segunda-feira, agosto 04, 2008

ABSOLUTA SOLIDÃO, HENRY MILLER, BECKETT, PIERRE WEIL, OSWALD, EVELIA MARMOLEJO, GODDARD & RAJAGOPALAN



A arte da artista colombiana feminista María Evelia Marmolejo.

ABSOLUTA SOLIDÃO – Eu fiquei só à mercê de dó e quase que morri. Fervi o nó, me virei em pó e quase enlouqueci. O abandono chega e me mata e arrebata o jeito de ser feliz, esse sono me maltrata, vergasta arrasta o que já se prediz, amor. Eu nem dei fé, rumei de ré e me desiludi. Foi de fel, virou meu céu e eu bem que choi. Pôs o meu pranto em chuva forte, perdeu a sorte e se fez aprendiz. Meu rumo espreita o lado norte, mas só a morte vem me seduzir, amor. Ficou bem longo o fardo agora, a estrada é noite rumo afora, a esta hora o que devo seguir. E o desejo em ti me queima, a solidão revés que teima, em perseguir aonde devo ir, amor. (Primeira Reunião, Bagaço, 1992). Poema para a canção homônima em parceria com Santanna O Cantador. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - Nenhum conhecimento de onde saíra. Nem de como. Nem de quem. Nenhum de aonde chegara. Parcialmente chegara. Pensamento do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Veja mais aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: A inteligência controla as emoções e as emoções são controladas proporcionalmente ao grau de inteligência... Portanto, quando a inteligência é pequena, as emoções não são controladas, e, sejam elas fortes ou fracas, serão traduzidos por atos desordenados, descontrolados e, como prova a experiência, geralmente indesejáveis. Portanto, ao medirmos a inteligência de um individuo e comprovarmos que a mesma se situa abaixo da norma o bastante para incluí-lo no grupo dos que chamamos de débeis mentais, conhecemos o dado fundamental sobre o referido individuo. Pensamento do psicólogo e eugenista estadunidense Henry Herbert Goddard (1866- 1957).

O ÊXTASE – [...] Quando algum dia, no terceiro milênio, se indagar qual tenha sido a mais importante descoberta do século XX, a resposta não será, sem dúvida, a energia atômica, nem os universos paralelos, mas sim o estado transpessoal da consciência, ou consciência cósmica. Essa descoberta constitui hoje o ponto de encontro e de convergência da física moderna e da psicologia, encontro bastante inesperado quando se tem em mente a distância aparente entre essas duas disciplinas; não obstante, os estados místicos e as perspectivas das grandes tradições espirituais da humanidade atraíram a atenção de numerosos físicos modernos. [...]. Trecho extraído da obra Antologia do Êxtase (Palas Athena,1993), do educador e psicólogo francês Pierre Weil (1924-2008). Veja mais aqui e aqui.

LINGUÍSTICA CRÍTICA – [...] Quando me refiro a uma linguística crítica, quero, antes de mais nada, me referir a uma linguística voltada para questões práticas. Não é a simples aplicação da teoria para fins práticos, mas pensar a própria teoria de forma diferente, nunca perdendo de vista o fato de que o nosso trabalho tem alguma relevância. Relevância para as nossas vidas, para a sociedade de modo geral. [...]. Trecho extraído da obra Por uma linguística crítica: linguagem, identidade e questão ética (Parábola, 2003), do linguista e professor indiano Kanavillil Rajagopalan.

DOIS POEMAS - VÍCIO NA FALA: Para dizerem milho dizem mio / Para melhor dizem mió / Para pior pió / Para telha dizem teia / Para telhado dizem teiado / E vão fazendo telhados. PRONOMINAIS: Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro. Poemas do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954). Veja mais aqui e aqui.


A arte da artista colombiana feminista María Evelia Marmolejo.


AS MÁXIMAS DE HENRY MILLER

“(...) Eu tinha uma caneta cuja pena arranhava, um frasco de tinta e papel – minhas únicas armas”.

“(...) O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus da desilusão. (...) O escritor corteja seu publico tão ignominiosamente quanto um político ou qualquer outro vigarista; adora pôr o dedo no pulso, passar receitas como se fosse um médico, conquistar uma posição, ser reconhecido como uma força, receber a taça cheia de adulação, mesmo que com um atraso de mil anos. Não quer um mundo novo que possa ser criado de imediato, pois sabe que jamais lhe seria adequado. Quer um mundo impossível, em que, sem coroa, é o manipulador de fantoches dominado por forças que escapam totalmente a seu controle. Contenta-se em governar de maneira insidiosa – no mundo fictício dos símbolos – porque a simples idéia do contato com realidades grosseiras e brutais lhe mete medo. É verdade que tem uma percepção da realidade maior do que a de outros homens, mas não faz qualquer esforço para impor essa realidade mais alta ao mundo pela força do exemplo. Basta-lhe perorar, deixar-se arrastar nas águas dos desastres e catástrofes, profeta roufenho da morte sempre sem honra, sempre apedrejado, sempre enxotado por aqueles que, por mais inadequados para suas tarefas, dispõem-se a assumir a responsabilidade pelos negócios do mundo. O escritor realmente grande não quer escrever: quer que o mundo seja um lugar em que possa viver a vida da imaginação. A primeira palavra tremula que ele traça no papel é a palavra do anjo ferido: dor. O processo de traçar palavras no papel equivale a administrar-se um narcótico. Enquanto observa o crescimento de um livro debaixo de suas mãos, o escritor se infla com delírios de grandeza.´Também sou um conquistador – quiçá o maior de todos! Meu dia está chegando. Vou dominar o mundo – com a mágica das palavras...`Et cetera ad nauseam”.

“(...) Algum dia, a arte de sonhar acordado estará ao alcance de todos”.

“(...) Sonhei um novo mundo de esplendor magnífico que desaba assim que a luz se acende. Um mundo que desaparece mas não morre, porque me basta ficar novamente imóvel e abrir bem os olhos no escuro para ele ressurgir... existe então um mundo em mim que é totalmente diverso de qualquer mundo de que já tenha ouvido falar”.

“(...) Minha 0olítica sempre foi a de queimar as pontes depois de minha passagem. Estou sempre virado para o futuro. Se cometo um erro, é um erro fatal. Quando sou obrigado a recuar, volto até o ponto de partida, caio até o fundo. Minha única salvaguarda é minha capacidade de resistência. Até aqui, sempre consegui me recuperar. Às vezes dou a impressão de retornar em câmara lenta, mas aos olhos de Deus a velocidade não é tão importante assim”.

“(...) Todo homem, quando se aquieta, quando é desesperadamente honesto consigo mesmo, pode proferir verdades profundas. Todos derivamos da mesma fonte. Não há mistério quanto à origem das coisas. todos somos parte da criação, todos reis, todos poetas, todos músicos; precisamos apenas nos abrir, para descobrir o que já estava lá”.

“(...) É quase uma lei: toda vez que um homem embarca numa grande aventura, precisa cortar todos os laços. Precisa isolar-se no meio do nada, e quando já enfrentou a si mesmo em combate precisa voltar e escolher um discípulo”.

“(...) A vida não está no andar de cima: a vida está aqui, agora, no momento em que dizemos que sim, no momento em que abrimos mão do controle. A vida são quatrocentos e quarenta cavalos num motor de dois cilindros”.

“Um pouco mais de felicidade (...) e ele se transformaria no que se chama de um homem perigoso. Perigoso porque ser feliz o tempo todo seria atear fogo no mundo. Fazer o mundo rir é uma coisa; torná-lo feliz é coisa muito diferente”.

“(...) Quero que vocês se fodam! Ninguém vai me abrigar a fazer nada! Ninguém vai me obrigar a passar fome só para provar que sou um artista. (...) O artista é um instrumento que registra algo que já existia, uma coisa que pertence ao mundo todo e que, se ele for mesmo um artista, irá sentir-se compelido a devolver ao mundo”.

“(...) O maior erro que você comete é achar que o usufruto é uma coisa imerecida, que você achar que sabe tocar violino é a mesma coisa que tocar violino. (...) Quanto à recompensa, você confunde reconhecimento com recompensa. São duas coisas diferentes. (...) A razão de ele passar por tanta infelicidade é decidir fazer seu trabalho de graça. Ele esquece, como você diz, que precisa ganhar a vida. O que, na verdade, é uma bênção. É muito melhor ocupar-se com belíssimas idéias do que com a próxima refeição, ou o aluguel, ou um par de sapatos novos. (...) Para apreciar alguma coisa, é preciso estar pronto para recebê-la; o que implica um certo autocontrole, uma certa disciplina, uma certa castidade, pode-se dizer. Acima de tudo, implica desejo, e o desejo é uma coisa que precisa se alimentar de uma vida correta”.

“(...) lembrei repentinamente do dia em que, pela primeira vez em minha vida, olhei no espelho e me descobri encarando um desconhecido”.

“(...) O trabalho, já me parecia assim desde o limiar da vida, é uma atividade reservada para gente simplória”.

“(...) A vida era uma coisa de que os filósofos falavam em livros que ninguém lê (...) Nas poucas leituras que fiz, pude observar que os homens mais profundamente envolvidos com a vida, os homens que moldavam a vida, os homens que era a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam pouco ou nada. Não tinham ilusões acerca do dever, da perpetuação de sua família e seus amigos ou da preservação do Estado. Estavam interessados na verdade, e só a verdade. Reconheciam um único tipo de atividade – a criação”.

“A criação é o jogo eterno que ocorre em cima da divisa; é espontânea e compulsiva, obediente à lei. Afastamo-nos do espelho e o pano sobe. Séance permanente. Só os loucos estão excluídos. Só os que perderam a cabeça, como dizemos. Porque esses nunca param de sonhar que estão sonhando. Postaram-se diante do espelho de olhos abertos e caíram num sono profundo; selaram sua sombra na tumba da memória. Neles, as estrelas entram em colapso para forma o que Hugo chamou de ´um cegante jardim zoológico de sóis que, por força do amor, transformam-se nos poodles e lulus da imensidão`”.

“(...) Se a substancia da arte é a alma humana, então devo confessar que, com almas mortas, eu não conseguia visualizar nada germinando na minha mão”.

“Diz uma teoria que quando um planeta, como a nossa terra por exemplo, já tiver manifestado todas as formas de vida, quando ficar povoado ao ponto do esgotamento, irá desfazer-se em pedacinhos e dispersar-se por todo o universo sob a forma de poeira estelar. Não vai continuar girando como uma lua morta, mas explodir e ao cabo de poucos minutos não deixará mais qualquer vestígio visível nos céus. Na vida marinha existe um efeito similar. Chama-se implosão. Quando um anfíbio acostumado às trevas das profundezas sobe acima de um certo nível, quando cai a pressão a que está adaptado, seu corpo explode para dentro. E não conhecemos esse mesmo espetáculo no ser humano? Os acessos de fúria, de perda do controle – não exemplos de implosão e explosão? Quando a taça fica cheia, transborda. Mas o que acontece quando a taça e seu conteúdo são feitos da mesma substância? (...) A guerra do espírito é a historia da divisão da alma”.

“(...) A África é o continente da abundancia, onde a fome reina suprema”.

“(...) Como nas lendas em que se conta que aquele que trai sua visão cai num labirinto do qual só se cai pela morte, e nas quais, através do mito e da alegoria, fica claro que a circunvoluções do cerebro, as curvas do labirinto, as roscas da serpente que nos envolvem a espinha, são o mesmo e único processo de estrangulamento, o processo de fechar as portas atrás de si, de emparedar-se na carne, de mover-se incansavelmente rumo à petrificação (...) ele próprio morto, matara o mundo. Atingira sua própria identidade na morte”.

“(...) Os malditos sempre têm uma mesa para se sentar, na qual podem repousar os cotovelos para sustentar o peso plúmbeo de seus cérebros. Os malditos são sempre desprovidos de visão, e fitam o mundo com as órbitas vazias. Os malditos estão sempre petrificados, e no centro de sua petrificação está um vazio incomensurável. Os malditos têm sempre a mesma desculpa – a perda da criatura amada”.

“(...) quando se dispõe a bombear o sangue de seu coração e derramá-lo no papel, saturar a amada com seu desejo e sua ânsia, assediá-la sem cessar, ela não tem a possibilidade de recusá-lo. (...) Mulher alguma é capaz de resistir à dádiva do amor absoluto”.

“Miriam é o nome dos nomes. Se eu pudesse moldar todas as mulheres e transformá-las no ideal perfeito, se eu pudesse dar a esse ideal todas as qualidades que procuro na mulher, seu nome seria Miriam”.

“(...) As mulheres são preparadas para resistir, para serem sitiadas: são treinadas para agir dessa maneira. Quando não encontram resistência, caem de cabeça na armadilha”.

“(...) O homem levado à loucura e à ruína pela grandeza de seu coração é irresistível para a mulher. Para a mulher que ama, é claro”.

“(...) Sou prisioneiro na casa do amor devotado à pessoa errada”.

“(..) A bunda nos diz tudo sobre a mulher, seu caráter, seu temperamento, se é sanguinea, mórbida, alegre ou volúvel, capaz ou não de corresponder, se é maternal ou amante dos prazeres, se é leal ou mentirosa por natureza”.

“(...) O sexo é que assegura a reprodução, e a reprodução leva ao fracasso”.



HENRY MILLER: SEXUS - O controverso escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980), acusado muitas vezes de pornográfico, teve uma vida para lá de movimentada com mulheres do tope de Anais Nin, atuou na Literatura com um misto entre autobiografia e ficção, publicando viagens e ensaios. Publicou a trilogia “Sexus, Plexus, Nexus", por ele chamada de "A Crucificação Encarnada", narrando textos com trechos de sua própria vida, chegando a dizer que, nessas obras, ele: “(...) fiz uso, ao longo desses livros, de irruptivos assaltos ao inconsciente, tais como sonhos, fantasia, burlesco, trocadilhos pantagruélicos, etc, que emprestam à narrativa um caráter caótico, excêntrico, perplexo". Em um desses livros da trilogia, o “Sexus” encontramos algumas confissões, como a de que “(...) Eu tinha uma caneta cuja pena arranhava, um frasco de tinta e papel – minhas únicas armas (...) quando se dispõe a bombear o sangue de seu coração e derramá-lo no papel, saturar a amada com seu desejo e sua ância, assediá-la sem cessar, ela não tem a possibilidade de recusá-lo (...) Mulher alguma é capaz de resistir à dadiva do amor absoluto”. Mais adiante ele escreve: (...) O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. (...) Os livros são atos humanos na morte. (...) Algum dia, a arte de sonhar acordado estará ao alcance de todos (...) Sonhei um novo mundo de esplendor magnifíco que desaba assim que a luz se acende. Um mundo que desaparece mas não morre, porque me basta ficar novamente imovel e abrir bem os olhos no escuro para ele ressurgir... existe então um mundo em mim que é totalmente diverso de qualquer mundo de que já tenha ouvido falar”.
Sobre a política da vida, ele diz: “(...) Minha política sempre foi a de queimar as pontes depois de minha passagem. Estou sempre virado para o futuro. Se cometo um erro, é um erro fatal. Quando sou obrigado a recuar, volto até o ponto de partida, caio até o fundo. Minha única salvaguarda é minha capacidade de resistência. Até aqui, sempre consegui me recuperar. As vezes dou a impressão de retornar em câmera lenta, mas aos olhos de Deus a velocidade não tão importante assim (...) Todo homem, quando se aquieta, quando é desesperadamente honesto consigo mesmo, pode preferir verdades profundas. Todos derivamos da mesma fonte. Não há mistério quanto à origem das coisas. Todos somos parte da criação, todos reis, todos poetas, todos músicos; preciusamos apenas nos abrir, para descobrir o que já estava lá (...) É quase uma lei: toda vez que um homem embarca numa grande aventura, precisa cortar todos os laços. Precisa isolar-se no meio do nada, e quando já enfrentou a si mesmo em combate precisa voltar e escolher um discípulo”.
Sobre a vida: “(...) A vida não está no andar de cima: a vida está aqui, agora, no momento em que dizemos que sim, no momento em que abrimos mão do controle. A vida são quatrocentos e quarenta cavalos num motor de dois cilindros (...) A vida era uma coisa de que os filósofos falavam em livros que ninguém lê”.
Sobre o artista ele diz: “(...) O artista é um instrumento que registra algo que já existia, uma coisa que pertence ao mundo todo e que, se ele for mesmo um artista, irá sentir-se compelido a devolver ao mundo (...) Se a substância da arte é a alma humana, então devo confessar que, com almas mortas, eu não conseguia visualizar nada germinando na minha mão”.


HENRY MILLER – o controverso escritor norte-americano, Henry Miller (1891-1980), escreveu além de ficção, livros de viagem e ensaios sobre literatura e arte. Tornou-se um clássico que foi acusado de escritor pornográfico, causando escândalo por sua militância contra a hipocrisia, tendo sua obra sido proibida em muitas partes do mundo. No entanto, logo a crítica literária européia o saudou como a culminância de uma corrente literária que remonta ao século XVIII. Ele determinou seu estilo numa característica com mistura entre a autobiografia e a ficção. Veja mais  aqui, aqui e aqui.


FONTE:
MILLER, Henry. Sexus. Tradução de Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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sexta-feira, agosto 01, 2008

MELVILLE, KOESTLER, , NIKLAS LUHMANN, KOYRÉ, ANTERO DE QUENTAL & ZÉ-CORNINHO


ZÉ-CORNINHO: O PINTUDO MAIS GAIÚDO DO MUNDO!




Zé-corninho era a peste: motorista-de-prefeitura, guará-de-cana, cheleléu-de-seu-Palmeira, caseiro, vigia, garçon-de-bodega, desencaminhador-de-puta, anotador-do-pule-de-bicho, tirador-de-pé-coco, desentumpidor-de-pia-e-similares, aprumador-de-antena, pescador, puxador-de-âncora, sanfoneiro e triangulista, botador-de-gato-na-energia, de jacaré-na-água, de-macaco-no-telefone; desatador-de-nó-cego, atrepador-de-poste, desatolador-de-bug, carregador-de-trouxa-de-roupa e macho de dezesseis trepeças que lhe empenavam o juizo de tanta gaia bem botada, dele num poder ver fio de alta tensão, mode não causar curco-circuito e findar morrendo eletrocutado pela peruca-de-touro. Verdade! Onde passasse, sempre suspendia o fornecimento de energia elétrica. Pronto! Se faltou energia, foi ele! Juro! A ponto da companhia energética já andar doida para pegá-lo pelos gatos e pelas gaias. Um detalhe: é o corno mais bem servido de pêia, merecedor do alcunha Minino de Itu. Quer ver? Escuta só! Um dia seu Palmeira resolveu mandá-lo pra tomar conta da casa de praia. O Zé pra lá de satisfeito com o emprego, levou mulher e uma carreira de bruguelo de num ter mais fim. Uma prole escadinha de amarelinhos, tudo autenticado com as fuças do pai, cagado e cuspido. O sujeitinho agora no bem-bom, deu de pescar de cundunda a tubarão. E de mão. Só usava vara quando estava à sesta, e rede uma vez lá na vida. Seu Palmeira mesmo estava feliz por todo dia chegar peixe fresquinho em sua casa, enviado pelo eficiente empregado. E o patrão que não era besta nada, já tava com intenção de abrir uma peixaria pra dar vencimento ao pescado de casa e ganhar dinheiro com o desinfeliz-das-costas-ocas. Aí, nesse meio termo, eis que certo final de semana, seu Palmeira saiu da capital para a cidade do descanso na casa de praia, não antes acompanhar uma procissão dum santo desse de veneração. A certa altura do cortejo, não se sabe porque a imagem achou de se enganchar num fio-de-alta-tensão, causando o maior caga-raio na bunda dos fiéis. Um rebuliço dos grandes. Foi rabo-de-saia tostado que só, de vê-se a caçola estrupiada e a bunda quase que torrada de beata. O patrão que era sabido demais da conta ficou dando um dengo de compaixão, consolando as descaçoladas e tangendo as quase-pinguins até sua casa para se recomporem da tragédia. Foi quando mal cruzaram o portão se arranchando pelos cantos, eis que surge Zé-corninho providente com garapa na mão para todas, nu da cintura pra cima e expondo uma tanga minúscula com a metade dos culhões e o mondrongo quase todo de fora. Menino, vixe! Foi um deus-nos-acuda delas desmaiarem, uma a uma, ali na hora com tamanha afronta de pervertido. Foi preciso chamar bombeiro, enfermeira, vigilantes-da-fé-de-jesuisis, a cruz-vermelha, benzedeiros, a porra toda para socorrê-las. Quando já se davam por restabelecidas e que viam o volume da trouxa com o pra-te-vai do Zé, eram novos suspiros e desmaios com nova correria da tropa de choque. Foi aí que seu Palmeira se emputeceu e mandou o calhorda ajegado embora daquele jeito mesmo, sem direito nem a tirar nem um só cisco de dentro de casa. - Rua, seu depravado! Fora-daqui! Zé todo entristecido com a injustiça, havia, afinal de contas, prestado um bom serviço com a garapa para acalmar as doentinhas-da-bunda-queimada, mas, destá, juntou os mijados e partiu com sua prole. Ainda vi-lo semana passada atrepado na caçamba de um caminhão-de-lixo, deve de ser sua nova profissão. - E aí, Zé? - gritei. - Desmaiaram pelo culhão, imagine se emborcam em riba da pêia, iam morrer entaladas! Héhéhéhéhéhé! © Luiz Alberto Machado.
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DITOS & DESDITOS – Jogamos o jogo da vida, obedecendo a livros de regras escritos com letra invisivel ou com um código secreto. Pensamento do jornalista, escritor e ativista húngaro Arthur Koestler (1905-1983). Veja mais aqui.

PENSAMENTO FILOSÓFICO & CIENTÍFICO - [...] O Zeitgeist não é uma fantasia. [...] A história não é inalterável. Modifica-se, à medida que nos modificamos.[...] A história do pensamento científico nos ensina portanto (pelo menos eu tentarei sustentar isso):1° Que o pensamento científico nunca foi inteiramente separado do pensamento filosófico;2° Que as grandes revoluções científicas foram sempre determinadas por subversões ou mudanças de concepções filosóficas;3° Que o pensamento científico –falo das ciências físicas –não se desenvolve in vácuo, mas está sempre dentro de um quadro de ideias, de princípios fundamentais, de evidências axiomáticas que, em geral, foram considerados como pertencentes exclusivamente à filosofia [...]. Trechos extraídos da obra Estudos de história do pensamento filosófico (Forense, 1991), do filósofo francês Alexandre Koyré (1892-1964).

COMPLEXIDADE – [...] Complexidade não é uma operação, não é nada que um sistema faça ou que nele ocorra, mas é um conceito de observação e de descrição (inclusive de auto-observação e autodescrição) [...] A distinção que constitui a complexidade assume a forma de um paradoxo: complexidade é a unidade de uma multiplicidade. Um fato é expresso em duas versões distintas: como unidade e como multiplicidade, e o conceito nega que se trate de algo distinto [...] a forma da complexidade é o limite para a ordem, onde ainda é possível que cada elemento se associe a cada tempo com outros elementos. O que excede a isso, necessita de seleção e produz, assim, um estado contingente, ou seja, toda ordem possível de ser reconhecida depende de uma complexidade, que deixa evidente, que algo diferente também seria possível […]. Trechos da obra A religião da sociedade (Die Gesellschaft der Gesellschft - Frankfurt am Main, 1999), do sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1998), que em outra obra, Social Systems (Stanford University Press, 1995), expressa que: [...] O sistema da ciência pode analisar outros sistemas desde pontos de vista que não são acessíveis para eles mesmos. Neste sentido, pode descobrir e tematizar estruturas e funções latentes. Em oposição, freqüentemente nos encontramos - e especialmente na sociologia – com a situação na qual os sistemas, autoreferencialmente, desenvolvem formas de acesso a complexidade que não está acessível para a análise e simulação científica. Fala-se então, de “Black Boxes” [...].

BARTLEBY - [...] Apesar de toda sua engenhosidade mecânica, Nippers nunca conseguia fazer com que sua mesa ficasse de seu agrado. Ele usava lascas de madeira como apoio, assim como blocos de diferentes tipos e pedaços de papelão. Chegou ao ponto de tentar um delicado ajuste com restos de papel mata-borrão dobrados. Mas nenhuma invenção correspondia às suas expectativas. Se, para aliviar as costas, ele deixasse a tampa da mesa num ângulo reto em direção ao seu queixo e escrevesse ali como se utilizasse o telhado escarpado de uma casa holandesa como escrivaninha... dizia que aquilo lhe prejudicava a circulação nos braços. Se depois tivesse abaixado a mesa até a cintura e escrevesse inclinado, sentia uma forte dor nas costas. Em resumo, a verdade era que Nippers não sabia oque queria. Ou, se queria alguma coisa, era se livrar completamente da mesa de escriturário. Em meio às manifestações de sua ambição doentia estava o carinho com que recebia certos sujeitos de aparência ambígua em casacos puídos, a quem ele se referia como seus clientes. [...]. Trecho extraído de Bartleby, o Escrivão (Record, 1982), do escritor e aventureiro estadunidense Herman Melville (1819-1891). Veja mais aqui.

A UMA MULHER - Para tristezas, para dor nasceste. / Podia a sorte pôr-te o berço estreito / N'algum palácio e ao pé de régio leito, / Em vez d'este areal onde cresceste: / Podia abrir-te as flores — com que veste / As ricas e as felizes — n'esse peito: /Fazer-te... o que a Fortuna há sempre feito... / Terias sempre a sorte que tiveste! / Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos, / Que não são d'este mundo e onde eu leio / Uns mistérios tão tristes e infinitos, /Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, / Tudo me diz a mim, e assim o creio, / Que para isto só tinhas nascido! Poema do escritor português Antero de Quental (1842-1891), Veja mais aqui.




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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

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