sexta-feira, outubro 20, 2017

DRUMMOND, RIMBAUD, LEMINSKI, MARITAIN, GILVAN LEMOS, JACOB DHEIN, GENÉSIO CAVALCANTI, CARIJÓ & SÃO BENTO DO UNA

CARIJÓ, SÃO BENTO DO UNA – Imagem: Céu de São Bento do Una, de Renatinha @Renatalcaet – Carijó, meu amigo, minhas mãos limpas e esta missiva: saudades de ontem, abraços de amanhã. Eu, Jutaí meinino, vou mais longe qual anjo do quarto dia no açude Velho que não viu o tempo passar: do Una a nossa comunhão na carreira da galinha, no carnaval dos imigantes portugueses da festa Valença e a criação de galo: cuidado com a cobra, sã0-betense! A gente só sente a picada de gente, coisa mais sem graça. Meus pés inoculados dos venenos mundanos pisam pelo Planalto da Borborema, mãos deitadas às sobrancelhas, estirando o cangote pra me livrar dos embaraços: muxoxos dos parentes, trejeitos dos estranhos que brigam por cacarecos, gente que só quer ser super-homem com seus super-poderes, gente que pede, pede, pede, Deus nem atende, gente que faz de tudo e o vento carrega a areia pro seu deserto, tudo uns chaleiras, remelentos arredios inescrupulosos, juntando troços, trapos de coisa que só vale pra moda, depois nenhuma serventia. Ninguém merece! Melhor o balanço e a curva dos quadris da morena sestrosa que passa impune dos nossos desejos, eu vejo e sinto, a me contentar com tão pouco, ninguém nasce pra viver na pobreza, a mulher é abundância, fartura de vida e as minhas bagagens repletas de sentimentos solidários, amor pra dá e quanta desventura! Eu vou. Por quê? Porque vou, porque sim, porque não, caramanchão, feliz das trepadeiras pelos oitões, a brisa nas varandas, água de coco, sonbra e água, a lembrar dos sítios do Serrote do Gado Brabo. Sou o que vai e volta, eterno retorno como os pardais estão voltando e Alceu cantando bonito na minha solidão que é um noturno sem música, neblinas e serenos na noite dos abraçados. Sou tão estrangeiro quanto o espaço terrestre além dos cem, e vi Cecília entre leões e o defunto aventureiro com o morcego cego: Morte ao invasor! A inocente farsa da vingança ns olhos da treva & os emissários do diabo na rua padre Silva, nada, é só quarta-feira de cinzas na Matriz do Bom Jesus. Ah, quem me dera, Carijó, sonhar entre as águas desse rio que nasci e vou daí, de Capeiras, melhor dizendo, por aí até a várzea que vai dar no mar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, arranjador e maestro Rogério Duprat (1932-2006): The Brazilian Suite, Nhô Look & Brasil com S; da cantora, violonista e compositora Rosa Passos: Romance, Festival Jazz Vitória-Gasteiz & Live at Jazz Lincoln Center; da banda britânica formada por Roland Orzabal & Curt Smith, Tears for Fears: Tears roll down & Going to California; e da cantora e compositora Liah Soares: Quatro Cantos & Sere Nere. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Partindo de uma concepção de vida denominada por um relativismo geral e pela dúvida universal em relação a tudo que possa ligar a conduta humana aos fins e aos valores mais elevados que os interesses do próprio individuo, - o que resulta, em última análise, é a arte de ter êxito no mundo. [...]. Pensamento extraído da obra A filosofia moral (Agir, 1964), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972).

COMPETIÇÃO
Os garotos, os cães, os urubus
Guerreiam em torno do esplendor do lixo.
Não, não fui eu que vi. Foi o Ministro do Interior.
Fabulário Nacional extraído da obra Corpo: novos poemas (Record, 1984), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRIME PASSIONALProcesso-crime 09 – Réu: Antonio Matias Marques. Vítima: Francisco José da Silva. Antonio Matias morava no sitio Tatu. No dia 14 de setembro de 1877, ao retornar, noite alta, de uma viagem ao povoado de Canhotinho, encontra sua mulher a dormir com um estranho na cama do casal. [...] que passando em casa dele testemunha no dia quatorze do corrente, pelas dez horas da noite, pouco mais ou menos, vindo de uma viagem a Canhotinho, Antônio Matias Marques, e dali depois de cear, seguiu dito Marques para casa de sua residência, no lugar Tatu, e batendo á porta e chamando pela mulher, ninguém lhe falou; então dito Marques furou a parede e abriu a porta; entrando no quarto, encontrou sua mulher deitada com Francisco José da Silva, ambos dormindo, e estando este nu ali, Marques lançou mão de uma espingarda do mesmo Francisco José da Silva, que ali estava encostada e disparou-a no infeliz Francisco, dando depois com a mesma arma diversas pancadas; e isto sabe por lhe haver dito o mesmo Marques, logo depois de haver praticado o fato, indo à casa dele testemunha, entregar-lhe uma chave para dar a Martinho, dono da casa em que ele morava, visto como tinha em um dos quartos da mesma casa uns objetos pertencentes ao dito Martinho, assim como entregara a ele testemunha os filhos para mandá-los levar à avó, e no mesmo ato saíra ele testemunha com pessoas de sua casa, em direção à casa do Marques, para ver se com efeito era certa aquela história que ele contava, e prestar algum socorro ao ferido; encontrou o mesmo ferido, prostrado sobre a cama, deitando sangue, ainda depsido de toda a roupa, a mulher de Maques sentada na mesma cama, e uma menina nos pés da cama, sendo que a chave que lhe entregara Marques, era da porta do quarto onde estava Francisco José da Silva ferido e entregara a dita chave a ele testemunha [...]. Como se vê, o gesto de Marques fora de previdência e sabedoria. Usando de cautela, conforme se depreende do depoimento transcrito, conseguira ele valioso testemunho para o flagrante de adultério da esposa, fato de decisiva importância quando tivesse de ser julgado pelo júri. [...] Denunciado no dia 1º de outubro de 1877, pelo Adjunto de Promotor, Cândido Américo Galvão, somente em 22 de novembro foi o réu pronunciado incurso no art. 193 do Código Criminal. O libelo foi oferecido em 11 de outubro de 1878, insistindo a promotoria nas sanções penais citadas. Entrega-se o réu à prisão em 15de outubro de 1866, nove anos após a execução do delito, sendo-lhe designado o dia 12 de novmebro para comparecer à sessão do júri. Submetido a julgamento, Antonio Matias é unanimemente absolvodp pelos juízes de fato, passando-se-lhe, incontinenti, o alvará de soltura. O júri lhe fora sensível à causa, na opinião geral, considerada simpática, segundo os autos. Trechos extraídos da obra Inocentes e culpados do Tribunal de Juri de São Bento: síntese histórica do homicídio 1818-1930 (CEHM, 1986), de Sebastião Soares Cintra que, em nota introdutória, assinala que [...] De 1818 a 1930, - segundo os arquivos remanescentes na Comarca -, verificaram-se 84 homicidios na jurisdição de São Bento [...] Resta-nos aos são=bentenses a esperança de que esse quadro possa regredir, pela evolução moral dos filhos desta terra [...] Derivativo dos sentimentos inferiores da índole humana, ou objeto de resgate dos antaganismos exacerbados, o homicídio persistirá até que se atinha o sonhado estágio social de preponderância do homo morabilis, isto é, do homem “maduro e imputável”. Na apresentação do livro, o historiador, jornalista, lexicógrafo, pesquisador e compositor Nelson Barbalho (1918-1993), assevera que: [...] O material colhido e apresentado no livro finda em 1930 e entremostra-se espantosamente rico de atrocidades e barbarismos levados às raias da loucura e de homicídios puros e simples em numero de 84 durante pouco mais de um século. E depois? [...] Tudo caminha para pior, por conseguinte, e a “civilização” branca e cristã, aqui nas plagas nordestinas, é embromação para inglês ver, tema para debates cretinos na TV, assunto para sermões de padres pançudos e comedores de beatas safadas – pura demagogia e nada mais. A vida é cruel e triste; e o robusto livro de Sebastião Soares Cintra o diz bem melhor que minhas pobres e desenxabidas palavras. Veja mais aqui.

A ETERNIDADE
De novo me invade.
Quem? A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.
Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.
Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.
De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.
Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.
De novo me invade.
Quem?
A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai
.
Poema extraído da obra Rimbaud Livre (Perspectiva, 1993), do poeta Arthur Rimbaud (1854-1891). Veja mais aqui, aqui & aqui.

O ANJO DO QUARTO DIA - Estranho ela achava; que ninguem a chamasse num grito? Ana! Apelo, procura: Ana! Que seu nome não ecoasse modulado pelas enconstas das serras, não vibrasse ao saber dos ventos: Aaaaaaaana! Que o solo do Grotão, sentindo-lhe os pés, o peso do corpo; que as árvores do Grotão, olhando-a de oonge; que os ares do Grotão, envolvendo-a, desconhecessem a invocação de seu nome. Mesmo quando lhe era permitido afastar-se mais um pouco à procura dum pau de lenha, duma erva para o chá, dum ninho de galinha, sabia que sua presença não seria reclamada, tampouco no desespero dum grito. Não era estranho? Somente por extrema necessidade, em algum sábado, de madrugada, deixava o Grotão, sua asinha lá entre serrotes, matolão nas costas, cheio o matolão. Isso quando o enchia. Às vezes mais de mês para enchê-lo. Renda de bilros, bruxas de pano, tatuzinhos esculpidos na madeira de imburana, tão bem feitinhos, serviam de paliteiros; galinhos, peruzinhos revestidos de penas verdadeiras, para enfeite de mesa. Tudo do seu trabalho, de sua jabilidade, sem ninguém, ter ensinado ela fazia, desde mocinha. Era uma artista com os dedos, a paciência de artesã solitária, o poder de botar nas coisas em que pegava uma parecença de vida, de objeto requerendo muito amor e carinho. [...]. Trecho extraído da obra O anjo do quarto dia (Globo, 1987), do escritor Gilvan Lemos (1928-2015), que na obra Neblinas e serenos (Bagaço, 1994), narra: [...] À noite perdia o sono, chorava por ele. Seu outro menino estava doente. Doente de uma doença para a qual o chá de cidreira não servia. Nem essência de cravo nem a lama de pote nem o emplastro de pirão de farinha. Nem ao menos sua presença ao lado da cama, alisando-lhe a testa. [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.

POR QUE ESCREVO
Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso. Escrevo porque amanhece. E as estrelas lá no céu lembram letras no papel quando o poema me anoitece. A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?
Razão de ser, do escritor, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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ARTE & ENTREVISTA DE GENÉSIO CAVALCANTI
Depois do lançamento de diversos livros de poesias, músicas em vários CDs, dois DVDs & realizar recitais e apresentações em diversas localidades, o poeta Genésio Cavalcanti concede entrevista exclusiva pra gente, falando de sua vida, sonhos, realizações, projetos & trabalhos. Confira a entrevista completa aqui.

A ARTE DE JACOB DHEIN
A arte do artista plástico estadunidense Jacob Dhein.

quinta-feira, outubro 19, 2017

VINICIUS, MIGUEL ASTURIAS, ORTEGA Y GASSET, CAMILLE CLAUDEL & RICHARD MARTIN

IARA, IARAVI – Um dia Fiietó se apaixonou. E ele com a sua força e firmeza no braço, altivez de porte e agudez de vista, dominava a mataria brava, seguindo a caça e afrontando o inimigo, aremessando o arco de sua flecha certeira cortando as carreiras ou os pulos dos animais, abatendo o voo de carniceiros, estava perdidamente apaixonado. Justo aquele que ao vogar sobre as águas silenciosas do Una, velejava alteroso, braços abertos e, ao passar junto ao barranco do rio, as brisas folionas sacudiam os galhos e derramavam uma chuva de flores sobre seus cabelos negros e todos os peixes, pássaros e demais seres viventes das profundezas e das margens fluviais, saudavam-no nas suas peripécias. Justo ele, estava enamorado. Por conta disso, todas as tardes a sua canoa aparecia no poente, seguindo solitário pelas sombras da noite adentro, pescaria essa que todos interrogavam pela vigência dos fantasmas noturnos saltarem das profundas dos infernos para atomentarem seres viventes que jaziam medrosos escondidos nas suas moradas. Indagavam do intrépido Fiietó se não ouvira os temerosos presságios pelos ventos gemedores com suas dores que matam, ele quase nem ouvia sua mãe aos prantos pela audácia do filho de desafiar os gênios malignos que se aproveitavam da indomável juventude de suas presas nas horas mortas. Contavam pra ele histórias repetidas vezes de quantos não houveram encontrados insones com seus olhos fundos e tristes, cotovelos fincados nos joelhos, pernas pendentes da rede selvagem, aprisionados pela má sorte, pungentemente hipnotizados na escuridão. Até sua mãe lamentava com enternecidas palavras, meu filho, não vejo alegria nos seus olhos, só vagos gestos de quem fora picado no coração, aquele a quem as moças admiravam, os velhos e guerreiros festejavam as astúcias com seus cantos entoando seu nome que um dia gozaria supremo na mansão dos bravos. O que está havendo, meu filho? Estou amando, mãe, quero encontrá-la. Não me diga que é a Iara! Mãe, quero encontrá-la. Não, meu filho, a Iara não, ela envenenou seu coração? Mãe, eu a vi, eu a vi, mãe, boiando em flor, linda como a lua nas noites claras, eu vi, mãe, os cabelos de flores, brilho do Sol, era ela, mãe! Meu filho! As suas faces, mãe, são formosas que ninguém jamais viu! Ela olhou pra mim, mãe, estendeu-me os braços, repartiu as águas e me levou encantado pelas estrelas do céu. Meu filho! Foge, meu filho, foge! Aquela que você viu é a Iara, aquela que canta a agonia e dos seus olhos só a morte espia. Mãe, eu vi, é linda! A mãe chorava a perda de filho tão valoroso. Não vá, meu filho, fuja, fuja enquanto pode, foge da Iara. E ele resoluto, pisou na água e começou a deslizar mansa e tranquilamente, estava decidido, estava verdadeiramente apaixonado. E todos na tribo caeté viram-no passar como quem vai pescar nas trevas. E seguia sozinho no espelho das águas. Logo depois, ouviam-se gritos: Vem ver, gente! Vem ver, corre, gente, vem ver! Todos pararam atônitas à beira do Rio Una, Fiietó fendendo as águas, braços abertos como se fosse voar, quando surgiu ao lado do jovem guerreiro, enlaçando-o a beijá-lo, completamente ensolarada com sua majestade e corpo harmonioso coroado por sua beleza indescritível de tão grandiosa maravilha, cabelos esvoaçantes e a jurar de amor por ele, aquela que cativara o seu coração. A Iara! É ela, a Iara! Todos gritavam estupefatos com a cena, em uníssono: É Iara! É ela mesmo! E todos correram para acompanhar o trajeto do casal que iluminava todos os arredores, escondendo-se para não serem flagrados pela deusa. Dali mais um pouco, Fiietó abraçou-a e beijaram-se ardentemente, provocando faíscas, relâmpagos e trovões vindos dos céus e retumbando por toda redondeza. Beijavam-se e o amor celebrava a festa dos amantes, enquanto os nativos fugiam para mais distante, amedrontados com a cena e tudo que acontecia. Era Iara, na verdade, era Iaravi, a índia caingang que é bela como as frescas manhãs de Sol nas águas do Una, transformada em Iara para demonstrar o seu amor e para ser aquela a quem Fiietó, perdidamente apaixonado, jurava morrer de amor. (Recriação a partir de A Iara (Selva, 1947), de Afonso Arinos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Geraldo Azevedo: De outra maneira, A luz do solo, Inclinações musicais, Adoro você & Tanto querer; da pianista e compositora Fernanda Chaves Canaud interpretando Radamés Gnatali & Lua Branca de Chiquinha Gonzaga; do compositor e educador musical Mario Ficarelli: Parasinfonia, O poço e o pêndulo & Tempestade óssea; da cantora Joan Baez: Al star 75th Birthay Celebration Live, Live Concert & Line in the New York. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAO importante é a lembrança dos erros, que nos permite não cometer sempre os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros, a larga experiência vital decantada por milénios, gota a gota. do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Veja mais aqui.

SONETO DA MULHER AO SOL
A bordo do Andrea C, a caminho da França
Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.
Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.
Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce
E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...
Extraído do livro Para viver um grande amor (Companhia das Letras, 1984),
do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui, aqui & aqui.

SENHOR PRESIDENTE - [...] A cidade grande, imensamente grande para a sua fadiga, foi ficando pequena para a sua aflição. Noites de espanto, seguidas por dias de perseguição. Acossado pela gente que, não satisfeita em gritar-lhe: “Bobalhãozinho, domingo você vai casar com sua mãe... aquela velhinha... seu pirado... animal, vagabundo!”, batiam nele, arrancavam-lhe a roupa a pedaços. Perseguido pela molecada, refugiava-se nos bairros pobres, mas ali sua sorte era pior; ali, onde todos andavam às portas da miséria, era não só insultado, mas quando o viam correr apavorado atiravam-lhe pedras, ratos mortos e latas vazias. Vindo de um desses bairros, chegou ao Portal do Senhor num dia qualquer, na hora da missa, ferido na testa, a cabeça descoberta, arrastando a rabiola de uma pipa que, arremedando um remendo, haviam-lhe grudado atrás. Assustava-se com as sombras dos muros, os cachorros passando, as folhas que caíam das árvores, o rodar desigual dos carros... Quando chegou ao Portal, quase de noite, os mendigos, virados para a parede, contavam e recontavam seus ganhos do dia. Mulamanca discutia com o Mosquito, a surda-muda esfregava a mão na barriga, para ela inexplicavelmente grande, e a cega se remexia, sonhando-se dependurada em um gancho, coberta por moscas, como carne de açougue. [...] E mais não disse. Arrancado do chão pelo grito, o Bobalhão saltou em cima dele e, sem lhe dar tempo para usar suas armas, enterrou-lhe os dedos nos olhos, despedaçou-lhe o nariz a dentadas e golpeou-lhe as partes com os joelhos, até deixá-lo inerte. Os mendigos fecharam os olhos horrorizados, a coruja passou de novo e o Bobalhão fugiu pelas ruas escuras enlouquecido e tomado por espantoso paroxismo. Uma força cega acabava de tirar a vida do coronel José Parrales Sonriente, vulgo o homem da mulinha. Amanhecia. [...]. Trechos da obra O senhor presidente (Mundaréu, 2016), do escritor, jornalista, diplomata guatemalteco Miguel Angel Asturias (1899-1974), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1967. Veja mais aqui.

ARTE DE CAMILLE CLAUDEL
A arte da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943). Veja mais aqui e aqui.

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ARTE DE RICHARD MARTIN
Imagem: arte do artista plástico australiano Richard Martin.

quarta-feira, outubro 18, 2017

HERMILO, JESSIE BOUCHERETT, LUIZ BERTO, PINTANDO NA PRAÇA & SERRA DO QUATI – CAPOEIRAS

SERRA DO QUATI, CAPOEIRAS - Imagem: Serra do Quati/Capoeiras/Raimundo Lourenço. - Nasci na beira do Una, andejo do dia singrando na vida. Do outro lado o Mundaú vai pra Alagoas, até mais, boa viagem, eu sigo por conta do Planalto da Borborema para ser o que for feito por força do querer. Sou meio de rio, águas que de mim são correntezas de sonhos e anseios. Sou caeté da sina de ontem e vou pelo sítio Imbé, onde a minha raiz quilombola beija a brisa na minha abissal alegria agreste. Sou do mato viceja na beira da estrada, sou da mata densa dos bichos da infância, folhas que matizam as minhas manhãs e tardes, flores que perfumam aonde quer que eu vá. E vou célere assíduo pelo açude Gurjão, pra ir pro Riacho do Mel, atalhando o Mimoso, chegando em Maniçoba e de lá seguir pelo Mocambo como quem vai para Alegre dizer que vou pra Pau Ferro levar as boas novas. Sou desse chão que também sou e lavo meus os pés no Cajarana porque me batizei no da Pracinha, no Bom Destino, no do Mel do Meio e no de São Pedro e quero ir pra festa da Praça quando a noite chegar. E quando alta madrugada meu peito em poesia seguir até a Serra do Quati, ao reluzir o amanhecer, eu serei o espetáculo: assim como em cima, é embaixo. O céu, as nuvens, o universo no êxtase das mãos, na chuva a me banhar, alma lavada na imensidão, a comunhão do meu íntimo: tudo e todas as coisas, o infinito, mais que a mim mesmo, o prazer de estar cônscio de que há muito mais do que possa ver, muito além do que consiga enxergar: o prazer de estar vivo e viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do pianista Nelson Freire: Bachianas Brasileiras & Alma Brasileira de Villa-Lobos & Estampes de Debussuy; daq cantora Maria Bethânia: Maricotinha ao vivo, O canto do Pajé – 25 anos & Pássaro Probido; do violonista e compositor Felipe Coelho: Cata Vento, Musadiversa & Telhados; e da cantora, instrumentista e compositora Ceumar: Dindinha, Silencia, Sempre Viva & Meu nome. Para conferir é só ligar o som e curtir.

OS 500 ANOS DE DIOGO DE PAIVA - [...] A história repercutirá intensamente e, como é de seu costume, sustentará o governo e sua polícia uma versão que a tudo contraria, desde as evidências até o correto uso da razão. Porque assim lhes convém. Porque é imperioso que se sepulte com Diogo de Paiva uma incomensurável quantidade de fatos escabrosos, comprometedores e altamente incriminadores das elites governantes e influentes do país. Mesmo que de há muito estes fatos já sejam com conhecimento de toda a população. Mas há que se manter as aparências. Como tem acontecido desde os tempos do descobrimento. Ironicamente, o julgamento, a condenação e a execução de Diogo de Paiva, decidida em secreto e restrito tribunal, são levados a cabo apenas pelos seus cometimentos recentes, quando atuou como tesoureiro na campanha de um presidente corrupto que, afinal, perdeu o mandato antes do final. Toda a vida pregressa de Diogo de Paiva, até por ser desconhecida do tribunal que o julgou, não é levada em consideração. Enfim, um julgamento inglório e mesquinho, em total descompasso com a monumentalidade de sua figura. [...] São esses instantes finais, ao lado da jovem amante, bela em sua quietude de morte, uma faísca de luz em sua cabeça, unindo sua chegada em 1500 à posse do seu filho em 2003. Nos instantes imediatamente anteriores ao disparo que lhe atinge o peito, Diogo de Paiva tem uma fugaz visão do céu nordestino, pela janela do seu quarto que dá para a praia e constata, com os olhos cheios de luze o coração cheio de ternura, que é o mesmo céu brilhante de azul que se apresentou às suas vistas naquela manhã em que se fez menos na frota do Capitão Vicente Yañez Pinzon. Com a alma risonha e com a certeza de haver cumprido honradamente sua missão na construção e no estabelecimento do Mundo Novo, entrega sua presença a Deus. Trechos da obra Memorial do Mundo Novo (Bagaço, 2008), do escritor Luiz Berto. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

PINTANDO NA PRAÇA
DIA DO PINTOR – Exposição do projeto Pintando na Praça, realização do poeta e artista plástico Paulo Profeta, na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares – PE. Veja mais aqui.

SER PERNAMBUCANO – [...] Você foi dizer o que era e terminou como terminou. Aliás, todas as vezes em que a gente insiste em dizer o que é mesmo, lasca-se. Posso fazer um pouco de lirismo barato, confessando que para sair pela tangente? Isto é o tipo de coisa subjetiva e não posso falar pelos outros, somente por mim, mesmo correndo o risco de que já falei. Mas vamos lá: ser pernambucano é estar ao lado dos movimentos libertários, é não se conformar com o subdesenvolvimento da zona rural, é tremer de horror diante dos mocambos e alagados, é não admitir que os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres, é comer os quitutes da nossa cozinha, é falar mal do Recife e não conseguir desprender-se dele, é amar e ter inimigos, é pedir ao garçom mais uma dose de Passport. Mas isto são atributos de qualquer homem em qualquer lugar. E chego a uma conclusão muito séria: não sei o que é ser pernambucano [...]. Trecho extraído da obra Agá (Civilização Brasileira, 1974), do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Poema em voz alta, Cidadania & Meio Ambiente, O erotismo de Gerges Bataille, Ciranda dos libertinos de Marquês de Sade, Decameron de Pasolini, o pensamento de Maryam Namazie, a escultura de Leroy Transfield, a pintura de Paul Cezzane & Olivia de Berardinis, A mulher suméria, a música de Karina Buhr, Núpcias do NUA, Estado Imediato, a entrevista de Frederico Baarbosa & o grafite de Mozart Fernandes aqui.
Rio Una: eu nasci entre um rio e um riso de mulher, A energia espitirual de Henri Bergson, Menino de Engenho de José Lins do Rego, Poema & Oração do Milho de Cora Coralina, a música de Heitor Villa-Lobos & Nelson Freire, Humor e alegria da educação de Valéria Amorim Arantes, Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a arte de Grande Otelo, Brincarte do Nitolino, a pintura de Manuel da Costa Ataíde & Luis Sergio Mafra aqui.
O corpo dela é o pomar do amor & programa Tataritaritatá aqui.
A psicologia de Pierre Weil, Psicoterapia mente-corporal de Alexander Lowen & Doro nas eleições aqui.
Os lábios da mulher amada, Crônica de amor por ela & Cantarau Tataritaritatá aqui.
Saúde no Brasil, Fecamepa & Big Shit Bôbras aqui.
Falando de sexo, Isabel Allende  & Zine Tataritaritatá aqui.
Saúde no Brasil, HapVida & Derinha Rocha aqui.
Moto perpétuo, a psicologia de Martin Buber & Priscilla Larocca, A essência da poesia de T. S. Eliot, Hope 2050, A música de Carl Nielsen & Cecília Zilliacus, a teoria literária de Kenneth Burke, o teatro de Mário Viana, a arte de Zuzana Vejvodova, Ponto G, a pintura de Rick Nederlof & Francisco Zuniga aqui.
Autismo, Educação Inclusiva & Tataritaritatá na Difusora de Alagoas aqui.
A arte de Rosana Simpson aqui.
Vera indignada & O segundo sexo de Simone de Beauvoir aqui.
Maceió & Lagoa Mundaú aqui.
La rebelión de lãs massas de Ortega y Gasset, Eu voltarei ao sol da primavera de Ascenso Ferreira, a música de Alexander Scriabin, A função do orgasmo de Wilhelm Reich, O orgasmo de Esperantina, a pintura de Renato Alarcão & Pablo Garat aqui.
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TODO DIA É DIA DE JESSIE BOUCHERETT
Homenagem à escritora e ativista inglesa dos direitos das mulheres, Jessie Boucherett (1825-1905), uma das fundadoras da Society for Promotying the Training of Women, em 1859; promotora do sufrágio feminino e apoiadora do Ato de Propriedade das Mulheres Casadas de 1882, fundadora da Englisgwoman’s Review em 1866, e co-fundadora do Women’s Sufragge Journal.

terça-feira, outubro 17, 2017

ANNIE BESANT, RAMOS ROSA, ARTHUR MILLER, TORERO, LORI KIPLINGER PANDY & VLAHO BUKOVAC

IARAVI & A LUA – No dia que a apaixonada cunhã Iaravi perdeu o caminho de volta pra sua casa caingang e se desencontrou do seu amado Fiietó, ela errou por terras distantes, até vê-se completamente desamparada, aos prantos. Seguiu erradia por noites e dias com a esperança de reencontrar o caminho de casa e o seu amor perdido. Depois de muito vagar sozinha pela vida, não restava mais a ela, senão, o caminho de todas as cunhãs que padeciam de amor: seguir pro alto da colina, deprecar por Iaci, na crença de que ela pudesse trazer o seu amor de volta, tendo em vista a deusa selenita, com o seu beijo, redimir todas as mulheres apaixonadas, tornando-as iluminadas, desmaterializando-as e transformando-as em estrelas fixadas no firmamento. Assim fez Iaravi, procurando altas elevações para realizar o sonho da felicidade, percorrendo lugares com montanhas, serras e montes, até encontrar a maior delas, para alcançar o reino selênico. Ao chegar ao pico daquela, fitou o céu onde as estrelas pareciam entoar cânticos à beleza da Terra e logo encontrou a lua banhando-se no lago. Pulou do alto e mergulhou nas águas onde se encontrava Iaci que, apiedando-se do seu sofrimento, aproximou-se e perguntou: O que queres, minha linda canigang? Iaci, minha deusa, perdi o caminho de volta e, o pior, me desencontrei do meu amor e sigo errante, perdida e desesperada. Nada mais me resta, a não ser a tua complacência, minha deusa e soberana da noite, me transformando em uma vitória-régia, a estrela das águas, para que eu possa findar meus dias sempre esperando por meu amado. Iaci compadeceu-se daquela índia, beijou suas faces, transofrmando-a numa formosa estrela do céu, imortalizada com o aroma da paixão universal. Teve o cuidado de guardar na bela amante todos os mistérios das águas profundas para que ela pudesse reluzir no encantamento dos belíssimos viveiros fluviais da Terra. Mais que grata, Iaravi transformou-se na Lua refletindo a chamar a atenção das caboclas inspiradas pela paixão do amor e a guiar o caminho dos selenitos. (Recriada a partir da lenda Vitória-régia, de Anísio Melo, extraída da obra Contos e lendas amazônicas - Alfredo Ladislau, 1923), © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor e pianista russo Alexander Scriabin (1871-1915): O poema do êxtase op. 54, Misterium & Poema do fogo; da cantora e compositora Fátima Guedes: Muito intensa, Muito prazer, Flor de ir embora & Cheiro de mato; do compositor e pianista estadunidense Keith Jarret: The Koln Concert, La Scala & My Song; da cantora, compositora, instrumentista e designer sonoro Joana Flor: Sine qua non, O que me resta, Me falta tem, Indivíduo lugar & Do que é efêmero. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu procuro e não consigo encontrar, Willy. Hoje eu fiz o último pagamento da casa. Hoje, querido. E não há ninguém nela. Não estamos devendo nada a ninguém. Estamos livres de obrigações. Estamos livres... Estamos livres... livres... [...]. Trecho da obra A morte do caixeiro-viajante (Abril, 1976), do dramaturgo estadunidense Arthur Miller (1915-2005).

EVOLUÇÃO MORAL - Muitas pessoas nutrem bons sentimentos para com qualquer boa causa, mas poucas se esforçam por ajuda-la, e muito poucas arriscarão alguma coisa para apoiá-la. 'Alguém deve fazê-lo, mas por que eu?' é a pergunta sempre repetida pela amabilidade irresoluta. 'Alguém deve fazê-lo, e por que não eu?' é o grito de algum zeloso servo do homem, que se atira, animoso, para a frente a fim de enfrentar algum dever perigoso. Entre essas duas sentenças jazem séculos inteiros de evolução moral. Pensamento da escritora e ativista anglo-indiana Annie Besant (1847-1933). Veja mais aqui.

SONHO & SAUDADE - [...] Tive um sonho esquisito ontem: era uma manhã ensola rada e eu vinha a pé pela avenida Paulista, sentido Consolação-Paraíso. O silêncio era total, nenhum carro passava. Havia apenas papéis picados cobrindo o asfalto e bandeiras brasileiras penduradas nas janelas [...] Acordei com saudades [...] de nhoque feito pela avó, [...] de meu avô, [...] dos shorts de panos estampados feitos pela minha mãe; saudade do barulho de batedeira de minha mãe [...] de ir aos jogos com meu pai, [...] de ver os avós brigando e fazendo as pazes, [...] de briga de empurrão com meus irmãos [...] de ganhar dinheiro do meu avô para comprar figurinha de chapinha [...] Saudade do tempo que já foi. Saudade do que já fui. [...]. Trechos extraídos da obra Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso (Objetiva, 2001), do escritor e jornalista José Roberto Torero. Veja mais aqui.

PALAVRA - Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina / e a alegria aviva-se em redonda ressonância. / O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível / que reconhece e inventa a pluralidade delicada. / Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios. / Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo /da coisa nomeada. O rosto da terra se renova. / Ela aflui em círculos desagregando, construindo. / Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua. / Sobre si enrola o anel nupcial do universo. / O gérmen amadurece no seu corpo nascente. / Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo. / Move-se aqui e agora entre contornos vivos. / Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo. / Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano. Poema extraído da obra Volante verde (Moraes, 1986), do poeta, tradutor e desenhista português António Ramos Rosa (1924-2013). Veja mais aqui.

A ARTE DE LORI KIPLINGER PANDY
A arte da escultora estadunidense Lori Kiplinger Pandy.

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A ARTE DE VLAHO BUKOVAC
A arte do pintor croata Vlaho Bukovac (1855-1922).

segunda-feira, outubro 16, 2017

PRIMO LEVI, ALTHUSER, OSCAR WILDE, FERNANDA MONTENGRO, SÉRGIO AUGUSTO DE ANDRADE, NEUZA PARANHOS, APOLLONIA SAINTCLAIR & PADRE BIDÃO

OS MILAGRES DO PADRE BIDIÃO - Muito se tem falado a respeito dos milagres praticados pelo Padre Bidião. Eu mesmo nunca vi um sequer, mas que falam, falam. E muito! Pois bem. Certo dia o pároco adentra meu escritório e me pede uma bebida. Qual? Pode ser uísque mesmo, vá. Abri a portinhola da estante, peguei um copo e um litro do uísque que dispunha, coloquei sobre a mesa e me levantei para ir buscar gelo no frigobar. Precisa não, vou tomar caubói mesmo, podexá. Retornei e ele me fez pegar outro copo pra mim. Vamos brindar! Brindar o quê, padre? Seguinte: você é escritor e eu estou meio enganchado com o meu Evangelho, preciso de você para concluí-lo, acertado? Padre, ora, o senhor dispõe de gente da melhor cepa, não precisa de mim reles contador de história pra isso, ainda não sou escritor gabaritado para uma empreitada dessas, é muita responsabilidade. Deixe de conversa mole, vá, encha o copo, vamos brindar e virar duma vez. Assim fiz. Brindamos, vira, vira, vira, vira, vira, vira, virou! Pronto, engoli seco, minha garganta queimou. O da batina nem careta fez. Outra, vamos lá. O mesmo ritual. Viramos e ele após ingerir a segunda dose, me puxou mais pra perto e me disse: Preciso de você antes do livro. Como assim? Seguinte: quando falei com Deus pela primeira vez, pedi poderes para curar as pessoas. Ele então me mandou pro Tibet e, chegando lá, disse que eu fosse pra Shangri-lá. Três meses enclausurado, curso intensivo, aprendi. Voltei ao mundo e consegui curar gente de todo tipo, botar cego pra enxergar, mudo pra falar, aleijado andar, enfim, tudo me era possível nisso. Porém, nunca consegui ressuscitar ninguém. Invoquei Deus e disse: Quero ressuscitar as pessoas. Jesus fazia isso, eu também quero fazer. Quero ressuscitar as pessoas, desencantar as árvores encantadas, os pássaros amaldiçoados, tudo que for possível para tonar a vida das pessoas e de todos os seres de volta ao normal. Deus então me disse: Você tem que encontrar Gô-noêno-hôdi. Vixe! E onde é que eu acho esse? Você tem que ir lá pras bandas do sul matogrossense , procurar a tribo Cadiuéu. Quando encontrar a tribo, encontrará quem estou falando. Está certo. Só tem um detalhe. Qual, Deus? Não aceite nada que ele lhe der nem olhe pra filha dele, está ouvindo? Não posso aceitar nada que ele me oferecer nem posso olhar pra filha dele. Isso mesmo. Posso perguntar por quê? Não, apenas faça o que eu mando e pronto! Certo, vou anotar isso pra não esquecer. Daí preciso de você antes do livro. Pra quê? Pra ir comigo. Ora. Ora, nada, já que você vai ser o escritor do meu Evangelho, terá de ir comigo pro Amazonas. Oxe, padre! Ora, cadê seus clones? Não importa, você será o escritor, tem que viajar comigo para poder saber tudo que faço. Além do mais, tem que me lembrar do que Deus me disse: eu não posso olhar pro... sei lá mais o nome... como é mesmo? Gô-noêno-hôdi. Isso, tá vendo? Você já aprendeu. Então, vamos tomar outra talagada desse uísque e vamos embora. Mas, padre. Mas, nada, vamos lá: virando? Slept! Isso é que é uísque bom. Agora vamos. E saímos, ele amontou no disco voador e fomos pro Amazonas. Chegando lá: Onde é que fica a tribo dos Cadiuéu? Ah, é só ir direto aqui que vai bater lá. Seguimos o indicado, uns cento e cinqüenta quilômetros depois, avistamos uma tribo. Ele aterrissou e perguntou pros assustados índios: É aqui a tribo Cadiuéu? É, sim. Onde mora Gô-noêno-hôdi? Ah, é naquela casa ali. Ainda bem que é perto, vamos. Chegando lá. Ô de casa? Sim? É você que é Gô-noêno-hôdi? Não, eu sou o cabelo dele. Ele mora lá naquela casa lá longe, está vendo? Estou. Vamos lá. E lá, ao sermos atendidos pelo morador, o padre perguntou: É você Gô-noêno-hôdi? Não, eu sou a testa dele. Ele mora lá naquela casa na colina, está vendo? Estou. Vamos lá. E fomos. Ao chegarmos: É você Gô-noêno-hôdi? Não, sou o nariz dele! Ele mora lá naquela casa ali na beira do rio, está vendo? Estou. Vamos lá. E assim fomos de casa em casa. Já tínhamos passado pela casa do queixo dele, do pescoço dele, da mão direita dele, da mão esquerda dele, do bucho dele, do umbigo dele, das catotas dele, do rego da bunda, das costas, dos colhões dele, do furico dele, da bimba dele, das coxas, pernas, andamos que só a má notícia, horas sem descanso, enfim, quando chegamos nos pés dele, um chulé da porra, foi aí que o último disse: Ah, ele mora aí em frente, pode ir que ele está lá. Aí ele se virou, bateu palmas e de lá dentro uma voz grave e potente disse: Pode entrar. Quem é? Sou padre Bidião. Ah, pode sentar. E o seu amigo? Ah, é o escritor que acompanha as minhas façanhas para concluir o meu Evangelho. Ah, tá.  Ele, então, acendeu um cachimbo: Quer uma cachimbada? Não, obrigado. Não me faça desfeita, dê uma cachimbada! Não, obrigado. Então, vamos fumar um pascaio do bom. Vamos, dê uma tragada aí no meu pascaio. Não, obrigado, não fumo. Vamos, padre, tome uma tragada que você vai ver estrelas e o céu todo, vamos! Não, obrigado. Hummmm. Você é esperto, já sei quem mandou você aqui. Diga o que quer! Quero ressuscitar as pessoas! Como? As pessoas quando morrerem, eu quero chegar nelas e ressuscitá-las! Ah, sim. Ô minha filha, traga aquele pente especial. A filha veio, o padre baixou a cabeça, olhos no chão e bateu no meu joelho para não vê-la: Está lembrado? Estou padre. Não olhe pra ela! A moça veio, entregou o pente ao padre. Ele de olhos baixos permaneceu: Obrigado. Quando ela saiu, ele agradeceu ao Gô-noêno-hôdi. O que você quer mais? Ah, quero desencantar todas as coisas encantadas, árvores, pássaros, rios, tudo! Ah, você quer desencantar tudo? Sim. Ô minha filha, traga aquela resina especial que mandei você guardar. A moça reapareceu, baixamos as vistas, ela entregou a resina ao padre Bidião e agradecemos. Certo, Gô-noêno-hôdi, obrigado. Mas tem uma coisa! Diga, padre. Como eu sei que está me dando as coisas certas? Vamos fazer um teste? Vamos. Ô minha filha, mande buscar aquele morto que morreu agorinha lá na esquina. A moça foi, daqui a pouco volta com vários índios trazendo um homem morto. Pronto, aí está o morto, penteie o cabelo dele pra testar. O padre foi, penteou os cabelos do defunto e logo ele abriu os olhos e os índios pularam de alegria. Está satisfeito, Bidião? E como eu sei que vou poder desencantar as coisas? Tá certo. Ô minha filha, mande buscar aquela pedra grande que está lá no meio da rodagem que quero ela aqui agora. A moça saiu, daí a pouco, voltou com um bocado de índio carregando uma enorme pedra. Pronto, está aí, passe a resina para ver o que acontece. O padre levantou-se, passou a resina e a pedra começou a se mexer, virou uma árvore que cresceu, cresceu tanto no meio da sala que arrombou o teto não parando de crescer até sumir lá nas alturas da nuvem. Pronto, Bidião, está satisfeito? Agora estou. Muito obrigado, agora preciso cumprir minhas missões. Inté mais ver. Inté. Quando saímos, ouvimos Gô-noêno-hôdi rgitar: Ô minha filha, corra atrás do padre e entregue isso a ele. Aí corremos mais, pé na bunda da poeira levantar atrás, a moça gritando, a gente mais depressa, ela mais ainda, até que o padre tropicou e viu o pé da moça: Pronto, fodeu. Ela, então, disse: Todo mundo que olha pra mim me deixa grávida e morre. E como desfaço isso? Você só se salvará se fizer amor comigo. Oxe! É mesmo? É. De verdade? É. Então, peraí. Virou-se pra mim, agora fodeu Maria-preá, vai mais pra lá que vou emprenhar de verdade essa moça lindíssima, não se vire, nem veja, viu? Certo, padre, mande ver. Aí ele foi se chegando à moça, levantou a batina, encostou-la numa árvore e mandou ferro nela, no maior gemido de ais e uis, dela gritar, berrar, se esfolar e gozar ruidosamente, dele cair duro no chão. Nessa hora corri pra socorrê-lo. Estou bem, estou bem. Foi um gozo da porra. Agora ela está prenha de verdade. É, agora você tem que morar comigo. Sim, vou morar, só que agora vou cumprir minhas missões, final do mês estarei aqui pra gente se casar de verdade e criar nossa prole. Está certo. Assim, entramos no disco voador, ele me deixou em casa e perguntei: Agora o senhor vai cumprir suas missões, boa sorte! Nada, agora não, vou voltar lá, dou outra peiada na linda cadiuéu pra depois cumprir as misssões. E assim foi. Ele ressuscitava e corria na tribo, trepava e voltava; desencantava um, retornava lá pra índia adorada, dava bimbada nela e retomava com as missões, indo e vindo, de instante em instante, a ponto de parar sobre o meu telhado e gritar: Ô meu escritor! Quando eu enjoar da indiazinha linda, eu venho aqui pra você trabalhar no meu Evangelho viu? Faz tempo que ele não aparece, deve estar salvando muita gente e se aproveitando pra dar uma sapecada boa na sua nova paixão. (Recriada a partir da lenda Gô-noêno-hôdi, extraída da obra Religião e mitologia cadiuéu (SPI, 1950), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Various pianoworks & Concerto Armorial n 2, op. 98; da cantora e compositora Leila Pinheiro: Meu segredo mais sincero, Leila Pinheiro do Brasil & álbum com seus grandes sucessos; do cantor, compositor, maestro e arranjador Francis Hime: Concerto para violão Modinha, Concerto para violão Ponteio, Fantasia para harpa e orquestra e Sinfonia para o Rio de Janeiro de São Sebastião; e da cantora Clara Redig interpretando Embarcação, Frevo nº 2 do Recife, Valsa Rancho, O amor e a rosa, Trocando em miúdos & Preconceito. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAFalta sexo. As pessoas têm levado tudo tão a sério que a maioria já se esqueceu como o cinema talvez tenha sido inventado simplesmente para que possamos assistir melhor – e mais vezes – a nossos wet dreams prediletos. Será que o máximo que merecemos é brincar de vestir Halle Barry de Mulher Gato? Por favor. Trecho do artigo Sexo (Bravo, out/2004), do jornalista Sérgio Augusto de Andrade. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO PÚBLICA - [...] até uma criança sabe que se uma formação social não reproduz as condições da produção ao mesmo tempo em que produz não conseguirá sobreviver um ano que seja. A condição última da produção é, portanto a reprodução das condições da produção. Trecho extraído da obra Aparelhos ideológicos de Estado (Graal, 1998), do filósofo francês Louis Althuser (1918-1990), que na sua obra Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado (Presença 1970), reafirma que: [...] Designamos por Aparelhos Ideológicos de Estado um certo numero de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas...(a ordem pela qual as enunciamos não tem qualquer significado particular): O AIE religioso (o sistema das diferentes Igrejas), o AIE escolar (o sistema das diferentes escolas públicas e particulares), o AIE familiar, o AIE jurídico, o AIE político (o sistema político de que fazem parte os diferentes partidos), o AIE sindical, o AIE da informação (imprensa, rádio-televisão, etc.) [...] Ora, é através da aprendizagem de alguns saberes práticos (savoir-faire) envolvidos na inculcação massiva da ideologia da classe dominante, que são em grande parte reproduzidas as relações de produção de uma formação social capitalista, isto é, as relações de explorados com exploradores e de exploradores com explorados. Os mecanismos que reproduzem este resultado vital para o regime capitalista são naturalmente envolvidos e dissimulados por uma ideologia da Escola universalmente reinante, visto que é uma das formas essenciais da ideologia burguesa dominante: uma ideologia que representa a Escola como um meio neutro [...]. Veja mais aqui e aqui.

DE PROFUNDIS - [...] Chamamos a época em que vivemos de utilitária, mas a verdade é que não sabemos usar praticamente nenhuma das coisas de que dispomos. Esquecemos que a água limpa, o fogo purifica e que a Terra é a mãe de todos nós. Em consequência, nossa arte é da lua e brinca com as sombras, enquanto que a arte grega é do sol e trata diretamente com as coisas. Tenho certeza de que há pureza nas forças mais elementares e quero voltar a elas e viver em sua presença. Todos os julgamentos julgam a nossa vida, assim como todas as sentenças são sentenças de morte – e eu já fui julgado três vezes. Na primeira, saí do banco dos réus para a prisão, na segunda para retornar à prisão, na terceira para passar ainda dois anos no cárcere. A sociedade, tal como a fizemos, não tem nenhum espaço para me oferecer, mas a natureza cuja doce chuva cai tanto sobre o justo quanto sobre o injusto terá covas nos rochedos onde poderei ocultar-me e vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem ser perturbado. Ela encherá a noite de estrelas para que eu possa caminhar na escuridão sem tropeçar e fará com que o vento apague as minhas pegadas para que ninguém possa ferir-me. Ela me purificará em suas águas claras e curará meus males com suas ervas amargas [...]. Trecho extraído da obra De profundis & outros escritos do cárcere (L&PM, 1982), do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui, aqui e aqui.

É ISTO UM HOMEM? – [...] Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...] Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...]. Trechos extraídos da obra É isto o homem (Rocco, 1988) do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987). Veja mais aqui.

A FOME & SUAS CONSEQUENCIAS - [...] Minha alma desceu fuindo no buraco negro de seus olhos. Eu e meus convidadeos. Eu e minha falta de assentos. Eu e minhas aspirinas. Nos meus quarenta em madeira de lei, escondida selva onde ninguém pudesse tocar. Tomaram a voltar. A cada visita, meu coração se aquietava vendo-os entrar sem licença, mas submissos. Uma noite tentei perceber se ficavam nos mesmos lugares. Não havia como, eram muito parecidos e se confundiam em uma só entidade, mas sabia, sem que ninguém tivesse me avisado. Jamais lhes dirigir a palavra, nem procurar em seus olhos sinais de humaniadde. Deveria fechar o corpo, precaver a alma, andar como um domador entre feras. Via em um conta uma mulher a enterrar bebês, outra a entregar os filhos em orfanatos. Adiante, um enforcado, um tuberculoso, um suicida, uma desonrada. E a companhia vinha espumando ódio. Indignada, nos meus quarenta anos em madeira de lei sem regra, eu mal dava conta das aspirinas. Quanto mais da marca do vinho [...]. Trecho do conto A fome (Cult, janeiro 2003), da escitora, jornalista e tradutora Neuza Paranhos.

A ARTE DE FERNANDA MONTENEGRO
Todo dia é dia da atriz Fernanda Montengro. Veja mais aqui.


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A arte & a entrevista de Clara Redig aqui e aqui.
A saga do Padre Bidião aqui.
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INK IS MY BLOOD, APOLLONIA SAINTCLAIR
Imagens da trilogia Ink is my blood (Tinta é o meu sangue) publicada da artista, ilustradora e desenhista erótica Apollonia Saintclair. Veja mais aqui.
  

DRUMMOND, RIMBAUD, LEMINSKI, MARITAIN, GILVAN LEMOS, JACOB DHEIN, GENÉSIO CAVALCANTI, CARIJÓ & SÃO BENTO DO UNA

CARIJÓ, SÃO BENTO DO UNA – Imagem: Céu de São Bento do Una , de Renatinha @Renatalcaet – Carijó, meu amigo, minhas mãos limpas e esta mis...