DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro
aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a
vontade de tomar uma. Bote bronca nos costados dele. E tomou umas talagadas,
enxugou uma quartinha, sorveu a meiota, mais de litro da tirana, lavou tudo com
uma geladíssima cerveja, no vira vira como Deus quisesse que desse, nem aí, tropeçou
nos frascos e foi pra casa, tangendo os carneiros de Panúrgio: Danou-se,
bicho besta! Prosseguiu inglório a tanger os que sobravam na sua ebriedade. E tropeçou
nos postes, arengou com passantes, chutou o que aparecesse, assim, à toa, até
chegar ao domicílio: fogo aceso no quengo, língua grossa, gaguejando aos
soluços, pra lá e pra cá, aos tombos, a porta estreita, deslizou encostado
pelas paredes, insaciável, deu na cozinha, achou a teibei, agarrou-a
pinguço pelo gargalo, catou o copo, escapuliu, pegou outro, encheu de esborrar e
engoliu. Tonteou com careta, virou bicho e o diabo a quatro, arrastou-se como
pode e amarrou o bode num cantinho do quintal. Amanheceu ateado, com o puxavanques
da Bacbuc:
Quem é essa? Sou a sacerdotisa do Oráculo. Tô variando! Beba! Oxe, assim de
jejum? Já! Sorveu a pulso, espremeu-se todo, maior queimor da goela ao bucho
convulsionado: Essa se num matar, acende tudo! Abriu os olhos com dificuldade e
o canto mais limpo: Cadê-la? Vôte! Levantou-se, amparou-se ao muro e fez carreira
atravessando o quintal; escorregou, bateu o quengo no chão e azoretou-se cheio das
ideias: Eureka! Tive uma ideia: a teibei é um santo remédio! E correu desajeitado
para vasculhar por umas etiquetas, sem saber aonde as havia guardado. Achou-as,
sacou duns lápis de cor e foi ajeitá-las, pacientemente. Ao cabo dalguns
minutos, estava com o rótulo pronto: Oráculo! Aí ele sorriu e correu pra
escanear: Hummmm... Imprimiu uma tuia e saiu pegando todo tipo de garrafa, espatifou-se
umas tantas e as que sobraram lavou-as bem, deixou-as enxugar de bico pra baixo,
enquanto tentava se assear: aquele era o momento de mudar de vida. Lá pras
tantas, quase sóbrio, conferiu todo garrafal, enxutinhos e limpos, colou a
rotulagem. Agora sim! Foi pra barrica com uma concha enorme e encheu umas 20,
danou cortiça, ensacolou e saiu de porta em janela oferecendo a milagrosa. Tá
com dor de quê? Nos quartos! Tome desse elixir 3 vezes ao dia, em jejum. Aí, tá
certo! Vendeu, guardou os trocados na algibeira. Devolva o casco, vá! Foi-se
decidido. Pros que não se ressentiam de mal algum, ele não se apertava: Tome um
gole dessa panaceia e você saberá do futuro, ou do que estão aprontando pra sua
banda, teste, veja, tome! A lapada é grátis. O curioso: Dá o número da loteria?
Adivinha tudo, mô fio! Manda. Veio outro: Cura gonorreia? Até o câncer, meu!
Passa uma. Meia hora depois estava de volta todo felizardo, segurando os bolsos
entupidos de cédulas e moedas, a sacola na cacunda só com garrafas vazias e
catadas pelo meio da rua, lixões e monturos. Em casa lembrou-se que ainda
estava de bucho vazio, as tripas arengavam e foi providenciar o mingau de cachorro. Ingeriu a gororoba e partiu pros seus esperançosos afazeres. Levou
tempo montando a química da tirana: de uns pingos logo jorraram esborrando de
alagar tudo. Segura! Foge não. Deu trabalho para represar. Daí moeu, filtrou,
diluiu, ajustou, aqueceu, destilou, decantou plantando bananeira e, ao cabo de mais
algumas horas, fez o ritual: benzeu, peidou, estalou os dedos, arrotou, sacudiu-se,
rebolou, virou malassombro, desenvultou-se, cuspiu, escarrou e tocou fogo:
Pronto, coisa mais linda! E as labaredas da fogueira quase queimaram tudo!
Socorro! Controlou o incêndio não sabia como e partiu para encher as vasilhas,
a mexê-las bem, aos requebros e, em seguida, sacudiu o conteúdo dentro das
quartinhas e barris. Logo bateram à porta: Já vai! Insistiram: Já vai! E foi:
Diga! Ô seu Doro, me dê um litro daquela sua garrafada que minha mulher tá
endiabrada. Disse o preço e foi buscar, voltou: Saiu do forno agora, ainda está
quentinha! Recebeu o dinheiro e foi se ocupar. Novamente, novas batidas à
porta. Foi ver: uma fila imensa! Calma, tem pra todo mundo. E o atendimento entrou
pela noite adentro, de quase nem deixá-lo dormir. Tomou uns goles para poder se
sustentar em pé, decilitrou-se: Oxente! Já quase amanhecendo, virou a noite aos
goles e conferindo os tostões dos bolsos: Tô rico! Nessa hora chegou Marcialita
de viagem com os bruguelos agitados: Que catinga é essa? Ôi. Ô traste, armasse
o quê, pra tá com tanto dinheiro, assim? Minha fia, tamos ricos! Dê logo pra cá
que preciso fazer feira. Eita, num deixou nem sentir o gostinho direito? Desarreda!...
Quando a mulher saiu, ele foi empreender: Taí, uma farmácia! E colocou na sala
um balcão com meio mundo de prateleiras, colocou uma placa extravagante: Aqui
cura tudo! A freguesia correu feito doida: Calma, o milagre demora um tiquinho!
Não contava ele com fiscais da vigilância sanitária, nem da junta comercial:
Cadê o alvará? O senhor tá bonzinho? Cadê a licença? Olhe, se o senhor ou
alguém da sua família tiver algum problema de saúde, ou financeiro, ou
atrapalho qualquer de aperto, para proteção das coisas ruins, conselhos ou afrodisíaco,
o que for, tome um gole desse amuleto aqui, que resolve na hora: é cortesia da
casa, vá? Assim engalobava uns & outros & tantos, até vê-se num imbróglio
desgraçado, de pegar o corujão de quase se desacertar todo: Hem, hem, perdi;
mas, pelo menos, salvei a bunfunfa, ô viagem boa! Nada melhor que uns dias de
férias pinotando pelo meio do mundo, né, não?... Esqueceu Marcialita com a
filharada fungando no seu cangote: Oxe, mulher, deixe quieto, arrumo já o que
fazer, vou trabalhar e ganhar muito dindim. Se avie, cabra, a fome não espera!
Ih. Onde chegasse, recomeçava a tramoia. E foi... Veja mais abaixo e aqui, aqui
& aqui.
DITOS &
DESDITOS
É tão difícil
aprender a colocar a tristeza em perspectiva, tão difícil entender que é um
sentimento que se manifesta em diferentes graus; pode ser uma vela queimando
suavemente e sem causar danos em sua casa, ou pode ser um incêndio florestal
devastador que destrói quase tudo e é controlado por quase nada. E pode ser
também muitas coisas entre esses dois extremos... Não deu certo e não dá. Não
há final feliz para a história da tristeza se você nasce com uma predisposição
ao desespero. Afinal, o mundo é um lugar rude, brutal e cruel. É apenas uma
questão de quanto tempo você consegue conviver com isso...
Pensamento da
escritora e jornalista estadunidense Elizabeth Wurtzel (1967-2020). Veja
mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
As piores surpresas sempre vêm das pessoas
mais próximas. Pessoas que pensamos conhecer como a palma da mão se revelam
completos estranhos, capazes de tudo, inclusive das piores...
Pensamento da escritora francesa Françoise
Bourdin (1952-2022), que ganhou dos leitores o slogan "Histórias
que se parecem conosco".
ORÁCULO DA
GARRAFA – ORAÇÃO: Garrafa, cujas Profundezas Misteriosas guardam dez mil
Segredos, com o ouvido atento eu espero; alivia minha mente e fala meu destino.
Verdades não nascidas teu Suco revela, que o Futuro oculta. Extraída da jornada
satírica de Panurge e Pantagruel ( ), do humanista francês François Rabelais,
um dos pseudônimos do jornalista e romancista pornógrafo português Alfredo
Gallis (1859-1910), atinente ao Oráculo da Garrafa Divina (Oracle de la Dive
Bouteille), na busca por uma resposta metafísica para o dilema de Panurge:
se ele deve se casar e se será traído. Para obtê-la, o postulante precisa recitar
a oração e aguardar. Ao chegarem no templo leram: Os destinos guiam quem
quer; quem não quer, eles arrastam... Após o pedido, a resposta do oráculo
resumiu-se a uma única palavra pronunciada pelo estalo do vidro: "Trinch!"
(que significa "Beba!"). Para a sacerdotisa Bacbuc, a interpretação
do Oráculo significa o ato de beber da fonte do conhecimento, da verdade e da
própria vida: Aqui, bebendo, eu delibero, eu raciocino, eu resolvo e
concluo. O apetite vem com o comer... mas a sede vai embora com o beber. Beba
sempre antes da sede, e ela nunca te alcançará. Quando eu bebo, eu penso; e
quando eu penso, eu bebo... Ao término da consulta, a sacerdotisa orienta:
E agora sigam o seu caminho, em nome de Deus e sob a Sua orientação... Do
livro ainda outro aprendizado: O Pantagruelismo é uma certa alegria de
espírito que consiste no desprezo pelas armadilhas do destino... Veja mais
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
ÉTICA PARA
AMADOR - [...] A inteligência deve saber rir. [...] Levar as coisas com filosofia não significa
encará-las com resignação, nem com gravidade, mas sim com alegria. [...] A
única coisa em que todos concordamos, à primeira vista, é que não concordamos
com todos. [...] Estamos destinados a inventar o nosso destino, sem
segundas chances. Por isso, nós, seres humanos, erramos e decepcionamos uns aos
outros, e cometemos atrocidades; mas também, graças a isso, podemos transformar
a nossa vida e inventar o seu conteúdo. [...] E você sabe por que não é
simples dizer quando um ser humano é "bom" e quando não é? Porque não
sabemos para que servem os seres humanos. [...]. Trechos extraídos da obra Ética para
Amador (Booket, 1991), do escritor e filósofo espanhol Fernando Savater (Fernando Fernández-Savater Martín), que produziu notável narrativa por
meio do teatro e do ensaio.
AMOR & LIMERÊNCIA – […] A limerência pode perdurar por muito tempo alimentada por
migalhas. De fato, o excesso de alimento é talvez a melhor maneira de acabar
com ela. Ela guarda uma semelhança nítida com a situação de ratos e pombos de
laboratório que continuam a pressionar a alavanca ou a bicar o disco mesmo
quando a probabilidade de receber comida como recompensa diminui gradualmente,
de modo que, em média, apenas uma em centenas ou até milhares (no caso de
pombos muito persistentes e velozes nas bicadas) de "respostas"
realmente resulta em recompensa. Quando o animal é confrontado com uma relação
incerta entre suas ações e o funcionamento do mecanismo de liberação de
alimento, obtêm-se resultados notáveis. Mesmo para animais de laboratório, os
elementos-chave parecem ser a dúvida e a esperança. Os jogos de azar comuns
assemelham-se a esse comportamento de laboratório pela persistência
demonstrada, mesmo quando as chances de vitória são mínimas. Talvez, tanto para
as pessoas que vivenciam a limerência quanto para os jogadores compulsivos, o
tamanho do possível prêmio também seja importante. Tanto os jogadores quanto os
indivíduos limerentes encontram motivos para ter esperança em sonhos audaciosos. […] A limerência é, acima de tudo, uma atividade mental. Trata-se
de uma interpretação de eventos, e não dos eventos em si. Você admira, sente
atração física, percebe — ou acredita perceber (ou julga possível perceber sob
condições "adequadas") — um indício de possível reciprocidade, e o
processo é desencadeado. […] Os olhos, como veremos repetidamente, são tão importantes
na limerência que eles, e não os órgãos genitais ou mesmo o coração, podem ser
chamados de órgãos do amor. [...] A despeito de
ideais e filosofias, você se vê como um jogador em um processo que guarda uma
semelhança inquestionável com um jogo. O prêmio não é insignificante; a
reciprocidade gera êxtase. Se ele será conquistado, se será compartilhado e
qual será o desfecho final — tudo isso depende da eficácia de suas jogadas e
das do seu LO; depende, de fato, da habilidade. [...] Uma pessoa que não
vivenciava a limerência, ao conhecer a teoria sobre o tema, sentiu que, embora
a dor da limerência possa ser intensa, não se deve esquecer que aqueles que não
são limerentes também sofrem. Ele expressou seus sentimentos em um poema sobre
a tristeza de ter de encerrar um relacionamento que lhe era caro, pois sua
parceira começara a exigir o impossível em meio à sua limerência. "Sofremos
demais, sabe? Não é fácil abrir mão de um bom amigo. Ver alguém mudar diante
dos seus olhos — de alguém que você sente que o conhece e o ama para alguém
que, de repente, exige o impossível. Como se você não fosse mais você
mesmo." Esse poema revela a intensidade da tristeza que senti diante da
necessidade da separação. Recebi permissão para guardar uma cópia do poema e
mostrá-la a outras pessoas; foi o que fiz. Antes de lê-lo para alguns
entrevistados, eu explicava as circunstâncias em que ele fora escrito. Uma
pessoa limerente, que sofria com a dor da falta de reciprocidade, reagiu da
seguinte forma: "Certo, entendo o que o poema diz e percebo que o autor
realmente não queria que o relacionamento terminasse e tudo o mais. Mas,
francamente, quase desde a primeira linha, minha empatia estava voltada para a
pessoa a quem o poema se dirigia. A pessoa que ouve do parceiro que deve ir
embora, quando seu único 'crime' foi amar". [...]. Trechos da obra Love and Limerence: The Experience of Being in Love
(Rowman
& Littlefield, 1998), da psicóloga estadunidense Dorothy Tennov (Dorothy
J. Tennow – 1928-2007), considerando acerca do amor romântico – o estar
apaixonado, ou apaixonado e a limerência,
que é um estado involuntário, cognitivo e emocional de obsessão romântica por
outra pessoa, marcada por uma necessidade profunda de reciprocidade e
idealização extrema, termo cunhado pela autora em 1979.
O ANO DO PENSAMENTO
MÁGICO - [...] A vida muda num instante. No instante comum.
[...] O luto revela-se um lugar que nenhum de nós conhece até chegar a ele. Antecipamos
(sabemos) que alguém próximo pode morrer, mas não olhamos além dos poucos dias
ou semanas que se seguem imediatamente a essa morte imaginada. Interpretamos
mal a natureza mesmo desses poucos dias ou semanas. Podemos esperar sentir
choque se a morte for repentina. Não esperamos que esse choque seja
avassalador, capaz de desestruturar tanto o corpo quanto a mente. Podemos
esperar ficar prostrados, inconsoláveis, enlouquecidos pela perda. Não
esperamos ficar literalmente loucos — pessoas que mantêm a calma e acreditam
que o marido está prestes a voltar e precisa de seus sapatos. [...] Somos
seres mortais e imperfeitos, conscientes dessa mortalidade mesmo ao tentarmos
afastá-la, traídos pela nossa própria complexidade; somos constituídos de tal
forma que, ao lamentarmos nossas perdas, lamentamos também — para o bem ou para
o mal — a nós mesmos: como éramos, como já não somos e como, um dia, deixaremos
de ser por completo. [...]. Trechos extraídos da obra The Year of
Magical Thinking (Vintage, 2007), da escritora e jornalista estadunidense Joan
Didion (1934-2021), autora de obras como Blue Nights (2011), The
White Album (1979) e Slouching Towards Bethlehem (1968), entre outros.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
MINHA ZONA DE CONFORTO - Conheço seis
línguas – \ todas imperfeitamente. \ Isso significa que crio metade das
conversas, \ construo metade do que leio, \ e esse monólogo interminável é a
garantia da minha felicidade: \ qualquer livro pode terminar do jeito que eu
quero. \ Amo entre as línguas \ e livro meus amantes do incômodo de sussurrar
no meu ouvido \ orações subordinadas românticas complexas: \ eu mesma faço! \ Traduzir
poemas incompreendidos \ toca meu paladar sensível \ como a hospitalidade de um
dono de restaurante. \ Placas de trânsito em línguas estrangeiras \ protegem
minha liberdade de movimento, \ mas, com mais frequência, me dão o direito de
me perder. \ Sempre tenho o privilégio de concordar silenciosamente e sorrir. \
Sempre tenho a opção de não entender, mas continuar sorrindo. \ Não saber não é
um fator atenuante, \ mas, como tudo o que sei são seis línguas, \ todas
imperfeitamente, \ sempre tenho a vantagem de atenuar \ os fatores. Poema poeta,
tradutora e artista armênia, Tatev Chakhian.
Ela linda e nua
cumpriu a danação:
Promessa de
afagos, olhos em chamas, de concha
Fez o que tinha
de fazer: de si para mim,
Nela meu torso contra
seu dorso.







