domingo, novembro 15, 2015

FECAMEPA À REPÚBLICA, VINICIUS, CALABAR, VANJA, PASOLINI, CHORDELOS, BEVERLY & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FECAMEPA À REPÚBLICA - Segura o pencó, gente, que o negócio é sério. Esse bregueço é a maior tronchura, viu? Tataritaritatá! Pois é, para um país que não se sabe se foi descoberto numa cagada ou invadido pra porrada, fica a interrogação: afinal, que país é esse? Ah é o mesmo país que passou mais de 300 anos como uma colônia preada, açucarocrata e escravagista; depois, virou de uma hora para outra um reinado surrupiado até o fundo do tacho; num sopapo, se quebra de banda numa independência festeira e camuflada para ânimo de uns gatos pingados até ser rebocado prum império de sucatas. Ora, com um curriculum desse, não pode dar outra, né? A não ser que a lorota vire pinóia manjada e dê numa republica de... de.... de quê mesmo, hem? eita! De ocrídios macunaímas? De mestiços corteses que num aprende a distância dum palmo além da venta? De miscigenados gentis que se hipnotizavam com tudo? De bananas? De apaideguados feladamãe? Ouououououou? Ih.... Na verdade, trocando os miúdos e deixando de fora os desguardados, só mesmo numa republiqueta levada na espórtula e empurrada pela barriga e na marra até hoje, né não? Pois então, ora veja! Depois da festa íntima dos promotores/beneficiários da independência, num deu nem para piscar o olho e já fervia a panela do vuque-vuque. É, a história é o princípio heraclitiano ao contrário: passa e volta, torna a se repetir constantemente. Pois é, não podia ser diferente porque as maruagens despóticas afuleiraram mais com a dissolução da Assembleia em 1823 e, também, com a outorga da Constituição de 1824. Piada? Só se for de mau gosto, sabe por que? Bastou isso para a faísca de nadinha virar fogaréu de monturo em Pernambuco. Lá vem resistência feito enterro voltando. O puxa-encolhe da insatisfação já dominava as províncias do Norte e Nordeste, incendiando tudo com um exaltado sentimento nativista requentado pelos ideais liberais separatistas e antilusitanos. Espia só, tudo aprontando o trupé. E vingou, era a Confederação do Equador, uma república revolucionária compreendendo os ingicados desde da Bahia até ao Grão-Pará. Era a boa nova que tanto contagiava como repelia seus correligionários, principalmente porque suspendia o tráfico negreiro. Mexeu a onça com vara curta e a coisa vai se esculhambando, como sempre. Findou maior pega-pra-capar, com pipoco de tiro, estrupício de vida e muita rezação no cemitério. O tumulto continua, num pára por aí não. Logo vem a Guerra do Paraguai que durou de 1865 até 1870. Foi uma sacanagem braba. Dizem alguns mais ousados historiadores que para render o inimigo mais rapidamente, usou-se do ardil de jogar cólera nas nascentes dos rios contaminando todo povo paraguaio. Isso só não, tem muito mais. De resultado só trouxe fortalecimento pro o exército que era só desprestígio. Sincronicamente, passava o zoadeiro do abolicionismo. Com isso, engrossava o caldo os pinotes dos escravos que escapuliam pra vida desde dos quilombos de antanho. O pisoteio todo redunda no Manifesto Republicano de 1870. A coisa andava, como ainda hoje, aos trupicões. Segura a onda, meu! É a maior buraqueira do sujeito perder tudo nos catabís. Porque é aí que chega a constatação de que até 1889, a nossa brasílica terra era o único império existente na América inteira, vez que todas as demais nações vizinhas já tinham virado a casaca pro republicanismo. Pode um negócio desse? Como sempre e até hoje, esse Brasilzim anda atrasadinho que só, hem? Mas isso não é nada, vamos adiante naquilo que comumente taxamos de: seria cômico se não fosse trágico. Ou ao contrário? Vamos nessa. Chegamos na república (sic). Na verdade, um arrumado dos militares acoloiados com um punhado miúdo de civis, implantando o Federalismo, o sistema presidencialista, a independência dos poderes e outras mais. De primeira, deram um chute na bunda do rei com banimento da família imperial pros quintos dos infernos. Depois, começa a mania de provisoriedade que tanto visita a vida do brasileiro no século seguinte, botando um marechal brabo na presidência. Era o marechal alagoano Deodoro da Fonseca. Com ele, a primeira Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, começando uma descarada imitação dos gringos lá do norte, quando tem início a onda da norte-americanização daqui, com a inspiração voltada pro positivismo comteano pra seguir a ordem-progressivista e, também ainda, da corda-de-guaiamun dos interesses sempre esticando o miolo do poder como uma panelinha de mãe Joana, onde os privilegiados comem tudo e num sobra nem os farelos pro povão faminto do lado de fora. Aí ocorre um fenômeno econômico digno de nota, quando Rui Barbosa, o então ministro da Fazenda, entre 1889 e 1892, escancarando o crédito e dando liberdade pros bancos – espia só o merdeiro que vai dar -, deixa o país às voltas com uma inflação incontrolável, dinheiro desvalorizado e festança de ricos sobre a ruína de novos pobres. Era o Encilhamento, parece até um treino para entrar em campo uma trupe que vai jogar num cenário que a gente vai ver e ter em replay de instante em instante e até slow motion a vida toda do século XX. É quando estoura a Revolução Federalista de 1893 que dura até o ano seguinte, pela libertação do Rio Grande do Sul. Também ribomba a Revolta Armada iniciada no Rio de Janeiro até atingir o Rio Grande do Sul. E o governo passando de Deodoro para Floriano Peixoto, outro marechal alagoano (ihhhhhhhhhhhhhhh!). Vamos lá, que o diga Policarpo Quaresma. Depois Prudente de Morais, o primeiro civil em 1894. Dois anos da posse, rasga o cenário Canudos, com o messiânico líder Antonio Conselheiro e seus jagunços declarando guerra à República pela restauração da Monarquia. Esse quiprocó dura dois anos, de 1896 até o ano seguinte, quando o sangreiro espirra até na lua. Vem logo em seguida o paulista Campos Sales, que antes mesmo de assumir, negocia um acordo, o Funding Loan, onde suspende os pagamentos do país para contrair novo empréstimo. Entende isso? Jogadas e tramoias. Era só a bagatela de 10 milhões de libras que entravam na roda e que foram amortizadas a juros sobre juros só quitada em 1961 (só?!?). Pois é, e ele governa de 1898 até 1902, sob o clima do abalo do Encilhamento, da agitação política comandada pelo curral eleitoral do patriarcado coronelista com o voto de cabresto nos currais eleitorais e, mais também, do capital estrangeiro que mandava ver a partir de então por aqui. Eita, já estamos em 1900, pleno século XX. E isso é pano para outras mangas. E vamos aprumar a conversa, ta? Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Sem título, do artista plástico russo Serge Marshennikov.


Curtindo o álbum da cantora e atriz Vanja Orico (1929-2015/Independente, 1997), com participação especial do Quinteto Violado.

AS RELAÇÕES E A RESPONSABILIDADE – No livro Responsabilidade civil nos relacionamentos afetivos pós-modernos (Russel, 2007), de Ana Cecília Parodi, as questões atinentes às relações e responsabilidades são tratadas desde a gênese da unidade familiar no mundo até o novo paradigma da organização judiciária. Da obra, destaco os trechos: Desde que o mundo foi criado, desde o surgimento da primeira célula social no planeta, o home zela por seu conjunto de bens imateriais. O ser humano tem necessidade de se afirmar socialmente, de amadurecer emocionalmente, de relacionar-se com seus semelhantes e com o ecossistema. Mas, em face de injustiças sofridas, desde os primórdios, o homem pleiteia a reparação. Ao longo dos milênios, conferiu-se enorme maleabilidade aos ditos instrumentos de defesa da honra. Duelos, vinganças, o sangue vingado com as próprias mãos. A compensação atingia os danos materiais, sem sombra de duvida – um boi pelo outro. A todo custo, o homem procura indenização, é parte do seu complexo interior, muito além das raias jurídicas. Com a evolução das relações sociais, e do mundo como um todo, o homem desenvolveu maior complexidade mental, passando a se descobrir com mais profundidade e, com a mesma intensidade, acelera a sua compreensão do meio que o cerca. A sociedade moderna, por obvio, não comportaria os meios reparatórios, nem as punições ultrajantes. Em contrapartida, o individuo permanece tendo na indenização uma questão de foro intimo. Ajustou-se o interesse coletivo ao interesse individual, tratando-se de criar instituto indenizatórios socialmente adequados. [...] A satisfação do homem vai além do sagrar-se vencedor, na discussão processual. Sua necessidade é de haver uma sentença, um ditame maior, digno de obediência, que lhe fira o status de inocente, de vitima, de detentor de um dano irreparável. [...] As relações afetivas havidas entre os seres humanos podem ser classificadas verticais – operadas entre ascendentes e descendentes – e horizontais – operadas entre os casais. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

AS RELAÇÕES PERIGOSAS – O livro As relações perigosas (Les liaisons dangereuses – Companhia das Letras, 2012), do escritor francês Choderlos de Laclos (1741-1803), trata sobre as relações de um grupo de aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente anterior à Revolução Francesa — nobres ociosos e sem escrúpulos dedicam-se prazerosamente a destruir as reputações de seus pares. O enredo tem como foco o Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que manipulam e humilham as restantes personagens através de intrigas e jogos de sedução. Durante alguns meses, um grupo peculiar da nobreza francesa troca cartas secretamente. No centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes de se casar. Da obra destaco o trecho com tradução de Dorothée de Bruchard: [...] suas ordens são encantadoras; sua maneira de dá-las é mais amável ainda; você seria capaz de fazer apreciar o despotismo. Não é a primeira vez, como sabe, que lamento não ser mais seu escravo; e por mais monstro que diga que sou, nunca relembro sem prazer o tempo em que me gratificava com mais doces apelidos. Não raro, sinto inclusive o desejo de voltar a merecê-los e acabar dando ao mundo, com você, um exemplo de constância. Interesses mais largos nos chamam, porém; nosso destino é conquistar; cabe a nós cumpri-lo: quiçá ainda nos encontremos no fim da carreira; pois, digo isso sem querer aborrecê-la, mui bela marquesa, seus passos são, no mínimo, parelhos com os meus; e desde que, separando--nos para a alegria geral, vimos pregando a fé cada um por seu lado, quer parecer-me que nesta missão amorosa você angaria mais prosélitos que eu. Conheço seu zelo, seu ardente fervor; e, se nos julgasse Deus por nossas obras, você seria algum dia a padroeira de uma grande cidade, ao passo que esse seu amigo seria, quando muito, o santo de alguma aldeia. Esta linguagem mística a surpreende, não é verdade? Ocorre que há uma semana não escuto nem falo nenhuma outra; e é para aperfeiçoar-me nela que me vejo forçado a desobedecer-lhe. Não se zangue, e escute-me. Depositária de todos os segredos de meu coração, vou confidenciar-lhe o maior plano que já concebi. O que me sugere? Seduzir uma moça que não viu nada, nem conhece nada; que, por assim dizer, me seria entregue sem defesa; que uma primeira homenagem não deixará de embriagar, e que a curiosidade talvez conduzisse mais rapidamente que o amor. Vinte homens poderiam bem suceder como eu. O mesmo não se dá com o projeto que me ocupa; seu êxito me assegura tanta glória quanto prazer. O próprio amor que tece minha coroa hesita entre o mirto e os louros, ou melhor, há de juntar a ambos para honrar meu triunfo. Você mesma, bela amiga, será tomada de um santo respeito, e dirá, entusiasmada: “Aí está um homem a meu gosto”. [...]. Veja mais aqui.

POEMA PARA TODAS AS MULHERES & OUTROS POEMAS PRA ELAS – No livro Antologia Poética (José Olympio, 1984), do poeta, compositor e diplomata Vinicius de Morais, destaco inicialmente o poema Poemas para todas as mulheres: No teu branco seio eu choro. / Minhas lágrimas descem pelo teu ventre / E se embebedam do perfume do teu sexo. / Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado / Confuso, criança para te conter! / Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não! / Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não! / Homem sou belo / Macho sou forte, poeta sou altíssimo / E só a pureza me ama e ela em mim uma cidade e tem mil e uma portas. / Ai! teus cabelos recendem flor da murta / Melhor seria morrer ou ver-te morta / E nunca, nunca poder te tocar! / Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços / Anjo, sinto o calor do vento nas espumas / Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos... / Correi, correi, lágrimas saudosas / Afogai-me, tirai-me deste tempo / Levai-me para o campo das estrelas / Entregai-me depressa lua cheia / Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos / Que eu não posso mais, ai! / Que esta mulher me devora! / Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora! Também o poema A mulher na noite: Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste./ A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas - vinhas andando e eu não te via / Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos. / Eu estava imóvel - tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido /E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos / E as formigas me passeavam pelo corpo úmido. / Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito / E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas. / E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos / E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios. / Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto / E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas. / Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser / As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero / E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia. / Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço / E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas. / Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe / E não havia mais vida na minha frente. Por fim, Invocação à mulher única: Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o frio das águas — tu / Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...) / Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio / E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda / E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia. / Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea / Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua... / A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas — negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência /De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento — afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade / Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém! / Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra — perpetuação do êxtase / Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros — mulher! tu que deitas o teu sangue / Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias — mulher! / Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno. / Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —fruto da carne /Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne / Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo! / Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura / A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia / Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e desdobrada — por onde eu iria caminhando / Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia / No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna! Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MULHER DE CALABAR – A peça teatral Calabar: o elogio da traição (Civilização Brasileira, 1976), de Chico Buarque e Ruy Guerra, trata acerca do acontecimento histórico que envolve Domingos Fernandes Calabar no embate entre portugueses e holandeses no Brasil colonial, como uma metáfora para o período militar de 1964-1985. Da obra destaco os trechos: PLENAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA SE LEVANTA E VESTE-SE CALMAMENTE, CANTANDO CALA BOCA, BÁRBARA – Bárbara (cantando): Ele sabe dos caminhos dessa minha terra No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu Os meus rios, os meus braços Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra Nas bandeiras, bons lençóis Nas trincheiras, quantos ais, ai Cala a boca - olha o fogo! Cala a boca - olha a relva! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Ele sabe dos segredos que ninguém ensina Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber As vazantes, as correntes Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro Nas campanhas, nos currais Nas entranhas, quantos ais, ai Cala a boca - olha a noite! Cala a boca - olha o frio! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara [...] ANNA CANTA ANNA DE AMSTERDAM – Anna (cantando) Sou Ana do dique e das docas Da compra, da venda, das trocas de pernas Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas Sou Ana das loucas Até amanhã Sou Ana Da cama, da cana, fulana, sacana Sou Ana de Amsterdam Eu cruzei um oceano Na esperança de casar Fiz mil bocas pra Solano Fui beijada por Gaspar Sou Ana de cabo a tenente Sou Ana de toda patente, das Índias Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada Sou Ana, obrigada Até amanhã, sou Ana Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos Sou Ana de Amsterdam Arrisquei muita braçada Na esperança de outro mar Hoje sou carta marcada Hoje sou jogo de azar Sou Ana de vinte minutos Sou Ana da brasa dos brutos na coxa Que apaga charutos Sou Ana dos dentes rangendo E dos olhos enxutos Até amanhã, sou Ana Das marcas, das macas, da vacas, das pratas Sou Ana de Amsterdam [...] SUBITAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA CANTA TATUAGEM – Bárbara: Quero ficar no teu corpo Feito tatuagem Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem E também pra me perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava Quero brincar no teu corpo Feito bailarina Que logo te alucina Salta e se ilumina Quando a noite vem E nos músculos exaustos Do teu braço Repousar frouxa, murcha, farta, Morta de cansaço Quero pesar feito cruz Nas tuas costas Que te retalha em postas Mas no fundo gostas Quando a noite vem Quero ser a cicatriz Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e fogo Em carne viva Corações de mãe, arpões Sereias e serpentes Que te rabiscam O corpo todo Mas não sentes [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR TIRA AS MÃOS DE MIM – Bárbara (cantando) Ele era mil Tu és nenhum Na guerra és vil Na cama és mocho Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se o fogo dele Guardado em mim Te incendeia um pouco Éramos nós Estreitos nós Enquanto tu És laço frouxo Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se a febre dele guardada em mim Te contagia um pouco. [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR COBRA DE VIDRO: Aos quatro cantos o seu corpo Partido, banido Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de vidro O seu veneno incomodando A tua honra, o teu verão Presta atenção Aos quatro cantos suas tripas De graça, de sobra Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos, de cobra O seu veneno arruinando A tua filha, a plantação Presta atenção Aos quatro cantos seus ganidos Seu grito medonho Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de sonho O seu veneno temperando A tua aveia O teu feijão Presta atenção. [...] ANNA RI MUITO. BÁRBARA CONTINUA SÉRIA, NUM GESTO DE DESESPERO, ANNA DESMANCJA O PENTEADO DE BÁRBARA. EM SEGUIDA RECOMEÇA A PENTEÁ-LO, DISPENSANDO AS ESCRAVAS, BÁRBARA COMEÇA A CANTAR FORTALEZA. Bárbara (cantando) A minha tristeza não é feita de angústias A minha tristeza não é feita de angústias A minha surpresa A minha surpresa é só feita de fatos De sangue nos olhos e lama nos sapatos Minha fortaleza Minha fortaleza é de um silêncio infame Bastando a si mesma, retendo o derrame A minha represa. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

I RACONTI DI CANTERBURY – O premiado filme I raconti de Canterbury (Os Contos de Canterbury, 1972), do cineasta, poeta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), é uma obra baseada nos contos eróticos do escritor, filosofo, cortesão e diplomata inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400), cenografia de Dante Ferretti e trilha sonora de Ennio Morricone, no qual há uma celebração ao sexo de uma forma muito bem humorada, numa atmosfera ao mesmo tempo mágica e rústica, retratando, inclusive, uma representação do inferno com claras influências do pintor neerlandês Hieronymus Bosch. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
  Todo dia é dia da atriz estadunidense Beverly D’Angelo, a eterna musa do filme Hair (1979).