terça-feira, janeiro 06, 2009

A POESIA DE BRAULIO TAVARES



O JUIZ E O LADRÃO

Braulio Tavares

Toda vez que um soldado de polícia
Leva preso um filhinho-de-papai
Meia hora depois ele já sai
Com propina na hora mais propicia
Toda vez que um jornal dá a notícia
Dos trambiques de algum parlamentar,
Noutro dia precisa apresentar
Desmentidos de toda a redação...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Quando algum promotor ter a coragem
De enfiar sua mão nesse vespeiro
Chega um fax e manda bem ligeiro
Que ela mexa com outro personagem
Se o Congresso descobre sacanagem
E promete depressa investigar
Muita gente começa a encomendar
Uma pizza gigante pro salão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Mesmo quando um ladrão endinheirado
Por acaso pernoita na cadeia
Ele tem boa cama e boa ceia
Numa cela com ar refrigerado.
Sendo o caso de ser um magistrado,
Tem direito a tv e frigobar
Tem cozinha francesa no jantar
E cobertas de seda no colchão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Outro caso na historia brasileira
É o juiz conhecido por Lalau
Que roubou cem milhões dum tribunal
E escondeu do outro lado da fronteira
O juiz vai em cana terça-feira
E na sexta já mandam libertar
Não tem homem que faça ele passar
Sete dias seguidos na prisão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

No Brasil tem industria madeireira
Derrubando floresta em todo Estado
E às vezes vem um advogado
Traz a lei, e interrompe essa sujeira
Mais aí um ricaço abre a carteira
Compra a peso de outro a liminar
E na mata se volta a escutar
Motosserra, machado e caminhão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

BRÁULIO TAVARES & OS MARTELOS DE TRUPIZUPE – Ter a oportunidade de um reencontro com a obra do grande Bráulio Tavares, é uma das espetaculares sensações inomináveis a que qualquer leitor terá o privilégio de sentir. Acompanhando há anos o seu trabalho e hoje ter nas mãos “Os martelos de Trupizupe” é de um inigualável deleite e dos mais apreciadores da minha parte.

BRAULIO TAVARES - Para se ter uma idéia, Braulio Tavares é escritor e compositor, estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992) e é autor de vários livros, tais como A máquina voadora (1994) e A espinha dorsal da memória (1996).

OS MARTELOS DE TRUPIZUPE - Lançado pelas Edições Engenho de Arte, em 2004, da sua irmã, a escritora Clotildes Tavares, “Os martelos de Trupizupe” é, conforme palavras do próprio autor na introdução do livro: “Este livro é uma coletânea de poemas, com um lado autobiográfico que não pretendo valorizar demais, nem esconder. (...) Os versos deste livro não foram improvisados, foram escritos e, como a maioria dos versos, são respostas do poeta a coisas que leu, que viver, que escutou. Os versos pertencem tanto a mim quanto ao momento que os gerou”. Cada poema do livro vem com uma nota introdutória, a exemplo do primeiro apresentado no livro, “Treme o sol, treme a terra, o vento muda”:

“Quando eu pego a cantar o meu repente
Tudo em volta se cala pra escutar,
Se congelam as ondas sobre o mar
E emudece o trovão subitamente.
O feroz furacão fica silente
Sem ruído desdobra-se o tornado
O tufão fica imóvel e calado
Cada voz me respeita e fica muda:
Treme o sol, treme a terra, o vento muda
Quando eu canto martelo agalopado. (...)”

Esta é a primeira mostra da grandeza do livro que saboreei da primeira à última página. 

Outro momento dos mais aprazíveis é no poema “O poder da natureza”, onde Bráulio fecha a glosa com o mote: “(...) E o homem vê isso e não aprende quanto é grande o Poder da Natureza”.

No livro também se encontra os versos de autoria de Bráulio Tavares da famosíssima música “Nordeste independente”.

No poema “A marreta da morte”, sintam a riqueza e maravilha poética do autor:

“Esta vida é uma nuvem passageira
E é de perto que a morte a acompanha:
Até mesmo a mais sólida montanha
todos sabem que é feita de poeira.

E eu comparo esta vida a uma pedreira,
Majestosa, elevada e pardacenta,
Mas a morte, com mão sanguinolenta
quebra pedra por pedra à martelada.
A marreta da morte é tão pesada
e a pedreira da vida não agüenta (...)”

O ponto alto do livro estão nos Limeiriques, baseado em versos irlandeses, os “limericks” com temática fescenina e de nonsense. Sintam:

“Quando eu pego a cantar meus limerique
As canguéia rotunda se estrepole
não tem trinca-de-boy nem mula-mole
Que achinchele a peixeira do cacique!
Eu me escoro no meu mamultiplique
E as danuta do Cão vai se ofendendo
No pendura imbrecado vai-não-vendo
Rolimão dos cunhão de Zé Limeira:
Quando eu pego a cantar minhas besteira
Cristo desce da cruz e sai correndo! (...)”.

Quer mais? Vejam só o início do poema “nem de menos, nem de mais”:

“Se o destino for justo e coerente
Vai me dar tão somente o quanto eu peço:
Eu não quero alegrias em excesso
Nem aceito sofrer injustamente.
Eu não quero ser morto pela frente
Nem levar punhaladas por detrás;
Entre a paz e a fortuna, eu quero a paz,
Pois já acho bastante o que eu padeço.
Eu só quero na vida o que mereço,
Não aceito de menos nem de mais (...).

Acompanhando a tradição dos cantadores, repentistas e emboladores da Literatura Cordel e aliando a visão do artista participante e antenado com o seu e a sua terra, “Os martelos de Trupizupe”, de Bráulio Tavares, é indubitavelmente uma das mais belas páginas da literatura brasileira presente.

Fonte:
TAVARES, Braulio. Os martelos de Trupizupe. Natal: Engenho de Arte, 2004.



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