou meses depois, não sei, o aluno entregou um calhamaço ao professor. Ele leu a primeira página, releu e retornou ao aluno e disse: Não, você não deve se tornar um aeronauta! Pois, tinha certeza que estava diante um gênio que, segundo o próprio professor, o mais autêntico que já conhecera. O professor era o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970), o aluno, o filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951). O aluno na época desse encontro era judeu, muito bem dotado e rico. Era desde então atormentado por dúvidas existenciais, porém, a relação entre ambos não demoraria muito: o professor era ateu convicto, o aluno carregado de arroubos místicos. Desfeita a possível amizade entre ambos, o jovem se desfez da sua fortuna criando um fundo de ajuda aos poetas e, o restante, doou tudo para suas duas irmãs. Empregou-se como professor primário, lecionando para crianças de 9 a 10 anos de idade, o que o levou a elaborar um dicionário para ser usado pelas escolas das aldeias austríacas. Abandonando o magistério, trabalhou como ajudante de jardineiro e, depois, elaborou um projeto de uma casa para uma de suas irmãs, dedicando-se à escultura. Muito depois é que retornou à Filosofia para fazer seu doutoramento com o Tractatus Logico-Philosophicus e, depois, publicar um breve ensaio Algumas observações sobre forma lógica e, em seguida, as suas Investigações filosóficas. Depois da guerra de 1943, desempenhou a função de porteiro em um hospital, sendo posteriormente transferido para ajudante de laboratório de análises clínicas. Renunciou sua cátedra de filosofia, buscou o isolamento e quando descobriu que estava doente gravemente, não se abalou, pois não queria continuar vivendo. Quando o médico anunciou que chegara o seu fim, ele disse: Ótimo! Diga-lhes que eu tive uma vida maravilhosa. E morreu dois dias depois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do grupo Cambada Mineira, formado pelos músicos João Francisco, Amarildo Silva & Flávia Ventura: Saudades de Minas, Fragmentos de uma noite de chuva & Tempo Certo; da cantora e compositora Julia Crystal: A journey to Shamballa, Time to care & Stalit mermaids call; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAMinha vida está cheia dos mais odiosos e mesquinhos pensamentos (isso não é exagero). Talvez você pense que seja uma perda de tempo, para mim, pensar acerca de mim mesmo; mas como posso tornar-me um lógico se não sou sequer um homem? Pensamento do filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951), autor de frases célebres como: Não posso subjugar os acontecimentos do mundo à minha vontade: sou completamente impotente. Também expressou: No mundo, tudo é como é e acontece como acontece: nele não há valor. Veja mais aqui.

LINGUAGEM & EDUCAÇÃO – [...] em diferentes campos – Linguistica e Sociolinguistica, Sociologia e Sociologia da Linguagem, Psicologia e Psicolinguistica -, que se deve fundamentar um ensino da língua materna que se incorpore ao processo de transformações sociais, em direção a uma sociedade mais justa. Entretanto, para que esses conhecimentos venham a transformar, realmente, o ensino da língua, é fundamental que a escola e os professores compreendam que ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas. Quando teorias sobre as relações entre linguagem e classe social são escolhidas para fundamentar e orientar a prática pedagógica, a opção que se está fazendo não é, apenas, uma opção técnica, em busca de uma competência que lute contra o fracasso na escola, que, na verdade, é o fracasso da escola, mas é, sobretudo, uma opção política, que expressa um compromisso com a luta contra as discriminações e as desigualdades sociais. Trecho extraído da obra Linguagem e escola: uma perspectiva social (Ática, 1992), de Magda Soares, abordando o facrasso da/na escola, deficiência lingüística, diferença não é deficiência, o que pode fazer a escola e vocabulário crítico.

AS MULHERES - [...] As mulheres eram motivo de guerra explícito e um prêmio aprovado da guerra. Os homens lutavam para salvar suas esposas. Quando uma cidade era tomada, os homens eram mortos, as crianças eram golpeadas até a morte ou escravizadas, as mulheres, arrastadas violentamente para servir aos conquistadores, casados ou não, como escravas e concubinas [...]. Trecho extraído de The Origins of European Thinkought: Sobre o corpo, a mente, a alma, o mundo, o tempo e o destino (Cambridge UP, 1951), do professor estadunidense Richard Onians (1899-1986).

O REVOLVER DA PAIXÃOEu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa. Você me olhou afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortou e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que você me tivesse, porque a carne era a minha alma [...] Como podes pensar que aguento vê-lo tragando vida com chope, sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e você sorrialigado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou você. Não, não reclame, você me quer assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? [...] Não te autorizo a deixar-me. Ouviu o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira. Ah, meu corpo amado, eu te desejo. E te desejo mais do que perdermo-nos no leito que vem sendo osso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu tecomo, eu te rasgo como você me rasga, me grita, me ama. [...] Não, erga-te, amor, e me cubra toda, quero você me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a sua riqueza, coçar a sua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pelos, temor do meu suor e da minha fragrância. Vamos, seu covarde, volte depressa. Não quero mais perder o espetáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da sua comida. [...] Meu corpo identifica o teu cheiro, acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e você se deixou acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer=te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego com que se ergue e vem a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistou. [...] E te jogarás sobre o leito, e nu, esplendido, me atrairás dizendo, não queres novamente ser minha, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atrlatica que se vive e nos naufraga? Esquecendo, porém, de que você sim é o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor. [...] Por favor, ceda-me o teu tempo. Ceda-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina, a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o orgasmo de que padece o meu sexo. [...]. Se me negas o pedido eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgue entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro. Não me julgueis louca, julgues-me apenas capaz de lutar pela tua volta. [...] Se é assim, tome-me como sou. Transija com a minha volúpia. Aceite viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até você fala em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. O que tem você com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pelos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que queria, que jamais tivesse enxergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer? [...] pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra, para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas. Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartes te persiga, e fique a vida difícil para nós. [...]. Extraído da obra O calor das coisas – contos (Record, 2009), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS - LEGADO - A minha vida chega ao fim, / Escrevo pois meu testamento; / Cristão, eu lego aos inimigos / Dádivas de agradecimento. / Aos meus fiéis opositores / Eu deixo as pragas e doenças, / A minha coleção de dores, / Moléstias e deficiências. / Recebam ainda aquela cólica, / Mordendo feito uma torquês, / Pedras no rim e as hemorroidas, / Que inflamam no final do mês. / As minhas cãimbras e gastrite, / Hérnias de disco e convulsões – / Darei de herança tudo aquilo / Que usufruí em diversões. / Adendo à última vontade: / Que Deus caído em esquecimento / Lembre de vós e vos apague / Toda a memória e sentimento. ESPEREM SÓ: Só porque arraso quando arrojo / Raios, acham que não sei troar. / Ora, meus senhores, ao contrário: / Na arte do trovão não sou pior! / No devido dia, eu ponho à prova, / Quem duvida agora é só esperar; / O meu peito então vai trovejar, / E trincar os céus, a minha voz! / No fragor daquele furacão, / Os carvalhos secos vão rachar, / Os castelos vão desmoronar, / Velhas catedrais, ruir ao chão! MORFINA: É grande a semelhança desses dois / jovens e belos vultos, muito embora / um pareça mais pálido e severo / ou, posso até dizer, bem mais distinto / do que o outro, o que, terno, me abraçava. / Havia em seu sorriso tanto afeto, / carinho e, nos seus olhos,tanta paz! / Ornada de papoulas, sua fronte / tocava a minha, às vezes – e seu raro / odor me dissipava a dor do espírito. / Tal alívio, porém , não dura. Eu só / hei de curar-me inteiramente quando / o irmão severo e pálido abaixar / a sua tocha. – O sono é bom; o sono / eterno, ainda melhor; mas certamente / o ideal seria nunca ter nascido. Poemas extraídos de Heine, hein? – Poeta dos contrários (Perspectiva, 2011), do poeta romântico alemão Heinrich Heine (1797 – 1856). Veja mais aqui.

PAISÀ
O premiado drama Paisà (1946), do cineasta italiano Roberto Rossellini (1906-1977), é integrante da trilogia de guerra do diretor, iniciada com Roma, Città Aperta e segudia de Germania Anno Zero, dividido em seis episódios que tratam das relações entre os italianos recém-libertados e os libertadores estadunidenses. Os episódios são nomeados como Sicília, Nápoles, Roma, Florença, Apeninos Emilianos e Porto Tolle.

Veja mais:
A folia do Biritoaldo desandou no carnaval, Ela baila no meu coração, Frevo do Mundo & a poesia de Mário Hélio aqui.
Proezas do Bitiroaldo aqui, aqui, aqui e aqui.
Psicologia Social & Educação, Pablo Neruda, Amedeo Modigliani, Yasushi Akutagawa, Regina Espósito & Jú Mota aqui.
Paul Ricoeur, Li Tai Po, Millôr Fernandes, Carlos Saura, Mônica Salmaso, Aída Gomez Ralph Gibson & Ronaldo Urgel Nogueira aqui.
Tolinho & Bestinha: quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado aqui.
Arthur Rimbaud, Anti-Édipo de Deleuze & Guattari, Infância & Literatura & Balanço da Copa aqui.
Descartes, Gustav Klimt, Ingmar Bergman, Denise Stoklos, João Bosco, Danny Calixto, Bernadethe Ribeiro & Sandra Regina Alves Moura aqui.
Apollinaire, Rembrandt, Walter Benjamim, Paulo Moura, Efigência Coutinho & Programa Tataritaritatá aqui.
Jacques Lacan, Alexander Luria, Elizeth Cardoso, Aníbal Bragança & Clevane Lopes aqui.
Paul Verlaine, Denise Levertov, Delaroche, Wojcieck Kilar, Lourdes Limeira & Marcoliva aqui.
Yevgeny Yevtushenko, Leila Assumpção, Segueira Costa, Sigmund Freud, Hyacinthe Rigaud & Ailson Campos aqui.
A nuvem de calças de Vladimir Mayakovsky aqui.
Cultura afrodescendente, carnaval & Célia Labanca aqui.
Oração da cabra preta & Turismo religioso aqui.
Biritoaldo: a vingança no formigueiro aqui.
Cidinha Madeiro aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Os assassinos do Frevo aqui.
A folia do prazer na ginofagia aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

ARTE DE DOMINGOS SILVA
A arte do pintor português Domingos Silva.

 

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

ELIOT, ROMAIN ROLLAND, GUATTARI, CARLOS MALTA, ROBERTO CREMA, CAGLIARI, KAREN MENATTI, NATASHA KORSAKOVA & ALYSSA MONKS

LENDAS, FACÉCIAS & LOAS DE ALUMBRAMENTO – Imagem: arte da artista plástica e visual estadunidense Alyssa Monks. UMA: O MALOGRO DA PRINCESA DE BAMBULUÁ – Tantas diziam da Gruta da Pedra que, de tanto ouvir, um dia fui tirar a limpo. Não pensei que fosse tão longe, andei que só, o dia pela tarde e já escurecendo cheguei ao local. Estava tão cansado que resolvi tirar um cochilo para me refazer da caminhada. Acordei no meio da noite escura com uma visagem: o rosto de uma linda mulher me pedindo socorro. Eu me assustei, ora, não era pra menos, só via-lhe o rosto, mais nada, pedia-me para salvá-la. Isso é coisa doutro mundo, só pode. O medo me paralisou, não tinha pra onde correr. Segurei na coragem e perguntei: Como posso salvá-la? Entre na gruta e lá tem tudo que precisa. Hum, hum. Entrar na gruta, essa não estava nos meus planos, pensei que fosse coisa mais fácil. Destá. Já que estava ali, resolvi atender, entrei na gruta e logo divisei um banquete com tudo do bom e do melhor. Tomei um banho morno que já estava pronto, jantei uma ceia das mais lordes e me deitei na rede esperando o que poderia acontecer. Logo ela reapareceu e me disse que à meia-noite eu deveria subir a serra e me deitar embaixo da árvore que tem lá. Ih, está piorando. Aí ela falou, contou disso e daquilo e me convenceu. E aconselhou que lá, ao me deitar, eu não deveria fazer nada, nem me defender, deixasse acontecer, não gritasse, não me levantasse, nem fizesse nada, haja o que houver, deixe que lhe empurrem rolando até embaixo, chegando aqui estará a salvo. Arrepara só a roubada! Pensei desistir, porém ela aparecia chorosa com minha covardia: Você não é homem não? Olhei pra ela, pronto pra desistir, mas não sei o que me deu, sustentei na vera. Eu me arrependi duzentas e cinquenta mil vezes, porém minha boca dizia outra coisa, acho que eu estava enfeitiçado por ela, só sendo. Assim foi, cumpri à risca: à meia-noite deitei-me embaixo da árvore da serra, mal cochilava e logo ouvi uma zoada de vozes e risadas, tremi que só vara verde e não demorou muito fui açoitado, espancado, empurrado, aguentei tudo calado até ver-me salvo diante da gruta. Vitimado pela sova, passei uns dias sendo cuidado não sei por quem, sei que me deram de comer e beber durante toda convalescença. Restabelecido, a visagem reapareceu: Está pronto pra hoje de novo à meia-noite? Claro que não, eu queria era arredar dali, mas o que eu disse: Estou. Pode? E assim fui mais uma vez escorraçado por espíritos malignos e zombeteiros. Por três vezes fui desmantelado pelo abuso desses malefícios e quase desfalecido, finalmente, a linda princesa apareceu desencantada: de corpo inteiro. Confesso que já estava desenganado, pedindo penico e pronto pra morrer. Era muito linda, e como era. Tem jeito? Eu pensava não e só dizia sim. E depois que ela me paparicou foi que eu percebi que valeu a pena todo sofrimento. Será? Ela, então, me disse: Você agora é o meu noivo. Amanhã vou para Bambuluá fazer os preparativos pro nosso casamento. Daqui um ano eu volto para lhe buscar. Você ficará com a idosa professora para aprender a língua dos pássaros e o que for necessário para você se tornar um príncipe. Como é? Explicou, repetiu e eu com a maior cara de besta: Acha que vou cair nessa? Caí. E assim ela foi, estudei com afinco – língua de pássaros, pode um negócio desse? Não tem coisa mais difícil não? É tudo só pra me lascar mesmo! -, e lá estava eu no meu aprendizado, firme e determinado. Não sei o que houve, no dia aprazado pro retorno dela, eu dormi três dias e três noites. A velha professora me disse que ela não me queria mais. Fiquei abatumado com tudo aquilo, chapéu de otário é marreta, mas não desisti, bicho besta que sou, até hoje espero pelo retorno da princesa do Bambuluá. (PS: Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore brasileiro, baseadas em material recolhido por folcloristas brasileiros). DUAS: REVELAÇÃO DA QUEDA - Pra quem for primeiro, me chama que eu vou. Pra quem ficou, já fui. Há tempos apostei o coração à própria sorte, lugares que nunca estive, vozes que nunca ouvi. De resto a minha carne cansada entre a carga e o alívio, o sacrifício e o prazer, a fortuna e a miséria, cacos de vidro, vísceras, talhos, calafrios, eu só tenho a palma da mão exposta para nada, a planta dos pés sem ter para onde ir, os poros da pele sem saber o que fazer. Entre ignaros e incautos eu me fiz pedaços e perdi as estações, os pontos cardeais, nunca se sabe, deixei para trás a promessa do amanhã inventando asas teimosas, um dia pra ir e nunca mais voltar. Amei demais da conta, caí e me destrocei, refiz tudo e me remendei para desencalhar pessoas, como quem dispensa as paixões obsidentes, como quem releva o conspícuo para singrar o mistério. Foi na minha primeira morte a cada dia que ouvi a alma falar coisas incomuns, obscuridades interiores, simplesmente absurdas, a descoberta de ter estado sempre engaiolado na minha finitude, exposto ao fracasso e à falibilidade, na aflição da minha inutilidade diante de tudo. A voz anímica me ensinou a ir além das lonjuras oceânicas e siderais, além das profundezas do ser e da Terra, a correr o risco da errância, assim ressuscitei no primeiro instante, cônscio de que nada sou, pronto para ser feito. Perdi o medo e era como se o caroço desabrochasse na procriação dos ossos e eu me refizesse para ser outro em mim mesmo, o brotar da alteridade no que me tinha por solidário. Tornei-me inteiro, assim me senti apesar dos meus múltiplos fragmentos perdidos pelos quatro cantos do mundo. Os dias passaram e eu vou em frente pro que vier e seja. TRÊS, A SAIDEIRA: É SEGUNDA, PÉ NA TÁBUA - O que passou, passou! Agora é outra vez, assim, tipo ano novo, vida nova. Pouco importa o já feito, agora é só o que há pra fazer e de novo refazer o que sobrou, se é que algo ainda reste depois de tudo. Agora sorrio a memória esvaziada pela contaminação do esquecimento. Mergulhei na água e o meu batismo na purificação do fogo, valho-me apenas da intuição. Aceno pra todos que ficaram e saúdo os que estão embaixo da terra gozando a paz na salvação da chatura de carteiros, intimações, credores e de toda doideira que é este mundo de meu Deus. Agora sorrio plenamente, aprendi com as minhas calamidades: o poeta que nunca fui me ensinou a olhar para as coisas e ações, desde a alvorada ao crepúsculo e da noite pra madrugar novo amanhecer, tudo passa, ficam lições aprendidas ou não. Não mais cair e chorar, eu próprio construí o meu destino entre escolhas pensadas e açodadas. Tudo é muita coisa, eu mesmo faço parte dessa rede de intermináveis ramificações que nem sei onde vai dar, pouco importa. Dou-me bom dia pra sair pro mundo, boa tarde pra prosseguir meu caminho, boa noite pra que tudo renasça amanhã. Vamos, inté. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do multi-instrumentista, composutor, orquestrador, band-leader e educador musical Carlos Malta: Tudo coreto com Coreto Urbano, Tupyzinho com Pife Muderno & Instrumental Sesc Brasil ao vivo; da violinista russa Natasha Korsakova: Autunm and winter Astor Piazzolla, Porgy and bess fantasy Gershwin & Romance Dvorak; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA felicidade é uma função natural da nossa capacidade de ser inteiros, de ser verdadeiros, de ser tudo o que somos. A tarefa da educação é facilitar que a pessoa seja tudo o que ela é, nem mais, nem menos. Pensamento do antropólogo e psicólogo Roberto Crema. Veja mais aqui e aqui.

CRISE ECOLÓGICA - [...] Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. Esta revolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo. [...]. Extraído da obra As três ecologias (Papirus, 1990), do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA DO MUNDO - [...] A atividade fundamental desenvolvida pela escola para a formação dos alunos é a leitura. É muito mais importante saber ler do que saber escrever. O melhor que a escola pode oferecer aos alunos deve estar voltado para a leitura. Se um aluno não se sair muito bem em outras atividades, mas for um bom leitor, penso que a escola cumpriu em grande parte sua tarefa. Se, porém, outro aluno tiver notas excelentes em tudo, mas não se tornar um bom leitor, sua formação será profundamente defeituosa e ele terá menos chances no futuro do que aquele que, apesar das reprovações, se tornou um bom leitor. [...]. Trecho extraído de Alfabetização e lingüística (Scipione, 2004), do professor universitário Luiz Carlos Cagliari. Veja mais aqui.

COLAS BREUGNON [...] Os negócios não vão bem. É bobagem se fatigar. Já trabalhei muito na vida. Agora vamos folgar um pouco. Cá estou à mesa, um copo de vinho à minha direita, um tinteiro à esquerda; à minha frente, um caderno novinho em folha me abre os braços. [...]. Sou um bom tratante! Quanto menos tenho, mais tenho. E o sei muito bem. Encontrei um meio de ser rico sem nada possuir, rico dos bens dos outros. Tenho poder sem responsabilidade. Quem falou desses velhos anciãos, que ao serem despojados, depois de darem tudo a seus filhos ingratos, até a camisa e as calças, ficam desamparados, parados, a verem todos os olhares empurrarem-nos para a cova? Isso são os pobres infelizes. Nunca fui, palavra de honra, tão amado, tão mimado quando na minha pobreza. É que não fui idiota de me despojar de tudo, sem nada guardar. É somente a bolsa o que se pode dar? Eu, mesmo dando tudo, guardo o melhor para mim, guardo a minha alegria, o que ajuntei em cinqüenta anos de caminhada, de um lado para outro da vida, o bom humor e a malicia, a loucura ajuizada e o juízo louco. E a provisão está longe de acabar. Abro-a a todos, que todos dela se sirvam! Isso não vale nada?  se recebo dos meus filhos, também lhes dou, estamos quites. E se acontece que um dá mais que o outro, o afeto concorre para equilibrá-los; e no fim ninguém se queixa. Quem quiser ver um rei sem reino, um João sem terra, um feliz tratante, quem quiser ver Breugnon da Gália, que venha ver-me hoje em meu trono, presidindo o festim fervente! É hoje a Epifania. [...]. Trechos extraídos de Colas Breugnon (Delta, 1963), do novelista, biógrafo e músico francês e Prêmio Nobel de Literatura de 1915, Romain Rolland (1866-1944). Veja mais aqui.

SEIS POEMAS1 - O mundo cochila.Dentro de mim. Meu caminho de mato, terra e mar. Quando pequena tinha galinha de estimação. Gato do mato comeu. Noite de tempestade. Mãe ouviu barulho na cozinha, os olhos brilhantes do bicho, relâmpago. ficaram só os dois pezinhos da galinha. Não lembro seu nome. ciscava pelo quintal e bicava a gente. A gente corria. A gente ria. Meus irmãos comiam formiga. Nunca comi.Gostava não.comia fruta colorida do mato e imaginava mundos. Agora adormecem aqui dentro. Depois da tempestade sopra vento pra descanso. 2 –  Antes sofria de poetização crônica. Hoje apenas sofro. / Aqui dentro habita um hiato. Que seja breve. / (Sê) mínima. / Minha secura é tua:se áspero te arranho. 3 - Lá fora céu virou prata, / Cá dentro tinta secou. 4 - Descia pela grama. Ignorava o aviso. Saia e cabelos. Voavam. 5 - Mordeu. Feito manga fiapo nos dentes. / Lambuzou-se rosto, pescoço, mãos. / Escorreu. Peito, barriga, sexo. / Pés inundados. 6 - Poça de gozo-fruta. / Bruta. / Enfim... chão. Poemas da atriz, cantora e poeta Karen Menatti.

CRIME NA CATEDRAL
[...] Côro (Enquanto um Te deum em latim é cantado na distância) Louvamos-te, Senhor, pela tua gloria manifestada em todas as criaturas da terra. Na neve na chuva, no vento e na tempestade; em todas as tuas criaturas, as que perseguem e as que são perseguidas. Porque todas as coisas existem apenas na medida em que as vês, na medida em que as conheces; tudo existe apenas em Tua luz, e Tua glória se manifesta mesmo naquilo que Te nega; como as trevas manifestam o esplendor da luz. Os que Te negam não poderia negar-Te se não existisses; e sua negação não é completa, pois se o fosse eles não existiriam. Vivendo eles te afirmam; tudo o que é vivo te afirma; o pássaro no ar, seja o falcão ou o pardal; os animais da terra,seja o lobo ou o cordeiro; e o verme na terra e o verme nas entranhas. Assim o homem, que criaste para te conhecer, deve conscientemente louvar-te em palavras, pensamentos e ações. Mesmo com a vassoura nas mãos, ou inclinadas sobre a lareira, ou de joelhos lavando o chão, nós, as pobres, as pobres mulheres de Cantuária, curvadas ao peso da labuta, vergadas ao peso do pecado, velando o rosto com o medo, inclinando a cabeça sob a dor, mesmo em nós, os ruídos das estações, o fungar do inverno, o cantar da primavera, o zumbir do verão, as vozes dos bichos e das aves, cantam os Teus louvores. Nós te damos graças pelos Teus dons do sangue, por Tua redenção pelo sangue, porque o sangue de Teus mártires e santos fertilizará a terra, criará lugares sagrados. Pois o lugar onde um santo viveu, onde um mártir deu o seu sangue pelo sangue de Cristo, esse é o chão consagrado, cuja santidade não se apagará. Ainda que exércitos o pisem, ainda que os visitantes venham, munidos de guia, examiná-lo; desde as praias da Iônia que o mar ocidental corroi, até a morte no deserto, às preces em lugares esquecidos, junto das colunas imperiais quebradas, desse chão brita aquilo que eternamente renova a terra, apesar de sempre ser negado. Assim, oh! Deus, Te agradecmos por teres concedido uma tal graça a Cantuária. Perdoai-nos, Senhor, confessamos ser gente comum, da raça dos homens e das mulheres que cerram a porta e se sentam à lareira; que temem a benção de Deus, a solidão da noite de Deus, o abandono exigido, a privação infligida; que têm mais medo à justiça de Deus que à injustiça dos homens; que temem menos a mão forçando a janela, o fogo no colmo do telhado, a rixa na taverna, o empurrão dentro do rio, menos do que temem o amor de Deus; confessamos nossas ofensas, nossa fraqueza, nossa culpa; confessamos que o pecado do mundo recai sobre nós, que o sangue dos mártires e a agonia dos santos recaem sobre nós. Senhor tende piedade de nós. Cristo tende piedade de nós. Senhor tende piedade de nós. Bem-aventurado Tomás, orai por nós.
Trecho extraído da cena final da peça teatral em dois atos Crime na catedral (Delta, 1966), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

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ARTE DE ALYSSA MONKS
A arte da artista plástica e visual estadunidense Alyssa Monks.