quinta-feira, janeiro 25, 2018

NÉLIDA PIÑON, GADAMER, ARLETE NOGUEIRA, TOM JOBIM, BRYAN MAGEE, ALICIA KEYS, GENEBALDO DIAS, RIVETTE, BELLE PAULE, KALICHARAN GUPTA & ALEX ROSS

EU & MEUS DOIS OUTROS EUS – Imagem: arte do artista indiano Kalicharan Gupta.- Desde menino que eu desconfiava haver mais alguém dentro de mim mesmo. Um só, não; dois outros, muitos até. Pode? Isso porque quando criança o que eu conversava sozinho ou com uma tuia de amigos invisíveis, não era brincadeira. Quando o outro deu sinal de vida, eu já era quase adolescente. Chegou implicando: Vá, escreva, você será um triunfante escritor, um grande artista. Ah-rá! Doce ilusão, só bestices inauditas. Já me acostumando com o papo a dois, logo surgiu um terceiro e parecia saído de um disparo de canhão, tal homem-bala: Alto lá! Você não serve pra escritor. Sua mãe o quer médico; seu pai, advogado. Está na hora de decidir: melhor engenharia. Eita! Minha vida virou um pandemônio e eu espremido no meio por meus dois outros eus. Lá era a minha cara de asteroide sonhando galáxias distantes e isso baixava o nível de oxigênio na redondeza: era o roubo das minhas contradições sacudindo tudo. Coitada da minha alma de petisqueira velha lançada por terra: um catálogo de inutilidades, coisas imprestáveis guardadas e, consequentemente, extirpadas do meu íntimo pras minhas escritas. Repreensão: Você tem que ser sério e profissional como manda o figurino, ouça seus pais, escolha logo entre as opções, sirva a sociedade, vá pro mercado. Enquanto isso, o outro futucava: Realize seus sonhos, se persistir será famoso, persevere e suas obras laureadas e aplaudidas. Coitado de mim, vivia de biscate, assando e comendo, parecia mais que carregava um andor nos ombros: o pesadelo real que ninguém queria sonhar. Escrevi uns troços, coisas chochas, secreções das tripas, tais histórias insossas de estrelas cadentes que se engasgavam com a angústia ao crepúsculo: a certidão de que não estou preparado para este mundo. Arre! Aí afogava as mágoas com goles e tragadas, a depressão debulhando culpas que sequer sabia tê-las, numa catarse autista de bloco do eu sozinho, ocultando as carapaças e carapuças na transfiguração derradeira. Ah, nunca tive vocação pra robô, nem bater pontos na chegada ou saída, salários na carteira, um extraviado entre a miséria e o bezerro de ouro, esmagado por pagar o preço do que não tinha nem podia. Capitulava da ascensão social, amuado, invisível, e da janela eu espiava o mundo tão sem amor, desprezo da humanidade por ser o reino da inumanidade, da desumanização com sua deformação implacável entre a desordem e a injustiça. Eu ensandecia, não precisava pedir desculpas por existir e não valer nada, nem mesmo mais apostar que um dia a humanidade tomasse jeito, se nem amigos ou parentes nem aderentes para fazer uma vaquinha, eu me valia. Era somente eu e meus outros eus às tapas, compelido a renunciar, pronta pra resignação, até dizer basta, chega! Enfim, como sempre, só me restava mão espalmada, linhas apagadas, ontens esquecidos, futuro algum, não diziam nada, nada a dizer. Pra fugir dessa balbúrdia, vez ou outra, assaltado por Cuscuz tarde da noite até o dia amanhecer. Tal como todas as outras que se foram e se danaram pro esquecimento, não era tão bonita, mas jeitosa: os lábios carnudos alisados por sua língua provocante pronta pra felação a me extasiar de prazer imerecido; o decote dos peitos volumosos duros que eu adorava me asfixiar neles; o ventre acuscuzado – razão do seu apelido – a me fazer de deus e rei pra ser destronado às pressas; umas coxas e pernas realçadas pelo riso do pódice às reboladas, era aí que ela gostava e eu sozinho aos regalos. Foi ela e outras tantas peitudas deusas que queriam me enlouquecer e acabar comigo, e quase conseguiram, fiapinho de nada. Sempre embroncado e liso, afora o plantão perseguidor de Oficiais de Justiça pro despejo, levando-me por favelas, sarjetas e perdições que faziam chegar e sair de lugar algum, desterrado. Ah, minhas noites infindas, meus versos inconclusos. Sempre com a cabeça a prêmio, escapava o quanto podia das guilhotinas. Não sobrou ninguém dos amigos e amigas que tivera, antes fossem. Cara pra parede a me perguntar: cadê a vergonha? E eu é que sei, ora. Cara pro chão, assumi meus erros e desacertos. Quase nada por posse, juntava os cacarecos: um par de sapatos velhos, um tênis em petição de miséria, duas calças jeans desbotadas, umas três ou quatro camisas meia-vida, duas cuecas encardidas, meia dúzia de livros soltando as páginas nas brochuras desencadernadas, uma bolsa com utensílios pessoais e outras baboseiras. Como nunca me aproveitei de ninguém, precisava mesmo era dar um trato no corpo e na alma. Nada, se nem salvo-conduto: o que não mata, engorda! A gente, todo mundo, vai morrer de qualquer jeito. E sei que não será o fim. Vou até às últimas consequências, não aguento mais a barulheira. Mergulhei na golada, matei os outros afogados. Nem sabia que morria por mim mesmo, com um bilhetinho pra ninguém: Era uma vez, assinado: escritor anônimo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista brasileiro Tom Jobim (1927-1994) Live Concert in Montreal & Passarim; a cantora, pianista, compositora, atriz e produtora musical Alicia Keys em Concert Mawazine & Concert Live; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] As relações entre o ser humano e o ambiente urbano são extremamente complexas e é impossível separar um do outro, com suas centenas de processos e atores [...] as atividades humanas desenvolvidas nos socioecossistemas urbanos são altamente desestabilizadores [...]. Trechos extraídos da obra Pegada ecológica e sustentabilidade humana (Gaia, 2002), do professor, ecologista e ambientalista Genebaldo Freire Dias. Veja mais aqui.

HEMENÊUTICA FILOSÓFICA - [...] A universalidade do aspecto hermenêutico, também em outros contextos, não se deixa restringir ou podar pela arbitrariedade. Não foi um mero artifício de composição, se eu coloquei o meu ponto de partida na experiência da arte, para garantir a amplidão correta ao fenômeno do compreender. Aqui a estética do gênio prestou um trabalho prévio importante, na medida em que dela segue-se que a experiência da obra de arte sempre ultrapassa, de modo fundamental, todo horizonte subjetivo de interpretação, tanto o do artista como daquele que recebe a obra. [...] Toda re-produção é imediatamente interpretação, e quer ser correta enquanto tal. Nesse sentido, também ela é "compreensão". A universalidade do ponto de vista hermenêutico não tolera uma restrição, segundo meu parecer, também lá onde se trata da multiplicidade da tomada dos interesses históricos, que se reúnem na ciência da história. Certamente que existem muitos modos de escrever a história e de pesquisar a história. Não se pode dizer, de modo algum, que toda tomada de interesse histórico tenha seu fundamento na realização consciente de uma reflexão histórico-efeitual. [...] A infinitude da conversação, onde se realiza o compreender, relativiza a própria validação do indizível que se dá em cada caso. Porém, o compreender, como tal, será o único e adequado acesso à realidade da história? Evidentemente que o perigo ameaça a partir desse aspecto, perigo de enfraquecer a verdadeira realidade do acontecer, especialmente a sua absurdidade e contingência, e falsificá-la em uma forma de experiência dos sentidos. [...]. Trecho extraído da obra Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica (Vozes, 1998), do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002). Veja mais aqui.

TEMPOS ATUAIS - [...] se encerrou a tradição dogmática de passar adiante uma verdade imaculada, iniciando-se a nova tradição racional de submeter à discussão crítica todas as reflexões. O erro começou a ser encarado sob outro prisma: em vez de ser um desastre, era uma vitória ou uma vantagem. O homem dogmático, como os animais e os organismos inferiores, permaneceu de pé ou caiu com suas teorias. [...]. Trechos extraídos da obra As ideias de Popper (Cultrix, 1974), do filósofo, radiodifusor e poeta britânico Bryan Magee.

O JARDIM DAS OLIVEIRAS – [...] Nasci pelas mãos de minha mãe, mas morrerirei sem o socorro da sua vagina. Tenho a vida determinada por um começo e um fim. E, embora sujeito e objeto da história, este começo conheceu data, ano, local, horas precisas. A carteira de identidade facilita, aliás, meu trânsito pela terra. [...] Sou grato à Luiza. Através dela descobri que o amor é um lodaçal onde se afundam a ética, a generosidade, o livre-arbítrio. E que é da sua batalha, e da sua fome, dizimar famílias, devastar a terra, arrecadar tesouros, a pretexto de enriquecer o ser amado, assegurando-lhe a felicidade. Sempre a serviço de si mesmo, e daqueles a quem quer bem, o egoísmo do amor é preverso e limitado, e não conhece castigo, e nem críticas sociais. Em seu nome, ao contrário, tudo é justificado. Tem desculpas nobres, inventa princípios que a sociedade consagra constantemente numa roda-viva, sangrenta e predatória. [...] E para que o amor me sorria e devolva eu ao mundo um sorriso, devoto-me às pilhagens e aos espólios. Os meus interesses concentram-se no objeto amado. Nas moedas que necessito arrastar para a alcova. Amar, pois, é o desastre da coletividade. Mas a coletividade sem o amor é fria superfície a qual a tirania estabelece para sempre os seus domínios. O amor por Luíza não me aprimora. Dispersa-me até, torna-me ainda mais insensível e medroso. Não me arrisco a perder o que arrecadei nestes nove anos. Ela é a única a conhecer o limite máximo da sensibilidade da minha pele, o grau de temperatura em fogo do meu corpo, a gentileza que não deixo deslizar da porta para o mundo concer os seus atributos. O que somos no quarto trancado a chaves só a nós beneficia, expulsa a humanidade. Saindo dali, visto a armadura diariamente trocada e sou grosseiro. Praguejo em vez de solidarizar-me com o outro, de abandonar os bens terrestres, esquecer os ressentimentos, perdoar. O amor não me ensina a transferir o excesso do seu arrebato para a casa do vizinho. Não me ajuda a dar rosto a uma homanidade hoje abstrata para mim. Assim, esta abstração do humano e o meu amor somados indicam-me a desesperada solidão do ato de amar. Indicam-me que grudado à cama, agarrado ao corpo do próximo, nada mais faço que amálo para poder amar a mim mesmo, amá-lo para ser menos só, para assim alcançar-me e ao mesmo tempo oferecer ao outro a falsa ilusão de que contamos com a nossa mútua companhia, com o nosso recíproco arrebato. Amar é um ato solitário e sem repercussão ideológica. Mas, náufrago que sou, resta-me ofertar à Luiza o meu coração. Dar-lhe o meu futuro, e que o salgue a seu gosto. Ela ri, acusa-me de ser uma máscara sem passado. Ou um passado com invenções, uma biografia a que se acrescentam dados móveis e falsos. Asseguro-lhe, então, que na terra já não tenho espaço. Não sei onde me localizo. [...]. Trechos extraídos da obra O calor das coisas (Record, 2009), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui e aqui.

CONVICAÇÃO - Aqui, onde uma mulher se curva / e se inventa,/ é onde de uma dor imensa e turva / se alimenta. / Aqui, quando tonta e avulsa / se procura, / é onde viva a luta lenta pulsa / e transfigura. / Aqui, onde o que é e será retorna / ao berço, / é onde busca âncora, estrela, bigorna / e terço. Poema extraído da obra Canção das horas úmidas (São Luís, 1973), da poeta Arlete Nogueira da Cruz.

LA BELLE PAULE & LA BELLE NOISEUSE
A beleza de Paule de Vuiguier (1518-1610), a popularizou como a Belle Paule, uma senhora de Toulouse do século XVI, conhecida por sua beleza e imortalizada pela pintura do artista plástico francês Henri Rachou (1855-1944). Os habitantes da localidade conseguiram das autoridades que a formosíssima mulher fosse intimada a comparecer, duas vezes por semana, à janela de sua residência, para ser contemplada. Rezam as crônicas sobre a tamanha multidão que se aglomerava diante da formosa jovem, que se corria o risco de perder a vida em tais reuniões. Já o drama La belle noiseuse (A bela intrigante), do cineasta francês Jacques Rivette é baseado no conto Le chef-d´ouvre incomu (1831) do autor francês Honoré de Balzac (1799-1850) e de três contos recolhidos da obra do escritor estadunidense Henry James (1843-1916). Veja mais aqui.

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A arte do pintor e ilustrador de quadrinhos estadunidense Alex Ross.

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