sexta-feira, setembro 25, 2009

FREUD & O CASO SCHEREBER




FREUD & O CASO SCHEREBER - Ao apreciar a obra O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos – Volume XII, de Sigmund Freud, foi solicitado que se apreciasse criticamente as questões atinentes à dinâmica da transferência, às recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, sobre o inicio do tratamento, o recordar, repetir e elaborar e às observações sobre o amor transferencial. A partir da leitura, verificou-se que a parte da obra estudada começa tratando da dinâmica da transferência, considerando o caso da relação pessoal entre o médico e o paciente, a respeito da influência que o profissional terapeuta exerce sobre o assistido, destacando o obstáculo pela perturbação que ocorre no relacionamento destes. Essas perturbações podem se tornar óbices para o êxito do trabalho psicoterapêutico. O nascimento dessas perturbações surge a partir do paciente se sentir negligenciado ou tratado com pouca atenção pelo terapeuta, ou quando os pacientes se tornam narcisistas temendo pela perda da sua autonomia ao despertar sentimentos mais profundos pelo terapeuta, ou, ainda, quando ocorre uma falsa ligação por meio e uma representação incompatível com carregamentos de afetos de autocensura, de dor ou de vergonha. Essa representação incompatível torna-se a ideia de afetos voltados para alguém do passado do paciente que representa o profissional, caracterizando o pensamento freudiano de transferência. Entende o autor que a transferência pode também surgir analogamente à imago materna ou fraterna, vividas na infância e surgindo como uma resistência poderosa ao tratamento. Para êxito no trabalho, o psicoterapeuta terá de procurar a superação pela liberação dessa atração do inconsciente, removendo a produção e repressão dos instintos conscientes. Por consequência, a resistência deve ser levada em conta pela busca da conciliação entre as forças que se opõem, até o ingresso na região em que se torne clara. A transferência ocorre, conforme o autor demonstra, quando algo no material complexivo serve para ser transferido para a figura do médico, sendo um evento que se repetirá no decurso do tratamento inúmeras vezes, razão pela qual é tratada como a mais poderosa das resistências, ou melhor, como diz o próprio Freud: “[...] o efeito e expressão da resistência”. Trata-se, portanto, de um mecanismo de prontidão da libido na conservação das imagos infantis. Nesse sentido, Freud distingue a transferência positiva da negativa. Para ele, a transferência positiva é subdividida em sentimentos amistosos ou afetuosos que são admissíveis à consciência e a transferência de prolongamentos desses sentimentos no inconsciente invariavelmente oriundo das fontes eróticas. Já a transferência negativa assume uma condição ambivalente por se encontrar atrelada à transferência positiva. Para tanto, o autor adverte para a necessidade do profissional tratar de forma clara com o paciente de que a ocorrência dessa transferência é um reflexo do passado, tomando a devida cautela para que esses processo não venha irromper sentimentos extremos de hostilidade ou de amor imoderado, não se devendo negligenciar o seu aparecimento. A partir de então, Freud passa a tratar acerca das recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, elencando como primeiro problema a tarefa do profissional de se lembrar de todos os produtos patológicos de cada paciente no decurso do tratamento, não confundindo um paciente com outro, exigindo-se a adoção de expedientes para evitar tal situação. Para esse caso, o autor apresenta a técnica da atenção uniformemente suspensa como regra fundamental da psicanálise, procedendo o profissional com a escuta sem que haja preocupação de se lembrar de alguma coisa, abandonando-se à memória inconsciente. O segundo problema é a anotação integral de registros durante as sessões, considerada por Freud como desfavorável na impressão dos pacientes, efetuando uma seleção prejudicial do material, razão pela qual não aconselha a realização de anotações por parte do médico. Só se recomenda tais anotações quando da realização de um estudo científico sobre o caso trabalhado. Outro problema destacado é a oposição de uma técnica exigida num caso, não servir para outro, recomendando não fazer predições nem apresentação especulativa de resultados durante o andamento do tratamento realizado, deixando-se a sua condução de avanço na expectativa atenta de casos de reviravolta, carecendo, pois, uma conduta que oscile em conformidade com a tramitação da atitude mental enquanto se encontrem em análise. Freud também não aconselha o terapeuta a manter uma atitude fria e sem a solidariedade de sentimentos, chamando atenção para a perigosa ambição de alcance do objetivo. Todas essas regras convergem para o objetivo de que se relate tudo que a auto-observação alcance ou detecte, impedindo que objeções afetivas e lógicas efetuem uma seleção, mantendo-se uma posição de interpretar e identificar o material inconsciente oculto, ajustando o seu inconsciente com o inconsciente do paciente. Outra regra apresentada é a de que em momento de impasse para superação das resistências do paciente, seria de bom alvitre que o profissional concedesse a oportunidade de revelar ao seu paciente o vislumbre de seus conflitos mentais e defeitos próprios, abrindo a oportunidade de uma interação da vida própria do profissional com o paciente, tornando-se, ambos, em condição de igualdade e sob a tutela de que uma confidência merece outra, preparando-se para a retribuição mútua de confidências. Quanto a busca pela cooperação intelectual do paciente no tratamento, Freud identifica que a personalidade deste é fator determinante, exigindo-se cautela e autodomínio do profissional médico, permitindo que o paciente fique à vontade para refletir ou se concentrar a sua atenção no que deseje e que o aprendizado pessoal da experiência dite o desenvolvimento do trabalho que será executado. É em vista disso que Freud assinala que alguém só poderá se tornar analista por meio da análise de seus próprios sonhos. E que essa análise poderá ser feita também com auxilio externo, considerando que, o verdadeiro analista deve ser analisado por alguém com conhecimento técnico. Ou seja, aquele que deseja ser analista deve primeiramente ser analisado por profissional competente. Da mesma forma deve comportar-se diante das inibições evolucionárias para determinadas inclinações, devendo-se por sensatez controlar-se e se deixar guiar pelas capacidades dos pacientes ao invés de por seus próprios entendimentos ou desejos, sendo tolerante e contentar-se com o grau de evolução do trabalho. Por essa razão o autor enfatiza que tanto as ambições sejam elas educativas quanto a terapêuticas são inócuas. Ao tratar acerca do inicio do tratamento apresentando novas recomendações sobre a técnica da psicanálise, Freud passa a considerar que a plasticidade dos processos mentais, a diversidade de constelações psíquicas envolvidas e a riqueza de fatores determinantes não admite a mecanização da técnica, uma vez que essa conduta demonstra ineficaz. Tal observação não elimina nem impede o estabelecimento de procedimentos eficazes, conduzindo-se provisoriamente por um período experimental denominado pelo autor de estádio preliminar, até que se estabeleça um vínculo de trabalho de tratamento propriamente dito. Nesse período inicial de relação entre o paciente e o terapeuta é de suma importância a adoção de um contrato acordado quanto a tempo e dinheiro. O tempo é a definição de um período que pode ser diário, semanal, quinzenal ou mensal para realização do trabalho a ser executado. Nessa parte deve-se deixar evidenciado ao paciente o sacrifício e as dificuldades do processo terapêutico, podendo demandar um período longo. O dinheiro compreende ao quantum a ser acertado por honorários entre o profissional e o paciente para a realização do trabalho a ser empregado na relação entre ambos. Na parte correspondente à recordar, repetir e elaborar com novas recomendações sobre a técnica da psicanálise, Freud aborda a partir da técnica da catarse de Breuer que consistia na focalização direta do sintoma, utilizando da recordação por meio da hipnose. Com o abandono desta, procurou-se a partir das associações livres do paciente a descoberta da recordação do paciente, contornando a resistência com o trabalho de interpretação. Por fim, a psicanálise adotou a técnica sistema de abandono da tentativa em colocar por foco o momento ou problema específico, passando a estudar a presença do que surgir da mente do paciente por meio do emprego da interpretação para identificação das resistências imersas para revelação, preenchendo lacunas da memória e dinamicamente superando-as. Para se evitar a deterioração durante o tratamento, faz-se conveniente que o analista revele a resistência ao paciente para que ele possa familiarizar-se com o seu problema e elaborar. Na parte sobre o amor transferencial com novas recomendações sobre a técnica da psicanálise, Freud parte da surpresa diante da interpretação feita das associações do paciente com a reprodução do reprimido, surgindo dificuldades no manejo da transferência. Em vista disso, Freud recomenda que o profissional terapeuta não deve jamais aceitar ou retribuir sentimentos ternos que possam ser oferecidos, sendo mais apropriado que pondere acerca do assunto e apresente as exigências da ética profissional da necessidade de renúncia e moralidade social, mantendo o tratamento em completa abstinência no trabalho para as mudanças necessárias, mantendo-se firme e cuidando para o apaziguamento dessas forças por meio de substitutos. Com paciência e determinação pode-se continuar o tratamento rumo a moderação ou transformação da resistência no caso do amor transferencial caracterizado por determinados aspectos que asseguram ao caso uma posição especial, principalmente por ter sido provocado pela situação da análise realizada, intensificado pela resistência dominante da situação e menos interessado nas consequências. Esse amor evocado foi instituído pelo tratamento analítico com objetivo de cura da neurose, responsabilizando o analista para superação ética e técnica pelo entendimento de a paciente se encontra prejudicada e motivada por fixações infantis, mantendo-se digno e dentro dos limites que prescrevem à profissão. A leitura dessa parte da obra freudiana propiciou um maior entendimento entre as práticas psicanalíticas acerca da dinâmica da transferência, do caso da relação pessoal entre o médico e o paciente, da influência que o profissional terapeuta exerce sobre o assistido e das consequências disso no surgimento de perturbações e óbices que permeiam o relacionamento e tratamento dispensado pelos atuantes da área com seus pacientes. Leitura esclarecedora que permitiu realizar um melhor exame acerca do conceito tanto de transferência como de resistência no processo psicanalítico, observando-se os mecanismos de defesa e suas consequências na relação entre o profissional e seus assistidos. A análise efetuada da parte dessa obra possibilitou ter-se uma melhor visão ética, técnica e profissional no atendimento e tratamento dos que necessitam dos préstimos profissionais, para melhor condução e mais adequada intervenção nesses casos. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmundo. O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos – Vol. XII (1911-1913). Rio de Janeiro: Imago, 1980.




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