terça-feira, junho 30, 2015

TCHÉKOV, PÍNDARO, ANAXÍMENES, HAYWARD, CLARKE, VERNET, SAINT-PIERRE, LIEPKE & A ARTE DE FURTAR.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PRECISO DE UM CULPADO! - Apesar de ser e estar cônscio de que sou eu mesmo responsável por tudo que me ocorre na vida, preciso de um culpado! Sempre tive comigo e por toda minha vida que sou o único responsável por meus infortúnios, escolhas, naufrágios, derrotas, escorregadas, topadas e reladas de venta. Sempre soube que são meus atos, palavras, ações, gestos, atitudes e comportamentos que me fazem ganhar ou perder, ser feliz ou não, alcançar êxito nas coisas ou ser defenestrado das oportunidades, sair comemorando pra galera ou me esconder nos porões da vergonha nas horas de apertura. Sempre soube disso e assim sei que tudo que tenho e sou é responsabilidade exclusivamente minha e que sou eu mesmo o único culpado por ser ou não merecedor do que tenho por resultado, pela lisura e liseu, pela abastança ou miserê, pelo triunfo ou arrastado, pelo brilho ou apagão do que sou e tenho. Mas como todo mundo coloca a culpa nos outros, vou na onda. E já que coloquei a culpa na Dilma por tudo que aconteceu e acontece hoje na humanidade, quero um culpado pra minha situação! Preciso de um culpado para desafogar o peso que carrego! Apesar de saber de Drummond: “Os ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança”, eu preciso de um culpado pra descansar o peso dessa mão de criança gigante que eu carrego sobre meus ombros (ô mãozinha pesada essa, viu?). Preciso de um culpado para abrir meu coração, afinal “A boca fala do que está cheio o coração” e o meu tá entupido de coisas, fatos, momentos e emoções. Preciso limpar minha chaminé, cortar minhas cebolas. Preciso de um culpado (ou culpada, oxalá!) para que me diga que a culpa é dele ou dela e que eu estou nessa por simples e exclusiva sacanagem dele (ou dela). Preciso transferir tudo que me consome por dentro pra esse culpado. E aviso logo: preciso desse culpado (ou culpada) que seja de grátis e na amizade pra pagar minhas dívidas e resolver minha insolvência; para assumir meu karma e me deixar na boa de férias por uns tempos; pra atender meus clientes chatos e inadimplentes; resolver meus pepinos com meus credores quizilentos e malquerentes, pra trazer meus amigos e amigas sumidas, pra me adiantar a restituição do Imposto de Renda, pra me arrumar crédito porque estou sujo na Serasa e no SPC; pra me deixar um automóvel, uma casa na praia e uma dinheirama preu passar uns quinze dias desligados das braburas e só no bem bom; pra ir pras filas quando eu precisar de qualquer órgão público; pra me trazer só créditos dos meus feitos; pra me mostrar que não existe hora, nem distância, muito menos duração na vida pra só ficar na sombra e água fresca; e que esteja sempre alerta e vigilante para qualquer décimo de segundo que eu precisar. Pronto. Por enquanto só preciso desse culpado pra isso – é o que me lembro, por enquanto. Então, alguém se habilita? Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: Study of Olympe Pelissier as Judith (1830), do pintor francês Horace Vernet (1789-1863)


Curtindo Night School: An Evening With Stanley Clarke & Friends (2007), do compositor estadunidense de jazz, funk, rock, pop e R&B, Stanley Clarke, com o objetivo de levantar fundos para a Musicians Institute de Hollywood, que fornece bolsas de estudo para jovens que desejam aprender Música.

PERI PHYSEOS – O filósofo grego Anaxímenes de Mileto (588-524aC), foi discípulo e continuador da obra de Anaximandro. Escreveu, como seu mestre, também o livro Peri Physeos (Sobre a natureza), praticando o materialismo monista dedicando-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe luz do Sol e, também, a analisar geometricamente aspectos das sombras para medir as partes e a divisão do dia, desenhando o relógio de sol denominado Sciothericon, em vista disso passou a ser considerado a figura principal da escola de Mileto. Das suas ideias tem-se apenas fragmentos encontrados em Plutarco, Simplício e Hegel, este último afirmando que em lugar da matéria indeterminada de Anaximandro, põe ele novamente um elemento determinado da natureza, destacando ser necessário para a matéria um ser sensível e o ar possui, ao mesmo tempo, a vantagem de ser o mais liberto de forma. Ele é menos corpo que a água; não se vê, apenas se experimenta o seu movimento. Dele tudo emana e nele tudo se dissolve. Assim, para ele, o princípio é o ar e o infinito e que do ar tudo se produz e nele se dissolve: como nossa alma que é ar, nos mantém unidos, assim um espírito e o ar mantém unido também o mundo inteiro; espírito e ar significam a mesma coisa. Com isso o filósofo demonstra muito bem a natureza de seu ser pelo exemplo da alma, caracterizando a passagem da filosofia da natureza para a filosofia da consciência ou a renuncia ao modo objetivo do ser originário. Como a alma, o ar é o meio universal: uma multidão de representações sem que esta unidade, continuidade, desapareçam. Ele é tanto ativo como passivo, saindo da unidade as representações, dispersando-as e sobressumindo-as, presente a si mesmo em sua infinitude. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE FURTAR – As edições que tive acesso – e que foram muitas, tanto do Brasil, como de Portugal - do livro Arte de Furtar: espelho de enganos, theatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral dos reynos de Portugal: offerecida a el Rey nosso Senhor D. Joaõ IV, para que a emende (1625 – Lisboa, 1991), alguma davam conta da autoria de Padre Antônio Vieira (1601-1667), outras de autoria anônima e, por fim, a que convencionou a autoria como sendo do jesuíta Manuel da Costa. Trata-se de um monumento da prosa barroca e uma obra emblemática dos costumes dos séc. XVI a XVIII e o período da Restauração, inscrita como ironia das artes de proposito didático, desmascarando as múltiplas espécies de ladrões, denunciando que a roubalheira e a corrupção são gerais, desde o clero à burguesia, da Inquisição, militares até a nobreza desvelando as unhas das traças de ladrões. Compreende denuncias de ladroagem que vão desde gastos inúteis, tributação excessiva e guerras injustas, roubos, os que furtam com unhas bentas, política e a sua genealogia diabólica, a cobiça universal, a ganância desenfreada e insaciável, benesses e títulos, opressão, entre outros crimes. Da obra, destaco os trechos seguintes: [...] De três maneiras pode um rei ser ladrão. Primeira furtando a si mesmo. Segunda a seus vassalos. Terceira aos estranhos [...] Clerigos, e mais de cincoenta mil embaraços de consciencia em leigos ; e todos movem demandas de lana caprina ; porque o Frade quer comer na mesa travessa ; a Freira quer janela [...] tratou de o assegurar logo repartindo igualmente com o seu moço que o guiava, e para isso concertou com elle que o comessem bago e bago alternadamente; e depois de quatro idas e [...] que pretendia das rendas de sua senhora, que ensaccou em ouro, para voar mais leve ; e com dez ou doze mil cruzados, que dois annos de serviço lhe deparárão, se passou para outro hemispherio, sem dizer a ninguem: Ficae-vos embora. «Digão agora os professores das sciencias e artes mais liberaes, se formárão nunca syllogismos mais correntes. [...] Ia o criado por essa ribeira com a moeda de oiro de três mil e quinhentos, comprava aqui a perdiz, acolá o cabrito eo leitão no dia de carne; e no dia de peixe a pescada, o sável, o linguado, ea lagosta; comprava até a couve, o nabo, a alface, o queijo, o figo ea passa, e todo o [...] Todos falam na política, muitos compõem livros dela, e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. E atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter poucos conhecimento dela, sei que é uma má peça, e que a estimam e aplaudem, como se fora boa; o que não fariam bons entendimentos, se a conheceram de pais e avós, tais, que quem lhos souber, mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas. E para que não nos detenhamos em coisa trilhada, é de saber que no tempo em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no Diabo, que o fez vomitar peçonha; e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex materia putridi, ao qual chamaram os críticos Razão de Estado. E esta senhora saiu tão presumida, que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome Amor Próprio, filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça. Criou-se nas cortes de grandes príncipes, embrulhou-os a todos. Teve por aios o Maquiavelo, Pelágio, Calvino, Lutero e outros doutores desta qualidade, com cuja doutrina se fez tão viciosa, que dela nasceram todas as seitas e heresias que hoje abrasam o mundo. E eis aqui quem é a senhora Dona Política [...] Veja mais aqui.

AS ODES PÍTICAS – O poeta grego Píndaro (533-443aC), é autor de Epinícios – ou odes triunfais, que são divididos em quatro livros: olímpicas, píticas, nemeias e ístmicas. Dele destaco a primeira ode pítica, na tradução de Haroldo de Campos: Lira de ouro, bem comum / de Apolo e das Musas de trança violeta: / os passos de dança, princípio de júbilo, / te escutam, os aedos / obedecem teu sinal / quando pulsas vibrada os primeiros compassos / dos prelúdios condutores de coros. / Consegues apagar o pontiagudo raio / de fogo semprefluente. Sobre o cetro de Zeus / adormece a águia, / que recolhe de um flanco e de outro suas asas rápidas, / rainha dos pássaros. / Toldas sua cabeça em gancho de uma névoa escura, / doce claustro das pálpebras; possuídas por teus sons / ela crispa no sono o dorso flexível. / E mesmo o violento Ares / rejeitando a rudeza das armas / arrefece o coração que dorme. Sábios, / teus dardos aplacam o íntimo da alma dos deuses / por arte do filho de Latona / e das Musas vestidas de dobras sinuosas. Porém todos os que Zeus desamou / estremecem ouvindo o clamor / sonoro das Piérides / na terra ou no mar indomável. / Assim aos deuses adverso / Tífon o de cem-testas / jaz, no terrível Tártaro. / Nutriu-o outrora a cilícia / gruta polinome / e agora as escarpas que o mar rebatem / obre Cumas / e a Sicília / esmagam-lhe o peito de saliente felpa. / O Etna, todo neve, nutriz dos gelos cortantes, / pilar do céu, / o detém. / Fontes de um fogo inacessível / puríssimas rebentam-lhe / da mais interna entranha. / E rios de dia vazam / abrasadas torrentes de fumaça. / E púrpura na treva / uma chama rolando / repulsa ao mar profundo / um tumulto de pedras. / O monstro ali está. Ele é quem jorra / os fachos de Hefesto, aterradores. / Prodígio de se ver. Prodígio ainda / senão de ver, de ouvir de quem já viu. / Assim no Etna entre o píncaro / (folhas negras) e o plaino / preso / ele jaz, / numa cama de pontas / descarnando as costas contrapostas. / Dá-nos, Zeus, a graça de agradarmos / a ti, dominador dessa montanha / fronte e frente de uma terra fértil: / a cidade vizinha um fundador ilustre / ilustrou-a em seu nome / e o arauto o proclamou na arena pítica / celebrando Híeron na corrida de carros / belo de vitória. / Ao navegante principiando a viagem / primeiro prêmio é um vento favorável / que ao cabo prenuncia um propício retorno. / Pensar no que passou promete a esta cidade / por igual um porvir glorioso de corcéis / e coroas de festa / e um nome renomeado em canoros triunfos. / Dono de Lícia e Delos, Febo, / amador da castália fonte do Parnaso, / que este augúrio te agrade e faças desta terra / um solo fértil de heróis. / Da máquina dos deuses / procedem as virtudes dos mortais: / ciência, vigor dos pulsos, fala fácil, tudo / eles engendram. / Meditando o louvor deste herói, / espero não lançar fora da liça / o dardo de brônzeo topo suspenso em minha mão, / mas no extenso arremesso ultrapassar os meus contrários. / Que o restante do tempo lhe promova / um próspero porvir, o pleno dom dos bens / e o olvido das penas. / Ele há de rever-se nas batalhas / - coração de coragem - resistindo, / e pela mão dos deuses vencedor. / Heleno algum colheu igual seara, / orgulhosa coroa de conquistas. / Agora segue o exemplo a Filoctetes / quando se lança à luta. No nó do necessário, / mesmo o soberbo suplica o seu favor. / Quase-deuses heróis (dizem) a Lemnos / vieram e levaram o filho de Póias, / o arqueiro, que uma chaga afligia. / E ele destruiu a cidade de Príamo, / pôs um fim aos trabalhos dos Dânaos: / o destino movia-lhe os membros malseguros. / Assim a divindade / dirija reto Híeron / pelos dias que avançam passo lento, / sempre a tempo lhe dando o que mais queira. / Atende, Musa, e junto a Dinomedes / vem celebrar a esplêndida quadriga / no prêmio de vitória. / Que não se alheia o filho ao júbilo paterno. / Vem, inventa comigo / um canto caro ao soberano de Etna. / Para ele Híeron fundou esta cidade / seguindo à risca os preceitos de Hilos, / com liberdade, divino edifício. / Dorianos, / os descendentes de Pânfilo, / e também os da estirpe de Hércules, / que habitam junto às penhas do Taígeto, / querem preservar perenes os princípios de Egímios. / Levantando-se do Pindo, / afortunados tomaram Amiclas, / agora - profundos de glória - / vizinhos dos Tindáridas de cavalos brancos. / E floresceu a fama da ponta de suas lanças! / Zeus, / perfazedor! / Junto às águas do Amenas, / que a palavra dos homens para sempre assegure / aos cidadãos e aos reis um tão nobre destino. / Com teu respaldo o príncipe / seguido pelo filho / na honra dirija o povo para a concorde paz. / Filho de Cronos, / eu te peço um aceno de cabeça: / aprova que o Fenício se aplaque em sua morada, / contém o alarido de guerra do Tírseno, / Lamentando navios por seu desplante, / eles revêem o infortúnio de Cumas. / Que revés! / Do alto dos navios de proa rápida, / seus jovens eram jogados ao mar, / domados pelo senhor de Siracusa / que redimia Hélade da servidão mais dura. / Meu salário será por Salamina / a glória dos Atenienses; / em Esparta cantarei a batalha de Citéron, / derrota para os Medas de arcos recurvos; / mas à margem do Hímera de águas copiosas / cumpro meu hino aos filhos de Dinomedes, / prêmio por seu valor / quando bateram o inimigo. / Se falas o justo no momento justo / e tens as cordas do muito retensas na curva do breve, / a censura dos homens pouco te persegue. / O tédio saciado embota a ávida espera. / No ouvido de cada um, / no coração calado, / pesa a demasia da ventura alheia. / Preferível porém o ciúme à compaixão: / por isso não te detenhas no curso do que é belo. / Preciso no leme, governa o povo, / forjando na bigorna da verdade uma linguagem de bronze. / Uma frívola faísca de nada / avulta, vinda de ti. / Árbitro de muitos, muitos, / - no bem ou no mal -  / atestam fiéis os teus atos. / Guarda em beleza a flor do teu caráter. / Se amas sempre ouvir o que é doce de ouvir / não te canses de ser generoso: / como o bom piloto, livra a vela ao vento. / Amigo, não te iluda a isca do lucro fácil. / Aos oradores e poetas / somente o renome além-morte ressoando / revela os fatos dos que foram. / Cresus, alma aberta, não perece. / Mas Fálaris, coração cruel, / torrava suas vítimas no búfalo de cobre; / por toda a parte o ódio cerca sua memória. / Nenhuma lira sob os telhados / nenhuma o recorda, / para o suave acorde das vozes de crianças. / Primeiro bem: boa fortuna. / Segundo: bom nome. / O homem que a ambos recolhe, / colhe a suprema guirlanda. 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PLATÓNOV – A peça teatral em quatro atos Platónov (Órfão de Pai, 1881), do dramaturgo e escritor russo Anton Tchékov (1860-1904) é um drama com elementos realistas com aguda visão do mundo e da sociedade russa no final do século XIX, quando ocorre a primavera prestes às recepções típicas no verão, no qual uma jovem viúva de um general se reúne com os amigos de diferentes classes sociais para esperanças e renúncias, empréstimos e perfídias e que sonham com uma vida melhor. Da obra destaco a Cena II do Ato 1: [...] Entram Glagóliv 1 e Voinítsev. Cena II Os mesmos, Glagoliev 1 e Voinítsev. GLAGÓLIEV (Entrando.) Pois sim, meu caro Serguei Pávlovitch. Nesse aspecto, nós, os astros descendentes, somo melhores e mais felizes do que vocês, os ascendentes. E o homem não perdeu, como vê, e a mulher saiu a ganhar. Sentam-se. Sentemo-nos, que estou extenuado… Nós gostávamos das mulheres, como os melhores cavaleiros, acreditávamos nelas, adorávamo-las porque víamos nelas pessoas melhores… E a mulher é uma pessoa melhor, Serguei Pávlovitch! ANNA PETROVNA Para quê fazer batota? TRILÉTSKI Quem está a fazer batota? ANNA PETROVNA Quem é que pôs aqui esta peça? TRILÉTSKI Foi a senhora que a mudou. ANNA PETROVNA Ah, sim… Pardon…  TRILÉTSKI Bem pode dizer pardon. GLAGÓLIEV Tínhamos amigos… No nosso tempo a amizade não era tão ingénua e tão inútil. No nosso tempo havia círculos literários, e clubes… A propósito, no nosso tempo uma pessoa era capaz de se lançar ao fogo pelos amigos. VOINÍTSEV (Boceja.) Bons tempos! TRILÉTSKI Nestes tempos horríveis existem bombeiros precisamente para se lançarem ao fogo pelos amigos. ANNA PETROVNA Tolice, Nicolas! Pausa. GLAGÓLIEV No Inverno passado vi em Moscovo, na ópera, um jovem chorar sob a influência da boa música… Não é formidável? VOINÍTSEV Talvez seja até muito bom. GLAGÓLIEV Eu acho que sim. Mas porque é que as senhoras e os cavalheiros sentados ali perto sorriam ao olhar para ele? De que é que sorriam? E ele próprio, ao notar que aquela boa gente via as suas lágrimas, agitou-se na cadeira, corou, compôs um sorriso penoso no seu rosto e depois saiu do teatro… No nosso tempo as pessoas não se envergonhavam das lágrimas honestas e não se riam delas… TRILÉTSKI (para Anna Petrovna.) Esse meloso havia de morrer de melancolia! Tenho horror a isso! Fura-me os ouvidos. ANNA PETROVNA Psiu… GLAGÓLIEV Nós éramos mais felizes do que vocês. No nosso tempo as pessoas que compreendiam a música não abandonavam o teatro, escutavam a ópera até ao fim… Está a bocejar, Serguei Pávlovitch… Eu estou a maçá-lo… VOINÍTSEV Não… Mas acabe, Porfírii Semiónitch! São horas… GLAGÓLIEV Ora bem… E assim por diante… Para resumir agora tudo aquilo que eu disse, temos que no nosso tempo havia pessoas que amavam e pessoas que odiavam, e por conseguinte, que se indignavam e desprezavam… VOINÍTSEV Muito bem, e nos nossos dias não existem, é? GLAGÓLIEV Acho que não. Voinítsev levanta-se e caminha para a janela. A inexistência dessas pessoas é que faz a desgraça deste tempo… Pausa. VOINÍTSEV Isso é conversa gratuita, Porfíti Semiónitch! ANNA PETROVNA Não posso! Ele deita um fedor a esse perfume barato que até me sinto enjoada. (Tosse.) Chegue-se um pouco para trás. TRILÉTSKI (Afasta-se.) Está a perder, e o pobre patchuli é que tem a culpa. Que mulher espantosa! VOINÍTSEV É injusto, Porfírii Semiónotch, fazer acusações baseadas apenas em suposições e parcialidades em relação à passada juventude!... GLAGÓLIEV Pode ser que eu esteja enganado. VOINÍTSEV Pode ser… Neste caso não há lugar para o “pode ser”… A acusação não é brincadeira! GLAGÓLIEV (Ri-se.) Mas está a ficar zangado, meu caro… Hum… Isso prova que não é um cavalheiro, que não sabe respeitar devidamente as opiniões do adversário. VOINÍTSEV Isso prova que eu sou capaz de me indignar. GLAGÓLIEV Eu não condeno todos, naturalmente… Também há excepções, Serguei Pávlovitch! VOINÍTSEV Naturalmente… (Inclina-se.) Muito lhe agradeço a pequena concessão! Todo o encanto dos seus meios consiste nessas cedências. Mas se encontrasse pela frente um homem inexperiente, que não o conhecesse, e que acreditasse nos seus conhecimentos? Era capaz de o convencer de que nós, isto é eu, Nikolai Ivánitch, a maman e em geral todas as pessoas mais ou menos novas, somos incapazes de indignação e de desprezo… GLAGÓLIEV Mas… Ora… Eu não disse… ANNA PETROVNA Quero escutar Porfírii Semiónovitch. Vamos parar! Já chega. TRILÉTSKI Não, não… Jogue e escute! ANNA PETROVNA Basta. (Levanta-se.) Estou farta. Acabamos o jogo depois. TRILÉTSKI Quando eu estou a perder, ela fica sentada, como colada, e assim que começo a ganhar, apetece-lhe escutar Porfíti Semiónovitch! (Para Glagóliev.) E quem é que lhe pediu para falar? Só serve para incomodar! (Para Anna Petrovna.) Faça favor de se sentar e continuar, se não considero que perdeu! ANNA PETROVNA Pois considere! (Senta-se em frente de Glagóliev.) [...] Veja mais aqui e aqui.


WITH A SONG IN MY HEART - O drama With a Song in My Heart (Com uma canção no meu coração, 1952), do cineasta Walter Lang, roteiro de Lamar Trotti e música de Alfred Neuman, conta a biografia da atriz e cantora Jane Froman, no início da sua carreira como cantora humilde que vagava por emissoras de radio e que possuía um aleijão por conta de um acidente aéreo ocorrido em 1943. Ela, apesar das muletas, entretinha as tropas na II Guerra Mundial. O destaque do filme vai para a atriz estadunidense Susan Hayward (1917-1975), uma das minhas primeiras admirações na telinha. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: Espetáculo de dança Un Peu de Tendresse Bordel de Merde!, do coreógrafo franco-canadense Dave Saint-Pierre.

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VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
(Imagem: Woman Reading, do artista plástico estadunidense Malcolm Liepke)
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segunda-feira, junho 29, 2015

ÉSQUILO, WILBER, VIEIRA, VILLA-LOBOS, HENRIQUETA, KIAROSTAMI, RUBENS, BINOCHE, EKATERINA & TOTH.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – A CULPA É DA DILMA - Lembro muito bem quando a atriz Berta Loran entrava em cena e a qualquer pergunta feita, ela respondia: - A culpa é do governo! E era mesmo. Pudera, a gente vivia uma ditadura braba, pega pra capar do estopô calango, neguinho (não só afrodescendente, mas mulato, cafuzo, branco, pardo, tudo) preso e desaparecido num piscar de olhos, e bastava qualquer sujeito biltre discordar de qualquer autoridade de carteirada, não dava outra: o Exército invadia de madrugada e pegava o cabra de pijama pelos fundilhos e dava destino certo pra tirar as medidas com missa garantida sete dias depois. Qualquer que fosse a petulância na reclamação de um direitozinho mínimo que fosse, oxe, o cara era taxado de comunista, subversivo e a chaga do cão sarnento! E não dava outra: ou desaparecia de nunca mais se ter notícia pela audácia da pilombeta, ou restava encardido por anos condenado no porão duma cadeia infecta e tão esquecido do quadro cair da parede pro resto da vida! E hoje? Tem quem ache que tá pior que isso, avalie. Na verdade, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 – que o grande mestre Roberto DaMatta diz que foi feita pros franceses - e foi mesmo, afinal, ainda hoje tem uma tuia de gente que num sabe dum direito sequer -, que como sempre foi, só se aprende de goela adentro ou no reino da bofetada. Hoje a gente pode dizer que tudo é culpa da Dilma mesmo! Afinal foi ela que inaugurou o Fecamepa engalobando Cabral numa mutreta das grandes de chavecar os portugas pra invadir o Brasil em 1500 e ela ganhar uma comissão preta pra guardar nos bolsos; foi ela que recepcionou esses mesmo perós e ensinou a eles a afanar a Coroa lusitana, traficando 90% do que se explorava aqui e só mandando um restinho de quase 10% pra Corte; foi ela que roubou o ouro das Minas e de Serra Pelada pra usufruir quando sair dos 8 anos de governo; foi ela que numa tramoia cabeluda, reuniu igreja e maçonaria para induzir Pedro I para independência, ganhando propina das grandes no pagamento escuso pra Inglaterra; foi ela que deu uma lavagem cerebral nos positivistas e no Marechal Deodoro pra pisar a República de qualquer jeito; foi ela que trouxe a Carta del Lavoro pra ensinar Getúlio Vargas a ser o pai dos pobres; foi ela que num papel duplo se passando de esquerdista, manobrou um pool que fez com que a bronca da Petrobrás virasse golpe em 1964 – não bastando ela ficar virando a casaca, dedando todo mundo pros milicos e se passando de heroína pra botar os terroristas das esquerdas pra se escafeder; foi ela que fez o arrumadinho pra derrubar as Diretas Já e eleger Tancredo que não assumiria e, num golpe de mestre e de grandiosíssima eminência parda ensinar Sarney a como perder a caneta na assinatura dos decretos; foi ambiguamente contra o Real e ensinou FHC a privatizar, flexibilizar e terceirizar tudo; foi com um manto angelical pra se esconder da sua bruxaria que se tornou testa de ferro no governo Lula, pra findar Presidente! Enfim, digo mais: é dela a culpa da seca no Nordeste; do tornado no Sul, da chuva que cai alagando e inviabilizando São Paulo e todo país; de mandar na CBF, de ficar feliz com o fim do mundo que foi a lapada de 7 dos alemães, escalar Dunga e se lascar na Copa América; tudo isso e muito mais é culpa dela. Por isso, aí está legitimidade de se propor o seu impeachment! Agora ou nunca! Enquanto todo mundo cai de pau nisso tudo, parafraseando Xico Sá, eu digo que a coisa tá ruim mesmo e desde que nasci que ouço que a coisa tá ruim, cresci ouvindo de crise disso e daquilo e que tudo tava ruim pra burro, pra cachorro, pro diabo a quatro, e hoje não tá diferente. Descobri que a culpa é da Dilma: foi ela que estava aqui antes de eu nascer. A culpa é dela mesmo! Então vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: O Julgamento de Páris (1630), do pintor do Barroco flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640). Veja mais aqui e aqui.


Curtindo Floresta do Amazonas (1958 - Actus Classics Works, 1993), do compositor e maestro brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), com a soprano: María Luisa Tamez e direção do maestro, violinista e compositor mexicano Enrique Arturo Diemecke & Orquesta Sinfónica Nacional de México. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O PROJETO ATMAN – O livro O projeto Atman: uma visão transpessoal do desenvolvimento humano (Kairós, 1988), do filósofo e pensador norte-americano Ken Wilber, o criador da Psicologia Integral e do Movimento Integral, que concentra as ideias básicas da integração de todas as áreas do conhecimento, trata acerca do desenvolvimento da evolução como transcendência com o objetivo de alcançar Atman, que é a Consciência de Unidade Essencial é só Deus. O autor considera que todos os impulsos servem a este Impulso, todos os desejos dependem deste Desejo e todas as forças subordinadas a esta Força. E é a este movimento, em seu conjunto, que o autor denomina de projeto Atman, o impulso de Deus para Deus, de Buda para Buda, de Brahman para Brahman, impulso esse originado no psiquismo humano e cujos resultados vão do enlevado até o catastrófico. Da obra destaco o trecho: Olhemos para onde olhemos - disse o filósofo Jan Smuts - só veremos totalidades. E não só simples totalidades, mas também totalidades hierárquicas; cada totalidade forma parte de uma totalidade maior que, por sua vez, está contida dentro de outra totalidade ainda mais inclusiva. Campos dentro de campos que se acham dentro de outros campos, campos que se estendem ao longo de todo o cosmos inter-relacionando assim todas e cada uma das coisas. Mas além disso - prosseguia Smuts - o universo não é um conjunto estático e inerte –o cosmos não é preguiçoso – e sim ativamente dinâmico e inclusive, diríamos, criativo. O cosmos tende teleonomicamente (hoje em dia não diríamos teleologicamente) para níveis de totalidade cada vez mais elevados, totalidades cada vez mais inclusivas e organizadas. O desenvolvimento deste processo cósmico global no tempo não é outro que a evolução e ao impulso que conduz a unidades cada vez mais elevadas Smuts o denominou holismo. Seguindo com esta linha de pensamento poderíamos supor que, dado que a mente ou o psiquismo humano é um aspecto do cosmos, é possível descobrir nela a mesma disposição hierárquica de totalidades dentro de totalidades, de conjuntos dentro de conjuntos, abrangendo uma ampla fila que vai dos mais simples e rudimentares até os mais complexos e inclusivos. E isto é, precisamente, o que descobriu, em geral, a psicologia moderna. Nas palavras de Werner, “qualquer desenvolvimento tem lugar desde um estado de relativa globalidade e indiferenciação a outro de diferenciação, articulação e integração hierarquicamente superior”. Jakobson, por sua vez, fala “desses fenômenos estratificados que a moderna psicologia descobre no reino da mente”, nos quais cada novo estrato está mais integrado e é mais inclusivo que o anterior. Bateson chega inclusive a apontar que até a mesma aprendizagem é hierárquica e que discorre através de uma série de níveis principais, cada um dos quais é «meta» com respeito a seu predecessor. Poderíamos concluir, pois, como aproximação geral, que o psiquismo – igual ao cosmos - está multiestratificado (é «pluridimensional») e está composto de totalidades, unidades e integrações sucessivamente supraordenadas. No psiquismo humano, a evolução holística da natureza -que produz em qualquer parte totalidades cada vez mais inclusivas- manifesta-se como desenvolvimento ou crescimento. Deste modo, o mesmo impulso que deu lugar aos seres humanos a partir das amebas é o que termina convertendo o menino em adulto. Quer dizer, o crescimento ou o desenvolvimento psicológico de uma pessoa da infância até a maturidade é simplesmente uma versão em miniatura da evolução cósmica ou, dito de outro modo, um reflexo microscópico do desenvolvimento global do universo e que aponta para seu mesmo objetivo, o desdobramento de unidades e integrações de ordem superior. E esta é uma das razões principais pelas quais o psiquismo está, em realidade, estratificado. Do mesmo modo que ocorre com as formações geológicas, o desenvolvimento psicológico avança estrato a estrato, nível a nível, estágio a estágio, e o novo nível se sobrepõe sobre o anterior até chegar a incluí-lo (ou, como diria Werner, “envolvê-lo”) e transcendê-lo. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SERMÃO DO BOM LADRÃO – O livro O sermão do bom ladrão (1655) do escritor, religioso, filósofo e orador português da Companhia de Jesus, Padre Antônio Vieira (1608-1697), foi proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), perante a corte de D. João VI, atacando e criticando aqueles que se valiam da máquina pública para enriquecimento ilícito e denunciando escândalos no governo, riquezas e venalidades de gestão fraudulentas. Indignado com a desproporcionalidade das punições, ele adverte quanto ao pecado da corrupção passiva e ativa, além da cumplicidade do silêncio permissivo, numa crítica ao comportamento imoral da nobreza. Da obra destaco o trecho: [...] Levarem os reis consigo ao Paraíso ladrões não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. E se isto é assim, como logo mostrarei com evidência, ninguém me pode estranhar a clareza ou publicidade com que falo e falarei, em matéria que envolve tão soberanos respeitos, antes admirar o silêncio, e condenar a desatenção com que os pregadores dissimulam uma tão necessária doutrina, sendo a que devera ser mais ouvida e declamada nos púlpitos. Seja, pois, novo hoje o assunto, que devera ser muito antigo e mui frequente, o qual eu prosseguirei tanto com maior esperança de produzir algum fruto, quanto vejo enobrecido o auditório presente com a autoridade de tantos ministros de todos os maiores tribunais, sobre cujo conselho e consciência se costumam descarregar as dos reis. [...] Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só. [...] Veja mais aqui e aqui.

LÁBIOS QUE NÃO SE ABREM & AMARGURA DE MULHER – No livro Poesia Geral (1985), da poeta brasileira Henriqueta Lisboa (1901-1985), destaco, inicialmente o seu poema Amargura: Eu chegarei depois de tudo, / mortas as horas derradeiras, / quando alvejar na treva o mudo / riso de escárnio das caveiras. / Eu chegarei a passo lento, / exausta da estranha jornada, / neste invicto pressentimento / de que tudo equivale a nada. / Um dia, um dia, chegam todos, / de olhos profundos e expectantes. / E sob a chuva dos apodos / há mais infelizes do que antes. / As luzes todas se apagaram, / voam negras aves em bando. / Tenho pena dos que chegaram / e a estas horas estão chorando... / Eu chegarei por certo um dia... / assim, tão desesperançada, / que mais acertado seria / ficar em meio à caminhada. Também merece destaque o seu poema Modelagem/Mulher: Assim foi modelado o objeto: / para subserviência. / Tem olhos de ver e apenas / entrevê. Não vai longe / seu pensamento cortado / ao meio pela ferrugem / das tesouras. É um mito / sem asas, condicionado / às fainas da lareira / Seria uma cântaro de barro afeito / a movimentos incipientes / sob tutela. / Ergue a cabeça por instantes / e logo esmorece por força / de séculos pendentes. / Ao remover entulhos / leva espinhos na carne. / Será talvez escasso um milênio / para que de justiça / tenha vida integral. / Pois o modelo deve ser / indefectível segundo / as leis da própria modelagem. Por fim o seu lírico poema Lábios que não se abrem, lábios: Lábios que não se abrem, lábios / com seu segredo / calado / Segredo no ermo da noite / resiste à rosa dos ventos / alado. / Flauta sem a vibração / do sopro. / Luar e espelho, frente a frente, / em calada / vigília. / Fria espada unida / ao corpo. / Resto de lágrimas sobre / lábios / calados. / Borboleta da morte / em sorvo / pousada à flor dos lábios / calados / calados. Veja mais aqui.

PROMETEU ACORRENTADO – A tragédia grega Prometeu Acorrentado (452aC), faz parte da trilogia do dramaturgo e poeta trágico Ésquilo (525-466aC), trata da condição humana e da criação da cultura por meio do mito antigo em que Zeus, o maior dos deuses, decide acorrentar um ex-aliado: Prometeu, acusado de muitos crimes, um deles fora roubar dos deuses e dar ao homem o fogo. Porém, Prometeu guarda um grande segredo que bravata o poder de Zeus. Como insiste em não revelar, é condenado a um castigo muito mais bárbaro. Na mitologia, Prometeu era filho de Jápeto e de Ásia, irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio, e se tornou o progenitor de Deucalião. Muito amigo de Zeus, o ardiloso Prometeu ajudou o deus supremo a driblar a fúria de seu pai Cronos, o qual foi destronado pelo filho. O dom da imortalidade não o impediu de se aproximar demais do Homem, concedendo a este o poder de pensar e raciocinar, bem como lhes transmitiu os mais variados ofícios e aptidões. Mas esta preferência de Prometeu pela companhia dos homens deixou o enciumado Zeus colérico. A raiva desta divindade cresceu cada vez mais quando ele descobriu que seu pretenso amigo o estava traindo. Ao se dar conta de que estava sendo ludibriado, Zeus se enfurece e subtrai da raça humana o domínio do fogo. É quando Prometeu, mais uma vez desejando favorecer a Humanidade, rouba o fogo do Olimpo, pregando uma peça nos poderosos deuses. Zeus decidiu punir Prometeu, decretando ao ferreiro Hefesto que o prendesse em correntes junto ao alto do monte Cáucaso, durante 30 mil anos, durante os quais ele seria diariamente bicado por uma águia, a qual lhe destruiria o fígado. Como Prometeu era imortal, seu órgão se regenerava constantemente, e o ciclo destrutivo se reiniciava a cada dia. Isto durou até que o herói Hércules o libertou, substituindo-o no cativeiro pelo centauro Quíron, igualmente imortal. Zeus havia determinado que só a troca de Prometeu por outro ser eterno poderia lhe restituir a liberdade. Como Quíron havia sido atingido por uma flecha, e seu ferimento não tinha cura, ele estava condenado a sofrer eternamente dores lancinantes. Assim, substituindo Prometeu, Zeus lhe permitiu se tornar mortal e perecer serenamente. Da obra destaco o trecho: [...] PROMETEU - Dia virá em que Zeus se há de humilhar, a despeito de toda a arrogância de seu coração, por efeito das bodas que se apresta para celebrar. Essa união o derrubará, aniquilado, do poder e do trono. Então estará cumprida plenamente a praga rogada por Crono, seu pai, ao cair do trono secular. Nenhum deus senão eu poderia ensinar-lhe de modo claro como arredar de si tamanha desdita. Eu sei qual é e como conjurá-la. Assim, pois, pode ele entronar-se seguro de si, fiado nos estrondos que troam nas alturas quando brande nas mãos o dardo chamejante. Eles não lhe valerão nada para evitar a vergonha duma queda insuportável, tão potente é o adversário que ele agora para si mesmo apresta, um portento invencível, que inventará fogo mais forte que o raio e estrondo formidável maior que o trovão, e despedaçará o tridente, a lança de Posidão, flagelo marinho que abala a terra. Quando ele der de encontro com essa desgraça, conhecerá quanto vai de reinar e servir. CORO - Vamos lá! Tuas ameaças a Zeus não são mais do que desejos teus. PROMETEU - Predigo o que será e é também o meu desejo. CORO - Devemos esperar que alguém dê ordens a Zeus? PROMETEU - Sim, e que sofra penas mais pesadas que estas. CORO - Como ousas proferir semelhantes palavras? PROMETEU - Nada tenho que temer; não estou fadado à morte. CORO - Mas ele pode infligir-te suplício ainda mais doloroso que este. PROMETEU - Pois que o faça; nada me pode surpreender. CORO - Sábio quem se prosterna diante da Adrastéia. PROMETEU - Venera, implora, bajula tu o poderoso do dia. A mim me importa Zeus menos que nada. Que se avie, que exerça como quiser o seu poder de curta duração, pois não reinará sobre os deuses longo tempo. Eis à vista, porém, o correio de Zeus, o serviçal do novo tirano; por certo, vem comunicar-nos alguma novidade. HERMES - (entrando) Tu aí, velhaco, o mais intratável dos intratáveis, que lograste os deuses pondo os seus privilégios ao alcance dos seres efêmeros – estou me referindo ao ladrão do fogo – meu pai ordena que reveles qual casamento, segundo alardeias, o derrubará do poder. E nada de enigmas; fala ponto por ponto pelos termos próprios. Não me vás obrigar a uma segunda viagem, Prometeu; não é com rodeios, bem vês, que hás de aplacar Zeus. PROMETEU - Essa fala impertinente, cheia de soberba, é bem a linguagem dum lacaio dos deuses. Vós sois moços; recente, o poder que exerceis; imaginais, por isso, viver numa torre acima dos sofrimentos; já não vi eu dois reis expulsos dela? O terceiro, o atual reinante, eu o verei também cair de maneira ignominiosa e rápida. Pensas que temos os novos deuses e me encolho diante deles? Para isso falta muito; melhor, falta tudo. Desanda ligeiro o caminho por onde vieste, que de mim nada saberás do que indagas. HERMES - Semelhantes insolências já te trouxeram a ancorar neste suplício. PROMETEU - Pois saibas sem sombra de dúvida que eu não trocaria minhas misérias pela tua servidão; acho preferível estar escravizado a este penhasco a ser o mensageiro fiel de Zeus teu pai. A injúrias responde-se assim, com injúrias. HERMES - Pareces orgulhoso da tua situação. PROMETEU - Orgulhoso? Orgulhosos assim tomara visse eu os meus inimigos – e incluo-te nesta conta. HERMES - Culpas a mim também de teus desastres? PROMETEU - Francamente, odeio todos os deuses; devem-me favores e pagam-me com iniquidade. HERMES - Ouço palavras de louco, e a moléstia é grave. PROMETEU - Moléstia será, se odiar os inimigos for insânia. HERMES - Serias insuportável, se houvesses triunfado. PROMETEU - Ai de mim! [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

COPIE CONFORME – O filme Copie conforme (Cópia fiel, 2010), do premiadíssimo cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história do encontro entre um autor britânico que acabou de fazer o lançamento do seu livro, e uma mulher francesa que é dona de uma galeria de arte numa pequena aldeia da Toscana. Destaque para a lindíssima atriz francesa Juliette Binoche que arrebatou com este filme o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2010. Durante a premiação ela protestou chorando contra a prisão do diretor Jafar Panahi pelo governo do Irã, em 2010, influenciando o governo a soltá-lo dois meses depois. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do cartunista, ilustrador e desenhista de animação estadunidense Alex Toth (1928-2006)

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
(Imagem Nude reclining, da artista plástica russa Ekaterina Mortensen).
Aprume aqui.


domingo, junho 28, 2015

ROUSSEAU, PIRANDELLO, ALDEMAR PAIVA, MARLY, MEL BROOKS, GUILHERMINA, RADICETTI, PERSSON & SANTANNA O CANTADOR


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? JAPONÊS IMITA GONZAGÃO! (Fotos de lançamento do livro Paixão Legendária – Edições Bagaço, 1991)– Não era ele ainda o Santanna O Cantador de hoje, mas um graduado bancário que nas horas vagas já esbanjava seu talento cantando sucessos do Rei do Baião – na verdade, não só cantava como rendia homenagem praquele que o tivera por filho postiço. Eu fazia vez de jornalista numa emissora de rádio, quando batemos o centro na nossa primeira parceria: Nunca chore por mim – que na festa do lançamento de um livro meu – vide as fotos -, tornamos pública. E estávamos motivados pra mais uma dezena de parcerias, quando fomos entrevistar o renomado cantor e compositor cearense Belchior no Recife. Conversa boa regada a revelações e depoimentos que se prolongou por umas duas horas registradas no meu gravador, mas não podíamos esticar muito no papo porque, no outro dia, o meu amigo tinha que se aprontar pra mais um espetáculo pro povinho bom da minha terra. Assim foi e na hora da apresentação dele, como de costume, gente pendurada de todo jeito de cair pelo ladrão. E o cabra lá fazendo bem feito o que sabia melhor fazer metendo xote, baião, forró, rastapé e tudo que foi sucesso de boca em boca do grande cantor da alma nordestina. Lá pras tantas, eis que um biltre dum pinguço que já estava meio lá, meio cá, trocando as pernas e a vida dele e de todo mundo, chegou pra mim aos tombos e na maior da ingresia berrou na língua enrolada: - Já vi neguinho de todo jeito imitando o véi Lua, mas japonês é a premera veizi! E cuspiu no chão, passou insistentemente as mãos às vistas pra enxergar direito o que via e não acreditava, quando abusado reclamou: - Ou eu tô bêbo dimai, ou é o véi Lua qui ressuscitou num japa? Veja mais aqui, aqui e aqui.

 Imagem: Olhos observantes e pássaro curioso, da artista plástica Maria Luisa Persson. Veja mais aqui e aqui.


Curtindo as músicas do cd América, o décimo terceiro autoral do músico, compositor e arranjador Felipe Radicetti dedicado ao escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) e contando com parcerias com Sérgio Ricardo, Felipe Cerquize, Marcelo Biar, Luhli, Socorro Lira, Etel Frota, entre outros. Confira o projeto aqui, aqui e aqui.

PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Todo domingo, a partir das 10hs, realiza-se o programa Brincarte do Nitolino, desta feita Especial de São Pedro, no blog do Projeto MCLAM - programa Domingo Romântico. Na programação festiva de hoje comandada pela Ísis Corrêa Naves muitas atrações: Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Quintal da Cultura, Mario Zan & banda & coro, Festa Junina, Nita, Sandra Fayad, Tia Conça, Meimei Corrêa, Marquinhos & Marcelo, As Viagens de Oliva, Arraíá da Xuxa, Mastruz com Leite, Falamansa & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. E mais no blog sobre Psicologia Infantil, Educação Infantil, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro Infantil, Música Infantil & Literatura Infantil. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.


AS CIÊNCIAS E AS ARTES – A obra Discurso sobre as ciências e as artes (1750), do escritor, teórico político, um dos principais filósofos do Iluminismo e precursor do Romantismo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), conquistou o prêmio da Academia de Dijon ao questionar se o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para purificar os costumes. Do livro destaco os trechos seguintes: [...] Antes da arte modelar as nossas maneiras e ensinar as nossas paixões a falar uma linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos, porém naturais; e a diferença dos procedimentos anunciava, ao primeiro golpe de vista, a dos caracteres. A natureza humana, no fundo, não era melhor; mas, os homens encontravam sua segurança na facilidade de se penetrarem reciprocamente; e essa vantagem, cujo valor não sentimos, lhes evitava muitos vícios. Hoje, que pesquisas mais sutis e um gosto mais fino reduziram a arte de agraciar a princípios, reina nos costumes uma vil e enganadora uniformidade, parecendo que todos os espíritos foram atirados num mesmo molde: a polidez sempre exige, o decoro ordena ; sem cessar, todos seguem os usos, jamais o seu próprio gênio. Ninguém mais ousa parecer aquilo que é; e, nesse constrangimento perpétuo, os homens que formam esse rebanho chamado sociedade colocados nas mesmas circunstâncias farão todos as mesmas coisas, se motivos mais poderosos não os desviarem. Jamais saberemos bem a quem nos dirigirmos: precisamos pois, para conhecer um amigo, esperar as grandes ocasiões, isto é esperar que não haja mais tempo, pois que é precisamente nesse tempo que seria essencial conhecê-lo. Que cortejo de vícios não acompanhará essa incerteza! Não há mais amizades sinceras não há mais estima real; não há mais confiança fundada. As suspeitas, as desconfianças, os temores, a frieza, a reserva, o ódio, a traição, hão de ocultar-se sempre sob o véu uniforme e pérfido da polidez sob essa urbanidade tão louvada, que devemos às luzes do nosso século. Não será mais profanado com juramentos o nome do senhor do universo; mas, será insultado com blasfêmias, sem que os nossos ouvidos escrupulosos se ofendam. Ninguém mais se gabará do próprio mérito, mas rebaixará o dos outros. Ninguém ultrajará grosseiramente seu inimigo, mas o caluniará com habilidade. Os ódios nacionais se extinguirão, mas será com o amor da pátria. A ignorância desprezada será substituída por um perigoso pironismo. Haverá excessos proscritos, vícios desonrados: mas, outros serão decorados com o nome de virtudes; será preciso tê-los ou os afetar. Gabar-se-á quem tiver a sobriedade dos sábios do tempo; quanto a mim, não vejo nisso senão um requinte de intemperança tão indigno de meu elogio quanto a sua artificiosa simplicidade. Tal é a pureza adquirida pelos nossos costumes: é assim que nos tornamos gente de bem. Cabe às letras, às ciências e às artes reivindicar o que lhes pertence em obra tão salutar. Acrescentarei apenas uma reflexão: o habitante de alguma região afastada que procurasse formar uma idéia dos costumes europeus sobre o estado das ciências entre nós, sobre a perfeição das nossas artes, sobre a afabilidade dos nossos discursos, sobre as nossas perpétuas demonstrações de benevolência, e sobre essa multidão tumultuosa de homens de toda idade e de todo estado que parecem ter pressa, desde o amanhecer até ao pôr-do-sol, de se obsequiarem reciprocamente; esse estrangeiro repito, adivinharia exatamente nos nossos costumes o contrário do que eles são. [...] Todo artista quer ser aplaudido. Os elogios dos seus contemporâneos constituem a parte mais preciosa de suas recompensas. Que fará, pois, para os obter, se tem a desgraça de ter nascido no seio de um povo e nos tempos em que os sábios em moda puseram uma juventude frívola em estado de dar o tom; em que os homens sacrificaram seu gosto aos tiranos de sua liberdade; em que, não ousando um dos sexos aprovar senão o que é proporcional à pusilanimidade do outro, se deixa que se percam obras-primas de poesia dramática e se joguem fora prodígios de harmonia? Que fará ele, senhores? Rebaixará seu gênio ao nível do seu século e preferirá compor obras comuns, que se admirem durante a sua vida, a maravilhas que seriam admiradas muito tempo depois de sua morte. Dizei-nos, célebre Arouet o que não sacrificastes de belezas másculas e fortes à nossa falsa delicadeza! E como o espírito da galanteria, tão fértil em pequeninas coisas, vos custou grandes! [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UM AR CONDICIONADO DIFERENTE – Esse foi um dos presentes que tive a honra de ser contemplado pela médica, crítica literária e fotógraga, amiga Cidinha Madeiro. Trata-se da obra Saga do 44º Espada D’Água e outros causos e mais causos (EBGE, 2005), do saudoso poeta, cordelista, radialista, compositor, produtor e publicitário Aldemar Paiva (1925-2014), fundador da Rádio Difusora de Alagoas e que atuou na Rádio Clibe de Pernambuco, substituindo Chico Anísio como produtor, apresentador e diretor artístico. Tive a honra de conhecê-lo na segunda metade da década de 1980, quando fui diretor do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco. Ler o livro foi como ouvi-lo contar das suas. E entre tantas e ótimas narrativas, destaco Ar condicionado: O cinema de Moacir possuía excelente aparelhagem, poltronas confortáveis, tela panorâmica, som maravilhoso e boa localização. Faltava apenas um sistema de refrigeração para o público. Um dia, causou estranheza aquela tabuleta enorme na fachada do Lux, anunciando Elizabeth Taylor em Cleópatra e com ar condicionado. Efetivamente eu não pisei lá, porém dias depois, ao encontrar Moacir na Praça Pirulito, decidi cumprimentá-lo: - Parabéns pela inauguração do ar! – Que inauguração que nada! Aquilo é um sistema proprip bolado por mim desde o ano passado. Veja como funciona: cadastrei vinte e cinco asmáticos da Ponta Grossa, com endereço e tudo. Quando faço lançamento de uma superprodução mando buscá-los. Eles chegam a partir das cinco horas da tarde. Aí eu distribuo pastilhas e clicetes de hortelã pimenta, e vou colocando todos eles em pontos estratégicos da plateia. Ao final eles começam mascando e botando aquele ar bem friinho pela boca. Em menos de uma hora o salão está praticamente refrigerado. Solto o filme e os funcionários vão cuidando de reabastecê-los durante a projeção. Como são asmáticos crônicos não existe perigo de esquentar o ambiente. O público adora e não reclama pelo ingresso um bocadinho mais caro. Entendeu? Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ELEGIA QUANDO ESTIVER MORTA & SONETO – Na Antologia poética (Nova Fronteira, 1998), da poeta e professora Marly de Oliveira (1935-2007), destaco o seu Elegia: Teu rosto é o íntimo da hora / mais solitária e perdida, / que surge como o afastar-se / de ramos, brando, na noite. / Não choro tua partida. / Não choro tua viagem / imprevista e sem aviso. / Mas o ter chegado tarde / para o fechar-se da flor / noturna do teu sorriso. / O não saber que paisagens / enchem teus olhos de agora, / e este intervalo na vida, / esta tua larga, triste, / definitiva demora. O belíssimo Quando um dia estiver morta: Quando um dia estiver morta / e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos, / não vou mover um dedo / de dentro do meu silêncio: / vou desdenhar do eterno / o que sempre chegou tarde, / demais, quando já nem era preciso. Por fim o seu Soneto: Ficou do amor, das tardes luminosas / à beira de mim mesmo transparente / e imóvel como os remos de alabastro / que o sonho vai movendo em minha mente, / entre algas finas e entre esquivos peixes / à margem de violetas assombradas, / do jogo eterno e cada vez mais sábio / das aves silenciosas e prateadas, / das águas sem memória e dos adeuses / que aprendi contemplando os horizontes, / este espinho que faz brotar da sombra / um apelo de campos e de montes, / e arranca à pedra em que me fui tornando / o delírio ou o grito de uma fonte. Veja mais aqui, aqui,  aqui, aqui e  aqui.

A PATENTE – A comédia em um ato A patente (1917), do dramaturgo, poeta e romancista siciliano Luigi Pirandello (1867 – 1936), retoma o tema do romance homônimo de 1911, revelando questões acerca das relações de entrelaçamento entre os homens corrompidos e poluídos por preconceitos e aparências para superficial julgamentos e conveniências, pendurados nas máscaras para sobrevivência. Da obra destaco o trecho inicial: (Gabinete do Juiz D’Andrea. Estante grande ocupa quase toda a parede ao fundo, cheia de caixas com arquivos, abarrotados de documentos. Escrivaninha sobrecarregada de papéis, à direita, ao fundo. Ao lado, à parede da direita, uma outra prateleira. A cadeira de braços de couro do juiz, junto à escrivaninha. Outra cadeira antiga. O ambiente é antiquado. Na parede direita, a porta. À esquerda, uma janela ampla, alta, com vitral antigo. Perto da janela, uma coluna sobre a qual vê-se uma grande gaiola. Num canto, uma portinhola oculta. D’Andrea entra pela porta com chapéu à cabeça e sobretudo. Carrega na mão uma gaiolinha um pouco maior que um palmo. Vai até a gaiola maior, abre a portinhola, depois a portinhola da gaiolinha donde retira um pintassilgo, transferindo-o para a gaiola maior) D’ANDREA - Aí, dentro! Entre, seu preguiçoso! Oh, pronto... Quietinho agora e basta. Me deixe conduzir a Justiça entre essa raivosa e mesquinha humanidade! (Retira o, sobretudo e o chapéu e colocando-os no cabide. Senta-se à escrivaninha; pega os autos do processo que deve instruir, os sacode ao ar impaciente, e resmunga) D’ANDREA - Ah, meu caro... Fica absorto, pensando, após um tempo toca a campainha. Entra o oficial de justiça Marranca. MARRANCA - Às ordens, senhor juiz! D’ANDREA - Tome, Marranca: vá ao Beco do Forno, aqui perto, à casa do Chiàrchiaro. MARRANCA - (num salto para trás, fazendo um sinal de esconjuro com as mãos) Pelo amor de Deus! Não diga este nome, senhor juiz! D’ANDREA - (irritadíssimo, batendo na escrivaninha com o punho) Basta, por Deus! Proíbo-lhe de proferir assim, na minha frente, tanta asneira, prejudicando um pobre homem. E que fique bem claro! MARRANCA - Desculpe, senhor juiz! Mas eu disse também pelo seu bem... D’ANDREA - Ah, e ainda insiste? MARRANCA - Não falo mais! Não falo mais! O que deseja que eu vá fazer na casa deste... Deste... Cavalheiro? D’ANDREA - Diga que preciso falar-lhe, e que se apresente imediatamente. MARRANCA - Imediatamente, senhor Juiz. Como deseja. Mais alguma ordem? D’ANDREA - Nenhuma. Vá! (Marranca sai, segurando a porta para dar passagem a outros três juízes, que entram vestindo toga e touca. Trocam saudações com D’Andrea, e vão os três olhar o pintassilgo na gaiola) [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DO MUNDO – A comédia antológica História do Mundo – Parte I (1981), escrito e dirigido pelo impagável cineasta e ator estadunidense Mel Brooks, é uma paródia histórica e bricadeira do autor da obra de Sir Walter Raleigh, que não segue cronologia alguma e traz ambientes ocorridos durante a Idade da Pedra com a invenção do fogo e os primeiros casamentos Homo sapiens entre homossexuais, o Antigo Testamento proclamando quinze mandamentos que devido a um acidente restam apenas dez, Império Romano e a paixão de Comicus pela vestal Miriam até o confronto bélico que é amainado pelas tapas na maconha, a Inquisição espanhola com Torquemada e as suas torturas, e a Revolução Francesa com o Conde Monet, seu sócio Béarnaise e a belíssima Mademoiselle Rimbaud, além de esquetes intermediários que incluem encenações dos Dez Mandamentos e da Última Ceia. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950), by Anita Mercier.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico com reprise de toda programação da semana, a partir do meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
(Imagem: Os violeiros, xilogravura de Nena Borges).
Aprume aqui.


sábado, junho 27, 2015

GUIMARÃES ROSA, ANAXIMANDRO, IDA PRESTI, KIESLOWSKI, LELIA, BARALDI, LAVINIA, ANAMARIA & SCHWITTERS.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? IH, ESQUECI! - Imagem: Anna Blossom, do pintor, escultor e poeta alemão Kurt Schwitters (1887-1948) - Quem ainda não passou pelo vexame de querer se lembrar de algo e, mesmo na ponta da língua, a lembrança se escondia nos cafundós do esquecimento? Nossa! Deu branco. Já paguei trocentos micos nessa saia-ajusta. Principalmente agora, cinquentão, estudante de Psicologia. Por exemplo: lembrar dos nomes da tuia de hormônios ou dos neurotransmissores na prova oral, nossa! A professora perguntava e na hora agá eu respondia: Carolina, gasolina, Severina, estricnina e por aí vai. Nada a ver. Mesmo fazendo associação das ideias, a coisa não vingava, fugiu. Vexame costumeiro que vem desde que passei pelo curso de Direito com as expressões latinas, tão comuns nos dizeres professorais. E olhe que eu já havia estudado Latim no curso de Letras. Mas, nada. Quando ouvia Nemo condemnatus nisi auditus vel advocatus, eu na hora ficava: - Hem? Saber, sabia; cadê eu soltar a resposta certa? Ah, passei muito aperto por causa dessa minha até então fortuita amnésia. O pior mesmo era na hora de lançamento dos meus livros: a pessoa na minha frente, anos de conhecida e cadê o nome do distinto no quengo? Puxava conversa, desconversava; contava risíveis situações vividas com ele ou familiares, perguntando por um e por outro – e nada do nome para eu autografar -, enrolando como podia e a fila lá esperando que eu despachasse. Nessa hora não aparecia ninguém para saudá-lo. Fazia de tudo para trazer à tona pelo menos o sobrenome e nada. E a bomba? Lá vai eu perguntar pela mãe dele e peitar tragédia de vê-lo lacrimejar e com a voz embargada: - Você não soube? Cadê buraco no chão preu me socar? Ela havia recentemente falecido e eu não sabia ou não me lembrava. Pode? Pois é. Já pelejei muito na ideia para sapecar com categoria algo que insistia em não ser pronunciado na hora que eu precisava mencioná-lo. Cheguei a ponto de não saber se o defeito estava na minha memória de curto prazo ou se eu havia me divorciado da de longo prazo – êta vida besta essa minha de nem sequer conseguir guardar nada de seguro pra rememorar. Alguns já mangam: - É a idade, mô fio! Realmente, agora, mais do que nunca, é que é difícil de decorar as coisas. Poemas e músicas que componho hoje são sacrifícios para recitá-los de cabeça ao pé da letra: ou falta um verso, ou esqueço tudo. Isso devia acontecer também com as coisas ruins que vira e mexe rondam na recordação das voltas do cérebro, não era não? Isso a gente não esquece nunca, pelo menos eu. Agora, na hora da precisão, vixe! Sim, mas eu estava falando mesmo do quê? Ih, esqueci! Vôte! Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Minerva Dressing (1613), Oil on canvas, Galleria Borghese, Rome, da pintora italiana Lavinia Fontana (1552-1614).


Curtindo The Art of Ida Presti (2012), da violonista clássica francesa Ida Presti (1924-1967), compilation includes the Villa-Lobos , Visée, Bach, Albeniz, Malats, Fortea, Moreno-Torroba, Sor, Pujol & Lagoya.

SOBRE A NATUREZA – A obra Sobre a natureza, do matemático, astrônomo, geógrafo e filósofo grego Anaximandro de Mileto (610-547aC), é considerada a primeira obra filosófica, dela restando apenas alguns fragmentos e noticias de filósofos posteriores. Atribui-se a ele a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do gnômon e a medição das distancias entre as estrelas e o calculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Acreditava o filósofo que o princípio de tudo - o arché das coisas - era o apéiron, isto é, uma matéria infinita da qual todas as outras se cindem., sendo algo insurgido e imortal, preocupando-se inclusive com as coisas todas que saem do princípio. Ele diz que o mundo é constituído de contrários, que se autoexcluem o tempo todo. Para ele o mundo surge de duas grandes injustiças: primeiro, da cisão dos opostos que "fere" a unidade do princípio; segundo, da luta entre os princípios onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir. De sua obra destaca-se os trechos traduzidos pelo filosofo alemão Friedrich Nietzsche: [...] De onde as coisas têm seu nascimento, ali também devem ir ao fundo, segundo a necessidade; pois têm de pagar penitencia e de ser julgadas por suas injustiças, conforme a ordem do tempo. [...] O verdadeiro critério para o julgamento de cada homem é ser ele propriamente um ser que absolutamente não deveria existir, mas se penitencia de sua existência pelo sofrimento multiforme e pela morte: o que se pode esperar de um tal ser? Não somos todos pecadores condenados à morte? Penitenciamo-nos de nosso nascimento, em primeiro lugar, pelo viver e, em segundo lugar, pelo morrer. [...] O que vale vosso existir? E, se nada vale, para que estais aí? Por vossa culpa, observo eu, demorai-vos nessa existência. Com a morte teris de expiá-la. Vede como murcha vossa Terra; os mares se retraem e secam; a concha sobre a montanha vos mostra o quanto já secaram; o fogo, desde já destrói vosso mundo, que, no fim, se esvairá em vapor e fumo. Mas sempre, de novo, voltará a edificar-se um tal mundo de inconstância: quem seria capaz de livrar-vos da maldição do vir-a-ser? [...] De onde as coisas têm seu nascimento, para lá também deve afundar-se na perdição, segundo a necessidade; pois elas devem expiar e ser julgadas pela sua injustiça, segundo a ordem do tempo. Veja mais aqui e aqui.


JOÃO PORÉM, O CRIADOR DE PERUS – O livro Tutameia: terceiras estórias (José Olympio, 1976), reúne quarenta contos dispostos em ordem alfabética do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967), com histórias extremamente curtas que rompem com o estilo até então cultivado pelo escritor. Entre os escolhidos destaco João Porém, o criador de perus: Agora o caso não cabendo em nossa cabeça. O pai teimava que ele não fosse João, nem não. A mãe, sim. Daí o engano e o nome, no assento de batismo. Indistinguível disso, ele viçara, sensato, vesgo, não feio, algo gago, saudoso, semi-surdo; moço. Pai e mãe passaram, pondo-o sozinho. A aventura é obrigatória. Deixavam ao Porém o terreno e, ainda mais, um peru pastor e três ou duas suas peruas. E tanto; aquilo tudo e egiptos. Desprendado quanto ao resto, João Porém votou-se às aves – vocação e meio de ganho. De dele rir-se? A de criar perus, os peruzinhos mofinos, foi sempre matéria atribulativa, que malpaga, às poucas estimas. Não para o João. Qual o homem e tal a tarefa: congruíam-se, como um tom de vida, com riqueza de fundo e deveres muito recortados. Avante, até, próspero. Tomara a gosto. O pão é que faz o cada dia. Já o invejavam os do lugar – o céu aberto ao público – aldeiazinha indiscreta, mal saída da paisagem. Ali qualquer certeza seria imprudência. Vexavam-no a vender o pequeno terreiro, próprio aos perus vingados gordos. Porém tardava-os, com a indecisão falsa do zarolho e o pigarro inconcusso da prudência. Tornaram; e Porém punha convicção no tossir, prático de economias quiméricas, tomadas as coisas em seu meio. Desistiram então de insistir, ou de esperar que, mais-menos dia, surgida alguma peste, ele desse para trás. Mas lesavam-no, medianeiros, no negócio dos perus, produzidos já aos bandos; abusavam de seu horror a qualquer espécie de surpresas. Porém perseverava, considerando o tempo e a arte, tão clara e constantemente o sol não cai do céu. No fundo, coqueirais. Mas inventaram, a despautação, de espevitar o espírito. Incutiram-lhe, notícia oral: que, de além-cercanias, em desfechada distância, uma ignorada moça gostava dele. A qual sacudida e vistosa – olhos azuis, liso o cabelo – Lindalice, no fino chamar-se. João Porém ouviu, de sus brusco, firmes vezes; miúdo meditou. Precisava daquilo, para sua saudade sem saber de quê, causa para ternura intacta. Amara-a por fé – diziam, lá eles. Ou o que mais, porque amar não é verbo; é luz lembrada. Se assim com aquela como o tivessem cerrado noutro ar, espaço, ponto. Sonha-se é rabiscos. Segredou seu nome à memória, acima de mil perus extremadamente. Embora de lá não quisesse sair, em busca, deixando o que de lei, o remédio de vida. – Não ia ver o amor? – instavam-no, de graça e com cobiça. Arrendar-lhe-iam o sítio, arranjavam-lhe cavalo e viático… Se bem pensou, melhor adiou: aficado, com recopiada paciência, de entre os perus, como um tutor de órfãos. Sustentava-se nisso, sem mecanismos no conformar-se, feito uma porção de não-relógios. A moça, o amor? A esperança, talvez, sempre cabedora. A vida é nunca e onde. E vem que o tiveram de louvar – sob pressão de desenvolvimento histórico: um, dos de caminhão, da cidade, fechara com o Porém dos perus tráfico ajuste perfeito; e a bela vez é quando a fortuna ajuda os fracos. Nem se dava disso, inepto exato, cuidando e ganhando, só em acrescentamentos, homem efetivo, já admirado, tido na conta de outro. Pasmavam, os outros. Pudera crer na inventada moça, tendo-a a peito? Ágil, atentivo, sempre queria antigas novidades dela. De dó ou cansaço, ou por medo de absurdos, acharam já de retroceder, desdizendo-a. porém prestou-lhe a metade surda de seus ouvidos. Sabia ter conta e juíxo, no furtivar-se; e, o que não quer ver, é o melhor lince. Aceitara-a, indestruía-a. Requieto, contudo, na quietude, na inquietude. O contrário da idéia-fixa não é a idéia solta. – “Aconteceu que a moça morreu…” – arrependidos tiveram então de propor-lhe, ajuntados para o dissuadir, quase com provas. Porém gaguejou bem – o pensamento para ele mesmo de difícil tradução: – Esta não é minha vez de viver… – quem sabe. Maior entortou o olhar, sinceramente evasivo, enquanto coléricos perus sacudiam grugulentos. Tanto acreditara? Segurava-se à falecida – pré-anteperdida. E fechou-se-lhe a estrada em círculo. Porém, sem se impedir com isso, fiel à forte estreiteza, não desandava. Infelicidade é questão de prefixo. Manejava a tristeza animal, provisória, perturbável. Se falava, era com seus perus, e que . Era só um homem debaixo de um coqueiro. Vem que viam que ele não a esquecia, viúvo como o vento. Andava o rumo da vida e suas aumentadas substituições. Ela não estava para trás de suas costas. Porém, Lindalice, ele a persentia. Tratava centena de peruzinhos em gaiolas, e outros tantos soltos, já com os pescoços vermelhos. Bem que bem – e porque houvesse justo o coincidir fortuito – moveram de o fazer avistar-se com uma mocinha, de lá, também olhos azuis, lisos cabelos, bonita e esperta, igual à outra, a urdida e consumida. Talvez desse certo. Pois, por sombras! Porém aqui suspendeu suma a cabeça, só zarolhaz, guapamente – vez tudo, vez nada – a mais não ver. Deixaram-no, portanto, dado às aranhas dos dias, anos, mundo passável, tempo sem assunto. E Porém morreu; nem estudou a quem largar o terreno e a criação. Assustou-os. Tinham de o rever inteiro, do curso ordinário da vida, em todas as partes da figura – do dobrado ao singelo. João Porém, ramerrameiro, dia-a-diário – seu nariz sem ponta, o necessário siso, a força dos olhos caolhos – imóvel apaixonado: como a água, incolormente obediente. Ele fora ali a mente mestra. Mas, com ele não aprendiam, nada. Ainda repetiam só: –  “Porém! Porém…” Os perus, também. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

HIPÓTESE DE MAIO, AMOR TIRANO & REFLEXO – No livro Poesia Reunida (1956-2006 / Bem-te-vi, 2012), da premiada escritora, antropóloga e crítica de arte Lelia Coelho Frota (1938-2010), reúne os poemas do período de 1956/2006, entre os quais destaco Reflexo: Neste balão de vidro discorria / em breve imagem, o nosso eu-vermelho; / e inscrustava no fundo de si mesmo / a paragem oclusa, sem relógios, / onde (não mais miragens) nos riremos / de fluido riso igual todo setembro: / um riso fotográfico, fixado / A íntimos corredores do cristal / que a ninguém iludirá – cristal, / cristal será – estilhaçado em mil / cristais, il risos mudos teceriam / o escarlate de nosso ser-espelhos: / aprisionado em cor. E mesmo ausentes / e outros, não nos desvencilhamos, vasta / é a planicia sanguínea deste escrínio / dócil, sem violência. Entre poentes / permanentes se multiplica em prisma / esta contemplação despreocupada. / Vidro, som vazado em vermelho, vidro / contra as garras mais finas de teu gelo / se arremessa a nossa forma disforme, / inconformada. E vidro em ser vibrante / clausura musical que recaptura / para a retina pobre o antigo encanto / e o reflete em presente, sob meu canto. Também o seu Amor tirano: Invejável clausura / Tem o fauno da fonte / da Avenida da Liberdade. / Não sabe o que é saudade: / ele dura. Por fim, o seu magistral poema Hipótese de maio: Sobre a mesa o relógio /anuncia meu tempo / que se desfaz em crivo / de aflito pensamento. / De que jardins me evado / de que amores provenho / de que enredo impreciso / se armara o que estou sendo / entre meus dicionários / fragmentos de retratos / os rútilos canários / enfunadas cortinas. / Os amigos inquietos / o silêncio a aumentar / concêntrico, severo / em torno das conversas / além da ausência, / além dos constantes afetos. / Resíduos de passeios / em paisagens alheias / empinham-se em gavetas —/ cartas de amor nos seus / macios envelopes / risadas e conchinhas / a voz que fala sempre / no fundo da sonata / diletantes poemas / todos concordemente / citando o Coração / ladeado de flores / zéfiros sorridentes / (e os sabia chorosos). / As gavetas estufam / o que nelas se havia / adquire vida própria / um sitiado encanto / e expulsa da memória / de que participava / com escassa competência / eu, que leve o lembrava. / O conteúdo humano / desse ditoso espólio palpita, e entretanto /— semicerrados olhos / agitar de cambraia — / invencível o sono / se engolfa na dolência. / Sono maior que o escuro / a corromper a luz / diuturna nostalgia / de um sonho, não sei mais / ao certo o que seria. / Coágulo sombrio / adensando-se em zona / fechada, onde me perco / neste mês-de-maria / pensando o que seria / de mim, no dissolvido / rumor que me povoa / sem conduzir à fala / da sempre poesia / sem revelar o muito / de amar que pretendia / antes de antes, não sei / ao certo o que seria. / Mas bem que perfazia / um circuito profundo / onde a primeira imagem / (início e ata finda) / que ainda se reflete / é a da jovem correndo / pela campina, soltos / cabelos, e as glicínias / a descer pelos ombros / prendendo-se na boca / primavera garrida / pelo azul florentino. / Na mão direita tinha / uma roseira viva / juritis entoavam / campestres ladainhas / pela transparência / de sua carnação / via-se-lhe o coração / com um só nome gravado / a rubro, fulcro infenso. / Corria na campina / fantástica, e ainda / posso lembrar que em fuga / amava sempre, e ria. Veja mais aqui.

GERAÇÃO TRIANON – A premiada peça teatral Geração Trianon - Texto elaborado a partir de frases, expressões, citações e situações da nossa História Teatral nas décadas de 10, 20 e 30, da dramaturga, diretora de teatro, autora de telenovelas e roteirista Anamaria Nunes, foi contemplada com o Prêmio Shell de melhor autora (1988), entre outras premiações, contando a história do teatro Trianon do Rio de Janeiro, no qual ocorreram espetáculos com os grandes nomes da época, quando a companhia discute a ausência do público. Da obra destaco a Cena VIII: [...] Cena VIII – MARCONDES — Que é isso? O senhor aqui outra vez? EULAMBIA — Fui eu. MARCONDES — Foste tu? EULAMBIA (à parte) Terá desconfiado? MARCONDES — O senhor está cá em cima quando devia estar lá embaixo. Ponho-o no olho da rua, seu vadio. ROSINHA (para Eulambia) Defenda-o. EULAMBIA — Fui quem o chamou, meu amor. MARCONDES (à parte) Meu amor? EULAMBIA — Para me trazer sabão... MARCONDES — Sabão? Pois se pegaste ontem... EULAMBIA — Já se acabou. MARCONDES — Aqui há cousa! ANTONICO (saindo) Já trago o sabão, dona Eulambia. ROSINHA — Quer que ensaboe a roupa agora? EULAMBIA — Eu mesma ensaboo. Arruma a sala, é mais leve. ROSINHA — Sim, senhora. EULAMBIA — Precisas de alguma cousa, meu amor? Estou às tuas ordens. MARCONDES — Meu amor? Eu? Sei. (Eulambia sai) Então é ela que ensaboa a roupa? E eu já sou meu amor! E tu, Rosinha, sem mais pra que, passas a ser tratada como uma filha... ROSINHA — É pra ver. Depois de apanhar até! MARCONDES — Que transformação súbita é esta? ROSINHA — Parece milagre. MARCONDES — Milagre? É, é um milagre. Não, aqui há manobra, oh se há... ROSINHA — Deve ser remorso. Judiou tanto de mim. MARCONDES — E de mim então? Mas vamos deixar disso e voltar aquela nossa palestrinha... ROSINHA — Já vem o senhor outra vez. MARCONDES — Não sejas tolinha. Dou-te toda a garantia. ROSINHA — E a patroa? MARCONDES — Nunca saberá Tu vais contar? Eu vou contar? Está visto que não. ROSINHA — Não é isso. O que 44 o senhor vai fazer dela? MARCONDES — Fica por aí, como um traste imprestável. É um estafermo. ROSINHA — Dona Eulambia não vai se conformar. Ela ainda está conservada. MARCONDES — Conservada? Já tem até gogó como galinha velha! (Atirando-se) Tu sim, tetéia, minha candonga, tu é que és da gente arregalar o olho! ROSINHA — Sai daqui, seu Marcondes. MARCONDES — Malvada! Mas se quiseres a casinha. Tu lá dentro. E eu, de vez em quando também. Sempre não, que eu sou um negociante conhecido na praça e faço parte da União dos Varejistas. ROSINHA — Não sei... MARCONDES — Aceita, pombinha! ROSINHA — Se falhar uma outra cousa que tenho em vista, aceito. MARCONDES — Que outra cousa? ROSINHA — Quero tudo que o senhor me promete, mas casando. MARCONDES — Casando? Na Igreja? ROSINHA — Contento-me com a Pretoria. MARCONDES — Ainda assim é difícil. Não complica as cousas. Aceita a casinha e o meu amor... Anda cá, senta-te aqui, ao meu colo, vamos conversar! ROSINHA — Pode vir alguém... MARCONDES — Não virá. Senta-te, meu bijuzinho! ROSINHA — Mas dona Eulambia... MARCONDES — Chama-me de meu amor. Está mansa. Não há perigo. Deixa-te de luxo e senta-te. É só um minuto, tetéia. Dou-te um beijinho e está tudo combinado, ROSINHA — Não. (Ouve passos fora) Então vá lá. (Senta-se) MARCONDES — Vem gente! [...] Veja mais aqui.

LA DOUBLE VIE DE VÉRONIQUE – O filme La double vie de Véronique (A dupla vida de Véronique, 1991), do cineasta polonês Krzystof Kieslowski (1941-1996) e com trilha sonora de Zbigniew Preisner, conta duas histórias paralelas sobre duas mulheres idênticas: uma que vive na Polônia – Weronika que estuda numa escola de música, trabalha duro, leva uma queda e morre em sua primeira performance; a outra que vive na França – Véronique, que numa reviravolta resolver não ser cantora. Elas não sed conhecem e suas vidas são profundamente ligadas. O filme arrebatou diversos prêmios no Festival de Cannes (1991), Cesar Awards (1992), Sindicato dos Críticos de Cinema da França (1992), Globo de Ouro, Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles, Premio Sant Jordi Barcelona (1993), Festival Internacional de Cinema de Varsóvia, entre outros. O destaque do filme é para a lindíssima atriz franco-suíça Irène Marie Jacob. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 Charges do livro Moro num país tropicaos (Publisher, 2002), do cartunista e criador da logomarca Tataritaritatá Márcio Baraldi. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
(Imagem: La liseuse nude - Woman reading nude - ArteNude)
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