quarta-feira, abril 20, 2016

UM DIA NO MEIO DAS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ



UM DIA NO MEIO DAS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ - Depois que ingeriu a lapada do pau-de-índio, Biritoaldo fitou o Rolivânio no meio da turma e vociferou: - Você é menó qui seu tamain! Tudinho aqui é minusco, menó qui uma bostinha de nada duma barata tonta de valia! Num tem um com H maiúsco! Tudim, tudim, menó qui o tamain, comboio de porra! -, desafiou também o comparsa Penisvaldo, cuspiu no chão e zarpou trocando as pernas e os olhos, cagando raio mundo afora. A corriola se entreolhava, um ao outro com a cara da estranhice pela inesperada atitude destemperada do pariceiro com a dupla vitimada. Aquilo não era do feitio dele, sempre com seu mutismo de mané que não tem nada a ver com isso. É certo que ele andava engalhado e ressentido pela dúvida de ficar entre a chiqueza tanajura da Munga e o mandonismo sargento da Chica Doida, sem saber como é que é que ficava e como tudo ia afinal findar. Coisas dele. Pudera, nascer como ele nasceu depois de mais de dez meses encruado no bucho da mãe e sem querer dar as caras pro mundo, abrir a porteira roxo e com o pingolin tapado, pra depois, durante toda infância ser acometido de todo tipo de maledicência, era demais prum sujeitinho das costas ocas como ele. Com os pais mantinha uma relação de completa submissão: achava-se desdenhado pelo pai ocupado o dia todo com os afazeres e só chegando em casa lá pras tantas da noite, não tendo tempo para dedicar um mínimo afeto para ele. Por outro, a superproteção da mãe, mandona e cheia de ameaças, dele tão medroso não sair da sala pra cozinha sem que soltasse um só segundo que fosse do cós da saia dela. Levou muita pisa por ficar olhando fechadura, brechando pelo combongó ou por cima do muro do quintal de mutuca nos banho das primas, vizinhas e achegadas. Quantas vezes a mãe não pegou-lo pelas orelhas num beliscão de quase arrancar um taco fora por sua abelhudice nas intimidades femininas. Quantas lamboradas boas levou do pai pelos despropósitos de ficar levantando a saia e puxando o sutiã das meninas. Quantas e quantas vezes não levou tabefe pei bufe flagrado na maior bronha homenageando a professora. Era surra de manhã, de tarde e de noite. Não bastando entrar na adolescência com sua donzelice, não se enturmar com ninguém e ser ridicularizado por todas as meninas. O cara cresceu peixe fora d’água, sem ter em que ou quem se amparar. Quando tomou direção na vida, cai nas garras da Munga, ricona raimunda, filha do pai mais desalmado do lugar, daquele de tirar cueca pela cabeça. Quando consegue se livrar dela, cai nas garras da Chica Doida que adorava fazer sexo violento, não antes torturar e tripudiar em cima da sua vítima. Pronde corria o cara só apanhava, razão pela qual todo mundo estranhar ele sair do seu reprimido jeito de ser, para desaforar com a cara dos amigos. Aliás, era quando estava no meio dos da sua laia a ocasião que era capaz de balbuciar alguma coisa. No mais das vezes, sempre lagartixa pra tudo. Ou quando era revestido pela autoridade do sogro a comandar a peãozada. Nesta o cabra virava o bicho tirano. Não havia déspota na face da terra pior que ele. O que ele mandava e desmandava pra cima dos calungas, era de se ver ele aos esporros com exigências humilhantes de patenteado militar. Não arredava um milímetro na exigência de fazer, desfazer e refazer tudo só pra sentir o gostinho de mandar uma vez na vida, vingando-se de todas as suas sofrências e frustrações. Quando saía do expediente, voltava a ser o enrustido de sempre, incapaz de falar, muito menos de discordar do que quer que fosse. Ah, também quando tomava uma saindo do seu estado usual, para ser o cara mais cheio de razão, todo adiantado com a folga das riquezas nunca tidas e homência jamais provada. Era quando virava o cabrunco-chupando-manga, de descer dos tamancos e rodar a baiana chutando o pau da barraca e tudo que viesse junto, pra arrear num canto desprotegido a levar lambidas e mijadas do primeiro guenzo que aparecesse. Todos estavam, inclusive, carecas por saberem disso. E mais: que no dia seguinte ele apareceria com a cara mais lisa do mundo, como se nada tivesse acontecido. Só que dessa vez, três dias depois, ele reaparece atacado dos punhos à gola, sem falar com ninguém e com sumiços fortuitos. – Terá ele virado coroinha dalguma religião? -, perguntaram curiosos. – Nada, esse Birito é cheio dos pantins mesmo! – Quantos dias? -, apostaram que ele não sustentaria o personagem por mais vinte e quatro horas. – Alguém viu o Birito por aí? -, perguntavam. – Ôxe, indagora vi-lo todo beiçudo com um rei na barriga e venta empinada sem falá cum ninguém! Pra contrariar as expectativas, só vinte e dois dias depois ele foi encontrado completamente embrigado, chorando nos pés da estátua do coronel na praça. Levaram-no pra casa. Que casa? Munga não queria vê-lo nem pintado a ouro. Chica Doida mandou sacudi-lo no chilindró. Assim fizeram. Mais três dias passados, lá estava ele virando copo no bar do Dudé, apertando a mão de um e de outro. – Tais candidato a que, Birito? E ele com um sorriso amarelo, apenas balançava a cabeça. – Quéqui hôve, rapaiz? -, insistiam e só lá pras tantas que ele dava o ar da graça com a cara mais lesa: - Aprendi a lição. Nada, todos se riam sabedores que ali estava um incorrigível que, mais cedo ou mais tarde, aprontaria das suas de novo. Consigo, nem valorava a sua desimportante vida, provando, apenas, que a vida prossegue e nada como um dia atrás do outro para cada um revelar pra si e pros outros o quanto vale uma noite no meio de cada acontecimento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. 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 Imagem: a arte do pintor, escultor, gravurista e ceramista surrealista catalão Joan Miró (1893-1983). Veja mais aqui.

 Curtindo a obra da compositora e musicóloga Tatiana Catanzaro, na interpretação das pianistas Joana Holanda, Lidia Bazarian & Karin Fernandes, o grupo Percorso Ensemble, Orquestra Sinfônica da Unicamp, Quinteto Quintal Brasileiro & Orquestra Jovem da Unicamp.

LEITURA 

Relendo o livro O homem, a mulher a natureza (Record, 1958), do filósofo e escritor inglês Alan Watts (1915-1973). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA 
EDUCAÇÃO PARA PATERNIDADE/MATERNIDADE: Nos tempos atuais há necessidade de instituição de uma disciplina ou tema transversal destinado à Educação para Paternidade/Maternidade e que deveria ser incluída entre os conteúdos do Ensino Fundamental, Médio, Educação de Jovens e Adultos e, sobretudo, para as famílias e comunidades. Os conteúdos deverão ter por base a Psicologia Infantil e da Adolescência, os Direitos da Criança e do Adolescente e a Responsabilidade Civil nos relacionamentos afetivos, notadamente a partir do ficar, do namoro, do noivado e do casamento, os direitos e deveres, o direito de amor, o direito de romper, a gravidez na adolescência e suas consequências na formação das relações afetivas, familiares e de paternidade/maternidade, a formação de pais e o seu papel na família contemporânea, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais Brincarte do Nitolino, Augusto dos Anjos, Nélida Piñon, Igor Stravinski, Eugène Ionesco, Joan Miró, Jessica Lange, Frances Farmer, Papel no Varal & Ricardo Cabús & Suely Ribella aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.
 

ARIANO, LYA LUFT, WALLON, AS VEIAS DE GALEANO, FECAMEPA, JOÃO DE CASTRO, RIVAIL, POLÍTICAS EM DEBATE & MANOCA LEÃO

A VIDA NA JANELA – Imagem: conversando com alunos do Ginásio Municipal dos Palmares - Ainda ontem flores reluziam no jardim ornando muros...