sexta-feira, março 25, 2011

FECAMEPA: NO REINO DO FICHA SUJA



FECAMEPA – Quando eu brinquei na demonstração de que o Brasil seria um país que poderia ser levado a sério, eu não tinha menor noção pregulóide de que um dia eu poderia ficar indignado com uma cagadona jactante do Supremo Tribunal Federal (STF), acrescentando mais cropólitos na nossa claudicante trajetória de republiqueta de gatunildos e ladronaldos. Sempre tive a esperança beócia de que a justiça tardaria, mas que, mesmo atrasada que só o trem de Cortês, um dia lá nas esferas da eternidade, vingasse. Eu sempre achei melhor aquela do antes tarde do que nunca, muito embora achasse que nunca era o definitivo.



FICHA LIMPA – Confesso que fiquei maravilhado com a campanha Ficha Limpa, promovida por 1,3 milhões de cidadãos brasileiros. Na hora eu disse: tô dentro. E timbunguei do jeito que estava. Afinal era uma campanha levantada pela sociedade civil brasileira legitimada constitucionalmente, objetivando a melhoria das nossas instituições políticas e envolvendo a vida pregressa dos candidatos para inelegibilidade de Fabos (fabricantes de bosta) e Fabobas (Fabos que são usuários do óleo de peroba). Resultado: em 2010, virou a Lei Complementar 135/2010 – a lei da Ficha Limpa.



Aí entra em cena o eleitor e o juridiquês, ou seja: vamos ver no que dá para ver como é que fica.



Como o juridiquês é um português na maior remoeta – faz que vai, nem vai, nem fica (?!?) -, ou como diz Thoreau: “[..] Valem tanto quanto cavalos e cachorros [...] como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável que sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus [...]”. E o eleitor é um fabo em pequenas proporções. Aí, babau.



É que o juridiquês discutia o princípio da anterioridade, indubitavelmente arranchado nas pilas dos ficha suja. E o eleitor tinha a oportunidade de sacramentar a volta do enterro, defenestrando as trepeças. No que deu? O juridiquês empancou e o eleitor cagou na rabichola e deu brecha. O litígio foi parar no STF, jogo duro: 5x5. Aí, no de repente aparece um de minerva aos 49 minutos do segundo tempo e pei bufe: 6x5 pros empestados.



Perdemos o jogo e a revanche tinha ficado para 2012.

Aí o juridiquês foi mais longe feito chato de galocha numa manhã chuvosa: a lei é inconstitucional.



Que é que é isso, meu? Aí a OAB sinalizou que pode acionar o STF para garantir a Ficha Limpa em 2012. Pode não, deve. Se não for, não me espantarei; afinal a corda de guaiamum sempre se espicha, né não?



Enquanto isso: e agora? Ou a gente leva ao pé da letra o que dizia Thoreau “[...] A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intecionados a agir cotidianamente como mensageiros da injustiça”, ou então vamos apenas sacramentar nossa sina de palermas. Enfim a lei foi aprovada, bonitinha como manda o recado, porém, o que tem de ficha podre eleito governando, sacaneando, votando, discutindo e parlamentando não está no gibi. Eu insisto e canto a Carta à República do Milton Nascimento e do Fernando Brant:

Sim é verdade, a vida é mais livre
O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
Com o povo daqui
E até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo
Mas eu não posso esconder a amargura
Ao ver que o sonho anda pra trás
E a mentira voltou
Ou será mesmo que não nos deixara?
A esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol
O que fizeram da nossa fé?
Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
Eu saí pra sonhar meu país
E foi tão bom, não estava sozinho
A praça era alegria sadia
O povo era senhor
E só uma voz, numa só canção
E foi por ter posto a mão no futuro
Que no presente preciso ser duro
E eu não posso me acomodar
Quero um país melhor

Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!!!


 
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quarta-feira, março 23, 2011

O TANGO NOTURNO MOLHANDO O DESEJO


O TANGO NOTURNO MOLHANDO O DESEJO - Imagem: Joyful Tango, by Leonid Afrenov – Ah, a presença feminina sempre me fascinou, perseguindo as minhas mínimas horas. Havia sempre uma presença desejada de mulher, o jeito menina, a artimanha de moça, o mistério de grandeza anatômica e anímica. Eu me desconcertava com isso, buscando jacea, aquele brilho eterno de equilíbrio interior e satisfação carnal. Se não conseguia raciocinar, me desarrumava arrumando por dentro qualquer forma para delinear a vida desencontrada. E era vez em quando que me pegava sonhando a mencionar-lhe o velacho, sussurrando na minha loucura frustrada em busca de malacias para demover os fragmentos que insistia se despedaçar de mim. E mais me desarrumava o tino com imagens loucas e sedentas de quem alcançava o paralogismo de ser feliz a qualquer custo, com uma bela e linda e nua mulher que seria a minha Calipedia, a Valéria Monteiro da minha estimação, o meu caminho do gol, a minha Juliete Binoche depravada, a minha bela pinups que me encaminharia a um orgasmo de 244 milivolts de descarga na erupção final do meu vulcão e o prazer de curtir naquele momento o meu devaneio mais completo e de olhos abertos, enlouquecido e com o amor sendo a minha camisa de força. Era uma quimera linda de morrer onde eu a seguia caminhando na noite estrelada pelas luzes da cidade em polvorosa com seus semáforos de seguir e ficar, os seus edifícios acasalando alegrias e dores e um bandoneón solando ao meu ouvido, acompanhado de um violino em tons pungentes, os faróis encandeando, os passos dela se movendo com uma firula nas pernas, dançando no meu palco imaginário, serpenteada com várias polegadas de salto. Eu me deleitava com aquela figura etérea e demoníaca que mirabolante vestia-se em um daqueles tubinhos que menos cobrem o que mais enaltece na figura de uma mulher: vermelho de alcinha combinando com o batom dos lábios rubros e o sapato salto agulha, hipnotizando, fetichista. E passava uma das pernas à minha cintura, arqueava-se sentando de costas no meu ventre, sobre as minhas coxas, no meu colo, respirando rente o meu rosto e insuflando o seu perfume, o seu hálito, a sua vitalidade, era muito real para ser mais uma mentira capturada. E rodopiava real no tablado do meu coração, abrindo uma das pernas que vinha arrastando o bico do sapato até encontrar a minha intimidade, a dar volteios e cobrando envolver sua cintura. Ah, eu não sabia dançar, nunca soube, ela roçando o pé entre as minhas coxas, meu desejo insone, o calcanhar enovelando-me entre o ventre, uma sentada, um gancho duplo, a parada, o volteio e o arremate: um só corpo de quatro pernas, um jogo sedutor me dando o prazer de curtir o seu ar sensual. A sua mão esquerda sobre o meu ombro. A outra, segurando com graça a minha mão num solo de Piazzola por testemunha e eu protagonizando a cena, o corpo contorcido, o pé direito até o joelho abrindo-se o vestido vermelho-negro a mostrar-lhe sutilmente as intimidades, corpo belo, solto, um cello, um piano, um violão, um violino, um bandoneón, e eu afungentando a solidão, a ponte enquanto a pele, ah, ela dançava frente o espelho, deitava-se sobre uma mesa e, num ímpeto abracei suas pernas longe do barulho da humanidade até que num golpe extremo uma de suas pernas passou-me o ombro, o ventre colado no meu, quase em pé, mostrando a entrega mais inteira de uma alma e de uma vida a descortinar-me o elo perdido. Deitei-me sobre o seu corpo, levantei-lhe a saia e a minha língua como uma drosófila sobre seu púbis, a minha prenda, estimação preferida, dando um ar de êxito à nossa química. O zíper do seu vestido escorrendo, minha vista só flagrava o seu arabesque, os fouettés, pas-de-deux, o corpo de baile exclusivo para mim, a coreografia única do desejo: a pele cobre oliváceo das paquistanesas, a própria efígie do pecado, oh, minha Ana Botafogo! Aquela leveza, o aprumo, o flair, aquele maleável jeito de catwalks driblando meu fuso horário de forma espetacular, oh, sex simbol da minha fantasia. Era tudo real e eu nem discernia de nada. Tivera a oportunidade e dela fazia questão de me jogar de cabeça, afogando voluntário. E se me entorpeci dormi menino feliz nos sonhos mais angelicais que pudera ser a mim concedido. Ah, mulher, eu jamais poderia ser feliz sem essa presença onímoda, oh minha cajila desejável que redimiria o meu abandono e traria luz ao obscuro destino tresloucado da minha estabanada existência. Oh, minha panacéia escondida no mais remoto dos dédalos incognoscíveis, se eu tivera algo de mim fora roubado por sua querência inaudita. Somente ela com um estalido forte a roubar o devaneio, aquela deliciosa mulher, aquela Perséfone que aprontara comigo e me fazia presa fácil a quem sempre errara de amar. Era a minha insanidade mental queimando sedenta a rever-lhe onírica vestida agora numa colorida indumentária como uma dançarina tailandesa, uma coroa prateada na cabeça, uma vestimenta de renda bordada nos ombros, uma saia curtinha de diversas cores, a saborear de um licor de jenipapo. Meu membro endoidecia e ardia meu desejo a ter-lhe no casting das beldades, transgredindo minha lucidez e à serviço da sedução. E causava em mim um frisson aquela saia 40 centímetros acima do joelho e eu na maior azaração. Fazia dela presença e imaginação: um corpo escultural de Rodin. Um heliponto onde eu queria aterrissar nesse corpo com a sede de séculos. Eu seu lobo mau, minha granada matreira germinando como se estivéssemos num chalé distante e abandonado, curtindo um fundue regado a vinho do Porto. Seduzia-me mesmo e com aquele lance quando se descruzava as pernas eu incendiava buscando a sua mina de ouro que eu queria demais explorar, e como queria, se não houvesse uma distância cislunar entre nós. Não, eu não me desvencilhava da perspectiva e afinava a luz com o meu desvario de Carlos Saura a flagrar-lhe as mais indecentes poses. Eu abusava dos closes, explorava sua gesticulação e armazenava na tv imaginária do meu cérebro: o meu sexo atravessando a sua carne e os sussurros aos beijos chupados de todos os desejos catados no gozo de nossa agonia amorante. Se enlouquecia? Delirava. É sempre muito aprazível a presença delicada de um corpo nu de mulher. © Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados. Veja mais aqui


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