PIRANGI - A mulher tem uma presença
marcante na minha vida. Claro, sempre fui rodeado de mulher por todos os lados.
E Pirangi me traz essa sensação de mulher presente sempre, relembrando das
tardes fagueiras da adolescência na sua pedraria e acompanhado das mais doces
companhias que me proporcionaram momentos inesquecíveis. Desde pirrotitinho,
quando me entendi por gente, que a mulher me fascina. Fizesse o que
traquinasse, havia sempre uma para me socorrer. Se fosse um baque
destrambelhado, alguma corria para alentar. Hora de dormir, sempre uma dela
para acalentar. E eram tantas, aos montes, minha casa sempre foi florida de
belas mulheres, que minha mãe nem se preocupava, vez que no meu domicílio
sempre transitavam tias, primas, vizinhas, afilhadas, comadres, e eu sozinho no
meio da mulherada, todo ancho e cheio da pacutia. Até nisso fui sortudo: nasci
no meio de três irmãs. Eu sozinho, no meio delas. Uma penca de tias. Um bocado
de madrinhas. Muitas comadres. Meio mundo de vizinhas. Pois é, a minha libido
fazia festa. Era louco por seios volumosos - vixi, visse não, ficava com a boca
cheia. Outra: quando via um pandeirão, meus deusesinhos, bunduda morava na
minha simpatia. Quanto mais graúda, melhor. Isso porque minha família era tudo
tamborete de zona. E quando via uma esbelta, peituda, volumosa e vitaminada, nossa,
eu endoidava o quengo e só sossegava depois de me ver embalado no meio dos seus
seios em falso choramingado por qualquer maleita inexistente. De manhã mesmo eu
fugia para a beira do rio, vê-las lavar panos e pratarias. A roupa molhada, as
saliências transparentes, tudo pregado no corpo, ficava bisbilhotando deliciado
com as formas generosas delas. Isso no Rio Una ou Pirangi. Em Pirangi era
melhor, para lá iam enamoradas, quengas, destrambelhadas. Os pederastas,
bandidos e desvalidos também estavam por lá. E eu no meio. Era um local um
pouco distante da cidade, só de acesso pela rodagem das usinas de
cana-de-açúcar. Dia sim, dia não, eu escapulia atravessando a cidade até chegar
às pedrarias de Pirangi, só retornando para casa, lá pela boquinha da noite
para aguentar os esporros da mãe que estava aflita por me procurar em todos os
lugares possíveis e imagináveis. Ôxe, Pirangi me deixava doido: o rio, as
pedras e o matagal. E muita mulher. Quando me apertava, escolhia uma moita e lá
me satisfazia. Ou cagada, ou mijada, ou punheta braba, o mato escondia a gente.
A água era rasa, nunca fui bom nadador. Eu atravessava as cachoeirinhas,
várias, até alcançar o outro lado da margem. E ficava, de lá para cá,
procurando cenário atraente: mulheres em vestes sumárias, seminuas com
exposição de seus seios, suas coxas, intimidades. Muitas meninotas, moçoilas,
matreiras e reboculosas timbungavam com suas vestes que não resistiam ao
contato com a água e logo se soltavam deixando nudez exposta. As que não possuíam
biquínis mergulhavam mesmo de caçola e sutiã mesmo e a cada imersão, uma ou
outra ficava completamente despida. Muitas perdiam suas vestes quando emergiam,
e eu só de tocaia para flagrar a nudez da sorteada. Isso era coisa para menino
presepeiro ver. Enchia a vista arregalada. Um dia lá, já adolescente
responsável, casado de cedo, cheio das manhas de homem maduro, estacionei o
carro na beira do rio para esfriar o quengo inchado com algumas atividades
profissionais que já desenvolvia precocemente. Queria fugir da pressão da
escola e do trabalho. Desparecer. Peguei o violão na mala do carro e fiquei
dedilhando, sentado na grama de uma das margens. Nem percebi a presença de uma
morena faceira testemunhando meu lamento nos acordes. Dos pés dela, fui
levantando a vista: em pé, geografia perfeita, enxuta, contornada e bela. Os
olhos castanhos vivos. Acocorou-se e me disse: - Me dá um cigarro! Se você me
der eu deixo você amar em mim. Tive um susto. Fitei-lhe e não me contive.
Peguei do maço e passei-lhe com o isqueiro aceso. Ela sentou-se ao chão e ficou
tragando lentamente e olhando para mim com os olhos mais pidões que poderia já
ter visto na vida. Na minha timidez continuei solfejando algumas canções
enquanto flagrava seu olhar pregado em mim. Ah! Pirangi... "... mas aqui estou e quero abraçar suas pedras,
sua ponte, mergulhar em você e ficar...", cantarolava a canção que o
Célio Carneirinho e o Marko Ripe, dois amigos meus, haviam feito. A ternura
daquelas paragens sempre me fazia rever o acolhimento de mãe, a entrega da
mulher, o carinho da filha, o desabrochar da moça e o calor da vida. Mesmo
sendo um rio, parecia que ali havia sempre o encanto anímico de uma aura fêmea
no ar. Até o vento lufava um incenso feminil que me encantava. Um encanto que
sempre quis mergulhar. E mergulhei fundo lavando a jega. (Luiz Alberto
Machado). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
Imagem: A arte do pintor russo
Konstantin Razumov.
Curtindo Inori
à Prostituta Sagrada (1993
- Tratore, 2009), da compositora, pianista e escritora Jocy de Oliveira. Veja mais aqui.
EPÍGRAFE: DESDE ANTANHO PARA APRUMAR A CONVERSA - Faz-se bastante conveniente trazer o pensamento de Marcus Túllius Cícero (106-43 a.C.), o maior dos oradores e pensadores políticos romanos: “Quando, numa cidade, dizem alguns filósofos, um ou muitos ambiciosos podem elevar-se, mediante a riqueza ou o poderio, nascem os privilégios de seu orgulho despótico, e seu jugo arrogante se impõe à multidão covarde e débil. Mas quando o povo sabe, ao contrário, manter suas prerrogativas, não é possível a esses encontrar mais glória, prosperidade e liberdade, porque então o povo permanece árbitro das leis, dos juízes, da paz, da guerra, dos tratados, da vida e da fortuna de todos e de cada um; então, e só então, é a coisa pública coisa do povo”. Veja mais aqui e aqui.
FAMÍLIA: MODELO
EUDEMONISTA
– No livro Curso de Direito de Família
(Juruá, 2000), de José Lamartine Corrêa de Oliveira e Francisco José Ferreira
Muniz, encontro que: A família
transforma-se no sentido de que se acentuam as relações de sentimentos entre
membros do grupo: valorizam-se as funções afetivas da família que se torna
refugio privilegiado das pessoas contra a agitação da vida nas grandes cidades
e das pressões econômicas e sociais. É o fenômeno social da família conjugal,
ou nuclear ou de procriação, onde o que mais conta, portanto, é a intensidade
das relações pessoais de seus membros. Diz-se por isso que é uma comunidade de
afeto e entreajuda. Tem-se, pois, que o modelo de estrutura familiar
consagrado pela Constituição Federal de 1988 é chamado de eudemonista, ou
nuclear, baseado na ideia de núcleo da célula-mater, a saber, filhos e pais,
destoando do modelo oitocentista que englobava todos os ascendentes vivos,
colaterais e, em alguns casos, até mesmo os criados domésticos. Veja mais aqui
e aqui.
CARNEIROS DE
PANÚRGIO –
Os carneiros de Panúrgio aparecem numa passagem do Pantaguel, de Rabelais, um dos pseudônimos do jornalista e
romancista pornógrafo português Alfredo Gallis (1859-1910), contando que
Panúrgio ia num navio cheio de carneiros e, sem dizer palavra, atirou à água um
deles, que balia e assim chamava a atenção dos demais. Logo, os outros, balindo
com igual entonação, começaram em fila a saltar a amurada e se atirar na água,
seguindo o companheiro. Era impossível detê-los. Porque o natural dos carneiros
é seguirem todos o primeiro, a qualquer parte onde vá. Aplica-se muito o
episódio à política, em que não raro há Panúrgios que habilmente encaminham a carneirada
no sentido dos seus desejos. Veja mais aqui e aqui.
HAICAIS – Entre os poemas do poeta, artista plástico e ator
catarinense Tchello D´Barros,
destaco os seguintes haicais: I – o rio leva o galho / passeando de carona /
vai um passarinho. II – luz do sol na
teia / pequenina tecelã / tece fios de ouro. III – violetas azuis / esta tarde não passou / em brancas nuvens. IV – brilha o sol no orvalho / porque chorou essa
bromélia? / lágrimas do céu V – floração
do ipê / borboletas amarelas / dançando ao vento. Veja mais aqui, aqui e
aqui.
VASSAH, A DAMA
DE FERRO – Em
2001, tive oportunidade de assistir no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, à
montagem da peça teatral Vassah, a Dama de Ferro, do escritor e dramaturgo russo Máximo
Gorki (1868-1936), com direção de Alexandre de Mello, contando a história
da ganancia suicida das elites russas às vésperas da revolução que acabaria com
este mundo de riqueza e prepotência. Vassah é a mulher dura que herdou uma
companhia de navegação e trata funcionários e parentes como objetos. O destaque
é para a atriz, diretora, escritora, dramaturga e produtora gaúcha Ítala
Nandi. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e
aqui.
INTIMIDADE – O premiado filme Intimidade (2001), do realizador francês
Patrice Chéreau, é baseado
na obra do anglo-paquistanês Hanif Kureish e conta a história de um casal que
tenta viver uma relação exclusivamente voltada para o sexo, em encontros
semanais. Um dia, a mulher não aparece e a trama toma outros rumos. Esse casal
que vive uma relação passional e encontram-se todas as tardes de quarta-feira
por um único motivo: sexo. Fazem sempre o mesmo ritual: despem-se, fazem amor,
vestem-se e partem sem dizer uma só palavra. Sentem-se sempre um pouco
embaraçados, mas nada têm a dizer um ao outro e também nada sabem sobre a vida
de cada um. Um dia, ele decide conhecer melhor sua parceira. Segue-a e descobre
que ela é uma atriz, casada e com um filho. O seu marido é um simpático
taxista, com quem ele faz amizade. Ao saber do fato, ela desaparece, mas ele não
se conforma e parte no seu encalço. O destaque do filme vai para a atriz
neozelandesa Kerry Fox. Veja mais aqui.
IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia
da atriz neozelandesa Kerry Fox
Veja mais Lima
Barreto, Dario Fo, Cibercultura, Luigi
Pirandello, Bigas Luna, Ana Terra, Paul Simon e Art Garfunkel, Rui Carruço, Consuelo de Paula, Tracey Moffatt, Aitana
Sánchez, Juareiz Correya & Regine Limaverde aqui e aqui.
CRÔNICA
DE AMOR POR ELA