quinta-feira, fevereiro 11, 2016

BOI DE FOGO


 Imagem: Emaranhado, aquarela de Sol Vilas Boas.

BOI DE FOGO

Luiz Alberto Machado

A temperatura andava nas alturas em Alagoinhanduba. Às vezes, o verão se esquecia de se mandar e ficava dois três anos seguidos, fritando o juízo dos dali. Era de enlouquecer. Aliás, com certeza já havia endoidado meio mundo de gente. É só reparar nas coisas descabidas que acontecem de onde menos se espera. É um baque estrondoso, um escândalo, uma ignomínia. Claro que só podia ser esse sol de rachar o responsável por tanta fatalidade desconexa. Veja se não é? Um dia você encontrava um sujeito sadio, robusto, vaidoso, pisando forte, dono do mundo, daí a pouco, estava ele estendido num casaco de madeira arrodeado de choro, sem mais nem menos, enterrado. Aí, a quem responsabilizar por essa tragédia velada dia-a-dia? Só pode ser o sol quente derretendo o juízo das pessoas. Ou, então, uma revolta dos infernos, ora.

Era assim que Dezinhozinho pensava dos fatos e acontecimentos ocorridos em Alagoinhanduba. Dezinhozinho Doido, era.

O rio Mibidu que há anos era largo, profundo e rico em espécies aquáticas, agora era uma nesguinha de nada, fiapinho ornado por balsas. Já se vê até casebres além das antigas margens, plantações de mandioca, de verduras, em seu antigo leito. A pedraria irregular do rio que dava um ar sinistro nas suas profundezas, hoje realçava dando contorno ao brejinho remanescente. A população agora não tinha mais o que temer daquelas avassaladoras enchentes que arrasavam comunidades ribeirinhas, invadindo igrejas, afugentando milhares e milhares de famílias para os pontos mais altos, por dolorosos oito dias de calamidade pública.

Anos se passaram e ninguém mais vira a violência com que o Mibidu achava de sobrepujar suas margens nos períodos invernosos. A cada cinco anos era uma enchente mais arrasadora que a outra. As proporções se ampliavam a cada inverno pesado. Era uma catástrofe quinquenal. Agora não, aquele minúsculo igarapé, não passava de uma memória viva dos desastres passados, da variedade de acarí, de traíras e dos afogamentos que arrancavam choro doloroso nas famílias enlutadas.

Outra, de quando a usina Mata Garrote despejava sua calda fervente no Mibidu, eita, era outra catástrofe, meses sem peixes, aquele fedor negro, do pescador virar pedinte nas ruas, principalmente os moradores do bairro das Pedeiras, vítimas da sorte e do infortúnio.

Mas de uma coisa esteja certa: esse riachinho de nada é a principal testemunha ocular, de muito vitupério velado, muita impunidade afrontada, muito descaso absoluto.

O verão, que agora seguia ano a ano, atravessando as estações, rachava os crânios e a terra. Dezinhozinho ali olhava. Era ele o Dezinhozinho Doido, assim chamavam-no, mesmo reconhecendo sua sanidade mental. Era Dezinhozinho só quando sóbrio; e Doido quando ingeria duas ou três lapadas de aguardente e ninguém lhe escapava à fúria. Na fase abstêmia ficava fitando, desde tenra idade, as águas do Mibidu, fato este consuetudinário, já até figura de ornamentação da paisagem. Parece que alimentava sua doideira numa conversação íntima com o rio. Ainda hoje vê-se ali, sentado num pedregulho, a conversar com o riachinho. Uma conversa muda, telepática. Incapaz de emitir qualquer som, ele andava de um lado a outro da cidade, apenas olhando, viajando no seu mutismo. Eu que estranhava aquilo, algumas vezes em pleno ócio, investigava a atitude dele.

Disseram-me que durante a sobriedade ele não falava nada, parecia mudo, caladão, ninguém se lembrava de ter presenciado qualquer balbucio dele no auge da lucidez. Agora, cheio dos quequéos, ave-santa! O bicho destabocava a oratória e saísse de perto quem tivesse pecado ou podre escondido! Suas palavras agiam como pedras lascando o quengo do alvo, ora uns seixinhos miúdos, ora uns paralelepípedos capazes de trincar até retina de extraterrestre! Mesmo vitimado por uma cachaçada destrambelhada seu discurso, às vezes, era de rara sapiência. Noutras, mais imbróglios entre máximos despautérios. E rebuscados, nossa!

Alguns asseveravam ser ele mesmo doido até quando estava bom, doente do juízo mesmo, já andando com um atestado no bolso. É certo que se flagrava dele catando goia de cigarro, lata vazia de cerveja, carregando lavagem para alimentar porcos numa estrebaria imaginária, misturando o óleo na água, colecionando palitos de fósforos usados, conversando com árvores e um sem número de situações empioradas. De ocupação profissional era sapateiro e dos melhores. Deixou o ofício por causa da cachaça. É que embriagado deu esculhambar todo mundo, muitos deles seus clientes que pinotaram dos seus serviços. Aí, faliu. E deixou a barba crescer, despojado, maltrapilho, e afiou a língua na ferida dos outros. Cada discurso seu no meio da rua era um vexame. Só metia o pau em gente graúda.

- Esse homem tá doido mesmo! -, diziam. E sumiam.

Às escondidas todos ouviam em detalhes seus impropérios. Mais parecia um pregador de fiéis ocultos. É claro que não queriam dar ouvidos, mas ouviam. Satisfaziam-se disfarçadamente com a doidice dele; se vingavam uns dos outros, quando o escolhido era da antipatia de alguém. Mas não esboçavam qualquer aplauso. Segredavam. Por isso que Dezinhozinho nunca fora molestado por ninguém. Estava incólume porque sabiam que um dia um desafeto qualquer seria espezinhado pela sua ira bêbada.

Certa vez encostei-me à sua contemplação e ofereci-lhe um gole do uísque que eu tomava. Ele olhou-me com desdém, indagou-me com o olhar, fitou-me dos pés à cabeça, fixou-se na minha fisionomia, senti suas pálpebras aliviar-lhe as feições, tomou das mãos e levou à boca todo líquido que existia no copo. Vi uma careta repulsar a bebida e arrepiar-se todo. Peguei da garrafa e enchi o copo noutra dose de três dedos e ofereci-lhe, ingeriu mais aliviado, arrepiando-se como a quem estivesse incorporando outra alma em seu corpo. Copo vazio, refiz a dose, agora maior, quatro dedos, copo quase cheio e dei-lhe como apresentação final. Esvaziou em questão de segundos. Senti que queria falar-me, ouvi-lhe.

- Sabe, estranho, aqui antes era o soberbo Midibu que franceses navegavam a fim de roubar nosso pau-brasil, nossa farta riqueza. Era navegável, hoje, nada resta, essa veia d'água minúscula, nem cundunda tem mais. Cerca de vinte anos atrás, esta cidade andava pior que Sodoma e Gomorra juntas, matavam gente diuturnamente, era um por dia, diziam, mas que três outros infelizes ficavam amarrados para não deixar escapar a estatística de um homicídio por dia. No fim 365 mortos matados no ano e ainda deixavam uns sem revelação para estourarem o presunto no ano seguinte, já adiantando os números do ano que vinha. Era assim ano por ano. Era nego dissecado, estropiado, seviciado por nada, qualquer intriguinha besta já tava ali a morte anunciada por bala certa. O estampido era comum, mais parecia eterno São João. Num tinha homem ou menino que não usasse um revólver calibre 38 no coldre, todo mundo armado, tinha até os meninos de doze ou treze anos que lutavam espada com o cano do revólver que eles já chamavam de "resolve". Esses a quem me refiro, nesta idade já puxavam carros, motos, matavam, latrocidas, parricidas, pervertidos, uxoricidas, estupradores, usuários de todo tipo de drogas, de lança-perfume à haxixe, cogumelo, álcool e estripulias. Os pais de varões, beleza, era lindo aquela doidice; os pais das princezinhas, chorosos com a gravidez antecipada delas, a perdição, a prostituição, a promiscuidade e um tiro na nuca na certa a qualquer infidelidade suspeitada. A ordem da desordem. A ordem individual, do homem sobre o homem, a desobediência da lei.

Isso ele falava com um amargor profundo. Senti a sua mágoa, sua frustração. Depois de um vago silêncio, retomou a discurseira.

- Nisso, meu preclaro ouvinte, deu do Mibidu testemunhar, isso só não, muitos outros desvarios. E nesse acúmulo, no início do inverno deu uma chuvada boa que alegraram os agricultores. A procela durou nada mais que onze dias seguidos sem aliviar nada. Toró brabo precipitou-se numa chuva torrencial, um daquelas do Pará que não terminam nunca e parecem que vai durar uns duzentos dias. É, quase sem fim. Quando a chuva diminuiu, aí, meu, o rio começou a encher, levantando o nível, usurpando margens, ultrapassando limites, invadindo ruas, casas, logradouros, igrejas, clubes, bares, restaurantes, estradas, engenhos, associações. O bicho foi subindo, dando um metro na parede, dois, três, a ponto do nego só ver o telhado. Meu, o negócio ficou feio. No alto da cidade só tinha o baixo meretrício. Só a zona salvou-se daquele dilúvio. Era uma contravolta do destino. Eita, já pensou, os ricaços que usavam das putas da zona e cuspiam-lhe na cara depois, teriam de levar suas madames e filhinhas praquele convívio? E lá estava ao cabo de duas horas depois do começo da enchente. Estavam advogados, o juiz, padres, o bispo, o prefeito, o delegado, o comandante da polícia, o cafetão, o traficante, o intrujão, os fugitivos da cadeia invadida; os comerciantes, agricultores, funcionários públicos, ou seja, lá estavam gente de bem, bicho ruim, chato de galocha, fofoqueiros, sangue bom, maloqueiro, puxa-saco, merepeiros, tudo como realmente é: uma raça muito misturada.

Senti o seu nó na garganta. Mesmo assim continuei atento ao seu relato lúcido.

- Três dias de plena calamidade pública, esta cidade saiu até na televisão em transmissão nacional, visse? Nacional! Houve uma movimentação em todo país e até no exterior. Começaram a enviar donativos, roupas, agasalhos, comidas, tudo. Tudo vinha de todas as partes do Brasil. A sensibilidade exterior mandou inclusive toneladas de alimento, mas como este país é o lugar onde a sem-vergonhice mora, procuraram uma autoridade eficaz para entrega dos donativos. Foram toneladas que vieram da Holanda, Noruega e da Itália para os nossos flagelados. Escolheram o Bispo para recepcionar tudo isso. Fiquei puto meu, quem duvidaria dele? Mas só depois que se soube que o bispo é o maior agiota daqui. Logo para ele, meu? Sabe o que ele fez? Distribuiu sim, menos as toneladas de açúcar, feijão, arroz, farinha de trigo que viera do estrangeiro e escondeu na creche Crianças de Jesus no maior sigilo. Depois chamou o Tonho Munheca, sabe quem é? Aquele que perdeu a mão quando cursava profissionalizante no Senai? Que hoje é comerciante forte que mais compra roubo na região? É rico mesmo, forte de dar pisa em nego no meio dia e deixá-lo sangrando ali, até o sol enxugar o sangreiro! Pois bem, Tonho Munheca, a convite, às escondidas com o bispo, maior conluio, foi até a creche e numa negociata escandalosa, comprou tudo. Ninguém sabe para onde foi o dinheiro, acho eu, que pro bolso do episcopado.

Pediu-me outra dose, servi-lhe. Senti seus olhos marejados, a voz engasgada.

- Doze dias passados, tava o povo ali, no alto do morro, no centro do baixo meretrício, olhando o espetáculo da água derrubando prédios, casas, postes, tudo. A partir do décimo terceiro dia, as águas começaram a baixar, o sinal da desgraça ia aparecer, o tamanho do prejuízo, incalculável; nem a igreja fora poupada, meio mundo de imagem banhada a ouro quebrada, esfarelada, boiando nas águas...

Fez menção de exigir outra talagada, engasgou-se, bati-lhe às costas para desentalá-lo, tossiu, verteu algumas lágrimas, franziu o cenho, ingeriu a dose, não mais se arrepiou. Olhou-me com estranheza e, depois, baixou as vistas em direção ao diminuto veio d'água.

- Verdade, meu rapaz, tudo é verdade, aqui já teve coisas que até mesmo Deus duvida! Eu mesmo já presenciei muito, por isso me chamam de doido, fiquei mudo com tanta ignomínia, com tanta safadeza, com tanta desavença! O mundo tem que acabar! Para onde você vai é muita usura, muita sacanagem, muita tapeação! O rio encolheu, a vergonha encolhida, tudo que é bom ficou envergonhado e encolheu. Eu mesmo nem cresço mais, sinto a cada dia que estou encolhendo, eu que media um metro e oitenta e um, juro, estou com um metro e sessenta e nove; o instituto encolheu minha pensão, o dinheiro está mais curto, o sustento, valha-me, Deus! A carestia e a ganância são quem mandam!

Vi seus olhos despencando lágrimas, a voz engrolada quase não conseguindo pronunciar mais nada. Baixou a cabeça e chorou feito menino. Refiz a dose, enchi-lhe até a borda e dei-lhe em consideração. Soluçou, fez força e tomou duma só vez. Levantou-se de fogo e saiu sem dizer adeus.  Veja mais aqui.


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