quinta-feira, maio 19, 2016

AS FLORES MAIO


AS FLORES MAIO – Ainda ontem eu era um menino que fabricava sonhos no quintal. O amigo invisível não era um só, muitos. E se escondiam nos pés de plantas, nos galhos das árvores, ou saíam das figuras do gibi para meus temores inexplicáveis além do lodaçal do quase muro destroçado no charco intransponível. Afora o medo do coração de Jesus aceso no alto da sala de estar, pra me esconder no cós da saia da mãe de não mais largar. Bastava uma brecha na porta e eu me esgueirava portão afora pro mundo das lêmures do Una, por onde uma gente de olhos sem honra se apinhava molestando incautos que falavam alto, às gargalhadas, a fazer do nariz seu umbigo e a se meter onde bem entendesse, levantando uma lebre do passado irrevogável de todos. Não havia graça nenhuma nas suas risadagens, eu só me assustava ao sabê-los familiares tão íntimos entre si e que só sabiam espernear ou ofender, não sabendo seu lugar, seu papel, nem de si, nem de ninguém. Supunham de coisas de antanho jamais devassáveis, enquanto eu me via comprazido sobrevivente do alçapão dos imprevistos, do encarceramento das calamidades para só entreter e me perder do caminho, enquanto bajulavam dos outros a atração do ouro, dos diamantes, das pepitas que vidravam e mexiam com o juízo no egoísmo dos desafetos. Os ódios iam e vinham e eu não sabia distinguir de bem ou de mal, passavam como diziam das boas intenções que sobrecarregavam o inferno, acaso existisse um inferno que não fosse esse aqui. Isso tudo é bobagem, viver é outra coisa. A infância não se acaba, mesmo que a gente envelheça. Mesmo que a gente se gaste, passe do ponto, permanece menino de não se perder. Menino-grande, menino passarinho. Um menino crescido feito e teimei em crescer enquanto todos ao meu redor teimavam em ficar rico e nada mais valesse a pena para tanto desvalor. Ledo engano, não há valia pra ardilosa vaidade dum trono de poder carregado de falsidade ideológica, formação de quadrilha, fraude, peculato, farsas de ontem e de sempre. Enquanto eu ia, os dias vinham e passavam, e os pensamentos me seguiam e me seguem a contar dos ventos da ventania, as correntes dos rios, as ondas do mar. Alheio a tudo e todos, pelejei demais, demasiadamente, no varejo e no atacado. E percebi o aroma do hálito de todas as coisas na vitalidade da noite imensa atravessando as estrelas. Aprendi que só se está completo despido e se não tenho outra sabença, não haveria de ter. Basta o que sou e sei. Não preciso saber nada. O que fui já não sou e nada será. Amanhã é nunca e só se vive o hoje, nada mais. O que me serve agora é ser menino e ter Iaravi menina-cunhã no giro do céu que se insinua chegar perto, bem perto com sua infantil maneira de ser, mordiscando um dos lábios, piscando um dos olhos e me ssorindo como quem ama com urgência e não pode deixar pra amanhã. Ou quando ela no crepúsculo se torna Freya ousada mais que deusa fêmea poderosa, a me ensinar dos segredos ocultos nas sombras de todas as noites. E assim incandesce na nossa meninice a me chega com as palavras no papel que crepitam como a lenha na lareira e se fazem vagalumes que voam com os meus quentes beijos de chocolate pra invadir pela cortina entreaberta da janela de sua solidão na réstia de céu e palidez da lua de outono pra deixar tudo diferente na minha, na sua e na vida que povoa a noite de todos os nossos sonhos e desejos. É na entrega de sua verve de poeta prodigiosa com suas mãos de fogo que me faz pro seu gole na lembrança que sou de noz moscada, para que seu riso seja largo e com um profundo suspiro, a dar de ombros, pronta pro meu abraço na fria noite de maio que logo amanhecerá com seu sorriso de Sol pra alegria de todas as flores que irradiam no jardim do meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Imagem: Three Women (Le Grand déjeuner, 1921 - Oil on canvas), do pintor, desenhista e litógrafo cubista francês Fernand Léger (1881-1955).
Curtindo o álbum 4 Loas (Tratore, 2010), do cantor, compositor e percussionista Marku Ribas (1947-2013).

PESQUISA
Neurociências ilustrada (Artmed, 2013), de Claudia Krebs, Joanne Weinberg e Elizabeth Akesson, tratando desde o Sistema Nervoso à Neufisiologia básica. Veja mais aqui.

LEITURA 
Os cantos (Nova Fronteira, 1986), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] O que é mágico existe sozinho. Solta-se a palavra e ela se inventa. Nada pode embaciá-la. É como se enfia a cara na lua. Ou na luz. E a luz é tão inocente como o lugar onde troveja. Por ser mágico e inóspito. Inventa-se o que não se conhece. E o que se inventa não carece nem de nome, mas de verdade. [...] A imaginação não tem meio-termo. Imaginar não é para enlouquecer, é ver melhor. [...] O que inventa está voltando ao sopro da semente; depois ao barulho que as coisas têm quando estão em flor. O ruído de Deus. [...] Acende uma palavra e a alma se queima. [...]
Trecho extraído da obra O poço dos milagres (Bertrand Brasil, 2005), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar.

IMAGEM DO DIA 
Imagem: Lua, arte da poeta e artista visual Luciah Lopez. Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Mulher nua, do fotógrafo polaco Waclaw Wantuch.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
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ÍTALO CALVINO, WILLIAM BLAKE, WORDSWORTH, SUZANA ALBORNOZ, SOLIDARIEDADE & LIBRAS NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A QUEM INTERESSAR POSSA – Aprendi a ver na escuridão, a luz restava dentro de mim como um minúsculo pavio aceso, mostrando o fim do túnel ...