terça-feira, maio 10, 2016

DUÍLIA DE MELLO, DALTON TREVISAN, CRISTINA BRAGA, DESCALS, MITO & LENDA


À PROCURA DA PATERNIDADE (Imagem: arte do artista plástico espanhol Ernest Descals)- Não sabia de si. Para ela, só o mundo dos olhos. Dentro dela, um negrume de vazio abissal. Muitas querências insaciáveis, rompidas, irreveláveis. Tinha até medo de fechar os olhos e se perder no nada. Assim era o que foi e o que será. Aos dezesseis anos, sonhos e fantasias espatifadas no piso que agora lhe fugia aos pés num futuro negro e incerto. A vida passa depressa, o mundo corre solto pelas calçadas e ruas. Perder o bonde torna tudo mais difícil. Passou, ah passou, uma nova espera. A espera de sempre. Por um instante a fragrância da infância, quando era riso pra tudo: mimos, trelas e tretas. Agora, a inocência perdida. Restava a efígie no espelho da parede. Gostava de expor-se: batom vermelho nos lábios, calcinha, sutiã e salto alto. Vermelhos. Uma dama de luxo cobiçada por todos, a sua vaidade. Insinuante, olhos tímidos. O vestido vermelho, o decote nos seios, o corte do tecido macio a mostrar-lhe as coxas, as pernas, achava bonito seus calcanhares sobre a colcha da cama. Era quando ficava embalada com o pensamento do sarro no namorico, aos beijos, tudo espionado por uma implacável perseguição. Sabia. Adivinhava. Agora entendia porque a mãe insistia em chamá-la de malagradecida. Era ciúme, só podia. Bastou depará-la mocinha, quase mulher feita e ela mudou por completo. Antes, mãe dedicada, prestimosa, tolerante. Agora não, desde o flagra de braços e corpo colado ao namorado, daquele dia em diante, ela passou a ser reticente, aborrecida, repetitiva: não foi pra isso que lhe criei, malagradecida. Não pra isso que passei horas de sono, cuidando de você. A bem da verdade, ela não tinha mesmo muito a ver com o jeito, nem com nada do que era. E tinha quase certeza que eles não gostavam dela, privaram-na de tudo, sempre um não pra tudo que lhe trouxesse alegria. Isso depois de mocinha. Na lembrança repassava os dias em que o pai bêbado, a mãe na missa, galanteios e carinhos afetados, não entendia nada, era a princesinha dele, alisando os cachos do cabelo, obrigando-a submissa a sentar no seu colo, e ele mãos com dedos quase na vagina dela, um ajeitado nos peitinhos, beliscões delicados nas nádegas, chamava para chupar sorvete, puxava a alça da blusinha, a palma da mão dela levada para um alisado numa saliência que emergia da braguilha dele, promessa de presentes deslumbrantes se alisasse direito, brincando de adivinha, o que é o que é, ela à mercê. E isso desde criancinha, por isso, pra ela, era tudo natural, estava acostumada, nem ignorava já mocinha sonsa usar disso para conseguir o que queria. Quando o pai aquiescia, assentindo o que quisesse pra sua felicidade, a mãe botava gosto ruim, implicava na maior peitica, até estragar tudo. Parece que ela adivinhava o que se passava quando trancada no quarto com o pai. Ou dissimulava na hora e se vingava dela pro resto da vida. Agora não mais, consoante a investida dele, embriagado, desvencilhava-se como podia. Agora, aquilo lhe dava náuseas. Não mais a provocante e fatal sedutora. Agora, decentemente trajada, procurava um rumo pra sua vida. Tinha de ter cautela, estava encurralada. Detendo-se, à espreita, fitava a casa mobiliada carregada com todas as memórias insustentáveis. A descoberta dos pais postiços assim de súbito, dera o sinal de sua ruína. Perdia a noção da vida e de tudo. Não havia mais a quem recorrer, nem o namorado inspirava confiança, ele sabia e não lhe dissera nada. Esfacelara-se no meio de toda rememoração. Pra onde ir, não sabia. Da mãe biológica, apenas Maria. Nenhum sobrenome pra sair à procura de quantas mães Marias na face da terra. Comovida pela triste sorte, sentiu-se à beira de um precipício: a constatação da orfandade. Não havia mais em quem acreditar, não discernia mais o falso do verdadeiro. Deu vontade de morrer, matar-se de tudo, uma nódoa na alma, nada como remover, demovê-la dos seus martírios. Quem sua mãe, seus pais, não sabia, nem tinha pistas do paradeiro deles. Restava debulhar as lágrimas e sumir do mundo. Não havia mais sentido em viver, a vida acabou. Não sabia. Trancou-se em si e não mais viu nada. A sua solidão reinava. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: arte do artista plástico espanhol Ernest Descals.


Curtindo o álbum Espelho d’água (ViSom, 2001), da harpista, cantora e compositora Cristina Braga. Veja mais aqui.

PESQUISA

Lenda, mito e magia na imagem do artista: uma experiência histórica (Presença, 1988), de Ernst Kris & Otto Kurz, tratando o enigma do artista sob as perspectivas psicológica, a natureza do homem criador de obras de arte; e a sociológica, como é que tal pessoa, a cujo trabalho é atribuído um valor particular, é avaliada pelos seus contemporâneos.


LEITURA 
A trombeta do anjo vingador (Record, 1981), do escritor Dalton Trevisan. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Acho o nosso planeta maravilhoso, mas precisamos tratá-lo bem porque é o único que temos.
Foto: astrônoma e professora de Física e Astronomia da University Washington, pesquisadora do Goddard Space Flight Center – NASA, e autora do livro Vivendo com as Estrelas (PandaBooks, 2009), Duília de Mello.

Veja mais Brincarte do Nitolino, Hermilo Borba Filho, Mikhail Bakhtin, Albert Camus, Luiz Gonzaga, Guerra Peixe, Stella Leonardos, Ettore Scola, Patrice Murciano, Sophia Loren & Léon Bakst aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do artista plástico espanhol Ernest Descals.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.