sexta-feira, dezembro 07, 2007

MANUEL BANDEIRA, TOURAINE, EXUPÉRY, PEDRO NAVA, MANFREDO OLIVERA, DEBORAH DE ROBERTIS, TOLINHO & BESTINHA


TOLINHO & BESTINHA - I - Os dois pariceiros, Tolinho e Bestinha, se espremeram na junta trabalhista para receberem os direitos indenizatórios de oito anos de litígio com uma usina-de-cana-de-açúcar dos cafundós de Judas. Amealharam, com isso, até um montante bom, de chegar a tomarem uma e todas as outras, dois dias encarreados. Pinguçada geral. Queriam tomar de aguardente o que o dinheiro desse. Não era muito, não, mas dava para arrastar o solado do pé por aí. Ainda compraram vestimentas mais decentes de curau numa tolda de feira do mercado; encheram a pança de ficar arrotando aos peidos e ao léu; um retratinho dos santos Cosme e Damião; galocha e uma volta de ouropel, de se embebedarem de novo e aprontarem das suas por horas seguidas, sobrando uns trocados no bolso. Até que mais tarde, mais lavados que jipe ladeira abaixo, as idéias clarearam. - Tô cum vontade de ir em Sumpaulo! - balbuciou Tolinho. - Minino, meu sonho é avoar de avião! - avalizou Bestinha. - Rumbora comprar passage e avoar, bora? - Bora! Se atreparam no cata-côrno e foram pro aeroporto. Chegaram no guichê da companhia e se arrepiaram logo com o valor da passagem. - Eita negócio caro do cão, quage vale mais que vinte anos de trabaio com sol graúdo no toitiço da gente, que incaristia, doido! - Do jeito que a gente vai, num torna de jeito nenhum! Fecharam, pagaram em moeda corrente vigente nacional e quase ficavam por não portarem bagagem alguma. - Ôxe, a gente vai pissiar, meu, vorta já! Trupicaram na escada e quase relam a cara na pista de pouso. Enganchados no comandante, se aboletaram na última fileira de cadeira da aeronave e céu e mar. - Vumo ficar aqui no fundo, que quarqué coisa, nóis inscapole fora! Na decolagem, Bestinha teve uma caganeira revoltosa de incensar tudo. - Inté pareci cá cumida num se deu cum meu bucho! - E se esse bicho se arvorá de cair, tamo frito! - Bota essa boca prá lá, lazarento! Tolinho ficou rezando pros santos de sua predileção. Ôxe, num deu tempo de nada. O avoante despencou pior que tomahawky, dando cabo da vida deles e de outros tantos passageiros numa explosão de sobrar nem cinzas. Foram direto pro céu. - Cagada da pôrra, meu, este bicho cair logo no dia ca gente se asujeita a avoar nele! - É que tu tem pé frio, desgraçado. Boca de praga! Não se entenderam e só se emendaram depois de uns bregues desferidos por São Pedro. - Documentos? - sentenciou São Pedro. - Quis documento, santo? - ironizou Tolinho. - Todos! - Cuma assim? - RG, CIC, título de eleitor, PIS/PASEP, carteira profissional, reservista militar, comprovante de água, luz, telefone, FGTS, fator Rh, exames médicos, seguro-desemprego... - Peraí, Sumpêdo, aqui é o céu ou o cadrastumenti do cartóro inleitorá? -, perguntou Bestinha já decepcionado com a recepção. - Num seria, entonse caixa de banco, não? – interrogou Tolinho, meio que sem jeito. - Ou crediáro de loja ou coisa assim, é? - Bora, bora, passem logo os documentos! - Ô, santo Sumpêdo, o sinhô já viu dizê por um acauso que boia-fria e faz-tudo qui só aveve de bico andá endecumentado assim, é? Impasse brabo. Tanto fizeram que sacaram dos bolsos uma CTPS já desmanchando, o título de eleitor rasgado, o RG desbotado, restinho da grana, hem hem, tudo caindo em bandas, deteriorados de dar trabalho pro porteiro juntar aquelas tranqueiras todas em estado mais que deplorável num documento só. - Preenche aí o formulário de solicitação! - mandou o santo. - Cuma é, mermo? Espia só que astuça desse home. - Vamos, se quiserem entrar no céu tem que preencher! Apertaram os dedos, agarraram o lápis e saíram desenhando por horas os garranchos no papel. São Pedro quase teve um troço quando foi conferir a seboseira. Aí o santo achou por bem relevar nas formalidades e partiu pra conferência dos pecados deles. Deu-se o maior arrepio na cabeça do porteiro ao constatar que todos os mandamentos e todos os pecados capitais eles já haviam infrigido. A serasa do céu pocou na hora com as léguas de restrições. - ...Inadimplentes no mercadinho, na farmácia, armarinho de miudezas, ora, com uma folha corrida dessas, vão pro inferno! - Pronto, Bestinha, agora vamo tostá nas presepas do diabo!
Defenestrados dali, estavam eles assando nas profundas do inferno, sem saber o que podiam fazer. - Quem é? - perguntou o endiabrado. - Sumo nóisis, eu e Bestinha! - Valei-me santo demoníaco, bota esses dois prá lá que querem me destronar! Foi um corre-corre da pêga de estornarem os dois a ficar entre o céu, o inferno e o purgatório, sem poder adentrar em nenhum dos três. E agora? O diabo com medo que eles golpeassem o estado, fez um acerto de contas: - Vocês voltem pra terra, que lá ainda tem muita confusão por se fazer!! - Craro, a gente num pode é ficar aqui no osso do mucumbú, sem saber pronde s adiantar! - reclamou indignado Bestinha. - Ôba, vumo azucrinar os vivente mole de novo? - festejou Tolinho. - Êpa, maisi prá disgrama de vida da gente, num vorto forma nenhuma! - embirrou Bestinha.
- Isso mermo, só so santo ruim aí, dé umas cumpensação! - O quê, por exemplo! - Vida boa, mulé boa, dinheirama e foiga pra gente se infincar de nunca mais querê vim pru cá. -, passou a régua, Tolinho. - Isso mermo! - afiançou Bestinha. - Tá certo, mas vocês quando chegarem na terra tem que dizer que eu sou o bom e que o céu é ruim. - Homi, seu minino, fechado! Meiór qui issos, só dois diussos, oxente bichim! - Jurado com as cruizis na boca por palavra de home! - S imbora, curau! Pois é, estão ralando até hoje na catação do lixo, no maior revestrés de vida, reclamando da charlatanice do diabo e da chatice de São Pedro. - Quar qui é a diferencia do paraíso pro inferno? - Nóisis inda vumo ser rico, se vamo! Tirá o pé da merda, mesmo! - Nóisis tumém sumo fio de Deus, num sômo? - Sômo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


A arte da artista performática e fotógrafa Deborah De Robertis. Veja mais abaixo.

  

PENSAMENTO DO DIASó se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Extraído da obra O pequeno príncipe (Agir, 1979), do escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944). Veja mais aqui e aqui.

O HOMEM EM PROCESSO - [...] O homem experimenta o seu próprio ser como um eterno advento; isto é, como algo diante dele, que deve ser buscado, realizado. Sua existência se manifesta, assim, não simplesmente como um fato, mas como uma tarefa, como uma permanente interpelação a ele mesmo. Nesse sentido o homem é um ser de passagem, um ser em constante fazer-se, um vir-a-ser, um processo [...]. Trecho extraído da obra Tópicos sobre dialética (EDIPUCRS, 1996), do filósofo e professor Manfredo Olivera.

MODERNIDADE – [...] nós vivíamos no silêncio, nós vivemos no baruilho; nós estávamos isolados, nós estamos perdidos na multidão; nós recebíamos muitas poucas mensagens, nós somos bombardeados por elas. A modernidade nos arrcancou dos limites estritos da cultura local onde vivíamos; ela nos jogou igualmente na liberdade invidual como na sociedade e na cultura de massa. [...] Extraído da obra Crítica da modernidade (Vozes, 1995), do sociólogo francês Alain Touraine. Veja mais aqui.

BALÃO CATIVO - [...] As estações apinhadas vinham disparadas, em direção oposta. Mal se lhes podia ler o nome. Quintino, Piedade (Saudade!). encantado, Engenho de Dentro, Todos os Santos e de repente a palavra Méier – de cinco pontas como a estrela apagada da vida de meu Pai. Ali ele tivera a Farmacia Nava e depois trabalhara na delegacia de saúde que acabara coma dele... Méier, Méier, Méier. Fui derretendo na boca, repassando a bala do vocábulo – Méier, Méier, meiermeiermeier meier Méier – atré ficar só com seu travo acídulo, só com seu som e dele varrer qualquer sentido intrínseco. Abrindo apenas os caminhos das associações abstratas. [...] Extraído de Balão cativo (José Olympio, 1973), do escritor e médico brasileiro Pedro Nava (1903-1984), Veja mais aqui.

LITERATURA DE CORDEL - Ante-ontem, minha gente, / fui juiz numa função / de violeiros do Nordeste / cantando em compateição. / Vi cantar Dimas Batista, / Otacílio, seu irmão. / Ouvi um tal de Ferreira, / ouvi um tal de João. / Um a quem faltava um braço, / tocava Cuma só mão; / mas, como ele mesmo disse, / cantando com perfeição, / para cantar atinando, / para cantar com paixão, / a força não está no braço, / ela está no coração. / Ou puxando uma sextilha / ou uma oitava em quadrão. / Quer a rima fosse em inha, / quer a rima fosse em ao, / caiam rimas do céu, saltavam rimas chão! / Tudo muito bem medido / no galope do sertão. / A Eneida estava boba, / O Cavalcante, bobão, / o Lúcio, o Renato Almneida; / enfim toda a comissão. / Saí dali convencido / que não sou poeta, não; que poeta é quem inventa / em boa improvisação, / como faz Dimas Batista / e Otacilio, seu irmão; / como faz qualquer violeiro / bom cantador do sertão, / a todos os quais, humilde,  / mando minha saudação! Poema do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968), extraído da Antologia ilustrada dos cantadores (Fortaleza, 1976), organizada por Francisco Linhares & Otacílio Batista. Veja mais aqui.


A arte da artista performática e fotógrafa Deborah De Robertis. Veja mais aqui.



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