quinta-feira, dezembro 13, 2007

JEAN-PAUL SARTRE



O filósofo existencialista e escritor francês Jean-Paul Sartre (1906-1980) foi uma figura controvertida e patologicamente dominador daqueles que entrassem em contato intimo com ele, do mesmo modo que queria combater a vida inteira por qualquer tipo de autoridade. Acometido de leucoma no olho direito desde a infância, provocando estrabismo e perda parcial da visão, tornou-se vesgo, um fato que marcou sua vida desenvolvendo uma ambivalência que o perseguiria ao longo de sua existência.
Desde cedo começou a escrever histórias românticas de cavalaria e textos autobiográficos, anotações com aforismos e especulações filosóficas com uma combinação de angustia, extremismo mortal e violência que seria caracterizada no escritor maduro.
Desde que virou estudante parisiense dispensou a higiene por causa de ser contra os hábitos burgueses: deixou de tomar banho. E passou a fumar cachimbo. Nessa época conheceu Simone de Beauvoir, apelidada por ele de Castor: "Encantadora, bonita, se veste pessimamente... usava um chapeuzinho horrível". Mas, amor à primeira vista, tendo, pois, uma relação aberta. Sartre e Beauvoir tornaram-se professores. Foi à época que ele andava procurando uma filosofia do individuo e do seu envolvimento no mundo constatada na fenomenologia de Husserl. Mas ele vai para o existencialismo do filosofo e pensador religioso dinamarquês do século XIX, Soren Kierkegaard, que acreditava ser o "individuo existente" a única base para uma filosofia significativa. Depois vai para Martin Heidegger. E por ai vai: Kierkegaard, Heidegger e Husserl formando a base intelectual de suas teorias filosóficas.
Veio então a II Guerra Mundial e Sartre de uniforme: "A guerra dividiu a minha vida em duas". E partiu para construção de um dos conceitos-chave de Sartre: a má-fé, considerando que agimos de má-fé quando enganamos a nós mesmos, particularmente quando tentamos racionalizar a existência humana impondo-lhe um significado ou coerência. Outro conceito chave do existencialismo de Sartre é que a existência precede a essência: "Isso significa que um ser humano, antes de mais nada, existe, descobre-se, aparece no mundo – e só se define depois".
Como parte da sua atitude antiburguesa, Sartre sempre tendeu a posições socialistas radicais, embora insistisse: "não sou marxista". Não demorou e estava afirmando que "o marxismo reabsorveu o homem na idéia, e o existencialismo o procura por toda parte onde ele esteja – no trabalho, em casa, na rua".
Com o fim da guerra, Sartre escreve “A idade da razão” publicado em 1945, o primeiro da trilogia “Os caminhos da liberdade” que se completaria com a publicação das obras “Sursis”, em 1945, e Com a morte na alma, em 1949, trilogia esta que levanta o problema da liberdade e do engajamento do individuo, tendo como pano de fundo a história e a política.
Em “A idade da razão” predominam as questões individuais tendo a história e a política como pano de fundo. Na obra, Mathieu Delorme, jovem professor de filosofia, procura a liberdade pura, sem compromissos de qualquer espécie. Brunet, ao contrário, personifica a renúncia da liberdade em favor do engajamento político. O homossexual Daniel ilustra a tese bastante difundida nos anos 30 de que o ato gratuito sem qualquer motivo é a única prova concreta da verdadeira liberdade. Na visão de Jacques, irmão de Mathieu, atingir a idade da razão significa abandonar os sonhos juvenis sobre a liberdade e casar-se, ter um trabalho, uma vida regular. Mas nem Mathieu, nem Brunet, nem Daniel podem aceitar tal perspectiva que implica, para eles, uma morte interna.
Ao ler o livro encontramos curiosas expressões sartreanas dignas de nota. Por exemplo: “(...) quando a gente está bêbada dá-se ao luxo do patético”. O que o Doro, cheio dos birinaites, plagia com a maior descaradice: “A gente começa tudo no socialmente e, mais tarde, finda tudo no acanalhadamente”.
Sobre o ventre, ele tasca: “(...) Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que logo seria como um olho: E isso se desenvolve no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive”.
Sobre os pederastas: “Eles têm, pelo menos, a coragem de não ser como todo mundo”.
Sobre a amizade: “(...) A amizade não suporta a crítica. Ela é feita de confiança”.
Da necessidade do bom senso: “(...) Era conveniente falar baixo, não tocar nos objetos expostos, fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza e não esquecer nunca, em caso algum, a mais francesa das virtudes: o bom senso”.
Sobre os imbecis: “(...) Vale a pena divertir-se um instante com os imbecis, dá-se corda, eles se erguem no ar, enormes e leves como elefantes de borracha, puxa-se a corda e eles voltam, flutuam a baixa altura, aturdidos, estupefatos, dançam a cada sacudidela do barbante, com saltos desajeitados. Mas é preciso mudar constante de imbecis, senão é a náusea”.
Finalmente, em 1952, Sartre tornou-se marxista. Mas individualista como sempre, recusou-se a ingressar em qualquer partido político. E perverso como sempre, sua principal bête noire tornou-se o Partido Comunista.
Outra curiosidade digna de nota: em 1964 Sartre foi agraciado com o premio Nobel de literatura, especificamente por sua autobiografia da infância, “As Palavras”, mais do que pelas obras filosóficas ou políticas.
Por fim, mais uma: em 15 de abril de 1980, aos 74 anos, ele morreu. Seu enterro, quatro dias depois, atraiu um cortejo espontâneo de mais de 25 mil pessoas ao percorrer o Quartier Latin, passando diante dos cafés onde escreveu as suas melhores obras. Os moradores da Rive Gauche, o público mais desrespeitoso do mundo, foram prestar suas ultimas homenagens ao mais desrespeitoso herói deles todos. Veja mais Sartre aqui, aqui, aqui, aqui e aqui


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