sábado, janeiro 21, 2017

APESAR DE TUDO QUE JÁ FOI FEITO, SOMOS TODOS MÍNIMOS


APESAR DE TUDO QUE JÁ FOI FEITO, SOMOS TODOS MÍNIMOS - Imagem: arte do pintor, desenhista e gravador Gustavo Rosa - Certa feita, em uma situação deveras complicadíssima, em que todos os ânimos estavam bastante exaltados e prestes a uma catástrofe sem precedentes no desentendimento humano, eis que o doutor Zé Gulu, saindo do seu mutismo solitário, fez menção a todos da evolução humana através dos tempos, chamando atenção para a descoberta do seu próprio corpo e poder, quando não havia nada ao seu redor que lhe possibilitasse a própria existência. Só havia florestas e animais silvestres com quem dividia a sua sobrevivência. Nesse instante ele passou a encarar a si próprio com o seu poder ilimitado de criar condições para superar todas as adversidades ao redor. Percebeu a força dos seus punhos, a ação dos dedos, a tração dos braços, os impulsos do corpo, andar, correr, ouvir, enxergar, cheirar, saborear e, sobretudo, pensar nisso e em tudo o mais. Vivia o homem primitivo sobre galhos de árvores para se abrigar tanto das imprevisíveis força da Natureza, como da ação e ataque de predadores. Com a descoberta das cavernas fez a sua primeira morada preservando-se do perigo e dos males. Pela necessidade de mudança e adaptação das estações, teve de recorrer a desertos e neles construir a primeira rústica cabana com o material que tivesse ao alcance. De tanto contemplar os raios solares chegou à energia pelo atrito, o calor, o fogo e a luz, a do peso da água e, posteriormente, do seu movimento, o poder do vapor, a atração, as pulsações. Com a força do braço, ao longo dos milênios, aprendeu a lascar a pedra, construiu abrigos, lavrou a terra, mexeu no solo, manipulou metais, tornou-se artífice usando da alavanca para mover pesados, operou grandes engenhos, do trabalho ao descanso até o advento da alvenaria, desde castelos, pirâmides aos arranha-céus espetaculares. Quando se viu limitado pelas correntes dos rios, as primeiras toras para singrá-los até os troncos como pontes, chegando-se às grandiosas travessia de concreto armado, o complexo sistema de eletrificação urbana, as sofisticadas embarcações que deram nos submarinos e transatlânticos. O quanto se andou a pé até inventar a roda, a locomoção, as engrenagens, o motor à explosão até o automóvel possante de última geração. Teve o sonho de voar, como Ícaro, flutuar o mais pesado que o ar, a asa e as aeronaves dos foguetes siderais. Ao ficar maravilhado de ver tantas descobertas, a visão cansou e próteses oculares para enxergar melhor, até os microscópios e telescópios potentes para alcançar desde seres minúsculos e invisíveis às constelações e galáxias. A criação humana ao longo de séculos curou doenças, restaurou fraturas no sistema ósseo, restituiu membros amputados, enfim, uma maravilha realizada com muito trabalho árduo, devotado, dedicado, ignorado por todos. Ao chegar ao extremo de desafiar a Natureza, percebeu que era limitado. E não só: um ínfimo ser vulnerável a um vírus capaz de lhe levar à morte, um nada diante da imensidão do Universo. Porém, possuidor de um poder ilimitado: o da criatividade, da inventividade, o gênio humano. Este um poder inexaurível que independe de força ou de resistência física, de tempo ou espaço, de sexo ou gênero, ou das tradições do passado, das possibilidades ou recursos do presente, ou das perspectivas potenciais do futuro. Até hoje tudo que foi criado e inventado pelo ser humano, filosofia, ciência, religião, sistema, códigos, signos, mercados, tudo foi para facilitar a relação entre cada um com o outro e com todos e consigo próprio. Nunca para escravizar, guerrear, discriminar ou excluir, nem tornar ninguém dependente de qualquer engrenagem ou sistemática. O poder criador humano é capaz de tornar o inexistente em real, o ódio em amor, e com isso superar todas as barreiras e limites para si e paratodos, sem que precise viver angustiado na dor, ou fracassado dependente do que quer que seja. Todo ser humano é capaz de criar e de ter autodomínio, afinal esse poder não é o poder exclusivo de um homem só ou escolhido, mas é de todo e qualquer ser humano, com a capacidade de construir a partir de um pensamento, uma ideia, quaisquer coisas do amanhã. Esse poder criativo está latente e pulsa no âmago de qualquer ser humano. Isso é a glória desconhecida. Apesar de tudo que já foi feito pelo ser humano, nada fizemos, cada vez mais somos tão mínimos. Sejamos, portanto, melhores. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

 Curtindo os álbuns Brésil (1989), Recomeçar (2003) e Ensolarado (2011), da cantora Loalwa Braz (1953-2017), brutalmente assassinada nesta quinta, 19/01, em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. O corpo dela foi encontrado carbonizado em um carro incendiado por homens que invadiram a sua pousada Azur – localizada na Estrada da Barreira, em Saquarema -, que teve cômodos queimados e consumiu o sótão. Após as investigações, foram presos em flagrante pelo crime de latrocínio, Wallace de Paula Vieira (23) que se disse caseiro da propriedade, mais Gabriel Ferreira dos Santos (21) e Lucas Silva de Lima (18), identificados como autores do crime. Nossa homenagem e consternação.

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DESTAQUE: OS CADERNOS DE JOÃO DO ANÍBAL MACHADO
[...] Mapa irregular do nosso descontínuo interior, com fragmentos, vozes, reflexões, imagens de lirismo e revolta – inclusive amostras de cerâmica verbal – dos muitos personagens imprecisos que os animam. Afloramento de íntimos arquipélagos, luzir espaçado das constelações predominantes... O autor apenas se reserva o direito de administrar o seu próprio caos e de impor-lhe certa ordem na tranquilidade formal das palavras. [...] O sentimento dramático do movimento, do provisório, do vir a ser, deixa-nos a princípio num estado de flutuação e perigo, tontos em busca de direções, mas já num confuso pressentimento de pólos atrativos. E somos depois atirados dentro mesmo das forças vivas com as quais formamos, à nossa maneira, um Universo alimentado por energias humanas e telúricas em constante transformação e metamorfose. Ó Heráclito, tua lição continua. Almas desamparadas, viúvas do Absoluto, podem a cada instante contrair novas núpcias. [...] Prendo-me aos seres e objetos com o fervor de quem vai perdê-los para sempre. Porque afinal este mundo, tal como está, se eu gosto dele um bocadinho, é no momento mesmo em que penso largá-lo. Mas isso eu nunca digo. E vou andando... Se alguém pergunta quem sou, respondem todos: Não se sabe. Vive dizendo que está indo para um castelo de passarinho... Sempre assim. Quando a vida me aborrece, largo tudo de repente, apanho a trouxa, e vou tocando devagarinho para Santa Maria, castelo de passarinhos... [...].
Trechos extraídos da obra Cadernos de João (José Olympio, 2004), do escritor, professor, crítico e homem de teatro Aníbal Machado (1894-1964). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, desenhista e gravador Gustavo Rosa.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: arte do fotógrafo estadunidense Ryan McGinley.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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RILKE, HUYSSEN, MARIA IGNEZ MARIZ, ANTÔNIO PEREIRA, LUCIAH LOPEZ & ARTE NA PRAÇA

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