terça-feira, setembro 20, 2016

A SALVAÇÃO BIDIÔNICA DEPOIS DA BRONCA


A SALVAÇÃO BIDIÔNICA DEPOIS DA BRONCA - Antes de se tornar a beata-estandarte da Igreja Bidiônica, Prazeres do Céu enrabichou-se pras bandas do Zé Peiúdo. Ambos adolescentes caíram num sarro pesado de findar a debutante perdendo os seus três vinténs, embuchando por consequência. Passou o tempo e sem poder esconder a gravidez, ela ficou atônita vez que não podia desmoralizar a honra nem constranger a religiosidade dos seus pais. Revestida de um pânico enorme, ela pegou então o galante libertino pela beca e deu-lhe ciência do seu estado, exigindo contrair núpcias para resolver seu problema. Oxe, o cabra assim que se livrou da intimidação, virou a venta pra primeira direção e deu um carreirão pro fim do mundo, de quase gastar os pés na bunda com a poeira de tanta estrada. Quando se sentiu livre do acocho, mal respirou aliviado, lá estava ela inexorável vigilante, interceptando seus passos fugidios nas quebradas duma capoeira que ornava uma das últimas curvas dos quintos dos infernos. Segurado pelos colhões e orelhas, foi levado por ela pra juramento diante do padre e do juiz. Pronto, obrigação cumprida, os esponsais foram saudados no maior vexame pelos pais e padrinhos arrumados e catados feito pega-na-rua. Cerimonial concluído, passaram a viver embaixo do mesmo teto, não se salvando dumas encrencas por incompatibilidade de gênios num bangalô alugado às pressas pra dividirem as queixas e desentendimentos. Privado da sua liberdade, ela na cola dele cercando todo seu ciscado, a cada escapulida ele enchia o tampo na farra e, lavando a jega ao chegar em casa, arreava a lenha na chatura de Xantipa dela: era cada murro e bofetão dos vizinhos pedirem clemência e ela de tanto sacudida quase pedia arrego. Um escândalo, mas nada saía disso. Dia sim e outro sim, o cacete comia no centro. Uma ou outra intervenção amiga e ele aplacado em sua fúria. Ela aguentou resignada o quanto pôde, deu a luz a um lindo bruguelo, suspendeu os estudos, virou dona de casa diligente e tentou dar um ar de harmonia no que só se fazia só entre tapas e beijos. Um dia lá, uns dez anos de surra, ela esborrou a paciência e procurou apoio nos irmãos para socorrê-la dos maus tratos: todos deram as costas e arribaram pra longe. Não teve alternativa, deu ciência ao pai sobre o que lhe sucedia: o velho não aguentou o tranco e bateu as botas com o coração estuporado. A mãe quando soube de tudo, embarcou junto com o pai pro reino dos pés juntos. Sozinha e abandonada, deu parte do marido à polícia: um arranca-rabo da porra. O injuriado cônjuge jurou-lhe de morte, fato que levou a promotora da comarca a pegar pesado e não largar do seu pé. Resultado: foi trancafiado por anos e não teve advogado vindo da capital que soltasse o malouvido. Tendo de pagar a pensão preso – a família dele tinha posses, mas não teve força pra injúria da representante do Ministério Público, sendo solto, só quando ela foi transferida pra onde Judas perdeu o paradeiro. Prazeres não teve sua sorte mudada, muito pelo contrário, havia se auto-endoidado de ficar falando sozinha, aos prantos, diziam até que ela surtara pelas porradas tantas que levou na cabeça, brutalidade de desumano. Quando estava à míngua de quase pedir esmola, eis que conheceu o padre Bidião que lhe acolheu com carinho e tratamento psicológico, dando início, então, ao que hoje se constituiu a filosofia bidiônica de salvação de almas desencaminhadas. Foi aí que a vida dela se aprumou e até hoje segura firme como pisciana beata juramentada e seguidora inarredável do Evangelho Segundo Padre Bidião. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UMA MÚSICA

Curtindo o álbum Violoncelle solo (Acord/Universal, 2005), da premiada violoncelista russa Tatjana Vassiljeva.

PESQUISA: FILOSOFIA, IDEOLOGIA & CIÊNCIA SOCIAL - [...] Deve-se enfatizar que o poder da ideologia dominante é indubitavelmente enorme, não só pelo esmagador poder matéria e por um equivalente arsenal político-cultural à disposição das classes dominantes, mas, sim, porque esse poder ideológico só pode prevalecer graças à posição de supremacia da mistificação, através da qual os receptores potenciais podem ser induzidos a endossar, “consensualmente”, valores e diretrizes práticas que são, na realidade, totalmente adversas a seus interesses vitais. As ideologias críticas, que procuram negar a ordem estabelecida, não podem sequer mistificar seus adversários, pela simples razão de não terem nada a oferecer - nem mesmo subornos ou recompensas pela aceitação - àqueles já bem estabelecidos em suas posições de comando, conscientes de seus interesses imediatos palpáveis. Portanto, o poder de mistificação sobre o adversário é privilégio exclusivo da ideologia dominante. [...] as várias formas ideológicas de consciência social acarretam diversas implicações práticas de longo alcance na arte e na literatura, bem como na filosofia e na teoria social, independentemente de sua ancoragem sócio-política em posições progressistas ou conservadoras. [...] a posição ideológica que “questiona radicalmente a persistência histórica do próprio horizonte de classe, antevendo, como objetivo de sua intervenção prática consciente, a supressão de todas as formas de antagonismo de classes. [...] o conceito das “condições materiais de vida” ocupa, estrutural e geneticamente, uma posição essencial no sistema marxiano, - isto é, tanto em relação à gênese histórica das formas mais complexas de intercâmbio humano, como diante do fato de que as condições materiais constituam a pré-condição de vida humana estruturalmente necessária em todas as formas concebíveis de sociedade -, tal conceito não é, de forma alguma, capaz, por si só, de explicar as complexidades do próprio desenvolvimento social. [...]. Trecho extraído da obra Filosofia, ideologia e ciência social: ensaios de negação e afirmação (Ensaio, 1993), do filósofo húngaro e um dos mais importantes intelectuais marxistas da atualidade István Mészarós, refletindo sobre temas e problemáticas distintas como filosofia, análise literária e ciências sociais, a partir de seus contextos históricos e de uma perspectiva crítica., procurando esclarecer o poder da ideologia e de seu papel no processo dos ajustes estruturais. Para o autor em estudo, as condições de dominação estão estreitamente ligadas à intervenção de poderosos fatores de ordem ideológica. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UM LIVRO, UMA LEITURA: MAL DE AMORES
 [...] viajar é uma forma de destino. [...] Daniel – dissera para si própria – podia dividir-se em dois: um era o que montava com ela num corno da Lua, o que ocupava todos os sonhos porque nenhum sonho era melhor do que a realidade quando ele a preenchia. O outro era um traidor que montava no cavalo da revolução para ir fazer a sua pátria noutro lugar que não a sua cama comum. [...] Mas a guerra contra a ditadura não se tinha revelado mais do que guerra e a luta contra os desmandos de um general não tinha feito mais do que multiplicar os generais e os seus desmandos. [...].
Trechos extraídos da obra Mal de amores (Objetiva, 1997), da premiada escritora e jornalista mexicana Ángeles Mastretta, contando a história de um triângulo amoroso com suas paixões, medos, sonhos e desesperanças, ocorrido durante a Revolução Mexicana.

PENSAMENTO DO DIA: HORROR ECONÔMICO - [...] A vergonha deveria ter cotação na bolsa; ela é um elemento importante do lucro. [...] É dessa maneira que se prepara uma sociedade de escravos, aos quais só a escravidão conferiria um estatuto. Mas para que se entulhar de escravos, se o trabalho deles é supérfluo? [...] Concorrência e competitividade não agitam tanto quanto dizem, e sobretudo não “como” dizem as empresas e os mercados. As redes mundiais, transnacionais, são por demais imbricadas, entrecruzadas, ligadas entre si para que isso ocorra. [...] Em vez de abrir caminho para uma diminuição e até mesmo uma abolição bem-vindas, planejadas do trabalho, a cibernética suscita sua rarefação e logo sua supressão, sem que tenham sido igualmente suprimidas ou mesmo modificadas a obrigação de trabalhar e a corrente de intercâmbios, da qual o trabalho sempre foi o único elo suposto. [...] A supressão de empregos tornou-se um dos modos de administração mais em voga, a variável de ajuste mais segura, uma fonte prioritária de economias, um agente essencial do lucro. [...] Eles vivem num mundo sedutor, do qual têm uma visão excitante que, pela sua redução despótica funciona. Funesto, este não deixa de ter um sentido para quem dele participa [...]. Sejam quais forem suas demonstrações sabiamente hipócritas, sua potência é posta a serviço, ou seja, a serviço daquela arrogância que o faz considerar bom para todos aquilo que lhe é rentável. E como natural para um mundo subalterno. Ser sacrificado por isso então não se constitui em nenhum pecado. [...] Cada um parece ao contrário, estranhamente cúmplice: não só aqueles que ainda têm a bondade de se dignar ou se dar ao trabalho de fazer uso dessas perífrases corteses em relação à população que não tem mais avisos a dar, mas que reclamam essas promessas, suportam seus perjúrios e, afinal, pedem apenas para ser exploradas [...] Assim tacitamente alienados, estamos imobilizados dentro de espaços sociais condenados, locais anacrônicos que se autodestróem, mas onde temos o estranho e apaixonado desejo de permanecer, enquanto o futuro se organiza, debaixo de nossos olhos, em função da nossa ausência, já programada de maneira mais ou menos consistente [...]. Trechos extraídos da obra O horror econômico (Unesp, 1997), da escritora, ensaísta e crítica literária francesa Viviane Forrester, realizando um balanço da atual crise global do trabalho e analisando as verdades do capitalismo pós-industrial e a nova estrutura de produção como um drama moral do projeto civilizatório da modernidade, com o desemprego e o desdobramento lógico do horror econômico fabricado no laboratório dos economistas.

UMA IMAGEM
A arte da artista plástica, performer, fotógrafa & multimídia Lia Chaia, nas performances/instalações/intervenções urbanas realizadas nas exposições  Glam – Silèncio Feminino (2010), Na cama formigando com um tango (2010) e Que os meus olhos te protejam (2010), com a percepção de vivências do cotidiano, a permanente tensão cultura versus natureza e o a reação do corpo aos estímulos e rupturas do cotidiano.

Veja mais sobre Panorama da Quilombo, Upanixades, José Régio, Toquinho, Afonso Lisboa da Fonseca, Pedro Onofre, Kirk Jones, Christianna Brand, Emma Thompson, Martha Rocha, Literatura Infantil & Donald Zolan aqui.

A GAIA CIÊNCIA
Coragem com meu alimento, comedores!
Amanhã o seu gosto já lhes será melhor
e depois de amanhã será bom!
se então quiserem mais —
minhas sete velhas receitas
me serão sete novas audácias.
Convite - Brincadeira, astúcia e vingança – Prelúdio em rimas alemãs, extraído da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

E veja mais:
Proezas do Biritoaldo: Quem é bom já nasce troncho, apesar da água benta no quengo do sopiado aqui.
Charlie Chaplin & probidade administrativa aqui.
Cantador & obviedades cínicas aqui.
Literatura Erótica, Presente de Natal, Agostini Carraci & previsões do Doro aqui.
Plenilúnio do Amor, A paixão de Aristóteles, O amor mais que de repente & as previsões do Doro aqui.

DESTAQUE:
Preparation drawing for drawing, do artista plástico brasileiro Wesley Duke Lee (1931-2010). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do pintor e escultor francês Auguste Chabaud (1882-1955).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


TODO DIA É DIA DO CORDEL, DA BANDEIRA & DO CANTARAU TATARITARITATÁ!

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