segunda-feira, julho 26, 2010

VADE-MÉCUM – ENQUIRÍDIO, UM PREÂMBULO PARA O AMOR



 Imagem: arte de Tara McPherson.

VADE-MÉCUM


Enquirídio: um preâmbulo.

Uma vez e ela apareceu. Primeiro como a indomável Lilith que saiu irada e nunca mais voltou. Depois, como a servil Eva, que emergiu da minha costela para roubar da maçã o pecado original e causar todos os males humanos.

Uma vez e outra, ela decaída Madalena e ao mesmo tempo a serpente Nachásh. Ou ela uma das nove musas, ou como a sanguinária Anath, em Canaã. Ou como a cantada na Ars Amatória de Ovídio. Ou mesmo como uma das ninfas, ou a paciente Isis no Egito, ou Ishtar, a sagaz deusa do amor na Babilônia. Ela a mãe da terra como Dêmeter, bela e cruel como Semíramis, ou como uma serva de Afrodite.

Nem outra vez se dera, ela já hetaira, exímia cortesã bem-sucedida e influente na Grécia. Ou ela a sabotadora Messalina, a auianime no México, harimtu na Babilônia ou a jovem dos aposentos verdes da China.

Uma outra vez e de outra vez ela, a Esfinge que devora quem não decifra. Ela praticante da arte da Câmara de Dormir ou mesmo dama da corte, ou adúltera descarada.

Vez e outra ela a giyán em Bagdá ou como madona bizantina na mariolatria. Ou mesmo como tríbade, ou eríneas, ou parcas, moiras, harpias, prostituta do templo ou filha do prazer.

Outra de outra vez, ela a virgem descarnada e amedrontada ou uma daquelas vingativas femmes fatales. Ela, como a fuga de Helena de Tróia, como o sacrifício de Ifigênia, como o suicídio de Fedra, como a tragédia de Medeia, desejada Barbarela, ousada Norma Benguel, desencantada Maysa, leve e linda Joyce, filósofa Marilena Chauí, ou Claudia Bomtempo no devaneio da minha loucura noturna, ou Íris Bustamante na miragem da minha ilha deserta, ou mesmo como uma dessas celebridades efêmeras das bundas fugazes do reality show.

Uma vez, outra e mais outra ela a trabalhadora insone com todas as horas de batente extrapolando a vida. Ou mesmo como uma desolada pra titia se espremendo em rezas pro Santo Antonio. Ela, a resignada esposa cristã reclusa e privada de gozar. Ou aquela que se cansou de ser apenas objeto para reprodução. Ela, a concubina maldita com o sexo disponível na mancebia pro amante, destruindo lares e famílias. Ou aquela adolescente privada de afeto seduzida pelo primeiro carinho. Ela que sangra, ri e chora e que no seio aplaca a fome do menino. Nas coxas, segura o prazer do homem. No corpo, carrega o açúcar e o fel do que é. Na alma, a premonição e a compreensão superior. Ela que traz a vida e por ela se deixa levar.

De outra, ela comprada na feira, abominada por misóginos, propriedade paterna, do marido e dos filhos, subjugada, cantada, cuspida, adorada. Ela ninfomaníaca acendendo a vida, ela viúva ardendo na noite. Ela, Mata-Hari, ela Evita Perón. Ela a mais singular pedinte da esquina, ela rainha na Inglaterra.

E de vez outra ela, caça do macho adorada como estatueta de Vênus. Ela que já foi o mar parindo céu e terra, semeando ventres e heroína de todos os encômios. Ela vítima de crimes passionais, tal lâmina que depila como a navalha nos pulsos, o fogo no ventre, a dor de parir, o vir a menstruar. É ela. E digo que é ela a minha vida e o meu amor. É ela. Cuidado. Muito cuidado. Todo cuidado é pouco.

Primeira advertência: se não bate um coração (o amor é via de mão dupla), não use. Por favor, não abuse: é frágil. Não é descartável, nem vem com manual de instrução.

Atente para as exigências, ela encanta pela maravilha que é: mulher com toda pujança divina nas linhas do rosto, todo fausto e glória da beleza na sua herança de deusa que eu venero com a minha língua em riste no seu corpo nu espalmado no meu desejo, como espetáculo da natureza que faço versos com meu sexo na sua alma assaltada, onde tudo é belo, tudo é verdadeiro e me acrescenta e em dobro vive no meu canto: mulher.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.






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