sexta-feira, setembro 07, 2012

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS



SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS - Uma observação atenta do filme "Sociedade dos poetas mortos", remete, então, a duas realidades distintas a se analisar: a primeira, aquela indesejável realidade do estilo educacional tradicionalista, rígida, burocrática, tradicional; e a segunda, a de um professor que num cenário adverso e obsoleto, introduz uma atitude participativa, emancipatória, democrática. Em primeira observação, convém tratar o formato tradicional pedagógico, notadamente explicitado através da Academia Welton, que apresentava os seus pricípios básicos pautados na tradição, na honra, na disciplina e na excelência. Esse modelo pedagógico está identificado na forma de trabalhar a partir dos obstáculos, onde o homem é apenas adestrado para a produção, não sendo levada em conta as habilidades intelectuais e nem as condições humanas. Dessa forma, o mundo é visto como algo pronto que é traduzido pelo conhecimento sistematizado e acumulado ao longo dos anos e é essencialmente externo ao indivíduo e constituído de verdade universal. Ademais, a visão de um homem ideal, desvinculado de sua realidade concreta, e tudo fornecido através de uma tábula rasa onde são impressas as informações e conteúdos universalmente consagrados. Nesse formato, o conhecimento é caracterizado pela aquisição de conteúdos culturais transmitidos de fora, pois são eles que vão conformar a personalidade individual. Dessa feita, há uma preocupação com os modelos, as grandes obras literárias, científicas e artísticas, donde, memorizando os modelos, o aluno poderá recorrer a eles para guiar-se, na vida moral e intelectual, quando for adulto. O objetivo central desse modelo é conduzir o aluno ao conhecimento da verdade universal, para a qual ele deve estar disponível. A metodologia preconizada se compõe da exposição e demonstração feitas pelo professor, os donos da verdade, onde o aluno atua como receptor das verdades universais que lhe são transmitidas. Essa relação se dá entre professor e aluno de forma essencialmente marcada pela verticalização, onde o professor é o detentor de todo o saber, programa, recursos e controles que partem de si para o aluno que os recebe passiva e acriticamente. Disso, pode-se apreender dessa realidade, uma educação centrada na transmissão do conhecimento e no processo de assimilação do conhecimento hstoricamente acumulado, tendo-se a escola como uma instituição social encarregada do processo de socialização, transmissão de informações e da cultura. O ensino-aprendizagem é efetuado através da mera transmissão e aquisição de informações, subordinando a educação à instrução e ao verbalismo e memorização. A relação professor-aluno, como visto e constatado no filme, é desenvolvida de forma autoriária, unilateral, vertical do profesor para o aluno, professor ser mediador entre cada aluno e os modelos culturais, não havendo interação entre os alunos. Uma metodologia feita no tipo aula expositiva e demonstração feita pelo professor, exercício de memorização por parte do aluno, motivação extrínseca que depende do professor um método para ensinar a todos. E para avaliação, provas-exame, que visa a exatidão na reprodução do conteúdo transmitido, exame como fins em si mesmos, e sua sucessão funcional na sociedade como meio de ascensão social.
É necessário acrescentar que esse modelo se faz presente até hoje nos recintos escolares do Brasil, acrescido de duas outras formatações pedagógicas oriundas do escolanovismo e do tecnicismo educacional.
À guisa de ilustração, a pedagogia escolanovista se desenvolveu reunindo uma série de preceitos pedagógicos oriundos da teoria funcionalista, que teve como exporentes Dewey, Montessori e Piaget; da cognitivista, baseada em Bruner e Ausubel; da humanista, centrada em Rogers; e da tecnicista, baseada em Tyler e Taba. Com a pedagogia nova o homem passou a ser dotado de poderes individuais, quais sejam liberdade, iniciativa, autonomia e interesses; o homem-mundo estão em intereção e atualização, uma vez que o homem se atualiza com o mundo, com isso também transforma o mundo. A realidade passa a ser um fenômeno subjetivo que, percebido e experimentado pelo homem, é reconstruído em si mesmo o mundo exterior, a partir dos significados que lhe são dados. Esse conhecimento abstrato é construído a partir da experiência, não existindo modelos prontos, nem regras a seguir, mas um processo de vir-a-ser, o que resulta como significado ao conhecimento é a experiência da pessoa. Cabe, portanto, ao homem o papel central na elaboração e criação do conhecimento.
A visão tecnicista que foi introduzida via pedagogia nova, privilegia o aperfeiçoamento dos métodos de ensino, a racionalização do trabalho do professor, tendo como referência o ritmo de aprendizagem diferenciado, portanto, centrado no individual, articulada com as transformações ocorridas a partir da influência do taylorismo no interior das escolas, reformando os recursos materiais, os procedimentos de ensino, a divisão social do trabalho no interior do processo educacional com a presença de supervisor, coordenador, orientador, professor, enfim, toda a parafernália dos métodos e recursos importados e transplantados para a educação.
Nessa perspectiva é necessário entender que a tendência liberal tecnicista subordinou a educação à sociedade, tendo como função a preparação de recursos humanos, ou seja, de mão-de-obra para a indústria, com as bases teórico-metodológicas na aprendizagem que se detinha nos objetivos instrucionais predefinidos e tecnicamente elaborados; na teoria da comunicação, na transmissão da mensagem instrucional com vistas a atingir objetivos previamente estabelecidos; na teoria de sistemas, na racionalização do processo ensino-aprendizagem, saída e retro-alimentação; e na psicologia behaviorista, reundando na engenharia comportamental, na ergonomia, na informática e na cibernética. Toda essa sustentação teórica está assentada na abordagem filosófica neopositivista e no método funcionalista.
No meio desse ambiente, o filme faz aparecer a figura de John Keating, um laureado professor que surge para substituir um outro que se aposentara. O modelo que esse professor insinua já em 1959, ano em que ocorre a ação do filme, se aproxima da moderna pedagogia que recebe uma variada nomenclatura, inserida sob a denominação de pedagogia da autonomia, emancipadora, pluralista, problematizadora ou cidadã. Esse modelo pedagógico parte da discussão de que não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem, e se configura nos confrontos sociais e políticos, ora como um dos instrumentos de conquista da liberdade, da participação e da cidadania, ora como um dos mecanismos para controlar e dosar os graus de liberdade, de civilização, de racionalidade e de submissão suportáveis pelas novas formas de produção industrial e pelas novas relações sociais entre os homens. IsSo quer dizer que ela coloca ênfase na educação para a cidadania e se alimenta de uma concepção da história como progresso inexorável da barbárie à civilização, da miséria à felicidade de todos, da exploração à liberdade, processo que se consuma na sociedade industrial-capitalista moderna (ARROYO 1996; GADOTTI., 2000).
Por outro lado, Mello (1998), observa que "não se trata mais de alfabetizar para um mundo no qual a leitura era privilégio de poucos ilustrados, mas sim para contextos culturais nos quais a decodificação da informação escrita é importante para o lazer, o consumo e o trabalho".
Apesar de haver sido construído já esse modelo no Brasil, na década de 50, através dos trabalhos pedagógicos desenvolvidos por Paulo Freire, interrompidos durante os anos ditatoriais, tal formato pedagógico vem ganhando corpo desde a Constituição Federal de 1998 que possibilitou a edição da Lei 9.394/96 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional brasileira.
O que realça dessa tentativa no desenvolvimento desse processo pedagógico, é a utilização de discussão, relatos de experiência, assembléia, pesquisa participante, trabalhos em grupo e outros recursos, onde o professor passa a ter uma atuação como coordenador e animador de grupos. A visão de mundo não é separada da visão de homem. A realidade/mundo que o homem vê, num primeiro momento pode ser uma visão ingênua, no entanto, a visão crítica do mundo se dará mediante a aproximação com a realidade, quando, para tal, torna-se uma consciência da mesma e neste processo crítico o homem toma uma posição epistemológica, ou seja: posição de elaborador e construtor do mundo percebido.
Freire (1980) defende que "A realidade não pode ser modificada senão quando o homem descobre que é modificável e que ele pode fazê-lo". E a partir disso, desenvolver uma relação horizontalizada entre professor e aluno, através de um posicionamento crítico de investigação da realidade ao redor, democratização na instituição escolar incluindo a comunidade, a busca incessante pela inclusão e a globalização do currículo através de uma ação interdisciplinar e transversalizada dos conteúdos e competências a serem ministrados na sala de aula, seja na educação básica, envolvendo o ensino fundamental e médio, até o profissional e o superior.
A lição que fica do filme "Sociedade dos Poetas Mortos", são duas: a primeira, a de quão abjeta se torna a arcaica modelagem tradicional pedagógica que ainda hoje insiste em se ocupar nos estabelecimentos educacionais; a outra, a da luta persistente que o professor, enquanto articulado com a sua atualidade e com o seu meio, deve insistir na recuperação de um processo que se encontre sempre pautado na horizontalidade, na igualdade, na participação, na emancipação e na democratização em todos os níveis educacionais.

BIBLIOGRAFIA:
ARROYO, Miguel. Educação no Brasil: para quem? Para onde? Brasília: Revista de educação da CNTE, 3:III, dez/96
FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Moares, 1980.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000
GENTILI, Pablo. Pedagogia da exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação. Petrópolis: Vozes, 1995
MELLO, Guiomar Namo. Cidadania e competitividade: desafios educacionais do terceiro milênio. São Paulo: Cortez, 1998 Confira mais aqui



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