terça-feira, agosto 05, 2008

A PRIMAVERA DE GINSBERG



Imagem: arte de Carole Spandau

A PRIMAVERA DE GINSBERG

Luiz Alberto Machado

Eu não ouvi a notícia de que esta terra verdamarela propiciaria a vida de seus nativos numa corda bamba abissal, a longo prazo, até que louras intenções desviassem os rumos tropicais até a sua indignação.

Não saberia eu, civil fulustreco, que emboabas seriam sempre bem-vindos para se apoderarem do nosso mais sagrado rancho, a dispor de regras e razões superiores para não termos de nos envergonhar ao subtrair nossa integridade.

Jamais imaginava que pudéssemos enterrar nossos mortos no mais ingênuo mito folclórico a troco de veneração mais assídua por valores alienígenas que nos tomaria a direção da venta para o estardalhaço da admiração.

Surpreendido fiquei com esta pobre gente que vive bebendo água na orelha dos outros, a cochichar no mais despudorado porão da vergonha as mais forjadas inverdades sobre a democracia e seus peculiares benefícios adulterados para a liberdade do gasta-gasta e da possessão maníaca de ter o que não pode ter.

Sabia lá que os tais invasores, batizados em águas quentes nos frios do norte, pudessem se enraizar e conviver conosco como um de nossa casa, dando pitaco até nas nossas decisões com mágicas citações divinamente salvadoras;

Nem me tocava que os bigorruptos e seus papéis de merda bizantina onde estão inscritos os diversos saldos astronômicos de nossa dívida enrolada, proporcionavam aos ventos brandos o poderio dos bobisnicolaus sentados nas tesourarias públicas, bufando seus sopros de bóreas para os mãozinhas de luvas e manguinhas de fora.

Nem-seu-silva-de-dar-bola para as vítimas latinas cujo sangue hoje banha o colossal tesouro das metrópoles maiores do mundo e seus suntuosos edifícios de dar água na boca.

Benevolentemente sequer prestava atenção aos discursos, os mais ásperos dos mais importantes da nação, quando se tratava dos que cagam na vela, seres de meia tigela, ousando gritar por justiça quando já desapareceram com os céus e roubado a balança e a venda de Têmis.

Nem prestava atenção aos alcoviteiros inescrupulosos do poder, brilho maior da televisão engalanada, portadores da má notícia, a nos avisar dos abismos que nos meteríamos pelos gritos de liberdade que empunhamos, excluídos da festança abastada dos vencedores, donos do nosso escrutínio, que trocam a mãe por um condomínio luxuoso, e que padeceríamos, por isso, de mil achaques e seria grande o alarido dos nossos pecados.

Nunca consultando a constituição pelos atos de exceção ou disposições transitórias que mais confundem já dos tantos artigos e parágrafos dúbios de códigos civis ou penais ou sei lá mais, qual gramática complicada – para que tanta lei, me Deus, se apesar da compulsoriedade jamais será cumprida!!

Ou que por eloquência nossa, mais fácil falar a língua do inimigo como se nada tivesse acontecido

Ou que por superioridade nossa no meio dessa misturada doida, prescindiríamos de leis e governos

Ou que por universalidade nossa, adaptaríamos nossa vida à todas do planeta numa carnavalizante existência

Ou que por sapiência nossa, misturaríamos de tudo para traduzir o sumo do bom e do melhor nos esquecendo da excrescência noturna com que alicerçamos nosso ontem, enlameamos nosso hoje e fabricamos um infecto amanhã

Qual nada!

Se todos os ardis nos iludem na página rotineira de uma novela televisiva
Se todos os escroques nos remetem aos apuros com malabarismos sentimentais
Se a todo momento expomos a mão à palmatória num vexame bisonho
E isso nada tem haver com nosso bocejo perene, oh! plebe ignara!

Chamo de gato ao gato
E ao governante de patife!

Cada qual cuide de si

Pois todos os banquetes do palácio estão regados com nosso sangue de vítimas desmioladas, presas fáceis dos falastrões incorrigíveis, de gestos fesceninos, adeptos de gestapos e fiéis de Gog e Magog!

Qual nada!

Cultivemos então nosso orgulho majestoso do jeitinho para tudo, jogando uma bola fenomenal e flertando a bundinha daquelas que seguem para a praia a procura de uma noite por maior prazer, beldades de uma geografia anatômica capazes de esbugalhar os olhos dos mais insensíveis!

Cultivemos nosso orgulho pelos bens adquiridos através do processo de Felipe da Macedônia, felizes por dar uma marretada no otário que sai todo dia de casa com um chapéu que é a porrada da ocasião, da tapeação e ainda sorrir por haver lesado um imbecil, pelos presentes de Artarxerxes aos nossos desafetos, fofoqueiros que se metem em tudo como um azarão a nos perseguir; pelos que fazem política como pó de Pirlimpimpim e nos conduzem numa nau à deriva, sabe lá, Deus, para onde!!!!

Pelos tolos que cumprem as leis violadas pelos sabidos; pelas leis que fazem vista grossa nas dilapidações e nos dão essa segurança de impunidade na rua; pelas leis que vão até onde o rei falso quiser – toda lei na mão do feitor!

Pelos que fazem a guerra e ainda se arvoram na petulância de anunciar que o fazem por amor à humanidade, filhos da puta!

Pelos que vivem de julgar a todos segundo seu próprio juízo e vomitam razões esquálidas na mais sectária das visões; pelos ambidestros sobre as farândolas dos falidos que cultuam o carnaval para se esbaldar da nossa desgraça e mangar da nossa besteira por santificá-los como bem sucedidos, quando não passam de um vesano sobre os nossos detritos e suas diatribes; pelos rabagás, os tais déspotas, cultores de tudo na base do balão de ensaio, postulantes às tendas de meninas fiéis católicas, que mal geram filhos e negam os peitinhos empinados para que não lhe caiam até a barriga desagradando seu patrão; por esta multidão andrajosa a exibir suas deformidades, dormindo no ponto, sequer desconfiando da sede do abismo com um riso banguela na hora mágica do gol; por essa gente que gosta de tanger gente na maior sem cerimônia; por essa gente que leva a riqueza dos outros na pontinha do dedo sem o menor rubor; pela história mentirosa que se ensina e a vergonhosa que segreda, quando aqui fenícios deixaram indícios suméricos mais valiosos na pré-cabrália e ninguém se deu conta do que seria, por isso deu no que deu!

Será, então, um deus moreno, com um olhar tropical, indevidamente preterido, esperando, esperando, esperando por um novo milagre? ah! Para tanto há milagre de abril, cor anil, tão sutil, para ser hostil, com mentiras mil, ah!!!

Ah! Se um Frínico tivesse aqui o poema da comoção popular!!!

A terra é redonda
E ainda, assim, cagam pelos quatro cantos de mundo!!

Mas se estivéssemos na América, no continente americano, onde o sol sempre é enxaguado por sangue e, então, fôssemos para a América do Norte, uivando os mais sinceros arrotos psicodélicos sobre a face majestosa da Estátua da Liberdade, mijando num canteiro do Central Park e fosse preso em nome do pudor democrático dos americanos mais brancos possíveis ou negros mais ricos sobre pretos mais pobres; e se estivesse na Quinta Avenida, onde ninguém teve a coragem de engolir os sapos mais audazes daqui; e se tornasse uma locomotiva doida no comércio promissor de Miame sob o pretexto dos maiores meios de acender Whitiman e sua admiração pelos nossos, como se fosse um Halley gritando versos de Dilan Thomas e cantando Ezra Pound para os desvalidos nordestinos daqui; ou se falasse de Nixon e Watergate e repulsasse o caso Vietnã ou de Sacco e Vanzetti e se negasse a biodiversidade em nome do burgo anglo-americano, ninguém saberia nada!! E se louvasse a pirataria no Atlântico ou os fugitivos dos famosos Round Heads de Cromwell ou o boicote no porto de Boston pela autonomia aduaneira; ou a batalha de Lexington; ou o patriarcado indisfarçavelmente latifundiário com seus vultosos capitais sobre a escravaria negra; ou a vingança fanática sulista desferindo petardo contra Lincoln após a guerra vitoriosa da Secessão; ou dos fugitivos das perseguições de Jaime ou Carlos Primeiro; ou mesmo com a declaração dos direitos de Virgínia, quem saberia? Ou se encontrasse gente da melhor cepa e cada vez mais afoito em dominar escrotamente ferrenho, dilacerando legislações como a rotular cu-de-mãe-Joana em qualquer país latino-americano, peritos na arte de exterminar a sangue frio e serem perdoados na piedade dos tribunais mais auto-suficientes do universo, esmagando a todos com a sua avareza e cultuando o controle da natalidade para financiar abortos na fúria dos Torquemadas messiânicos, usurpando quereres para gozar na punheta de todos os mandos!!!!

Qual nada!

O bom pra essa gente é cívico devotado, besta quadrada, cumpridor dos dez mandamentos, portador das boas maneiras e não passar de um intelectual de sovaco que se enraba só para ver-lhe a careta e, ainda, depois, queimam-lhe o rabo e dizimam a honra e tanto se provoca o terror que um dia sua própria cabeça também desce ao cadafalso!!

Qual nada!

Eles não sabem que a pobreza ainda é o maior crime da sociedade civilizada ou fingem não saber da distrofia pluricarencial hidropigênica ou da delinqüência infantil ou das distonias cerebrais ou das desigualdades sociais como para o predador e a lei quanto mais amor maior violência!!!

Qual nada!

Batem no peito, expõem comendas e desonram tudo, botando as mangas de fora, fudendo tudo que lhe vem pela frente, como carniceiros nos impondo contratos leoninos assinados por débeis representantes e ignóbeis avais populares, assumidos publicamente para a constatação de uma insolvência que jamais será amortizada, a não ser por sangue e suor de herdeiros futuros que nos responsabilizarão pela inércia, aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiai!!!!

Mas podemos ainda felizes sambar nas praias do nosso lindo litoral nem nos dando conta de tais leviatãs
E ainda podemos sorver uma cerveja gelada no boteco da esquina sem nos incomodar com as cambadas e confrarias de nada no conluio dos interesses
E ainda gritar de emoção num lance de gol desconhecendo enxames, matilhas ou pragas ou quadrilhas ou súcias ou varas ou glutões ou vilões dos nossos congressos, legiões de algozes duma ação de verdugos com bocarras exuberantes e seus guinchos de sanha aracnídeas, inimicíssimos de nós meridionais
E ainda podemos remexer o esqueleto na Marquês de Sapucaí, pisando nossos remorsos, aplaudindo lúculus e gangsters e facínoras que financiam as atrofias das nossas vontades!!!!!
E ainda podemos melar os pés no pantanal mato-grossense, desconsiderando homicidas sobre os incipientes lerdos inofensivos que não tem nem deus nem nada para se amparar!!!!
E ainda podemos singrar as águas do São Francisco sem sabermos que somos verdadeiros suicidas na absolvição dos infratores no centro de uma hemorragia de idólatras no urinol!!!!
E ainda podemos passear pelas ruas de Olinda sem prevermos da gatunagem dos que se dizem dermatóglifos de nossa missão, quiromantes do nosso destino, redentores do nosso sofrimento, puta-que-o-pariu!!!!
Quem somos além de usuários de um reino diáspora com falcões nos plenários a nos mostrar o homem e o seu lobo, o predador e a sua presa, o desigual do forte sobre o fraco, deus meu?

Só a poesia tornará a vida suportável!!!!!!!!


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