segunda-feira, maio 09, 2016

MARIA ESPERANTINA, ORGASMO DE UMA NOITE & NUNCA MAIS

MARIA ESPERANTINA, ORGASMO DE UMA NOITE & NUNCA MAIS (Imagem: arte da artista plástica austríaca Xenia Hausner). – Enviuvara há cinco anos, não convolara novas núpcias. Absteve-se, resignada, sua experiência marital não fora das que se diga lá perto do razoável, só privação, sacrifícios, precisões. Homem, sexo e fogão. E ela, quase ninguém. Prazeres ínfimos, quase nenhum. Pernas abertas de plantão: a vontade dele, os horrores dela. Na boquinha da noite, agonia nem anoitecida. Ela, só cansaço, revia-se firme e forte. Tinha de acertar os ponteiros com ele, energia renovada e urgente. Até que gostava, não sentisse tão morta na lama, cuspida na sarjeta. Depois, o suplício: roncos de costas na cama. A aflição de não ser nada, valia nenhuma, apenas objeto de consumo. De manhã, roupas sujas, poeira nos móveis, comida pro dia e uma faca de ponta afiada invisível no coração. Pigarro, bafo de cachaça, desolação. A sua rotina, a vida quase estragada. Maria Esperantina de batismo, Gonzales esponsal. Não mais. Era a caçula entre três, a única sobrevivente. Há cinco anos, o preço da solidão, a liberdade de nada valendo que tanto. Sempre comedida, pudica, quase beata. Não fosse o socorro de Vera naquela manhã desequilibrada, jamais sairia dos seus haveres solitários. Soubera duma cidade, o seu nome. Um dia especial, seria. A promessa de um Apolo sonhado na indicação arrojada de Vera alvoroçada. Abriu-se-lhe uma esperança, nenhum entusiasmo. Apenas aquela esperança de quase nada alcançável. Uma cidade aprazível, província perdida nos rincões do Brasil. Era outono, depois de tantos choros ao pé da porta, uma ponta de riso no canto dos olhos. Desconfiada, continha-se. Não demonstrava desespero, apenas solícita, curiosa. Findaram indo, as duas. Vera acompanhou o trajeto até o lugar, promessa de esbaldar, soltar os demônios, tangas a voar. Ela não, reprimida em si. Vera que fosse. Viu-se enredada, num assalto de surpresa, perdeu o fio da meada. Com a viagem desentoxicava-se, novos ares. Nem dera conta acompanhada num quarto de pousada com um estranho que pouco simpatizara. Como se dera, não sabia. Como pudera, fugiu-lhe o poder. Como que envolvida num estratagema, deixara-se levar. Enjeitara tudo em si, o seu interdito. Quantas novenas noites a fio, agora nada valiam. A voz rouca assustava, rubores de pernas cruzadas. O riso dele era um insulto. Fez figa, segurando a barra do vestido. Na beira da cama, uma mão boba, uma carícia ao braço escapando limites, a queda no colchão. Olhos marejados, resistia. Insistia a vergonha, a culpa, o remorso. Inútil. A mão insistente desabotoava suas vestes, nenhuma palavra, olhos no chão. Desnudada, tudo em cima pros olhos grandes dele e a sua língua lambendo os beiços como quem armou de tocaia a arapuca certeira. Queria só lavar égua, tomaria dela tudo que tivesse. Removeu o sutiã e abocanhou seu seio esganado. Não protestava, nem resistia. Removeu-lhe a calcinha, apenas escondia a fogosa insaciável trancada a sete chaves. Ela só desamparada, pálida e seduzida, aos sobressaltos, mãos no coração. Ele arvorado com pegadas por tudo que era dela: perdeu-se de tudo que era seu, nem mais era, agora nada. Lívida, encarava a judiação. Tomada no abraço, a catinga do macho roubou-lhe os sentidos. Estava tomada, reduzida presa, dominada. Mais resistia e se benzia na autocensura. Engolia o soluço na luz apagada e se preparava para morrer embaixo do cobertor. De novo a lama, não saberia que seria mais dela. Voltava pro nada, desprotegida, seviciada. Domou-lhe os punhos, à força. Fungados na nuca, mordiscados nos ombros, indecências ao ouvido. Arremetidas teimosas invadiam-lhe a carne, a honra suposta e a alma penada. Calcanhares afastados, pernas perdidas, intimidade roubada: possesso com ajeitados bruscos e invasões indesejáveis. Devassidão que pra ela até Deus duvidava, dores nos quartos. Tudo de novo, pro nada. Cavalgava como quem tratava bicho. Apavorada, excitava-se mordendo a fronha do travesseiro. Os seus segredos se revelaram, perdia-se, rendeu-se ao que podia de prazer. Enlouquecida, largou-se ao paroxismo. E gemeu num gozo demorado, a primeira vez do orgasmo em cinquenta e três anos de vida. Possuída, dilacerada, sentiu-se feliz de verdade pela primeira vez, pelo menos. A tortura de sempre, agora mais que um gozo, prazeres. Esta noite e nunca mais. Nunca mais o que era antes, nunca mais virá depois. Arrependida, juntou os trapos que lhe restara, quase nada de si. Sentira-se ninguém, mais que nada. Como sempre, depois de consumado, só restara ir embora. Ele se foi, que se vá. Não haverá próxima vez, insistia. Apaziguada com o recuo e, depois, a saída desarmada do adversário, sentiu o alívio de quem se libertara do que não sabia. Havia sido invadida, ultrajada, agora não mais. Não haverá outra vez. De volta pra casa, determinada. Era outra vida agora. Não mais passado nem lembranças. Às cinco da tarde, o silêncio caiu: trinado do telefone. Disposta, não arredara o pé. Não mais, resistente. Nunca mais. Meia hora depois, toda prendada no quarto do intruso. A nudez refeita, entregou-se rendida. Tudo outra vez, permitiu-se. Era ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: Trem das Alagoas, ilustração do premiado ilustrador e quadrinista Guazzelli (Eloar Guazzelli Filho). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum ao vivo Oropa, França e Bahia (BMG/Ariola, 1988), do cantor e compositor Alceu Valença. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PESQUISA
O sexo na história (Francisco Alves, 1980), da historiadora e escritora britânica Reay Tannahill (1929-2007). Veja mais aqui.

LEITURA 
Hoje é dia poeta Ascenso Ferreira (1895-1965).
Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Protesto é quando eu digo que algo me incomoda. Resistência é quando eu me asseguro que aquilo que me incomoda nunca mais acontecerá [...] Como Auschwitz foi possível? O que era o antissemitismo na Alemanha? Usou-se o ódio do povo à sua dependência pessoal do dinheiro, como uma maneira de troca, sua busca pelo comunismo. Auschwitz significa que seis milhões de judeus foram assassinados e jogados em aterros sanitários pela Europa, por serem aquilo que lhes foi apontado ser - Dinheiro-Judeus. O que aconteceu foi que o capital financeiro, a elite e os bancos, o núcleo do sistema do capitalismo e do imperialismo, desviou a atenção e o ódio do povo de si mesmo para os judeus.
Palavras da jornalista, escritora, ativista e guerrilheira alemã Ulrike Marie Meinhof (1934-1976), encontrada morta enforcada com uma corda improvisada de uma toalha, no dia 09 de maio de 1976, durante os festejos do Dia das Mães, na Alemanha. Investigações oficiais dão conta de que fora suicídio, mas o laudo foi contestado por acusações públicas com massivas demonstrações de protesto pelo assassinato. Décadas depois veio à tona a notícia de que o cérebro dela havia sido retirado pelos patologistas, sem conhecimento da família e conservado durante 26 anos em formol para estudos no hospital de Magdeburg. Dela ainda pode ser encontrado o filme Bambule (1970), que foi roteirizado por ela e que fala sobre a vida de jovens mulheres num reformatório, como também o filme Ulrike Marie Meinhoh (1994), dirigido por Timom Koulmasis.

Veja mais Ascenso Ferreira, Alexander Scriabin, Ortega y Gasset, Wilhelm Reich, Esperantina & o Orgasmo, Renato Alarcão & Pablo Garat aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte da artista plástica austríaca Xenia Hausner.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Recital Musical Tataritaritatá
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