quinta-feira, agosto 18, 2016

A FESTA DAS OLIMPÍADAS


A FESTA DAS OLIMPÍADAS – Os biltres marmanjos alagoinhandubenses ficaram de queixo caído com o show de apresentação que deu a mulherada no que chamaram de olimpíadas do lugar. Na vera, não foi lá o que se diga de fora de série, todavia pros desvarios sebosos das afuleiradas mungangas anteriores, foi um show de competição. Por conta disso, morreram de inveja porque logo apareceram interessados em bancar o evento. Daí, tomaram vergonha na cara reorganizando a porqueira que haviam feito nas provas masculinas anteriores, anunciando novas competições agora com tudo nos conformes. Agora sim, diziam, não antes choverem falcatruas nos contratos auspiciosos de patrocínio, com vantajosos percentuais embolsados pelos organizadores, resultantes do leilão que fizeram de tudo no município: desde faixas, cartazes, panfletos, outdoors, baners e outros materiais de natureza propagandística, usados em tudo quanto fosse possível explorar, como a indumentária e imagem dos atletas – teve uns três que saíram com nome do anunciante carimbado na testa, outros com adesivo nas bochechas, até um que saiu com um bóton pedurado numa flâmula amarrada no pingulim, afora outras trejeitosas e risíveis fixações. Pois fizeram de tudo na arrecadação duns trocados: dos telhados ao meio fio, aproveitaram todo espaço possível para venda de cotas de publicidade. Nada escapou: igrejas, patrimônio público, propriedade privada, tudo enfeitado com os anúncios do piso ao teto e da entrada aos fundos. Muitos reclamos apareceram pelo uso indevido de portas, janelas, muros, portões, antenas, puxadinhos, terrenos baldios, tudo invadido sem autorização nem acordo. – É festa, véi! -, desprezou um dos compoenentes da comissão organizadora. Imagine a situação emporcalhada que ficou a localidade. Entre sopapos e deixa disso, todo mundo foi envolvido pelo evento e logo deu início a primeira bateria da prova: salto da ribanceira. Um horror. Era da altura íngreme dum morro e que no meio do embolado colocaram uns obstáculos tipo paralelepípedos, cacos de vidros, cascos de garrafas quebradas, metralha, coisas do tipo da maledicência despudorada. Aí, empurravam o desgraçado que a pulso pulava lá de cima embolando ladeira abaixo de deixar partes do corpo pelo caminho até embaixo, todo estropiado para conferir o que faltava da vítima. Ganhava aquele que se fodesse lá embaixo com o menor tempo cronometrado. Não sobrou um pé pra reivindicar a vitória. Contudo, se era uma desgraça para o participante, era um sucesso pra mundiça da plateia, tudo a favor do morro na maior torcida para que os participantes se estrapassem ladeira abaixo. – Se sair um inteiro num presta! Tem que chegar lascado pra gente poder gostar! Essa prova comeu toda manhã e, depois do meio dia, a tarde toda foi para a bolada nos ovos: o participante de frente pra bola na marca do pênalti – coisa de uns dez metros, nem isso – e vinha todo mundo pra chutar a pelota e acertar os possuídos do néscio. Mesmo quem não tinha boa pontaria acertava em cheio pra desespero do palerma que caía se acabando de dor. Ganhava aquele que conseguisse ficar em pé depois duns cinquenta chutes bem dados com direito a duas chances cada chutador. Ninguém ganhou, foi só comemoração. Quando anoiteceu foi a vez do pé na bunda. Nessa todo mundo se inscreveu não sabendo as dificuldades da prova: o atleta tinha de correr sempre encostando um dos pés nas nádegas – ou seja, na carreira tinha que ter um pé no chão e o outro com o calcanhar tocando o catimbofá. Pra aumentar a dificuldade, tinha o desportista que afixar uma liga amarrada de cada colhão em cada pé. Levava tempo até que todos conseguissem tal façanha. Teve gente que amarrou elástico e que, pela correria, não aguentava o repuxo, findando meio mundo arreado no trajeto com a lapada. Ninguém conseguiu terminar a prova, mas os festejos foram muitos pela desgraça de todos. Pra compensar anunciaram que a prova seguinte seria a da pelada e, como já era mais de meia noite, ficou pra quando o dia amanhecesse. E como a população ficou indômita, tiveram de inventar algumas eliminatórias para então soltar a lista classificatória dos que participariam da desejada pelada. – Ah, futebol é comigo! A gente já nasce jogador! Mal o Sol despontava no horizonte, ninguém se entendia e, como todo brasileiro é além de jogador um técnico em potencial, cada um com seu pitaco de estratégias pras partidas. Levaram coisa de mais ou menos uns três dias para resolver a questão dos grupos, turnos, returnos, melhor de três, semifinal e final. Meio sem jeito a turma foi se organizando, coisa de uns trezentos times e a maior confusão na armação das equipes, só tomando jeito porque um galego de dois metros de altura e olhos verdes, apelidado de Alemão começou a prospectar os componentes da sua equipe, fato que fez com que cada um tomasse partido pra esvaziá-lo, vez que tencionavam que ele fosse o goleiro do contra pra vingança do desastroso 7x1 da copa. – Deix’ele pro gol pra gente dar bico e encher o cara de frangaços! – É mermo, a gente se vinga do alemão dessa vez. – Bota ele no gol pra gente dar uns teiaços raçudos nesse fresco agalegado! Assim foi tramado e ele findou mesmo embaixo das traves todo com pinta de profissional. Depois de umas quinhentas partidas, todos contra todos, sobrou uma equipe que se sobressaiu para enfrentar a decisão com o que sobrou de jogadores pro Alemão. – Só deixa ele juntar perna-de-pau pra gente golear. Coitado, nehuma chance de vencer, vez que não sabia no que estava enredado. E assim foi. Com dez minutos de jogo já estava 8x0, dois legítimos do ataque e outros seis tudo contra, como se os a favor estivessem em conluio com o adversário. E estavam mesmo, tanto é que findou o primeiro tempo 36x0. – Segura essa alemão fidapeste! Isso é uma lavagem da porra! – Ué, eu tô jogando sozinho, porra! -, gritou inocentemente o Alemão. E nem deu tempo de gritar, já começava o segundo tempo com todo mundo dando chute nas duzentas bolas que jogaram no campo. Ele agarrar nem podia, se livrava. Teve um que contou o escore: 2755x0. E ficou nisso mesmo porque ninguém era doido de sair recontando um por um. O Alemão que quase morre asfixiado dentro das redes entupidas de bolas, só se salvando porque berrava por socorro. A cidade em peso de alma lavada pela vingança da copa, começou ao cortejo com a estátua da bimba gigante – o símbolo das olimpíadas deles - por toda cidade, até findar na entrega dos troféus – o tolote de ouro – para todos os participantes. Como não tinha o suficiente para contemplar todo mundo, teve gente que se virou com fotos, lembrancinhas e brebotes que traziam a inscrição do prêmio. O ponto alto foi a distribuição do aperitivo, a teibei – a raiz de pau milagrosa -, e todo mundo festejou de só voltar ao normal uns quinze dias depois. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
Veja mais:
AS OLIMPÍADAS DO FECAMEPA 
AS MULHERES NAS OLIMPÍADAS
JOGO DURO 
A TEIBEI


Curtindo o álbum (cd/DVD) Wanda Sá ao vivo (Biscoito Fino, 2014), da cantora e violonista Wanda Sá.

PESQUISA
Convém, pois, que tenhamos presente que, quando interferimos com responsabilidade e liberdade – e com isso com a possibilidade de uma vida digna e autônoma - tocamos em nossa condição humana de pessoa. Poderíamos renunciar a tais ‘ficções’, com auxílio das quais compreendemos a nós mesmos, sem nada ter a oferecer em troca senão um sucedâneo que, ao que tudo indica, torna ainda mais sombrio o horizonte no qual já se desenha um provável rebaixamento de valor e de autoestima da humanidade, com o sentimento torturante mediocrização do homem e de sacrílega banalização geral da existência?
Trecho extraído da obra Sonhos e pesadelos da razão esclarecida: Nietzsche e a modernidade (UPF, 2005), do filósofo e professor Oswaldo Giacoia Junior.

LEITURA 
Penduro antigas fotos de namoradas de infância – com o coração partido, sento, cotovelos na mesa, o queixo na mão, estudando os olhos altivos de Helen, a boca fina de Jane, os dourados cabelos de Susan.
Nas paredes de uma sala sem requintes de arrumação, poema extraído do livro Gasolina & Lady Vestal – Poesia Urbana (L&PM, 1985), do poeta estadunidense da geração beat, Gregory Corso (1930-2001). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA
[...] jamais poderia imaginar quão sutis e veladas são as armadilhas com que se deixam enredar os falantes compulsórios de qualquer segmento da vida intelectual, como que confirmando os laços entre biografia, sociedade e produção científica. Só que desta vez eu vesti a pele da fonte, sem volta.
Trecho extraído da obra Intelectuais à brasileira (Companhia das Letras, 2001), do sociólogo e professor Sergio Miceli.

IMAGEM DO DIA
A arte do grafiteiro e artista de rua britânico Banksy.

Veja mais sobre Aurora: o Sol nasce paratodos!, Henry David Thoreau, Toninho Horta, Samuel Beckett, Píndaro, Nathalia Timberg, Roman Polanski, Aldo Locatelli, Romeo Zanchett & Emmanuelle Seigner aqui.

DESTAQUE
A arte da ciber ativista, desenhista digital e blogueira Nadia Gal Stabile, editora do blog Sarau para todos.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Aphrodite, by Augusta Stylianou.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
World Peace, by Nancy L Jolicoeur.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.