quinta-feira, abril 30, 2015

LORCA, ELLINGTON, TRIER, PARCERO, GÊNESE AFRICANO, GALHARDO, MEIMEI CORRÊA, RÔ LOPES & TERRA DAS CABRAS.


Imagem: Cartografia íntima, nº 35, da artista visual mexicana Tatiana Parcero.



Ouvindo no Dia Internacional do Jazz o álbum Such Sweet Thunder (Columbia/Legado, 1957), do compositor, pianista de jazz e líder de orquestra estadunidense Duke Ellington – The Duke (1899-1974), inspirado na obra de William Shakespeare.

O VOO DA MULHER & MULHERES NO MUNDO – o Dia Internacional da Mulher é comemorado no dia 08 de março; o Dia Nacional da Mulher é comemorado hoje, todo dia 30 de abril. Para mim, já há alguns anos, adotei o pensamento e ação de que, no final das contas, não são apenas dois dias para se comemorar a trajetória da mulher na história da humanidade e, sim, advogo a ideia de que Todo dia é dia da mulher. E assim faço, afinal, todo dia é dia de reconhecer a importância da mulher na construção da humanidade. E aproveito o ensejo dessa data comemorativa para, ao mesmo tempo, homenagear a todas as mulheres de forma ampla e generalizada e, por tabela, dedicar este espaço, também, ao reconhecimento do trabalho determinado, da dedicação, da parceria, da persistência e perseverança, da comunhão de sonhos e desejos desempenhados pela querida Meimei Corrêa ao longo dos últimos anos, seja na convivência diária, nas campanhas e promoções, no trabalho desenvolvido na programação do Projeto MCLAM, na atualização do seu sensacional Baú de Ilusões – o amor leva à vida, com a sua disposição em divulgar novos e consagrados talentos e em difundir além da arte, o amor e a valorização do ser humano. Aqui a minha homenagem e minha eterna gratidão. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


COMO VEIO A PRIMEIRA CHUVA – Na reunião de histórias denominadas O gênese africano (Cultrix, 1962), encontrei a lenda Como veio a primeira chuva: Uma vez, há muito tempo, nasceu uma filha a Obassi Osaw e um filho a Obasi Nsi. Quando ambos chegaram à idade de casar, Nsi mandou uma mensagem e disse: - Troquemos os filhos. Eu te mandarei meu filho para que despose uma das tuas jovbens e tu manda-me tua filha para que seja minha mulher. Obasi Osaw aceitou. Assim o filho de Nsi foi para o céu, levando consigo muitos e belos presentes e Ara, a jovem do céu, veio ficar cá embaixo, na terra. Com ela viera sete escravos e sete escravas, que o pai lhe deu, para que trabalhassem para ela, e assim ela não fosse obrigada a fazer nada. Um dia, de manhã cedo, Obasse Nsi disse à nova esposa: - Vai trabalhar na minha fazenda! Ela respondeu: - Meu pai deu-me os escravos para trabalharem por mim. Por isso manda-os a eles. Obassi Nsi se irritou e disse: - Não ouviste eu dar-te as minhas ordens? Tu mesma tens de trabalhar na minha fazenda. Quanto aos escravos, eu lhes direi o que eles têm de fazer. A moça foi, se bem que de má vontade e quando voltou à noite, mal se aguentando em pé, Nsi disse-lhe: - Vai imediatamente ao rio e traz água para todos. Ela respondeu: - O trabalho na fazenda me deixou exausta. Os meus escravos não poderão, pelo menos, fazer isso, enquanto eu descanso? Nsi recusou novamente e a empurrou para fora e ela andou muitas vezes de um lado para outro com as bilhas pesadas. Quando caiu a noite, não tinha ainda acabado. Na manhã seguinte, Nsi mandou-a fazer serviços ainda mais humildes e durante o dia inteiro a fez trabalhar, cozinhar, ir buscar água, acender o fogo. Também naquela noite ela estava cansadíssima, quando finalmente pôde dormir. Na madrugada do terceiro dia, Nsi disse-lhe: - Vai cortar lenha e traz-me um feixe grande. – Ora, a moça era hovem e não estava acostumada a trabalhar, por isso, enquanto caminhava chorava e chorava ainda quentes lágrimas, quando voltou com o seu pesado fardo. Apenas Nsi a viu entrar chorando, a chamou: - Vem aqui e deita-te a meus pés... Quero envergonhar-te na presença de toda a minha gente... Então a moça chorou ainda mais amargamente. Não lhe deram de comer até ao meio-dia do dia seguinte e mesmo então não lhe deram o bastante. Quando ela acabou de comer, Nsi lhe disse: - Vai e traz-me um grande punhado de erva para estontear os peixes. A moça foi para o bosque a procurar a planta, mas quando entrava na mata, um espinho lhe entrou no pé. E ela ficou caída por terra, sozinha. Durante todo o dia ali ficou sofrendo, mas depois do pôr do sol começou a sentir-se melhor. Levantou-se e conseguiu arrastar-se, coxeando, até casa. [...] Dali a pouco um dos escravos desceu até ao rio. Perguntou-lhe: - Mandaram-te esta madrugada buscar água. Por que não voltaste para casa? A jovem respondeu: - Não voltarei. [...] Pôs-se então, a procurar a estrada por onde Obassi Osaw a mandara para a terra. Chegou a uma árvore muito alte e viu que dela pendia uma longa corda. Disse para si mesma: “É esta a estrada por onde meu pai me mandou”. Agarrou a corda e começou a trepar nela. Não chegara ainda à metade do caminho e já se sentia muito cansada e seus suspiros e suas lágrimas subiam até ao reino de Obassi Osaw. Parou a meio do caminho e descansou um pouco. Depois recomeçou a subir.Depois de muito tempo, chegou ao cimo da corda e encontrou-se nos limites do país de seu pai. Chorando sempre, sentou-se aqui, quase morta de cansaço. [...] Obasse ouviu, mas não podia crer, contudo disse: - Toma dez escravos e, se por acaso, como dizes, encontrares minha filha, trá-la para casa. [...] Quando os membros da associação Angbu deceparam as orelhas do filho de Obassi Nsi, levaram-nas a Obassi Osaw e abandonaram o rapaz na estrada que conduz à terra, como fora condenado. [...] O rapaz avançava, meio cego pela chuva e, enquanto caminhava, pensava: “Obasi Isaw pode fazer-me o que quiser. Até agora nunca fez nada de mal. Somente por culpa da crueldade do meu pai, tenho de suportar tudo isto”. Assim as suas lágrimas se juntaram às de Ara e caíram sobre a terra, sob a forma de chuva. Até aquele momento nunca, sobre a terra, havia caído chuva. Caiu a primeira vez, quando Obassi Osaw fez desencadear aquele vento forte que arrastou o filho do seu inimigo. Veja mais aqui.

TERRA DOS ADORADORES DE CABRAS – No Dicionário de lugares imaginários (Tinta-da-China, 2013), do historiador e escritor italiano Gianni Guadalupi (1943-2007) e do escritor argentino Alberto Manguel, trata de lugares tais como O País das Maravilhas, de Lewis Carrol e a Eudoxia, de Ítalo Calvino, tornando-se uma pequena enciclopédia de cidades, reinos e referencias geográficas que só existem na imaginação. Nela encontrei a Terra dos adoradores de cabras, a qual trata de uma: vasta planície delimitada por uma cordilheira de montanhas no sudeste da Rússia. É parcialmente coberta de pinhais e de cabanas primitivas feitas de ramos e juncos, algumas agrupadas em aldeias rudimentares, outras disseminadas entre os pinheiros. O único mobiliário das cabanas são esteiras de juncos. Os Adoradores de Cabras são primitivos e vestem‑se com peles de cabra. No entanto, usam lanças com pontas de ferro e machados de metal, que sugerem ter estado em contacto com raças mais sofisticadas. São afáveis e hospitaleiros, sempre dispostos a partilhar com os visitantes a sua parca dieta de leite, carne seca e queijo. Quando chegam desconhecidos, os chefes de família tiram à sorte com seixos pretos e brancos. Aqueles que tiram seixos pretos do toucado do chefe dão aos desconhecidos uma cabra que lhes fornecerá leite e mandarão as mulheres dormir com eles. Recusar esse favor é um insulto grave e tanto as mulheres como os maridos ficarão profundamente ofendidos. Se os visitantes permanecerem durante um período longo, outras mulheres casadas substituirão as primeiras. A língua dos Adoradores de Cabras é áspera e gutural, semelhante ao coaxar das rãs. A felicidade manifesta‑se emitindo gritos e uivos penetrantes e são usados gritos semelhantes para expressar encorajamento e gratidão. Quando os desconhecidos levam as mulheres para as cabanas, os homens reúnem‑se no exterior e emitem brados de encorajamento e de felicidade. Como resposta a uma manifestação de gratidão, cospem no rosto do seu interlocutor reconhecido e depois limpam‑lhe a cara com as barbas. De vez em quando, os Adoradores de Cabras desfilam até à floresta, conduzidos por homens armados e seguidos de quatro mulheres que levam ao colo filhos pequenos. As crianças são coroadas com folhas. Depois, pintam‑lhes os corpos e esventram‑nas ritualmente em frente de um grande carneiro, enquanto o povo observa, ajoelhado com devoção. Veja mais aqui.

A CASA DE BERNARDA ALBA – O drama de três atos A casa de Bernarda Alba (1936), que juntamente com os textos Bodas de Sangue (1933) e Yerma (1934), é a terceira peça teatral da trilogia de dramas folclóricos do escritor e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936). A peça se passa no interior da casa da matriarca dominadora com suas cinco filhas em um povoado no interior da Espanha, sob pesado luto de oito anos, submetendo-se a todos à reclusão de janelas fechadas. Dela destaco o trecho do segundo ato: (A Criada limpa. Soam os sinos.) CRIADA (Elevando o canto.) – Blim, blim, blão. Blim, blim, blão. Que Deus lhe tenha perdoado! MENDIGA (Com uma meninazinha.) – Louvado seja Deus! CRIADA Blim, blim, blão. Que espere por nós muitos anos! Blim, blim, blão. MENDIGA (Forte e com certa irritação.) – Louvada seja Deus! CRIADA (Irritada.) – Para sempre! MENDIGA Venho para levar as sobras. (Cessam os sinos.) CRIADA Pois podes ir. As de hoje são para mim. MENDIGA Tu tens quem ganhe para dar-te, mulher. Eu e minha filha estamos sós! CRIADA Também os cães estão sós, e vivem. MENDIGA Sempre me dão as sobras. CRIADA Fora daqui! Quem lhes disse que entrassem? Já me deixaram as marcas dos pés no chão. (Vão-se. Põe-se a limpar.) Chão polido com azeite, armários, pedestais, camas de ferro, para que bebamos fel as que como nós vivemos em choupanas, com um prato e uma colher. Espero em Deus que nem um só de nós fique para semente. (Voltam a soar os sinos.) – Sim, sim, venham clamores! Venha o caixão com fios dourados e coberto com enfeites de luto para o levar! Como estás agora, estarei eu um dia! Amofina-te, Antônio Maria Benavides, esticado na tua roupa nova, com as tuas botas perfeitas! Amofina-te! Já não voltarás a me levantar as saias atrás da porta do curral! (Pelo fundo, de duas em duas, começam a entrar Mulheres de Luto, com grandes lenços, vestidos de cauda e leques pretos. Entram lentamente até encher a cena. A Criada rompe os gritos.) – Ai! Antônio Maria Benavides, que já não verás estas paredes, nem comerás o pão desta casa! Fui a que mais te quis bem entre aquelas que te serviram. (Desgrenhando-se.) – E hei de viver depois de teres partido? Hei de viver? (Acabam de entrar as duzentas Mulheres e aparecem Bernarda e suas cinco Filhas.) BERNARDA (Para a Criada.) – Silêncio! CRIADA (Chorando.) – Bernarda! BERNARDA Menos gritos e mais obras. Devias ter procurado limpar mais tudo isto para receber o cortejo. Vai-te. Não é este o teu lugar. (A Criada se vai chorando.) – Os pobres são como os animais; parecem feitos de outras substâncias. 1 ª MULHER Os pobres também têm seus sofrimentos. BERNARDA Mas logo esquecem diante de um prato de grãos-de-bico. MOÇA (Com timidez.) – Comer é preciso para viver. BERNARDA Na tua idade não se fala diante das pessoas mais velhas 1 ª MULHER Cala-te, menina. BERNARDA Nunca deixei que ninguém me desse lições. Sentem-se. (Sentam-se. Pausa. Forte.) – Não chores. Madalena. Se queres chorar, vai para debaixo da cama. Ouviste? 2 ª MULHER (A Bernarda.) – Já iniciaste os trabalhos na eira? BERNARDA Ontem. 3 ª MULHER O sol está que nem chumbo. 1 ª MULHER Faz anos não sinto um calor igual. (Pausa. Todas se abanam) [...].Veja mais aqui e aqui.

PÉTALAS DO SILÊNCIO - A poeta, advogada e administradora pública e de empresas – especializada em Administração Pública, Rosângela Lopes Bezerra – ou simplesmente Rô Lopes, é também especialista em direito civil, processual civil, direito eleitoral e direito do consumidor. Ela é membro da Academia Itapirense de Letras e Artes (AILA), tem textos publicados na antologia Alimento da Alma e reúne seus trabalhos literários no Recanto das Letras e no blog Art Pop. Entre seus versos, destaco inicialmente Pétalas do silêncio: Como o despetalar das flores ao vento / As horas passam lentas... Silenciosas... / Meu quarto – um mundo! / Um céu de estrelas / espargindo luz cor de rosa / As plumas se perderam na imensidão / As brumas emudeceram / O sol tornou-se frio de repente / A lua se escondeu na nuvem de algodão / Os vaga-lumes comandam a noite / Tem espasmos de prata no chão / Há um lago onde os cisnes repousam / Dentro do meu céu! / Eu na cama entre cetim rubro / Exalo perfume como rosas ao léu / Os pássaros não cantam... Dormitam / A volúpia tomou conta do ambiente / um vulto surge na penumbra / Silhueta misteriosa que mal conheço / Aconchego-me na brisa carinhosa / a espera do beijo desejado / O silêncio cada vez mais lento / Nem ouço meu respirar... / Foi ele quem chegou... / Faceiro... / Como flocos de neve / A me beijar./ Eu... Uma chama viva / Uma felina... Com jeito de menina / Serpenteando como quem fascina / Começamos a delirar... / Silêncio! / Deixe nosso corpo expressar... / Ah! Também o seu Divagando Ternura merece destaque: Elevei meus olhos / Que divagaram pelo infinito / Tentando inspirar de / Uma única vez / Toda ternura das estrelas / Fui tocada por sublime / Brisa com perfume de / Alecrim / E envolta no clarão da lua / Entreguei-me ao momento / Que eternizou em / Minutos sem fim / Tão amada senti... / Que a solidão que / Tanto atormenta / Junto ao pássaro / Do amor que acalenta / Desfrutou deste / Carinho junto a mim. Por fim, o seu Vem: Eu / Solto / O grito / O desejo / Conquista-me / Aperta-me entre lábios / Beija-me com tuas mãos / Saboreia-me com os olhos / Ama-me com o pensamento / Possui-me com o teu corpo! / Ansiosa espera esta menina por ti / Ela precisa se sentir mulher... Espero... / Vem! Veja mais aqui e aqui.

DOGVILLE – O filme Dogville (2003), escrito e dirigido pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier, faz parte da trilogia EUA Terra de Oportunidades, com sequencia Manderlay e Washington. Dividido em dez partes por um prólogo e nove capítulos, desenvolve sua trama em pequena cidade estadunidense Dogville, na época da grande depressão, contando a história de um escritor que protela a escrita do seu livro, passar a pregar sermões sobre o rearmamento moral, quando conhece a bela jovem Grace que é fugitiva de gangsters. Surge então um romance escondido entre ambos, até que a polícia aparece com cartazes com o retrato dela como procurada. A população não a entrega, mas passa a escravizá-la, retratando pessoas cruéis, egoístas, mesquinhas e arrogantes. Destaque para o papel desempenhado pela premiada e belíssima atriz e produtora de cinema australiana Nicole Kidman. Veja mais aqui e aqui.



IMAGEM DO DIA
Sex-shop (2003), do cartunista Caco Galhardo.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Supernova, a partir das 21hs, no Projeto MCLAM, com apresentação da voz e simpatia de Meimei Corrêa. Para conferir ao vivo e online é só ligar o som e clicar aqui.

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quarta-feira, abril 29, 2015

BANDEIRA, KAWABATA, JOÃO CABRAL, BARAKA, VATSYAYANA, SOVERAL & ROSA, ABRAHAM, KIRSTEL & ARY BUARQUE.


Imagem: Dancing, do artista plástico estadunidense de origem cubana Jose Manuel Abraham.



Ouvindo o álbum duplo Pas de deux (1905-2008), dos compositores portugueses Isabel Soveral & António Chagas Rosa.

DANÇA DOS MENINOS – Nitolino acordou cedo com a algazarra do SuperPontinho acordando a turminha dos Falanges – Mindinho, Seu Vizinho, Maior de Todos, Cata-Piolhos & Fura-Bolos -, que puxou o Cravo e arengou com a Rosa que estava com o Lobisomem Zonzo e o Gordim dando bundada no Jequim que futucava Maluquim que azucrinava Bichim que falava pra Nita que incentivava a Ísis pra falar com Vó Carma e levar Pai Lula pra contar uma história do Alvoradinha que queria cantar com Tia Nilda e dançar no Reino Encantado de Todas as Coisas a música Coração Civil de Milton Nascimento & Fernando Brant: Quero a utopia, quero tudo e mais / Quero a felicidade nos olhos de um pai / Quero a alegria muita gente feliz / Quero que a justiça reine em meu país / Quero a liberdade, quero o vinho e o pão / Quero ser amizade, quero amor, prazer / Quero nossa cidade sempre ensolarada / Os meninos e o povo no poder, eu quero ver / São José da Costa Rica, coração civil / Me inspire no meu sonho de amor Brasil / Se o poeta é o que sonha o que vai ser real / Bom sonhar coisas boas que o homem faz / E esperar pelos frutos no quintal [...] Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida Eu viver bem melhor / Doido pra ver o meu sonho teimoso,um dia se realizar. LEMBRETE: Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da garota Isis Corrêa Naves. Para conferir o programa online nos horárias das reprises, é só ligar o som e acessar aqui ou aqui.

DANÇA, ALAGOAS – Conheci o professor e dançarino alagoano Ary Buarque quando ele lançou o primeiro site oficial de dança, o Dança Alagoas, disponibilizando informações, dicas e muitas coisas interessantes. A receptiva forma como Ary trata as pessoas, seja nos relacionamentos sociais, seja no trato com seus alunos e dançarinos, nos fez estreitar amizade para realizar parcerias, promover debates e estarmos sempre juntos na luta pela difusão e promoção da arte na escola, no convívio humano, nas relações entre as pessoas, enfim, arte todo dia e o dia todo. Isso faz algum tempo, depois soube da transformação para Centro de Dança Ary Buarque, onde ele passou a ministrar aulas e promover a dança no estado alagoano. Na época ele me concedeu uma entrevista a respeito do seu trabalho, suas propostas, projetos e objetivos. Confira aqui.

A DANÇARINA – Inspiradoras lições são encontradas num manual escrito séculos atrás, que já foi transformado em teatro e cinema, e que até hoje, ultrapassando a barreira do tempo, se mantém como material vivo para um melhor desenvolvimento humano. Exemplo disso, é o que se encontra no capítulo 1 – Sobre os adornos pessoais, sedução, corações e medicamentos tônicos -, da Parte VII – Sobre os modos de atrair os outros -, do mais que atemporal e fascinante livro Kama Sutra, de Vatsyayana, no qual, entre tantas lições imperdíveis, encontrei esse trecho que muito bem diz com relação ao dia de hoje : [...] O que foi dito sobre elas também pode ser aplicado às filhas de dançarinas, cujas mães devem dá-las somente a pessoas que possam tornar-se úteis para elas de diversas maneiras. Assim terminam as formas de fazer com que alguém se torne adorável sob os olhos de outros. Veja mais aqui.

A DANÇARINA DE IZU – No livro de contos A dançarina de Izu (1926 – Cultrix, 1962), do escritor japonês prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972), narra as experiências autobiográficas do autor durante a sua vida de estudante, fazendo uma viagem à península de Izu, Tóquio. Da obra destaco o trecho de A pequena dançarina de Isu – Izu no Odoriko: A hospedaria Koshuya ficava logo à entrada norte de Shimoda. Nas pegadas dos meus companheiros de viagem, subi para o primeiro andar da hospedaria, que mais parecia um sótão. [...] Os artistas trocavam algres cumprimentos com os fregueses da hospedaria, que eram também artistas ambulantes. O Porto de Shimoda devia ser o ninho dessas aves migratórias. Kaoru deu algumas moedas de cobre à filha do dono da hospedaria. Quando me despedi para sair, ela, arrumando-me o gueta, murmurou: - Leve-me hoje ao cinema, sim? Guiados por um homem de aparência duvidosa, eu e Eikiti fomo-nos instalar numa outra hospedaria, cujo dono se dizia ex-prefeito. Depois de banhar-nos, comemos peixe freco. – Peço-lhe que compre algumas flores para os sacrifícios de amanhã – disse eu ao meu companheiro de viagem, dando-lhe algum dinheiro. Eu tinha de voltar para Tóquio no dia segujnte. Meu dinheiro acabara, e como dissera aos artistas que minha volta era devida a obrigações escolares, não puderam prender-me com insistências. Jantei cedo, menos de três horas depois do almoço e, sozinho atravessei a ponte norte da cidade. Escalei o Fuji de Shimoda, e lá de cima fiquei a contemplar o porto. Na volta passei pela hospedaria Koshuya, e encontrei as artistas jantando um cozido de frango. Convidaram-me: - Não quer provar um pouco? Está sujo porque nós, mulheres, já pusemos o hashi dentro. Mas isso servirá, ao menos, como tema para anedotas de viagem. A senhora de meia idade tirou da mala uma xícara grande e hashi, e mandou Yurilo lavá-los. [...] Quando com a saída dos demais, ficaram na sala apenas Tiyoko e Yuriko, convidei-as para irem ao cinema. Tiyoko, apertando o ventre com as mãos e olhando-me com ar de abatimento, escusou-se: - Estou adoentada. Sinto-me enfraquecida por ter andado daquele jeito. Quando a Yukiro, endireitou o corpo e baixou a cabeça. A pequena dançarina estava no andar térreo brincando com a criança da hospedaria; tão logo me viu descer, começou a instar com a mãe para que a deixasse ir ao cinema. Em seguida, com ar desapontado, veio até mim e arrumou-me o gueta. – Que foi? Por que não vais sozinha com ele? – perguntou Eikiti. Ao que parece, a mãe negara consentimento a Kaoru. Eu não podia compreender por que não podia ela ir sozinha comigo. Quando saí para a varanda, a pequena dançarina estava acariciando a cabeça do cachorro. Mostrava-se tão indiferente que desisti de lhe dirigir a palavra. Fui só ao cinema. Narradora lia explicações à luz da lamparina, quando lá cheguei. Pouco me demorei: voltei logo para a minha hospedaria onde, com o cotovelo apoiado no rebordo da janela, fiquei longas horas a contemplar a cidade trevosa e noturna. Pareceu-me ouvir ao longe, ininterrupto, o leve tantã de um tambor. Não sei por que razão, as lágrimas começaram a rolar-me pela face, uma após outra [...]. Veja mais aqui e aqui.

NÃO SEI DANÇAR – No livro Libertinagem (Pongetti, 1930), do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968), consta o belíssimo poema Não sei dançar: Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. / Tenho todos os motivos menos um de ser triste; / Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria... / abaixo Amiel! / E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff. / Sim, já perdi, pai, mãe, irmãos. / Perdi a saúde também. / É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. / Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu tomo alegria. / Eis por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda. / Mistura muito excelente de chás... / Esta foi açafata.../ - Não, foi arrumadeira. / E está dançando com o ex-prefeito municipal. / Tão Brasil! / De fato este salão de sangues misturadoas parece o Brasil.../ Há até a fração incipiente amarela / na figura de um japonês. / O japonês também dança maxixe: / Acugêlê banzai! / A filha do usineiro de Campos / olha com repugnância / para a crioula imoral. / No entanto o que faz a indecência da moça / é aquele cair de ombros.../ Mas ela não sabe... / Tão Brasil! / Ninguém se lembra de política... / Nem dos oito mil quilômetros de costa... / O algodão do Seridó é o melhor do mundo? Que me importa? / Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos. / A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. / Eu tomo alegria! Veja mais aqui.

A DANÇA – O poema A dança (Quingumbo, 1980), do poeta, dramaturgo, ensaíta e militante negro estadunidente da Geração Beat, LeRoi Jones – Amiri Baraka (1934-2014), na tradução de Italo Moriconi Junior: (explicado / por um homem mais velho. Me disse como. Me / mostrou. Não eram passos, mas / a instância do músculo. Uma posição / para mim mesmo: mover-se. / Duncan / dizia da dança. Seus poemas / cheios do que há tanto queríamos / que fosses. Uma / dança. E todas as suas palavras / saiam dali. Que havia / alguma elegância brilhante / que a carne triste do corpo / fazia. Algum gesto, que / se nos tornássemos, por um instante intenso / nos transformaria / em criaturas de ritmo. / quero ser cantado. Quero / minha carne e todos os meus ossos murmurados / contra o flutuante céu / espesso do inverno. / me quero / dança. Como sou se / tenho amor ou tempo ou espaço / para me sentir. / O tempo do pensamento. O espaço / do movimento real. (Para onde eles / alçaram o mar e me têm / contra minha vontade). Eu disse, também, / ama, sendo mais velho ou mais jovem / que teu mundo. Estou inclinado / a me deitar, amar, te convidar / agora, inclinado a sentir as coias / que só eu creio. / E que eu possa uma vez criar-me / a mim mesmo. E que tu, seja quem for / sentado agora respirando minhas palavras, / possa criar um ser somente teu. Que / vai me amar. Veja mais aqui.


BAILARINA – A poesia de João Cabral é indispensável, faz parte das minhas leituras diárias de aprendizado poético. A sua forma de expressar o poema é uma das mais admiráveis demonstrações do fazer poético. Dele retiro lições diárias, procurando aprimorar sempre e, ao mesmo tempo sabendo, que a caminhada desse aprendizado é longa e com experiências inenarráveis. No livro Poesia Completa (Glaciar, 2011), do poeta e diplomata de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), encontrei o poema Bailarina: A bailarina feita / de borracha e pássaro / dança no pavimento / anterior do sonho. / A três horas de sono, / mais além dos sonhos, / nas secretas câmaras / que a morte revela. / Entre monstros feitos / a tinta de escrever, / a bailarina feita / de borracha e pássaro. / Da diária e lenta / borracha que mastigo / Do inseto ou pássaro / que não sei caçar. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PAS DE DEUX – A animação e curta de dança Pas de Deux (Duo, National Film Board of Canada - Columbia Pictures, 1968) – ganhador de 17 prêmios e o Oscar de Melhor Filme de Animação em 1969, com roteiro escrito por Norma McLaren, fotografia e cinematografia conduzida por Jacques Fogel, mostrando dois bailarinos interpretam uma dança muito surreal, interpretado pela dupla Margaret Mercier e Vincent Warren. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Pas de deux - Nude Photography -, do fotógrafo estadunidense M. Richard Kirstel (1950-1996)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no Projeto MCLAM, com apresentação da voz e simpatia de Meimei Corrêa. Para conferir ao vivo e online é só ligar o som e clicar aqui.

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TRÊS POEMAS & A DANÇA REVELOU O AMOR...


Fiery Dance - Dance Painting, do artista plástico russo Andrew Atroshenko

TRÊS POEMAS & A DANÇA REVELOU O AMOR...


PAS DE DEUX
 
Deutsche Operam Rhein Ballet Calendar, by Klaus Kampert

No palco do meu coração sedento jamais houvera tamanha fascinação, jamais houvera, porque algo mais infrene se fizera aroma de seiva na noite fria de agosto: a presença resplendente do seu corpo de mulher.

Ah, jamais houvera tão irresistível: à meia luz seu jeito maçã desolada, cabeça pendida no ombro da solidão. Na horagá, a minha chegada de sempre: a captura. E franze o rosto, cerra as pálpebras, morde os lábios e estremece suplicante a suspirar o magnetismo do coração que palpita na sintonia que nos impele um ao outro. Nada a deter e o amor embala na rede dos devaneios quando nos píncaros da sedução se insinua num écarté para me provocar com requisições de gracejos acariciantes, a me insultar no entalhe pujante de costas com o pé na barra a dar-me todos os regalos de um ensaio fotográfico particular, ali exclusivo estourando meus sentidos.

Ah jamais houvera e nossos corpos fremem de desejos e já me precipito envolvê-la para o embalo íntimo de um atittude libidinoso, colados um no outro a inalar o incenso dos nossos laços de sentimentos transpassados. Mas judia de mim a rodopiar com seu magnetismo. Rodopia incólume na noite enquanto eu afio os dentes. E rodopia mais o seu bailado sem fim, até que possessa, de repente, me leva ao nocaute num grand decárt sobre meu corpo.

Ah, Cinderela exata do meu tope, Loba certa do meu querer. E eu sou todo delírio nessa festa que jamais houvera. E na agonia dos quereres imponho poder nas minhas mãos que se acercam de sua feição, alisam seu rosto, se apossam de sua feitura para arrancá-la ao beijo, nos enroscando na dança. E aos solavancos murmuramos arrastados pelo tapete de pétalas no assoalho da pulsação vital, atrás da porta, das cortinas, esgotando calcinados nosso parque de diversão que traz o repique dos sinos no júbilo, crepitando a nossa fogueira de ímpeto selvagem nas alturas das suas nuvens para chover meu amor, na invasão da sua selva com todos os segredos de entrega e felicidade.

Ah jamais houvera e ofegantes usufruímos a vida e com ela nossos turbilhões mais que enlouquecidos derrubando colunas, grilhões, capitéis, pedestais, leis e limites, até alcançar o podium do grand finale a nos fartar embriagados da sidra dos nossos corpos desforrados.

Ah, jamais houvera pas de deux como devaneio do amor na noite fria de agosto, jamais houvera.

BOLERO
 
Deutsche Operam Rhein Ballet Calendar, by Klaus-Kampert

À meia luz, mão na mão, passo a passo. E a pele lua de algodão pousa leve como um pássaro levitando nos meus braços agudos.

São dois passos lá demovendo todas as nuvens do meu sexo. Dois passos cá, uivando nua, possuída de vida que não troca nada de si por nada desse mundo, só a girar embalada pelo ensaio que se faz chama na fúria íntima e se alastra fogo vivo em nossa alma.

Pro mundo é noite calma, enquanto em nossa carne a terra cresce ruidosa, desembestada, ciclone rompendo a órbita de todos os ventos que revolvem as entranhas nos campos magnéticos da celebração dos quadris.

A dança e o perfume me recolhem insepulto de ontem na noite, capturado pela teia que arde e retorce nosso lençol de nada e eu como um deus sacudindo a vida pelas labaredas da boca, pelas chamas do ventre à medida do coração.

A cada enleio sua manha enreda e desvencilha e torna a enredar, infindável urdidura na taça do meu sexo. E se adoça com os meus venenos até acender em sua mão lépida efervescente e a fazer de mim lascivamente eletrizado até sentir-lhe a boca do útero e tudo adensa e cresce rodopiante mundo, enquanto sou Ravel extasiado e você bolero nas minhas veias até transbordar nossas emoções avassaladoras.

A dança e o corpo nu inteirinho colado ao meu, fincado no salão do amor, inundando tudo, corpo saqueado no apelo do bolero e dançamos, rodeamos, rodopiamos, mão na sua e na cintura, o salão, o corpo inteiro e a noite inteira danças intensas até o último portal do prazer: começaria tudo outra vez.

CIRANDA
 
Early Spring, do artista plástico Ton Dubbeldam.

Sim, foi você singela e nua quem veio do fundo dos oceanos para redimir meu abandono, veraneando a minha vida enquanto eu estava na beira da praia ouvindo as pancadas das águas do mar.

Foi exatamente com a sua súbita aparição que meus devaneios revividos puderam entoar o enleio pelos estribilhos de cirandeira, sua mão na minha mão, de braços dados e na cadência da zabumba, tarol, saxofone, gingando descalços nas areias do mar.

Foi quando pude ter a noção de que seria encurralado por seu domínio e por seu feitiço solaçoso, me iniciando em seus mistérios no tamanho cósmico da nossa entrega na beira do mar.

Foi, portanto, a minha oportunidade de ser feliz.

Foi e meu coração cresceu de amor e exagerou na dose dos versos mais audaciosos, até saber-me cantor dos quereres que nos anima a alma.

E cantei o amor porque essa ciranda quem me deu foi Lia que mora na ilha de Itamaracá.

Sim, é o fogo do seu corpo que revitaliza o meu, é a candura da sua alma que restabelece a minha, é a grandeza do seu amor que me faz ser seu.


Black sugar, do artista plástico Jeremy Mann.


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terça-feira, abril 28, 2015

ÉLUARD, APPIA, ALMODÓVAR, OSMAN LINS, PAULO CESAR PINHEIRO, ALBERTO DE OLIVEIRA, MALHOA, PENÉLOPE CRUZ, VALERIA PISAURO & MUITO MAIS NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!


Imagem do pintor, desenhista e professor português José Malhoa (1855-1033)



Ouvindo Capoeira de besouro (Quitanda, 2010), do poeta, letrista e compositor Paulo César Pinheiro.

PROGRAMA TATARITARITATÁ - Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs, no Projeto MCLAM, com apresentação da voz e da simpatia de Meimei Corrêa. Na programação do Tataritaritatá: George Gershwin, Egberto Gismonti, Lenine, Edson Natale, Nana Caymmi, Chico Buarque, Milton Nascimento & Elis Regina, Elba Ramalho & Geraldo Azevedo, Flor de Aruanda, Kleiton e Kledir, Zélia Duncan, Djavan, Selma Reis,, Vander Lee, Sonia Mello, Clara Redig, Elisete Reter, Katya Chamma, Jorge Medeiros, Paulinho Natureza & Sandra Regina Alves Moura, Julia Crystal & Mônica Brandão, Mazinho, Cantor Pitanga, Chiko Queiroga & Ana Vitória, Eros Fidelis, Assis Cavalcanti, Daniel Pissetti Machado, Ozi dos Palmares, Reggaebelde, Apokalypsis, & muito mais. Confira o programa online e ao vivo aqui.

CANTO DE CIRCO – O livro Os gestos (José Olympio, 1957), do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), reúne treze contos que foram escritos nos anos 1950, abordando sobre a impotência e angustia do ser humano. Do livro destaco esse trecho do Canto de Circo: Ergue a cabeça e contemplou o lugar onde tantas vezes se apresentara para os seus breves triungos no trapézio. No dia seguinte, desarmariam o Circo – pensava; e na próxima cidade, quando o reerguessem, ele estaria longe. Nunca, porém, haveria de esquecer aquela frahil armação de lona e tabique, as cadeiras desconjuntadas, o quebra-luz sobre oespelho partido e o modo como os aplausos e a música chegavam ali. Baixou os olhos, voltou a folhear a revista. Em algum ponto do corpo ou da alma, doía-lhe ver o lugar do qual despedia e que lembrava, de certo modo, o aposento de um morto, semelhança esta que seria maior, não fosse a indiferença quase rancorosa que o rodeava; pois, a despedida iminente, só ele sentia. Os colegas – o equilibrista, aqueles dois que conversavam em voz baixa, todos enfim – sabiam de sua história e não haviam preparado a mínima homenagem. Pelo contrário: fingiam desconhecer tudo, procuravam irritá-lo. Ainda há pouco, quando entrara no camarim dos homens, os que lá se encontravam tinham respondido friamente à saudação dele, como se fizessem um favor. Sentara-se então num banco, apanhara aquela velha revista e começara a folheá-la, sem interesse, para fugir ao contato dessas pessoas que já o haviam excluído de seu mundo e que, desde alguns dias, raramente lhe dirigiam a palavra – com uma simplicidade afetada, esforçando-se para dar a entender que sua ausência não seria sentida. Teriam inveja, talvez. Ou desprezo. Que lhe importava, porém: não precisava delas [...]. Veja mais aqui.

TEATRO: ARTE VIVA – O texto Teatro: arte viva (Estétita Teatral, 1980), do arquiteto e encenador suíço do Teatro Simbolista Adolphe Appia (1862-1928), atacando a estética realista e utilizando elementos expressivos e simbólicos do teatrão, da música e da luz, influenciando as concepções modernas de iluminação teatral, expressa que: A arte drmática dirige-se, como as artes representativas, aos nossos olhosm, aos nossos ouvidos, ao nosso entendimento – em suma, à nossa presença integral. Porque reduzir a nada – e antecipadamente – qualquer esforço de síntese? Saberão os nossos artistas informar-nos? O poeta, de caneta na mão, fixa o seu sonho no papel. Fixa o ritmo, a sonoridade e as dimensões. Dá a ler, a declamar, o que escreveu; e, de novo, fixa-se no aspecto do leitor, na boca do declamador – o pintor, com os pincéis na mão, fixa a sua visão tal como a quer interpretar; e a tela ou a parede determinam as dimensões; as cores imobilizam as linhas, as vibrações, as luzes e as sombras. – O escultor para, na sua visão interior, as formas e os seus movimentos, no momento exato em que o deseja; depois, imobiliza-as no barro, na pedra ou no bronze. – O arquiteto fixa, minuciosamente, pelos seus desenhos, as dimensões, a ordem e as formas múltiplas da sua construção; depois, realiza-as no material conveniente. – O músico fixa nas páginas da partitura os sons e os ritmos; possui mesmo, em grau matemático, o poder de determinar a intensidade e, sobretudo, a duração; enquanto o poeta não poderia fazê-lo senão aproximadamente, pois o leitor pode ler, à sua vontade, depressa ou devagar. Eis, pois, os artistas cuja atividade reunida deveria constituir o apogeu da arte dramática: um texto poético definitivamente fixado; uma pintura, uma escultura, uma arquitetura, uma música definitivamente fixadas. Coloquemos em cena tudo isso: teremos a poesia e a música que se desenvolverão no tempo; a pintura, a escultura e a arquitetura que se imobilizam no espaço, e não se vê que maneira conciliar a vida própria de cada uma delas numa harmoniosa unidade! Ou haverá um meio de o fazer? O tempo e o espaço possuirão um elemento conciliatório – um elemento que lhes seja comum? A forma no espaço pode tornar a sua parte das durações sucessivas do tempo? E essas durações teriam ocasião de se propagar no espaço? Ora é a isto mesmo que o problema se reduz, se queremos reunir as artes do tempo e as artes do espaço num objeto. No espaço, a duração exprimir-se-á por uma sucessão de formas, portanto, pelo movimento. No tempo, o espaço exprimir-se-á por uma sucessão de palavras e de sons, isto é, por durações diversas que ditam a extensão do movimento. O movimento, a mobilidade, eis o princípio diretor e conciliatório que regulará a união das nossas diversas formas de arte, para fazê-las convergir, simultaneamente, sobre um ponto dado, sobre a arte dramática; e, como é único e indispensável, ordenará hierarquicamente essas formas de arte, subordinando-as umas às outras, tendendo para uma harmonia que, isoladamente, teriam procurado em vão. [...] A cena é um espaço vazio, mais ou menos iluminado e de dimensões arbitrárias. Umas das paredes que limitam esse espaço é parcialmente aberta sobre a sala destinada aos espectadores e forma, assim, um quadro rígido, para além do qual a ordenação dos lugares é rigidamente fixada. Só o espaço de cena espera sempre uma nova ordenação e, por consequência, deve ser apetrechado para mudanças continuas. É mais ou menos iluminado; os objetos que lá se colocam esperam uma luz que os torne visíveis. Esse espaço não será, portanto, de qualquer maneira, senão em potência (latente) tanto para o espaço como para a luz. – Eis dois elementos essenciais da nossa síntese, o espaço e a luz, que a cena contém em potência e por definição. [...] O corpo, vivo e móvel, do ator é o representante do movimento no espaço. O seu papel é, portanto, capital. Sem texto (com ou sem música) a arte dramática deixa de existir; o ator é o portador do texto; sem movimento, as outras artes não podem tomar parte na ação. Numa das mãos, o ator apodera-se do texto; na outra, detem, como num feixe, as artes do espaço; depois, reúne irresistivelmente as duas mãos e cria, pelo movimento, a obra de arte integral. O corpo vivo é, assim, o criador dessa arte e detem o segredo das relações hierárquicas que unem os diversos fatores, pois ele está à cabeça. É do corpo, plástico e vivo, que devemos partir para voltar a cada uma dessas nossas artes e determinar o seu lugar na arte dramática. O corpo não é apenas móvel: é plástico também. Essa plasticidade coloca-o em relação direta com a arquitetura e aproxima-o da forma escultural, sem poder, no entantro, identificar-se com ela, porque é imóvel. Por outro lado, o modo de existência da pintura não pode convir-lhe. A um objeto plástico devem corresponder sombras e luzes positivas, efetivas. Diante de um raio de luz, de uma sombra, pintados, o corpo plástico conserva-se na sua própria atmosfera, nas suas próprias luz e sombra. É o mesmo que se passa com as formas indicadas pela pintura; essas formas não são plásticas, não possuem três dimensões; o corpo tem três; a sua aproximação não é possível. As formas e a luz pintadas não têm, pois, lugar na cena; o corpo humano recusa-as. [...]. Veja mais aqui.


SOB UM SALGUEIRO – O livro Poesias (Civilização Brasileira, 1912), do poeta, professor e farmacêutico brasileiro, Alberto de Oliveira (1857-1937), reúne seus livros Canções Românticas (1878), Meridionais (1884), Sonetos e Poemas (1885), e Versos e Rimas (1895), que marcam a sua transição do Romantismo para o Parnasianismo, com temas sobre a natureza com linguagem apurada e metrificação rigorosa. Da obra destaco o poema Sob um salgueiro: Dorme uma flor aqui, - flor que se abria, / que mal se abria, cândida e medrosa, / rosa a desabrochar, botão de rosa, / cuja existência não passou de um dia. / Deixai-a em paz! A vida fugidia / como uma sombra, a vida procelosa / como uma vaha, a vida tormentosa, / a nossa vida não a merecia. / Em paz! Em paz! A essência delicada / do ajo gentil que este sepulcro encerra, / é hoje orvalh... cântico... alvorada / sopro, aragem do céu, talvez, que o pranto / anda a enxugar a uns olhos cá da terra, / doces olhos de mãe, que o amavam tanto. Veja mais aqui.

TRAVESSIA POÉTICA – Conheci o trabalho da escritora, compositora, professora de Literatura e História da Arte e Cinema Valéria Pisauro, no Clube Caiubi de Compositores. Ela se apresenta assim: Eu sou o ontem e o amanhã, / Tenho a idade do momento, / Sou pensamento e corpo presente, / Sem constrangimento... deliberadamente! / Sou estrela de mil faces, / Beta de Centauro ardente, / Sou a que ri e que chora, / De desejo complacente... insistentemente! / Eu sou Campinas, Minas Gerais e Manaus, / Cosmopolita, vales e mata, / Apaixonada pelas palavras, / Escrava da poesia e da música exata... intensamente! / Sou aquela que passa, / Navegando com o pensamento, / Paulicéia enlouquecida em festa de Icamiabas, / Sou o consentimento... liricamente! / Sou Palmeiras, Lula e Guarani, / Maré mansa traiçoeiramente, / Sou Jeca, rancheira e manauara, / Eu sou Valéria, hoje e... eternamente! Conheci dela o excelente blog Travessia Poética, no qual ela publica seu trabalho literário, de pesquisa, leituras, enfim, um ótimo espaço para se conhecer interessantes postagens. Da sua lavra destaco Cantilena: Num jardim bem distante / Vivia uma flor. / Semente menina, / Livre cantoria,/ Prosa, poesia, / Maçã de amor. / Regia passaradas, / Brisas, alvoradas / Aroma, fruto, sabor! / Semeava sonhos, / Céu de outono, / Estrelas do mar. / Bailava nua, / Anéis de Saturno, / Ciranda da lua, / A girar, a girar... / E ao som da flauta / Entoava o refrão: / Giramundo, / Giraflor, / Gira a saia da menina, / Nas asas de um beija-flor. / A vida é sarabanda, / Contra voz, Catavento, / Segue seu caminho, / E não para de girar. / Gira as pás do moinho / E o rosto no vento. / Gira a vida em corrupio, / Nas margens do tempo. Veja mais aqui.



VOLVER – O drama espanhol Volver (2006), com roteiro e direção do cineasta Pedro Almodóvar e música de Alberto Iglesias, conta a história três gerações de mulheres no universo de duas irmãs que retornam à casa da família após a morte dos pais num incêndio. Segundo palavras do cineasta, trata-se de um relato de sua própria vida e da região onde nasceu, da infância e do universo feminino, tornando-se um filme de atrizes. Destaque para premiada atriz espanhola Penélope Cruz. Veja mais aqui e aqui.



IMAGEM DO DIA
L´amour (Love, 1936-37), fotomontagem do poeta francês Paul Éluard (1895-1952).

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segunda-feira, abril 27, 2015

AYN, RICCITELLI, BOSSA NOVA, ADALGISA NERY, BARRAULT, LOOS, AGAR, VEGA & DELASNIEVE DASPET.



Imagem: Maja sevillana, do pintor espanhol Jose Gutierrez de la Vega (1791-1865)



Ouvindo The Bossa Nova exciting Jazz Samba Rhythms (Rare Groove Recordings, 2000), seleção do período entre 1962-1973, com Laurindo Almeyda & The Bossa Nova All Stars, Francis Lai, Eumir Deodato, Tom Jobim, Elvis Presley, Quincy Jones, entre outros.

A SINA DE AGAR – A escrava egípcia Agar é usada e abusada por Sara para servir ao seu marido Abraão: Toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com filhos por meio dela. E Abraão anuiu ao conselho de Sara (Gn, 16:1). Possuída por ele, engravidou. O filho nasceu, mas Sara não adotou Ismael como seu filho, tornando-se intolerante e opressora. Depois, a escrava vingou-se de sua senhora e dona com seu desprezo, fugindo de sua presença. Depois, ela foi obrigada a retornar e se humilhar perante a sua dona. Obediente, seguiu seu destino para ser, posteriormente, humilhada por Sara e seu filho Isaque: Rejeita esta escrava e seu filho; porque o filho da escrava não será herdeiro com meu filho (Gn 21:10). Abraão, por sua vez, não só rejeitou a escrava como deserdou seu filho, expulsando-os. Assim ficou Agar na história como a segunda mulher de Abraão, em concubinato ilícito, durante a esterilidade de Sara, dando-lhe um filho, Ismael, tronco dos Ismaelitas. Dele, porém, não podia prosseguir a linha genealógica de Jesus, porque, no lado materno, não tinha sangue egípcio, nem judeu. Mais tarde, havendo Sara dado à luz Isaque, exigiu de Abraão a expulsar de Agar e Ismael. Quantas vezes na história da humanidade isso não aconteceu? Quantas vezes hoje isso acontece? Veja mais aqui


A NASCENTE – O livro A nascente (Arqueiro, 2013), da escritora, dramaturga, roteirista e filósofa estadunidense de origem judaico-russa Ayn Rand (1905-1982), enfatiza o seu pensamento filosófico com noções do individualismo, autossustentação, capitalismo e liberalismo econômico, sendo a obra transformada para o drama Vontade Indômita (The Fountainhead, 1949), dirigido por King Vidor, roteiro da autora e música de Max Steiner. Da obra destaco o trecho: [...] O grande carvalho ficava numa montanha sobre o rio Hudson, em um lugar isolado da propriedade dos Taggart. Eddie, com 7 anos, gostava de olhar para ele. Estava lá havia centenas de anos e parecia ao menino que lá ficaria para sempre. Suas raízes seguravam a montanha como dedos cravados no solo, e ele imaginava que se um gigante quisesse arrancá-lo pelos galhos, não conseguiria. Conseguiria, sim, balançar a montanha e, com ela, toda a terra, que ficaria como uma bola pendurada por uma corda. Ele se sentia seguro, diante do carvalho: era algo que nada nem ninguém podia alterar ou ameaçar – era para ele o símbolo maior da força. Certa noite, um raio atingiu o carvalho. Eddie o viu na manhã seguinte. Estava partido ao meio, e o menino olhou o tronco como quem olha para a boca de um túnel negro: ele era apenas uma concha oca. Sua massa interna tinha apodrecido havia muito tempo: não existia nada lá dentro, apenas uma fina poeira cinzenta que se dispersava ao capricho da mais leve brisa. Fora-se o poder vital e, sem ele, a forma que ficara não tinha podido se manter. Anos mais tarde, ele ouviu dizer que as crianças devem ser protegidas contra choques, contra seu primeiro contato com a morte, a dor, o medo. Mas essas eram coisas com as quais ele não se assustava. Seu choque viera naquele instante, quando permanecera quieto, olhando o buraco negro do tronco. Fora uma sensação profunda de traição – ainda pior, porque ele não podia identificar exatamente o que ou quem havia sido traído. Não fora ele, sabia-o bem, nem sua fé – era algo mais. Permaneceu ali por algum tempo, em total silêncio, e depois voltou para casa. Não falou sobre aquilo com ninguém, nem na hora, nem depois. Eddie Willers balançou a cabeça, no momento em que o ruído de um mecanismo enferrujado de sinal de trânsito interrompeu seu caminho no meiofio. Sentiu raiva de si mesmo. Não havia por que relembrar o carvalho hoje. Já não significava mais nada para ele, apenas uma tintura esmaecida de tristeza – e, em alguma parte em seu íntimo, uma gotícula de dor, movendo-se rapidamente e desaparecendo como um pingo de chuva na vidraça da janela, mal deixando visível o seu curso em forma de ponto de interrogação. Não queria associar lembranças tristes à sua infância. Amava suas recordações: cada um daqueles dias, ele via agora, parecia-lhe inundado pela luz solar, tranquila e brilhante. Parecia-lhe que alguns daqueles raios chegavam até seu presente. Não eram raios, exatamente: mais pareciam pequenos pontos de luz, que conferiam um ocasional momento de brilho ao seu trabalho, ao seu apartamento, onde vivia solitário, no ritmo calmo e escrupuloso de sua existência. Lembrou-se de um dia de verão, quando tinha 10 anos. Naquele dia, numa clareira do bosque, sua mais querida companheira de infância lhe disse o que fariam quando crescessem. As palavras foram duras e brilhantes como os raios de sol. Ele ouviu admirado. Quando ela lhe perguntou o que desejaria fazer, ele respondeu de imediato: “O que for certo.” E acrescentou: “E preciso fazer alguma coisa que seja grande... Quero dizer, nós dois juntos.” E ela: “O quê, por exemplo?” Ele respondeu: “Não sei. É o que nós devemos descobrir. Não o que você disse. Não é trabalho nem um modo de ganhar a vida. Mas algo como ganhar batalhas, salvar pessoas de incêndios ou escalar montanhas.” “Para quê?”, perguntou ela. E ele: “No último domingo, o pastor disse que devemos procurar alcançar o melhor de nós. O que você acha que há de melhor em nós?” “Não sei.” E ele concluiu: “Precisamos descobrir.” Ela não disse mais nada. Estava olhando para longe, para a estrada de ferro, que se perdia na distância. Eddie Willers sorriu. Ele dissera: “O que for certo.” E isso fora há 22 anos. Desde então, essa deliberação permanecera inalterada em sua vida. Todas as demais questões se evanesceram em sua mente – não tinha tempo para elas. Mas ainda lhe parecia evidente que cada um devia fazer o que fosse direito: jamais entendera como alguém podia desejar outra coisa. Sabia apenas que isso ocorria. E isso ainda lhe parecia uma coisa ao mesmo tempo simples e incompreensível – simples, o fato de que as coisas devem estar certas; e incompreensível, que não estivessem. Sabia que não estavam. Era nisso que pensava quando dobrou a esquina e chegou ao grande prédio da Taggart Transcontinental. O edifício era a mais alta e mais orgulhosa construção da rua. Willers sempre sorria ao primeiro impacto de sua visão. Todas as janelas nas longas fileiras estavam intactas, ao contrário das dos prédios vizinhos. Suas linhas ascendentes cortavam o céu sem cantos empoeirados e sem bordas quebradas. Ele parecia ser imune ao próprio tempo, sempre incólume. Estaria ali sempre, pensou. Cada vez que ele entrava no Edifício Taggart, experimentava uma sensação de alívio e segurança. Aquele era o lugar da competência e do poder. O piso da entrada era um verdadeiro espelho feito de mármore. Os gelados retângulos das luminárias pareciam pedaços de luz sólida. Por trás das divisórias de vidro, filas de moças batiam à máquina, o ruído das teclas parecia o som de rodas de trem. E, como um eco, às vezes um tremor discreto atravessava as paredes, vindo lá de baixo do prédio, dos túneis do grande terminal, de onde os trens partiam e para onde convergiam, para cruzarem o continente e pararem depois de cruzá-lo de novo, como partiam e paravam geração após geração. “Taggart Transcontinental”, pensou Eddie Willers, “De oceano a oceano”, orgulhoso slogan de sua infância, tão mais brilhante e sagrado do que qualquer um dos mandamentos da Bíblia. [...] Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO DE BARRAULT – Com o texto O ator é um atleta (Estética teatral, 1980) o ator e mímico da Comédie-Française, Jean-Louis Barrault (1910-1994), que parcipou de filmes como O Boulevard do Crime (1940) e Casanova e a Revolução (1980), define o seu ofício como o desempenho no atletismo: Olhemos o atleta que se prepara para transpor uma barra. Isola-se – as mãos, sacudindo-se, pendem na ponta dos braços, como estranhas a ele, os olhos ficam o interior. E de repente ei-lo que parte [...] Assim, o desportista deve casar-se com o que vai fazer. É a grande lição que se pode receber do teatro. É nosso dever, nós artistas dramáticos, casarmo-nos, também. Temos de nos transformar numa outra personagem. Como no tiro com arco, como no esforço desportivo é a regra do Amor, quer dizer, a regra da religiosidade primitiva. Outra regra comum ao desporto e ao teatro: a regra da economia. Obter o máximo de rendimento com o mínimo de esforço. Que lição! Neste aspecto o elefante é o exemplo próprio do melhor rendimento. [...] Enfim, guardei a evidência para o fim: o desporto e a arte dramática tem isso de comu, utilizam o mesmo instrumento – o corpo humano. Para nós, homens de teatro, o corpo humano é, antes de tudo: uma caixa toráxica, uma coluna vertebral, dito de outra maneira: um sopro, um chicote. E, assim como a pele aparentemente nos separa do mundo exterior, não entre o homem e o espaço em que se move, solução de continuidade. [...] O desporto e a arte dramática obedecem à mesma mística: o respeito humano, o desejo de combater a inercia, a necessidade de se ultrapassar, de partilhar o drama universal, que não são outra coisa do que: o amor pela vida, o amor pelo divino, o senso primitivo da religiosidade, o reconhecimento de estarmos vivos. No final duma prova desportiva bem sucedida ou duma representação teatral bem partilhada com o público, nós somos mais fortes, mais sãos, melhor equilibrados e poderemos escrever, como o vosso grande escritor sobre o leito de morte: eu vivo. Veja mais aqui.

MUNDOS OSCILANTES – O livro Mundos Oscilantes (José Olympio, 1962), da poeta e jornalista do Modernismo brasileiro, Adalgisa Nery (1905-1980), é o sexto livro de poesia da autora, reuninco cinco livros de poesias anteriores escritos entre 1937-1952, com versos livres e temáticas da solidão, morte e desalento. Destaco A chegada da sombra: Na madrugada em que minha voz se acordar / e as palavras caírem desfiguradas pelo desentendimento / ninguém deterá a sombra fria em seu andar, / nada impedirá em minhas carnes o apodrecimento. / Nessa madrugada, enquanto o orvalho baixar sobre as flores / enquanto a brisa levar às nuvens o cantar dos pássaros, / meu corpo em convulsã estará em dores / na despedida derradeira / de entregar a forma à terra e deixar fugir a alma / para a vida derradeira. / Inútil será tentar consolar meu rosto torturado / com o afago trêmulo de minha própria mão, / meu olhar fixo e angustiado / se tordará à medida que sair da vida o meu coração. / Meus pés que caminharam em sofrimentos passos / em noites adormecidas / e espíritos acordados / estarão prontos para a liquefação / antes da minha boca, antes dos meus seios antes que desapareça a última constelação. / Na madrugada em que minha voz se recolher ao eterno, / em que minha pupila vazada pelo mistério / receber apavorada a rápida visão do inferno / num sipro se anularão a extensão e a profundidade / para que meus olhos conheçam o justo motivo de todas as lágrimas / e o glorioso sofrimento de toda humanidade. Também merece detaque Aspiração: Desejo de desmontar meu corpo / E atirá-lo aos quatro ventos do mundo, / De enfrentar a luz do sol / Até que seu calor pulverize meus ossos, / De atirar-me no oceano / Até que o batimento de suas águas / Transforme meus cabelos em algas perdidas, / De gritar contra as montanhas / Até que o eco se ausente de minha voz, / De matar a consciência de mim mesma / Até que eu possa viver. Merece destaque o poema Eu me maldigo: Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos, / Que as nuvens se estilhacem / E as montanhas se rachem. / Que as estrelas se embaciem / E o sol se apague para que meu corpo não tenha sombra. / Que as correntes marítimas / Carreguem meus braços para as praias fétidas / E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem. / Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha. / Que meus olhos se apodreçam / E se transformem em água / Para que não se levantem além das raízes. / Que a gosma dos vulcões / Soterre meu sexo, / Que os vermes fujam da minha carne / E o pó se levante fugindo antes de eu passar. / Que o cheiro de minha boca / Resseque o grão embaixo da terra / E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados. / Que minha língua se enrole enegrecida dentro de minha garganta / E me diga as maiores injúrias. / Que a terra seja fendida como um ventre de mulher, / Que a destruição absoluta / Desça sobre meu corpo, meus sentidos, / Meu espírito, meu passado, / Meu presente, meu futuro / E liberte minha origem / Da lembrança dos homens. Veja mais aqui.

AMOR COMO PRINCÍPIO - A advogada, embaixadora da paz, escritora, biopoeta e ativista sul-mato-grossense Delasnieve Daspet atuando como educadora, palestrante, professora na realização de trabalho social com menores carentes. Ela participa e representa várias associações e academias literárias e culturais brasileiras e internacionais, tais como Circulo de Embaixadores da Paz (Genebra, Suiça), Sociedade Pártenon Literário, Poetas del Mundo (Chile), federações, academias, conselhos, tendo trabalhos premiados pela Unesco. Ela edita o blog Amor como princípio e Delasnieve Daspet, e é autora dos livros Por um minuto ou para sempre... (2004), Em preto e Branco (2007), Pazeando (2008), Cantares (2011), entre outros. De sua obra destaco o poema Ao amigo: De Mãos Dadas / Caminhada sempre junta, / Vestida o manto como Mais Alta Confiança, / meu amigo, E Que Nós, Irmãos / Porque Que É A Nossa Boa Escolha, / POIs que nada Que tenha Sido impor, / Partido, clima, politica, cor, / fragrância, flor / O Nós Compartilhando Tudo / não Aconchego de Dois Seres ESCOLHA / um Caminhar juntos. / Obrigado meu amigo / Passages em Maïs Maïs nova Apoio / Para Mais Momentos escuro, guardado-me com Cuidado com e ternura / Vou secar Minhas Lágrimas. / Então -Eu Tenho a Força, / ENTÃO -de ter uma paz, / ENTÃO -Eu Tenho o MESMO de amor ! / Para envolver tu mi amistad! Também merece destaque o seu poema Ambiguidade: Sou! / Sou um mundo em miniatura / Microscópica na aparência / Ciclópica nos sonhos. / Sou! / Sou herdeira da luz infinita / Do amor / Da maldade / Da amizade / Da inveja. / Sou! / Sou heroína / Sou bandida / Sou perdedora / Sou vencedora planetária. / Tivergeso / Por isso sou! / Sou pranto / Sou riso / Delínquo... / Sou bondade. / Sou ventura / Sou radiosa / Sou força / Sou vacilante / Sou propensa ao mal... / Sou fatuidade. / Sou vento que açoita / Sou a flor que se abre / Sou o útero que abriga / Sou a noite negra das trevas / Sou o luar que ilumina. / Sou a estagnação / Sou o poder / Sou a inércia / Sou fértil / Sou pântano estéril / Sou o campo verde / Sou o peito que amamenta. / Ambiguidade / Dor e dever / Sou o sol que aquece / Sou a água que dá vida / Sou pensamento / que navega pelos ares/ Pelos mares / Pelo éter! / Sou satélite que gravita / Que permanece na morte e na vida / Prolongando o momento diáfano / Do encontro final / Sou melodia em surdina / Depois num crescendo / Sou o êxtase! / Sou o aroma / O cheiro / A flor / O pólen / A luz / O átomo / Sou eu / Sou você... / Somos nós!  Veja mais aqui e aqui.
 
OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS – A novela Gentlemen Prefer Blondes (Os homens preferem as loiras, 1925), da escritora estadunidense Anita Loos (1889-1981), foi transformada em espetáculo na Broadway e, posteriormente, em 1928, foi adaptada numa versão muda pro cinema com direção Malcolm St. Clair. Em 1953, foi transformada na comédia romântica do gênero musical dirigido por Howard Hawks e música de Jule Styne, Hoagy Carmichael, Eliot Daniel e Lionel Newman estrelado por nada menos que a deusa Marilyn Monrow (1926- 1962) e a atriz Jane Russel (1921-2011). Veja mais aqui.



IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da premiadíssima ex-regente e renomada soprano Cláudia Riccitelli – Melhor destaque vocal feminino no Prêmio Carlos Gomes, em 2001.



Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a simpatia e a voz de Meimei Corrêa. Para conferir online e ao vivo clique aqui.

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