sexta-feira, janeiro 17, 2014

A ILUSÃO DA ALMA DE GIANNETTI & A POESIA VEIO DOS DEUSES

A ILUSÃO DA ALMA DE GIANNETTI  - [...] Deitado no escuro, dorso nivelado à cama, resignado a passar a noite em claro se preciso, um cortejo de vislumbres e premonições veio sacudir a minha insônia. É ridículo, pensei. Cá estou no meu quarto, eu, um professor de letras precocemente aposentado, meio surdo e alcoolizado, um solteirão de meia-idade; cá estou eu, um esquisitão sobre quem ninguém nada sabe, o cumulo da insignificância, aterrado por uma insônia banal e, não obstante, esse ser ínfimo e obscuro, deitado no quinto andar de um edifício, dispara a ter ideias como se o mundo girasse em torno dele naquele instante: É possível que não tenhamos alcançado ainda menor compreensão do que nos faz ser quem somos e agir como agimos? É possível que estejamos radicalmente equivocados sobre nós mesmos, perdidos na mais espessa floresta de mitos e enganos, e que nossos descendentes das gerações futuras venham um dia a nos encarar com a mesma mistura de complacência e perplexidade com que encaramos os nossos ancestrais animistas, com seus rituais, sacrifícios e despachos? Sim, é possível. É possível termos acreditado falsamente durante milênios que a vontade consciente rege os nossos músculos quando, na verdade, ela é o subproduto inócuo de uma cadeia de eventos eletroquímicos no cérebro, como a fosforescência no rasto de um fósforo aceso no escuro ou a espuma de uma onda neural? E que, portanto, fazer de um propósito ou de uma intenção consciente a causa de uma ação humana é tão desprovido de fundamento como falar do propósito de um espermatozoide ao fecundar um óvulo ou da cigarra ao entoar sua cantoria ou do Sol irradiar calor? Sim, é possível. É possível que toda a reflexão e pregação da ética estejam colocadas no equivoco de que possuímos liberdade de escolha e de que existem coisas em nossas vidas que poderiam ser diferentes do que são; e que, não existindo vicio ou virtude, não há nada que mereça ser aplaudido ou condenado em sentido moral? É possível que Epiteto, o escravo e filosofo estoico do século I d.C.,  estivesse certo ao concluir, ainda que por caminho diverso, que “quem acusa os outros pelos seus próprios infortúnios revela uma total falta de educação; quem acusa a si mesmo mostra que a sua educação já começou; mas quem não acusa nem a si mesmo nem aos outros revela que a sua educação está completa? Sim, é possível. É possível que toda forma de feroz intransigência e todas as guerras religiosas e ideológicas e todos os conflitos sangrentos por terras, minérios, primazias sejam fruto de um pavoroso mal-entendido da consciência humana sobre si mesma? E que os autoproclamados “ateus militantes”, quando se propõem a tratar “a existência de Deus como uma hipótese cientifica como qualquer outra”, revelam uma falta de tino e uma superficialidade diante das necessidades espirituais do homem que é ainda mais espantosa do que a fé ingênua da maioria dos crentes e devotos aos quais se opõem? Sim, é possível. É possível que toda a história da ciência desde o atomismo grego não seja outra coisa senão a progressiva e implacável destruição de qualquer possibilidade de sentido para a existência, a autodiminuição do homem perante si próprio e sua metamorfose em fortuita, passageira e risível criatura, como um tipo peculiar de pulgão alucinado? E que a missão da ciência – única fonte de saber objetivo ao nosso alcance – seja reduzir todos os mistérios a trivialidades, demonstrando em minúcia a mecânica (ou quântica) absurdidade de todo o devir, até que só reste ao homem o mistério da absurda trivialidade de tudo? Sim, é possível. É possível, enfim, que nossa consciência de nós mesmos não passe de um engodo e de um continuo fantasiar que não somos, como uma farsa em que os personagens se creem autores de papeis que representam? E que aquilo a que me habituei chamar de eu não existe realmente, mas seja apenas sopro do que emerge da combinação de sopas e faíscas de um cérebro em vigília; e que eu e tudo o que me imagino ser seja uma peça de ficção que vive em mim em vez de ser escrita; e que ninguém exista realmente como se finge existir, mas seja o personagem de sua própria farsa, como peça assombradas do xadrez sem enxadrista que se desenrola em cada cérebro particular? Mas se tudo isso é possível e, mais que isso, possivelmente verdadeiro, então eu não posso ficar calado, encolhido como um caramujo, entregue à consciência oca e resignada do meramente existir. Então algo tem de ser feito. Tem de existir um furo, um erro fatal no meu pensamento. Preciso entender o que se passou comigo; preciso pôr em palavras o sinistro absurdo da clausura em que estou metido. Se eu não existo, se não sei quem – ou o que – sou, como se pensam os pensamentos que me atormentam? Não há caminho que me leve adiante? E assim, paciente leitor, no paredão daquela madrugada insone, brotou em mim o germe do livro que repousa em suas mãos. Refute-me se for capaz! A ILUSÃO DA ALMA – O livro A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa, do professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e PhD pela Universidade de Cambridge, Eduardo Giannetti, relata a história de um professor de literatura, especialista em Machado de Assis, e sua perturbadora conversão filosófica, sobre a relação entre o cérebro e a mente. Passando desde o embate entre Sócrates e Demócrito no século V a.C., até o advento contemporâneo da neurociência, a trama descreve a viagem de descoberta do narrador pela história das ideias. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
GIANNETTI, Eduardo. A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


PATRICK LOUTH: A POESIA VEIO DOS DEUSES – Eis um relato recolhido sobre a origem da poesia:  O nórdico antigo gosta de falar pelo prazer de bem falar, de forma difícil e erudita. Assim, como o aedo grego, o vates latino, o bardo celta, o escaldo também está ligado aos deuses. Aliás, a poesia veio dos deuses: é o que ensina Snorri logo nos primeiros trechos do Skaldskaparmal, no qual mostra Aegir, deus do Oceano, vindo saudar os Ases, no seu palácio de Asgard. Sentado ao lado de Bragi, deus da poesia, Aegir o interroga sobre a sua origem:
- No principio -, responde Bragi -, aconteceu que os Ases eram inimigos do povo que é chamado de Vanes, e eles se encontram para debater sobre a paz; os dois lados pediram garantias, de maneira que as duas facções foram até uma tina e escarraram dentro. Porem, quando se separaram, os deuses não quiseram que este penhor de paz se perdesse; tomaram-no e dele fizeram um homem. Ele se chama Kvasir e é tão sábio que não existe pergunta à qual não saiba responder. Saiu caminhando por todo o mundo, para ensinar aos homens a sabedoria. Mas quando chegou na propriedade de dois anões, que se chamam Fjatar e Galar, eles o aprisionaram, mataram-no e fizeram seu sangue escorrer dentro de duas tias e de um cântaro: este cântaro chama-se Oderir e as tinas, Son e Bodn. Misturaram o sangue com mel e disso resultou um hidromel tão especial, que quem o beber torna-se escaldo ou ságio. Por isso chamamos a poesia de fluxo de Kvasir. E o hidromel torna-se propriedade do gigante Suttung.

- Mas como os Ases se apossaram do hidromel? -, torna a perguntar Aegir.

- A propósito disso - responde Bragi -, existe uma história que diz que Odin saiu de casa e chegou num lugar onde nove escravos ceifavam feno. Perguntou-lhes se queriam que ele afiasse suas foices. Aceitaram. Então, Odin tirou de seu cinto uma pedra de amolar e as afiou. Achando eles que as foices, assim, cortavam muito melhor, quiseram comprar a pedra de amolar. Mas Odin decidiu que só compraria a pedra quem oferecesse, por ela, um preço justo; todos aceitaram, cada um desejando ser o comprador. Então, ele jogou a pedra para o alto; quando todos quiseram pegá-la, se precipitaram de tal forma que se decapitaram mutuamente com as foices. Depois disso, Odin foi procurar abrigo, para passar a noite, na casa de um gigante que se chamava Baugi, irmão de Suttung. Este lhe disse que estava numa situação difícil: seus nove escravos haviam-se matado uns aos outros e ele não tinha esperança de encontrar trabalhadores. Odin, então, disse chamar-se Bölverk, o artesão da infelicidade, e ofereceu-se para executar o trabalho de nove homens para Baugi, tendo, porém, como salário, um copázio de hidromel de Suttung.

A astucia do deus obteve êxito, depois de muitas peripécias:

- No primeiro trago, esvaziou todo o Odrerir, que abala a inspiração, no segundo o Bodn, no terceiro o Son. Ele havia, portanto, bebeido todo o hidromel. A seguir, transformou-se em águia e fugiu, voando tão depressa quanto pôde, mas Suttung, percebendo a águia em fuga, também se tranformou em águia e voou em sua perseguição. Quando os Ases viram Odin, que chegava voando, empurraram as tinas para o recinto. Então, ele chegou em Asgard e tornou a escarrar o hidromel dentro das tinas; porém, Suttung já estava tão próximo para o agarrar que Odin deixou escapar uma parte do hidromel, do qual, hoje, ninguém faz questão. Quem quiser, pode tomá-lo e nós o chamaremos o quinhão dos poetas de pacotilha. Porém o hidromel de Suttung, Odin o deu aos Ases e aos homens que sabem compor. Eis porque se chama a poesia de butin de Odin, e seu achado, sua bebida, dom dos Ases e bebida dos Ases.

FONTE:
LOUTH, Patrick. A civilização dos germanos e dos vikings. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979.


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