sexta-feira, dezembro 27, 2013

ALBA DE CÉSPEDES, NARCISA AMÁLIA, TANAKA, ANN DUNHAM, EVELYN NESBIT & SAÚDE

 


OH, EVELYN: A VÍTIMA É SEMPRE CULPADA - Tributo à atriz, corista e modelo estadunidense Evelyn Nesbit, Florence Evelyn Nesbit (1884-1967). – Aquela graciosa ruiva era órfã e nascera capricorniana numa noite de natal. Vinha duma modesta e enlutada familia da Pensilvânia, logo encantou as ruas da Filadelfia ao posar para os artistas, angariando ajuda pra família, até posar nua para as telas de Church e Beckwith, ainda adolescente em New York. Logo se tornou uma Girls do Charles Dana Gibson, entre as corajosas independentes e poderosas da Belle Époque: Quando eu percebi que podia ganhar mais dinheiro posando para artistas do que atrás de um balcão da Wanamaker's, deixei de entregar o dinheiro à minha mãe até que ela me permitisse trabalhar para eles. Era ela na escultura Inocência, de George Grey Barnard e no quadro Mulheres: A Eterna Questão, de Gibson, afora fotos para Sarony e Eickemeyer. Era a sua ascensão meteórica: uma corista de muitos admiradores, verdadeiros sátiros predatórios com seus presentes e flertes: colares de pérolas, anéis de diamante e peles de raposa branca. Pose de modelo de produtos diversos: souvenirs, cartões postais, rótulos de cerveja, espelhos de bolso, caixas de charutos, calendários e cromolitografias. Tornou-se popular nas capas das revistas badaladas Vanity Fair e Harper’s Bazaar. Era uma deusa grega, ou uma ninfa, gueixa ou cigana, sensual como uma pin-up para estrear Florodora na Broadway. Depois foi a vez de The Wild Rose, a um passo de se transformar num ícone da beleza: a Garota do Sonho Estadunidense na Era Dourada. A sua mãe sonhava casá-la com um milionário. Assim foi: do palco para luxuosos apartamentos, nos quais o déjà-vu de sua diversão juvenil nos quartos cobertos de veludo e balanço pendurado no teto, amparada por sua mãe supreprotetora. Bastou uma escapulida materna e a champanhe premiada fez efeito na sua virgindade. Um triângulo amoroso e outros fanáticos não perdiam uma só de suas apresentações noturnas, com flores, cartas e mimos, luxuosos transatlânticos e viagens internacionais de férias. E se digladiavam e se matavam por sua atenção. Um dos casos ficou rumoroso pelo sensacionalismo da imprensa atraindo o público. Com o julgamento a difamação: a garota do balanço de veludo vermelho, agora vítima de seu próprio sucesso. Refez sua vida. Ah, a cigana Vashti, seus potentes encantos físicos e presença de palco. Os fios do destino levaram a Um salto de sorte, foi a Redenção. O que era tido como Seu erro, como A mulher que deu, dava numa estrela na cena: Eu quero esquecer! Mulher, mulher! Não farás! Sua imprudência levou-a a Um ídolo caído. Depois, Minha irmã mais nova – a que nunca existiu, saudades do seu irmão. A mulher oculta findou no Broadway Gossip. Na sua biografia, Florence Mary, não havia certidão de nascimento queimada pelo incêndio da infância, apenas a ascendência escocesa e irlandesa. As lembranças do seu pai advogado são distantes e trazem o desamparo por sua morte súbita; sua mãe lá estava, nas lides domésticas, memórias vivas com a falência da pensão: a mãe não possuía a mínima habilidade para negócios, muito menos de guardiã da filha. Disse-me ela confidencialmente: A tragédia foi eu ter sobrevivido a tudo! E pagou todos os patos: a vítima é sempre culpada, como Frineia, com seu carisma, seu instinto infalivel, sua resistência de aço, seu sex appeal sobrenatural de supermodelo, a reencarnação de Frineia. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Para mim, o período da guerra foi como se tivéssemos caído num buraco. E para sair desse buraco, convenci-me de que seria necessário que as mulheres tomassem o comando, a começar pelo comando do cinema... Pensamento da cineasta e atriz japonesa Kinuyo Tanaka (1909-1977)

 

ALGUÉM FALOU: Uma dose saudável de culpa nunca machuca ninguém. É o que a civilização foi construída, culpa. Uma emoção altamente subestimada... Pensamento da antropóloga estadunidense Ann Dunham (1942-1995).

 

CADERNO PROIBIDO - […] tudo aquilo que fizemos não nos é mais suficiente; serviu apenas para nos tornar aqueles que somos. E do modo como somos, agora que somos verdadeiramente nós, aqueles que quisemos ou conseguimos ser, gostaríamos de começar a viver de novo, conscientemente, segundo nossos gostos de hoje. E no entanto devemos continuar vivendo a vida que escolhemos quando éramos outros. Trabalhei a vida inteira, foram trinta anos para me tornar quem eu sou. E agora? [...] Mas talvez seja difícil continuar amigo para o resto da vida. Na realidade, num determinado momento, cada um de nós muda, torna-se diferente, uns avançam, outros ficam parados, e enfim partimos em direcções opostas, de modo que já não há encontro, já não há nada em comum [...] Com o passar dos anos, percebo que minha mãe, quando falava da vida da mulher e dizia coisas que me irritavam, no fundo tinha sempre razão. Dizia que uma mulher não deve nunca ter tempo, não deve jamais ficar ociosa, porque do contrário logo começa a pensar no amor. [...] Estamos sempre inclinados a esquecer o que dissemos ou fizemos no passado, também para evitar ter a terrível obrigação de permanecer fiel a você. Parece-me que, caso contrário, teríamos de nos encontrar todos cheios de erros e, sobretudo, de contradições, entre o que nos propusemos a fazer e o que fizemos, entre o que gostaríamos de ser e o que nos contentamos realmente ser [...] Talvez existam pessoas que, ao se conhecerem, consigam melhorar; Eu, por outro lado, quanto mais me conheço, mais me perco. Afinal, não sei que sentimentos poderiam resistir a uma análise implacável e contínua; nem qual pessoa, refletida em cada ação sua, poderia estar satisfeita consigo mesma. Parece-me que na vida é necessário escolher a nossa própria linha de conduta, afirmá-la perante nós próprios e os outros, e depois esquecer aqueles gestos, aquelas ações, que lhe contrastam. Devemos esquecê-los. Minha mãe sempre diz que quem tem memória fraca tem sorte. [...]. Trechos extraídos da obra Quaderno proibito (Mondadori, 1996), da escritora e dramaturga italiana Alba de Céspedes y Bertini (1911-1997).

 

DOIS POEMAS - POR QUE SOU FORTE - Dirás que é falso. Não. É certo. Desço\ Ao fundo d’alma toda vez que hesito...\ Cada vez que uma lágrima ou que um grito\ \Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...\ E toda assombro, toda amor, confesso,\ O limiar desse país bendito\ Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito!\ O horror da vida, deslumbrada, esqueço!\ É que há dentro vales, céus, alturas,\ Que o olhar do mundo não macula, a terna\ Lua, flores, queridas criaturas,\ E soa em cada moita, em cada gruta,\ A sinfonia da paixão eterna!...\ - E eis-me de novo forte para a luta. PERFIL DE ESCRAVA - Quando os olhos entreabro à luz que avança,\ Batendo a sombra e pérfida indolência,\ Vejo além da discreta transparência\ Do alvo cortinando uma criança.\ Pupila de gazela - viva e mansa,\ Com sereno temor colhendo a ardência\ Fronte imersa em palor...Rir de inocência,\ Rir que trai ora angústia, ora esperança...\ Eis o esboço fugaz da estátua viva,\ Que - de braços em cruz - na sombra avulta\ Silenciosa, atenta, pensativa!\ Estátua? Não, que essa cadeia estulta\ Há de quebrar-se, mísera, cativa,\ Este afeto de mãe, que a dona oculta! Poema da escritora, jornalista e tradutora Narcisa Amália de Campos (1852-1924).

 


Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (Saúde na Constituição Federal vigente).

Toda vez que desembarco no aeroporto e pego um táxi para ir pra casa, no trajeto eu vejo uma fila enorme. Não que fila seja nenhuma novidade ou que me chame atenção, nada disso. Afinal o Brasil é uma bronca arrodeada de filas por todos os lados. 


O curioso dessa fila é que ela sempre está ali de madrugada, exatamente quando chego das minhas viagens. De madrugada? Isso mesmo, por volta da 1 ou 2 da madrugada, sempre que retorno das minhas viagens por esse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada.

Pior ainda é que eu, na minha santa ingenuidade, não sabia que havia uma fila dessas nessa hora (saber, na vera, sabia; todo mundo sabe, só que ninguém tá nem aí pra quem pintou a zebra!), mas que eu já tinha visto um montão de vezes nos meus retornos por lá, eu vi, só que não havia me dado conta nem me chamara atenção e a curiosidade como agora. 


Dessa vez indaguei do motorista do taxi:

- Que fila é essa, hem?

- É do posto de saúde!

Sabia lá que aquilo era posto de saúde! Parecia tudo, menos isso. Não tinha placa, luminoso ou indicação alguma. Aliás, tudo escuro, só uns dois ou três postes acesos na rua. Eu morria e não sabia que aquilo era um posto saúde. Dava para se imaginar de tudo: puteiro, casa de jogo, reunião de religiosos, ou coisa que valha. Mas posto de saúde, nunca!

- Mas toda vez que retorno da viagem que chego de madrugada essa fila está aí?

- Hômi, seu minino, essa fila num acaba nunca! É todo dia assim, de segunda a sexta. Só não tem sábado e domingo porque não tem ninguém pra atender.

- Ôxi! E por que o povo tá uma hora dessa se o expediente só começa lá pelas 8hs?

- Ah! É pra pegá a ficha. Se não chegar essa hora não pega ficha. Tem gente que virá a noite aí pra pegar ficha de atendimento. 


- Ah, então é a ficha do atendimento...


- É, de atendimento. Se precisar de coisa mais séria, esse atendimento marca só pra daqui uns 3 ou 4 meses. Tem que segurá a vida até lá, se morrer, babau, perde a vez, só na outra.

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