segunda-feira, julho 18, 2011

MAX JACOB, IAN MCEWAN, EVE ARNOLD, DIA BRANCO & LITERÓTICA

 

A arte da fotógrafa e pioneira fotojornalista estadunidense Eve Arnold (1912-2012).

 

 DIA BRANCO – Imagem: art by Ísis Nefelibata - Estava eu desamparado de tudo quando saí pra vida e ela surgiu sussurrando lindo o “Dia branco”. Minha alma Geraldinho Azevedo logo se arrepiou, entregou os pontos e embalamos coro no palco da vida. Era o amor. Bastou uma centelha, nada mais. Apenas, um riso de mulher. E tudo ficou sendo como se eu tivesse acabado de ser parido: eu nasci entre um rio e um sorriso de mulher. Nada melhor para me recolocar na vida saindo do negrume desalmado da indiferença para alcançar a esperança real. Aí cantamos e nos embalamos na noite imensa quando beijei seus olhos de dias infindos. Foi quando percebi seus braços quase véus divinos de todas as estrelas do universo, me enlaçando o pescoço para levar meus lábios até seus lábios ardentes e feitos de rios que nos levam caudalosos pelas corredeiras mais distantes de tanto se entregar. E nos beijamos imensamente como se a vez fosse para redimir todas as minhas dores e remediar todas as minhas cicatrizes abertas e chagadas, sarando tudo ao mais leve eflúvio do encanto altaneiro de um beijo de mulher. E nos abraçamos inteiramente entregues um ao outro sem jamais dar conta de nada nem de nós que estávamos à beira extrema da paixão irremediável que clamava por nós todos os nossos fôlegos de acrobacias e danças. E nos envolvemos inteiros até que lhe lambi as faces, mordi-lhe a carne do ombro, pescoço, seios, troncos e lhe lambuzei os ductos até saltar-lhe o umbigo e me embrenhar na sua selva pubiana e sobejar suas águas e me fartar do seu pote de todos os sonhos de amor. E nos sorvemos um ao outro como se jamais pudéssemos saciar nossas vontades e a nos travar definitivamente pela loucura de estarmos servos mútuos e perenes prontos para que dali criássemos um mundo possível de viver. Foi quando gozamos o mais impossível de todos os gozos até nos extasiarmos de estarmos vivos e prontos para viver além da própria vida. E compartilhamos e dividimos e nos entregamos. Agora só quero quem me quer. . © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS: A mulher é um mutante. Não somente porque oscila, em hormônios e humores, mas porque é um dos poucos seres capazes de transfiguração sem jamais atingir uma forma definida. Pensamento da jornalista Kika Salvi (Bravo, abril 2007), autora do livro Mulher à moda antiga: um olhar de holofote sobre os relacionamentos (DVS, 2007), realizando uma espécie de viagem cheia de aventuras e mostrar que, na essência, a aventura do percurso pode ser mais encantadora do que o destino final, abordando, portanto, por meio de um conjunto de crônicas, os relacionamentos de forma geral, num contexto contemporâneo, moderno, e bem humorado, contando ainda com uma boa dose de sentimentos. Kika faz uma meticulosa, apaixonada e descarada especulação sobre o amor e o sexo nestes tempos de individualismo imperativo.

 

ALGUÉM FALOU: O evangelho da popularidade alcançou tal ponto nesse mundo de cabeça para baixo, que qualquer um, poderoso ou renomado, torna-se um bajulador diante da possibilidade de ser impopular. A internet é um universo paralelo que raramente se cruza com outras esferas da vida, fora dos seus parâmetros defensivos. Pensamento do escritor e crítico cultural estadunidense Lee Siegel, autor do livro Against the machine: being human in the age of the eletrônica mob (Contra a máquina - sendo humano na era da turba eletrônica - Spiegel & Grau, 2008), que é um libelo contra a internet e inovações tecnológicas em geral.

 

SERENA - [...] Meu nome é Serena Frome (a pronúncia é Frum) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta do Serviço de Segurança britânico. Eu não voltei em segurança. Um ano e meio depois de entrar fui despedida, depois de ter caído em desgraça e acabado com a vida do meu namorado, embora ele certamente tenha tido um pouco a ver com sua própria queda [...] Mas eu perdi a virgindade no primeiro semestre, varias vezes seguidas, parecia, já que na época todo mundo adotava um estilo caladão e desajeitado, e tive uma agradável sucessão de namorados, seis ou sete ou oito ao longo dos nove semestres, dependendo das definições de carnalidade que você considera. Eu fiz um punhado de boas amizades entre as mulheres do Newnham. Joguei tenis e li livros. Totalmente graças a minha mãe, eu estava estudando o assunto errado, mas não parei de ler. Eu nunca tinha lido muita poesia ou pecas de teatro na escola, mas acho que os romances davam mais prazer a mim que aos meus amigos da universidade, que eram obrigados a suar para dar conta de ensaios semanais sobre Middlemarch ou Feira das vaidades. Eu passava correndo por esses mesmos livros, jogava conversa fora sobre eles, talvez, se houvesse alguém por ali que conseguisse tolerar o meu nível básico de discurso, e ai seguia em frente. Ler não era o meu jeito de pensar em matemática. Mais que isso (ou será que eu quero dizer menos?), era o meu jeito de não pensar. [...]. Trechos extraídos da obra Serena (Cia. das Letras, 2012), do escritor britânico Ian McEwan. Veja mais aqui.

 

MEDO - Têm um riso pavoroso. Descem da montanha aos gritos. Parecem estar bêbedos, mas não estão. Tento correr. Sei que é impossível. O pior! É o fim do mundo! Estes homens negros e mascarados! o último suplício: aqueles que resistiram (como se pode morrer ainda mais?) serão mergulhados em água a ferver. E nem uma única recordação consoladora. Acordem-me deste sono de suor e morte. Acordem-me antes que adormeça. Poema do escritor, pintor e crítico francês Max Jacob (1876-1944).

 


MAMULENGO - Quem vai passando arrepare, quem já parou, atenção / Eis que é chegada a hora de ouvir com emoção / História de amor e guerra / Trazidas lá de uma terra da nossa imaginação / É uma terra sem fronteiras de nome São Saruê / Que a procura não acha/quem mais olha menos vê / Que não existe nos livros nem nos mapas / Mas vou mostrar pra vocês – Vila Mamulengo – OlhoD’Água Alexânia – GO – [...] Existia numa fazenda no interior do Estado de Pernambuco, um senhor de muitos escravos. Ele era rústico, perverso para seus escravos. Quando um deles adoecia, mandava matar e ficava tão somente com os escravos que gozavam de perfeita saúde, porque dizia ele: ‘Escravo doente não dá produção’. E entre outros existia um preto [...] de nome Tião. Por ele chegar atrasado um dia no serviço, o seu senhor chamou sua atenção dizendo: -Por que chegasse tão atrasado? Ele disse: -Senhor, cheguei atrasado porque Maria, minha mulher recebeu a visita da cegonha. Então o senhor lhe diz: -Negro imbecil, quem recebe visita da cegonha é a minha esposa, não a tua negra. A tua negra recebe, sim, a visita de um urubu. O negrinho ficou chocado, mas reclamou:-Senhor, não é possível, também somos humanos.-Tu já sabes falar, não é? Vais ser barbaramente açoitado para que sirva de exemplo para os outros.Então bateu no negro e botou no tronco. À noite, quando o negro chegou na senzala e justamente no lugar dormia, começou a lamentar a situação e dizendo para os outros: - O senhorzinho não parece ter aquilo que nós temos detrás do peito e que se chama coração. Parece que dentro do peito dele tem uma pedra. Até a cara dele é de pau. Mais do que depressa, o preto praticamente esculturou uma figura, envolvendo em trapos, atravessando uma esteira na porteira da senzala, começou fazendo tudo o que o patrão fazia ao correr do dia dele:-Vai, negro vadio, trabalha, negro é como porco, mata-se um, encontra-se outro.No meio dele tinha um preto que era muito chaleira. Correu à casa-grande e disse: -Senhor, Tião está mangando do senhor, fazendo tudo o que o senhor faz com ‘nóis’ no dia.Ele então veio e disse:-Vou dar-lhe um castigo. Apanhou um bruto chicote, ‘chega’ na porta da senzala ficou apreciando o resto da história do preto. Quando viram o senhor, ajoelharam-se, curvaram-se respeitosamente, pediram piedade:-Senhor, não fui eu, foi Tião. - Tião, como falasse a verdade vai ser perdoado. Todos aqueles que falavam a verdade merecem perdão. Volta ele para a casa-grande onde encontrou a sua esposa. Então ela disse para ele: - Não sois tão ‘bravio’, tão corajoso, então por que deixas que um negro mangue de ti? Ele, chocado com aquilo, no dia seguinte disse a Tião: - Tião, agora você vai fazer o mesmo que fez comigo com a sua sinhá. - Senhor, o senhor tem um coração perverso e a minha sinhazinha tem pior. É fácil dela me mandar matar. - Quem manda aqui sou eu. Escultura. Ele fez a escultura e começou novamente no outro dia. Fazia a mesma coisa. O negro saiu de entre os outros e foi avisar a sua sinhá: - Sinhazinha, Tião agora tá fazendo a mesma coisa com a senhora. Ela levanta-se e diz: - Tu não bateste nele, mas eu vou bater. Entra, então ele apanha ela pela mão e diz: - Não. A cumieira sou eu, você fala depois. Volte, descanse. No outro dia o administrador censurou os dois. Então o negrinho levantou-se do mesmo canto e foi dizer. Acontece que o negro foi justamente o pivô dessa situação. O administrador quis bater, mas não foi possível. Então o patrão veio e disse: - Tião, de hoje em diante tu continua com essa pequena diversão, uma vez que depois do teu trabalho, cansado, tu nada tem o que fazer e nem tem diversão nenhuma. Continua com esse mamulengo. Tião, contente com aquilo, continuou todos os sábados fazer o mamulengo nessa cidade. E daí começou o mamulengo nordestino. Esse conto tem bastante aceitação, e, certamente, essa história foi repetida várias vezes, com mudança de detalhes, mas mantêm a originalidade. Assim sendo, a brincadeira do mamulengo se espalha e encontra espaço em várias cidades do Estado de Pernambuco. [...]. Trechos extraídos da obra Fisionomia e Espírito do Mamulengo (Inacen, 1987), de Hermilo Borga Filho. Veja mais aqui e aqui.

 


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Leitoras comemorando a festa Tataritaritatá!
Art by Ísis Nefelibata.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
 Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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sábado, julho 16, 2011

TERESA WILMS MONTT, EDWIDGE DANTICAT, SCHURÉ, NINA BAWDEN, BALTHUS, SATYRICON DE PETRÔNIO & ARTE-TERAPIA

 


O real não é o que você acredita ver, e é possível ser realista do irreal e figurativo do invisível.

A arte do artista plástico francês de origem polaca Balthus (Balthasar Klossowski / 1908 – 2001) Veja mais abaixo.

 


REENCONTRO MARCADO - Estou só, extremabsolutamente só e não é a primeira vez. Ouço passos que vão&voltam, não sei de quem, nem consigo enxergar ninguém. Só os passos e, ao longe, choros, motores, estalidos, sirenes, frenagens, buzinas - é a noite e et cétera. A vida passa, a terra gira e a cabeça tonta: rodamundo paisagens na escurimaginação. Tudo pira ao que parece jamais saber, porque os dias seguem unsaosoutros e retornam irrazão viva: são manhãs pelas noitardes e noitoutras mesmanhãs e não sei quantempespaço. Hoje não sei bem se segundesabada ou sextatônita, terçou a dominguante, quartanta ou sabadormente, quinterminada seria qual mês de incertano, nem data de calendário. Não há hora exata, moto contínuo. Segundos são horas de minutos e semanas dos meses de anos décadas e séculos. O tempo passou, não sei se vivo o presente ou o que será, se o que passei ainda revivo e o que virá fossontagora. Sinto cheiro do passado em tudo, ouroboros. O futuro é o que acontece nestexato momento, como se antevisse e já não mais. Só me resta a janelaberta deste quarto exclusivo: noitalta e a solidão dominando o negrumafora. O que faço ou não, já fiz. O que farei parece já ter sido feito, de mesmo. E não há nada para contar de quem passa ou chegou, ou se veio e já se foi, de quem não está mais aqui e o que resta depois de tudo que ainda não sei se tido ou havido, ademais perdido quando não é, será. Distingo estrela viva no céu e ela escurece: distante movimento serpenteia. Vai prum lado e, depois, proutro, dá para sentir que se aproxima, talvez não: que seria aquele vaivém, vindo assim, do nada e não identificável: nada do que já tivesse visto antes ou depois. Vem para cá, sim, está vindo na direção daqui. Sim, vem. Só tenho a parede no fundo do quarto, desprotegido e só, irreconhecível, completamente ignorado. Ih! Não passou, dá pra sentir em algum próximo recôndito. Algo respira nas cercanias. É algo extraordinário, monstruoso, isso eu já sei. Não dá para raciocinar, coração nos pés, lívido, trêmulo, não era sonho, creia-me. É real, é só o que sei atônito e cônscio e nem sei o que fazer por precaução, nem como evitar. Finis Ab Origine Pendet. E uma linda mulher despida e encostada na parede, curvada sobre o ombro direito, cabelos longos cobrindo-lhe os seios, os olhos amendoados realçando os lábios salientes entreabertos, as faces róseas combinando com a brancura angélica de sua pele corporal, as mãos cruzadas sobre o ventre, a perna direita apoiada sobre a ponta do pé e o joelho esquerdo e se mantinha serenamente quieta, imperturbável, acompanhando minha movimentação. Deixei-me levar. Depois de um longo tempo me vi entre luzes, cores, sons estranhos e imagens distorcidas; abri os olhos e era outro panorama, ela não mais ali, fiquei só, não sei onde estou e meu rumo nenhum a prumo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS - O maior dos males é a morte aprisionada e petrificada no gelo do egoísmo, do qual resulta a anarquia universal e a destruição pelo ódio. Pensamento do filósofo, escritor e dramaturgo francês Édouard Schuré (1841-1929).

 

ALGUÉM FALOU: Nunca achei que ser mulher fizesse a menor diferença - embora haja uma sensação de que, à medida que você envelhece, não é tão interessante. Pensamento da escritora britânica Nina Bawden (1925-2012).

 

AS SETE FUNÇÕES DA ARTE – [...] Somos ruins para lembras as coisas. [...] Escrever é a principal reação aos efeitos dos esquecimentos; a segunda é a arte. [...] A arte nos ajuda a cumprir uma tarefa de importância central na vida: conservar as coisas que amamos depois que elas partiram. [...]. Trechos extraídos da obra Arte como terapia (Intrínseca, 2014), de Alain de Botton e John Armstrong, tratando sobre metodologia, amor, natureza, dinheiro, política e para que serve a arte, arte como instrumento e muito mais, enumerando as sete funções da arte como sendo: rememoração, esperança, sofrimento, reequilíbrio, compreensão de si, crescimento e apreciação. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

KRIK? KRAK! – [...] Noutra noite sonhei que havia morrido e ido para o céu. Este céu não era nada daquilo que esperava. Era no fundo do mar. Havia estrelas-do-mar e sereias ao redor de mim. As sereias dançavam e cantavam em latim como fazem os padres durante as missas nas catedrais. Você também estava comigo, lá no fundo do mar. Você estava com sua família, meio que de lado. Seu pai estava agindo como se fosse melhor que qualquer um e estava de pé em frente a uma gruta do mar tampando você de minha visão. Tentei conversar com você, mas cada vez que abri minha boca, só saíam bolhas de água. Nenhum som. [...] do lugar de onde fico debaixo da figueira, vejo as montanhas, e atrás daquelas montanhas há mais montanhas ainda. tantas outras montanhas que são nuas como as rochas. sinto como se todas as montanhas estivessem me empurrando para mais e mais distante de você. [...] O que você está escrevendo aí? Beatriz perguntou, espiando o caderno de Papi. Estou tentando escrever o que me lembro de minha vida. [...] você quer saber o que estou escrevendo para meus netos. Comecei com o meu nascimento no porto de Valência. Meu pai era um padeiro lá. Há momentos que ele dava pão para todos no nosso um quarto de nada. Eu era seu único filho, mas ele não me deixava comer antes que os outros tivessem comido. Ele viveu até seus noventa anos de idade para simplesmente ser morto nessa guerra maligna. [...]. Trechos extraídos da obra Krik?Krak! (Vintage, 1996), da escritora haitiana Edwidge Danticat, reunindo contos ligados por planos semelhantes de luta e sobrevivência na comunidade haitiana.

 

AUTO-DEFINIÇÃO - Eu sou Teresa Wilms Montt / e embora eu tenha nascido cem anos antes de você, / minha vida não era tão diferente da sua. / Eu também tive o privilégio de ser mulher. / É difícil ser mulher neste mundo. / Você sabe disso melhor do que ninguém. / Vivi intensamente cada respiração e cada momento da minha vida. / Eu destilei mulher. / Eles tentaram me suprimir, mas não conseguiram comigo. / Quando eles viraram as costas para mim, eu virei meu rosto. / Quando eles me deixaram sozinho, eu dei companhia. / Quando eles quiseram me matar, eu dei vida. / Quando eles quiseram me trancar, procurei a liberdade. / Quando eles me amaram sem amor, eu dei mais amor. / Quando tentaram me calar, gritei. / Quando eles me bateram, eu respondi. / Eu fui crucificado, morto e enterrado, / para minha família e sociedade. / Eu nasci cem anos antes de você / no entanto eu vejo você igual a mim. / Eu sou Teresa Wilms Montt, / e eu não sou adequado para mulheres. Poema da libertária escritora chilena Teresa Wilms Montt (1893-1921), precussora do anarcofeminismo com sua rebeldia diante dos valores burgueses da sociedade, o que levou a ser internada à força em um convento, conseguindo fugir com a ajuda de Vicente Huidobro, para tentar ser enfermeira durante a primeira grande guerra, sendo então confundida e aprisionada como espiã alemã.

 

A arte do artista plástico francês de origem polaca Balthus (Balthasar Klossowski / 1908 – 2001). Veja mais aqui e aqui.

 


SATYRICON DE PETRÔNIO

[...] Os jovens, quando se iniciam no tribunal, julgam-se transportados para um novo mundo. O que faz de nossos estudantes mestres tão idiotas é que tudo quanto vêem ou ouvem nas escolas não lhes oferece nenhuma imagem da sociedade. Em tais escolas, castigam incessantemente os ouvidos dos meninos com piratas emboscados no rio, preparando cadeias para seus prisioneiros; com tiranos cujos bárbaros decretos condenam os filhos a decapitar os próprios pais; com oráculos que, para salvar cidades devastadas pela peste, determinam a morte de três jovens virgens. É um verdadeiro dilúvio de frases melosas, agradavelmente arranjadas – ações e discusos, tudo é salpicado de sésado e dormideira.

[...] Um cozinheiro tem sempre o cheiro de cozinha.

[;;;] a verdadeira eloqüência não conhece o exagero. Simples e modesta, eleva-se com naturalidade, tornando-se bela graças apenas a seus próprios encantos.

[...] Não há mais um só poema onde brilhe o bom gosto; todos esses abortos literários se assemelham a insetos que nascem e morrem no mesmo dia.

[...]

Onde o ouro é todo-poderoso, de que servem as leis?
Se não tem dinheiro, o pobre perde seus direitos.
O cínico, que é tão frugal e severo em público,
Secretamente negocia com a verdade.
Até mesmo Têmis se vende e, em seu tribunal,
A balnça pende conforme o vil metal.

[...] Quem carrega um bezerro, agüenta um touro.

[...] e teria apanhado com os dentes um óbolo num monte de esterco. [...] Fugir de seus parentes é fugir de si mesmo. [...] mas tudo é muito fácil para as pessoas que não encontram obstáculos pela frente.

[....] chego a pensar que já estou em jejum há mais de um ano. Malditos sejam os edis, que estão em conluio com os padeiros, dizendo uns aos outros: Ajuda-me que eu te ajudarei! Com isso, sofre o povo miúdo, enquanto os tubarões nadam na abundância. [...] Os pães de hoje, ao contrário, são menores do que um olho de boi. Neste país, meus amigos, as coisas vão de mal a pior. Pode ser que tudo cresça, mas como a cauda de um bezerro: para baixo. Isto, porém, não deve surpreender: nosso atual edil é um homem de nada, que venderia nossa vida por qualquer ninharia. Em sua casa há a maior abundância. E não podia deixar de ser assim, pois ele ganha por dia o que as pessoas não conseguem amealhar nem durante a vida inteira. Poderia narrar aqui um negocio no qual ele ganhou mil moedas de ouro. Mas, se tivéssemos sangue nas veias, as coisas não continuariam desse modo. Acontece que nosso povo, hoje em dia, não passa disso: em casa, são bravos como leões; na rua, covarde como ovelhas. [...] Acredito que tudo isso acontece pela vontade dos imortais, pois ninguém acredita mais que exista algum deus no céu. Ninguém mais que saber de jejuar. Ninguém mais cultua Jupiter. Com os olhos voltados para a terra, só se pensa em contar dinheiro..

[...] Decerto, não haveria no mundo país melhor que o nosso, se fosse habitado por gente honesta.

[...] De resto, os erros são pessoais.

Existiu outrora um artesão – continuou Trimálquio – que fabricou um vaso de vidro inquebrável. Deram-lhe a honra de oferecê-lo a Cesar. Depois, tomando-o das mãos do imperador, ele atirou ao chão. Cesar, vendo isso, apavorou-se terrivelmente; mas quando o artesão apanhou o vaso, estava ligeiramente mossado, como se fosse de bronze. Tirando então um martelinho da cintura, o nosso homem, sem pressa, o reformou com pericia e devolveu-lhe a primeira forma. Feito isso, acreditou ver o Olimpo abrir-se diante dele, sobretudo quando o imperador lhe disse: - Alguem mais, além de ti, sabe fabricar esse tipo de vidro? Cuidado o que vais dizer. Havendo o artesão respondido que somente ele conhecia o segredo, Cesar fez cortar-lhe a cabeça, sob o pretexto de que, se aquela arte viesse a se expandir, o ouro perdeira todo seu valor.

[...] o que prova que a maior doçura vem sempre acompanhada de algum amargor.

[...] quando a gente se faz de ovelha, o lobo nos devora. Ele ri! Que há aqui para rir? Não se escolhe um pai. [...] Sou um homem entre os homens, e ando de cabeça erguida: não devo um vintem a quem quer que seja. [...] Vês um piolho nos outros e não vês um escorpião sobre ti [...] se te assoassem o nariz, ainda sairia leite. [...] Quanto a mim, prefiro minha consciência a todos os tesouros do mundo.

[...]

Amizade é uma palavra que existe enquanto é útil;
Como a peça de xadre, vai e volta no tabuleiro quadriculado.
Quando a sorte está do nosso lado, amigo, teu sorriso é amplo.
Quando parte, tu nos dás as costas e vilmente te afastas.
A comedia mostra este é o pai;
Aquele o filho; um terceiro é rico.
Mas as páginas passam, encerram-se os papéis agradáveis,
As verdadeiras faces surgem, desfaz-se a pintura.

[...]

Quem confia no acaso do mar amontoa lucro imenso;
Quem segue as armas e a guerra pode cingir-se de ouro;
O adulador barato deita-se bêbedo em leito púrpura;
O devasso ganha dinheiro com o adultério.
Só a eloqüência treme esfarrapada no inverno,
E desvalica invoca as artes desprezadas.

[...] quem se ocupa apenas em juntar riquezas quer persuadir a todos de que seu outro é o bem supremo.

[...]

- Por uma depravação deplorável – dizia ele – desprezam os prazeres fáceis, e apaixonam-se obstinadamente por aqueles que nos parecem proibidos: [...] A amanet supera a esposa. O cravo faz a rosa enrubescer. O que é apenas raro passa pelo melhor.

[...] Olhai, pois, onde terminam os projetos dos mortais! Eis o resultado de seus desejos e ambições! Ó infeliz! Parece ainda nadar, como se estivesse vivo.

Não há nada mais absurdo que os tolos preconceitos, e nada mais ridículo que uma hiprocrita severidade.

[...] A pobreza é mão da diligência, e a invenção de muitas artes deve sua origem à fome.

[...]

O homem endinheirado sempre tem vento em suas velas,
E compõe seu destino com toda liberdade.
Se quiser, poderá desposar a própria Sanae,
E faer Acrísio acreditar no que ela lhe disser.
Se for um poeta ou orador público,
Sacudirá toda a massa;
Seperará Catão e sua causa ganhará.
Imaginai-o advogado, imporá seus
“É evidente” e “Não é evidente”,
Será Sérvio e Labeo a uma só vez.
Em suma: com dinheiro na mão,
Expressas um desejo, e o que queres acontece.
Júpiter está encerrado ao lado de teu cofre.

SATYRICON DE PETRÔNIO – O escritor romano Petronius (Caius Petronius Árbiter 16 d.C. – 66 d.C ou Titus Petronius c. 27-66 d.C.) foi mestre em prosa e satirista notável, era um distinto freqüentador da corte de Nero e autor de um dos mais antigos romances, Satyricon. Essa obra foi escrita provavelmente por volta de 60 d.C, descrevendo as aventuras e desventuras do narrador, Encólpio, do seu amante Ascilto e do seu jovem servo Gitão. Trata-se de uma crítica aos costumes e à política da Roma antiga. A obra foi transformada em filme pelo cineasta italiano Federico Fellini. Veja mais aqui, aqui e aqui.



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

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