
RESPONDA QUEM SOUBER
Por Célia Labanca
Nada contra ninguém, porque não identifico um responsável, ou uma. Talvez possa considerar como tais, porque permeiam ações e atitudes descabidas, a ignorância, a irresponsabilidade, e o desamor.
Estou falando de carnaval. – As comemorações carnavalescas vêm de nove mil anos antes de Cristo. Presume-se que nasceram de rituais exotéricos quando os povos primitivos saudavam o fim do inverno e a chegada da primavera que dava início ao período de plantação. Tinham a ver com a renovação da vida; com a liberdade, a fertilidade e a abundância. Tinham a ver com todos os deuses e com a integração, hoje perdida, entre os humanos e a natureza.
Oficializados, os festejos ganharam quatro dias para a folia antes do início da primavera, a partir dos dias 17 de março daquele calendário. Junto com a “Baccanalia” como lhe chamavam, os romanos passaram a comemorar também a “Liberalia”. Dias estes que os reis e os poderosos usavam para dar liberdade geral às populações do campo para saírem às ruas e fazerem uma enorme farra, permitindo serem a comida, a bebida, as cantorias e as danças, dispostas sem limites à “Carnavalia” daquela população, até a sua proibição pelos excessos. – “Pois é... Não sabíamos que foi a partir da tal proibição que estas comemorações chegaram até nós, como quem passeia, com calma, por toda a península ibérica como se já se soubessem moradoras imutáveis e inabaláveis do sol dos trópicos!” Disse Aminta, personagem de um dos meus romances.
Em Pernambuco ele esteve ligado em sua origem às classes trabalhadoras urbanas, e serviu, sobretudo, como mecanismo de aproximação entre brancos, negros, e mestiços. – Foram aqueles trabalhadores responsáveis pela criação dos clubes carnavalescos em rechaço aos preconceitos, inclusive religiosos da época. Clubes que terminaram por fazer partícipes as elites econômicas e intelectuais do Estado.
Já o nosso frevo, teve sua origem entre os negros capoeiristas. – Eles tiveram papéis importantes na configuração do frevo porque eram descomprometidos com as manobras do dobrado, do xaxado, do lundum e das marchas militares tocadas pelas bandas marciais criadoras do andamento e do ritmo do frevo. Quando passaram a interagir com o tal frenético som, criaram passos, os “passos” que representam a dança que é a expressão máxima do nosso carnaval.
Mas, a história do carnaval infelizmente hoje é outra. – Hoje no país, ele passa pelo show bizz, pelas mostras afro, e chega ao carnaval eletrônico dos trios elétricos, somente comerciais, descaracterizando-o da manifestação popular que lhe deu origem, porque industrializando-o, objetivam apenas o lucro municiado pelo consumismo e pelo imediatismo em detrimento da cultura genuína e democrática dele.
Aqui o institucionalizaram. Para isto, tiraram-lhe a coroa, e inventaram-lhe um codinome, passando a chamá-lo de multicultural! – Esqueceram que o frevo com mais de cem anos merece o reinado de apenas quatro dias por ano somente para ele; que misturá-lo a outros ritmos senão os que lhe definem, não é outra coisa senão desatino, senão ganância; que substituí-lo em pólos absolutamente dispensáveis, de animação, permitindo que os outros tantos ritmos que têm anos inteiros para serem tocados, mostrados, cantados, se apropriem e se locupletem dele, é, portanto, no mínimo dispensável. Ainda, esqueceram do que disse Tolstoi, com a maior propriedade: “se queres ser universal, cantas bem a tua aldeia!"
Insisto ainda em dizer que o que caracterizou o nosso carnaval o fazendo único no Brasil, e realmente emanado do povo em sua raiz, foram os frevos de rua, com seus metais; de bloco, com paus e cordas; de canção, feito para cantar; de salão que são marchinhas mais animadas para dançar, e o frevo rasgado, de competição, para ser somente tocado. – Foram deles que vieram contemporâneos os maracatus, os bumbas meu boi, os caboclos de lança, as troças de sujos, e mais todos os clubes e demais blocos carnavalescos, e a legítima história de luta e resistência expressada entre povo, frevo e carnaval, tão singulares e sérios em seus propósitos, e que hoje, em grande parte, penam por estarem sendo alijados com a intromissão abusiva dos ritmos estrangeiros, ameaçando-os de em breve deixarem de ser o que sempre foram para nossos afetos e memórias.
Os investimentos públicos para o período são altíssimos. Mas, poucos, muito poucos são eles para a manutenção do nosso Carnaval de Pernambuco (é melhor chamá-lo apenas assim), por conta das fortunas para manterem-se os chamados pólos de animação para artistas e músicas invasoras que não lhe dizem respeito.
A quem interessa a descaracterização do carnaval de Pernambuco? A quem interessa abafar as nossas tradições incentivando quem já tem mercado o ano inteiro? Qual o fundamento para feri-lo quase de morte transformando-o num festival qualquer, aos milhares, que já existem país a fora? Por que cercear o humor, a crítica e a dança do povo, características do período, e ainda nos enfiar os “Calipsos” da vida carnaval abaixo? Por que não se convidam para os tais pólos de animação os Papangús de Bezerros, os Caretas de Triunfo, os Clubes de Carpina, de Vitória, os Maracatus de baque solto e virado da Mata Norte, o Pintombeiras dos Quatro Cantos, o Vassourinhas, o Lili, o Grito da Véia, o Bloco da Saudade, os Tambores Silenciosos, o Bloco das Ilusões, e tantos outros, subvencionando-lhes, para ouvi o que cada um tem a dizer mantendo o intercâmbio legitimamente cultural do carnaval de Pernambuco? Por que o Boi de Parintins vem para Olinda e o nosso Bumba Meu Boi não vai para lugar nenhum? Por que trios elétricos no carnaval de Olinda?
Por favor, que alguém me responda somente essas perguntas. A mim, ao povo, à arte popular, à cultura desse Estado, e aos seus fazedores. – A indignação com o expatrio do frevo, a vulgarização e banalização do carnaval pernambucano, e a célere marcha com que os vemos indo para a vala comum é grande. E é de muita gente.
CÉLIA LABANCA – A escritora e curadora pernambucana Célia Labanca é bacharel em Direito pela Unicap, é diretora Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco - MAC.PE.
Criou e coordenou os cursos de Atualização da Mulher, realizados em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, e o Cecosne, foi assessora jurídica do Estado, dirigiu as Galerias Artimagem e Artespaço, tendo realizado exposições de artistas pernambucanos em vários Estados do país. Ela coordenou o “Projeto Umbral – Mulher, Tradição e Ultrapassagem” criado pelas artistas plásticas Ana Veloso e Virgínia Colares, citado por Ana Mae, na Revista de Estudos Avançados da USP, Universidade de São Paulo/1996, entre outras importantes atividades artísticas e culturais. Veja mais dela na Rebra, no Vetor Cultural, na Estante Virtual e no YouTube.
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