quarta-feira, fevereiro 01, 2006

OS ASSASSINOS DO FREVO



Doro não tem mesmo o que fazer. Mesmo que eu escreva duas massarocas raçudas de volume, daquelas ruins até de apalpar ou carregar no sovaco, não dá vencimento para suas presepadas. Razão porque ele é chamado de bacharel das chapuletadas, um perfeito aprontador de situações vexatórias,chega dele mesmo, de vez em quando, ficar ruminando: - O qui mermo qui fiz na vida? -, perigosa dúvida, porque se ele alinhar as idéias, enquadrá-las no senso, virgem, vai ser estrondo maior que a zoada da explosão do Colúmbia. Se dá, ôxe, vira feriado nacional. Bote fé.

Outra coisa: existe nesse mundo de coisas, uma coisa mais estranha que nome de bandas e de conjuntos musicais? Pior os das tradicionais! Lembram? E as de frevo? Ôxe, é cada nome estrambólico rebuscado no barroquismo ou da religiosidade, ou da milicagem, ou das dores de cornagem que dá cada uma risadagem, ora.

Eu mesmo já vi todo tipo desses nomes, alguns tão impronunciáveis como de gostos duvidosos, fazendo confusão até para dizê-los, senão apelidá-los da forma mais intuitiva que se possa imaginar, vez que, normalmente, servem para ser ditos de trás pra frente ou da forma como aprouver que dar na mesma.

Pois bem, dia desse, próximo dos festejos carnavalescos, vem de ocorrer a pulha. E, como se sabe, nas províncias das brenhas nordestinas, o carnaval é uma das quatro festas do ano que não se pode passar em branco, senão, que será da quaresma? E sai cada geringonça de batucada, como o bloco dos cornos, dos viados, dos metidos a besta, dos ofendidos, disso e daquilo.

Viva o carnaval! E, para os gaiatos, é hora da mangação, porque tem gente que tira a máscara, vestindo a fantasia que, na vida real, sempre quis se camuflar. Isso sem contar com as prefeituras que armam o maior escarcéu, proporcionando o circo da maior enrolança.

Foi numa hora dessas que Doro, naquelas das suas periclitantes fases, sempre inventa de socorrer algum desavisado. E foi. Resolveu em cima da bucha:

- Contrata o Mané Preto!

- Tá doido, rapaiz. Quero lá matá meu povo!

Doro nem se apertava, tinha uma saída na hora, sempre.

- Espie, entonse eu tenho uns mininos, inducadíssimos, qui tocam de uvido, de beiço, de chute, de carcanhar, de cabeça prá baixo, de quairquer jeito. Arrisolve o probrema em dois tempo!

- Ah! esses é do bom. Quero assim, qui sejam versátis.

- Sem bronca, conte na conta do arresolvido.

O contratante foi na onda, viajou na maionese. E Doro tome providência. Chamou junto o Nego Beba, maior capitaneador de fascínoras e enrolões, e convocou o maior pega-na-rua.

- Arrisolvido, vô trazê os maió dos meió dos tocadores: Os Assassino do Frevo!

- Vumo cuntratá-los todos, hospedá tudo num hoté dos bom e arrumá os cara prá fazê um carnavá nunca visto! O que s´a precisa?

- 50% adiantados dos cachê.

- E quanto qui é?

- Cents réis.

- Quanto?

- Me dá aí o qui tivé no bolso, qui tá arresolvido.

Ôxe, Doro embolsou a grana e saiu para providenciar os músicos da orquestra. Saiu de casa em casa, ninguém aceitava tocar por migalhas. Foi um aperreio. Até que Nego Beba resolveu entrar em ação de mesmo e convocou uma trupe da pesada para tirar o amigo do aperto. E assim, conseguiram reunir depois de muito suadeiro, uma orquestra de verdade - quer dizer, no dizer deles.

O instrumento que não tinha, foi afanado naquela horinha e já fechava o negócio como feito. Ensaiaram dias seguidos, isso sem contar com as reclamações dos vizinhos e intervenções da polícia, que transferiam, à força, o local dos ensaios. Sem contar com o flagrante e prisões de foragidos que se encontravam nas buscas com mandado de prisão e tudo para trancafiar o cercado no xadrez.

Por causa disso, deram de ensaiar no meio dos matos, senão, não sobrava um sequer. Até Doro que possuía a folha limpinha, já andava como suspeito nas desconfianças das diligências judiciais.

Repertório definido, tudo nos pontos, segundo eles próprios, fizeram um ensaio geral que não teve mais fim.

Aí, na véspera do rebuceteio, chegaram as figuras distintas. Quando o contratante olhou, num acreditou.

- Isso s´apareci mai um bando de marginá!

- Calma, doutô. Os mininos são fino, tudo inducado na Suíça. Tudo sangue bom. Ninhum nunca caiu nas fraqueza. Tudo decente. Pode crê.

De soslaio, duvidou daquilo. Nem cego passaria batido, vendo que aquilo tinha o forte teor de golpe. Mas, destá, já que tá dentro, deixa; para quem está no prejuízo, era a hora do mandar ver prá crer.

- Ói, doutô, num pricisa nem hoté, eles queri é drumir por aí mermo.

Claro, para comerciante, quanto menos gastar melhor. Ele gostou da idéia e ficou só com a responsabilidade do cachê. Mais nada. Já que havia adiantado os 50% apalavrados em espécie, o restante ficaria só para depois do rebuliço. Pronto.

- Beleza.

Pois foi. No outro dia de manhã. Estavam os músicos - se é que se pode chamar aqueles trastes de músico -, tudo a postos, hora marcada pontualmente, tudo uns malabanhados cada qual com o seu instrumento na mão, prontos para descer a ladeira e arrancar a mundiça da cama, logo cedo.

Quando Doro deu o sinal, o frevo pipocou solto. O povo se acordou com o zoadeiro, minha nossa, o negócio entronchou de vez. Era a orquestra descendo e o povo avolumando atrás, no maior pulado. Até a polícia seguia a frevância. E tome Vassourinhas prá cima e prá baixo.

Doro, coitado, até pensou:

- Eita, inté a puliça tá guardando nossos artista!

A afinação não era aquela coisa que se dissesse assim das mais condizentes, mas a barulhada que fazia era ensurdecedor. E frevo quando toca, num tem quem num bote para pular na maior pipocada, até defunto levanta.

Assim, foi. Desceram a ladeira, arrodearam o mercado, quebraram no cemitério, seguiram pela prefeitura, voltaram pela beira do rio, pararam na igreja da matriz e... e... e... sumiram. O povo pulava, mas cadê os músicos? Nem sinal deles! O que foi que houve? Doro se perguntava, o povo tudo doido pronto prá pular uns dez dias encarreados, a polícia correndo tudo, meio mundo de querelante com o delegado para apurar o desaparecimento de móveis e utensílios das residências, casas arrombadas, veículos furtados, nego sem carteira, mulheres sem roupa, maior varredura nas posses locais causando um pandemônio sem precedentes!

Nossa, será? Pois é.

Quando Doro deu por si, o mais inocente da orquestra, possuía uma ficha corrida na penitenciária com quilômetros de delitos.

No desconto, o mais santo havia roubado a própria mãe. Os demais, roubo, furto, latrocínio, assalto, sequestro, homicídios vários.

Quando Doro instou Nego Beba, ele berrou:

- Rapaiz, ocê me botô numa inrascada das braba! Quage qui sô preso por suspeita e conivença!

- Ora, os minino chamam delegacia de hoté e sordado de garçom. Cê quiria o quê?

- Tocadores dos bons.

- Minchou.

- E agora? O hômi vai m´imprensar!

- Joga um lero no toitiço dele. O povo pulou ou num pulou?

- É...

Depois de meio mundo de depoimentos, explicações, esclarecimentos, Doro e Nego Beba foram liberados pelas autoridades policiais. E o melhor: com os 50% acertados no bolso.

- É si pinotaru, tão feito! Num vieru nem buscá os outro 50% do cachê. Assim, também, seria demais também. Esse eu embolso.

E foi. Ainda hoje Doro num pode ver mal encarado que o sangue some e ele escapole.

- Ora, eles fizeru a feira na casa do povo, pra quê queri mai dinhêro? Ôxe, defendi o meu que tumbém sô f´i di Deus.

©Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Samira, a ruivinha sardenta, August Macke, Cristina Braga, Ciberarte, Ditados Populares, Yann Martel, Philippe Blasband, Tom Tykwer, Franka Potente, He Jiaying, Ana Bailune & Susie Cysneiros aqui.




E veja mais também Gaia, Caetano Veloso, Isaak Azimov, Tereza Filósofa & Marquês d´Argens aqui.



CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.
 

HERMILO, JESSIE BOUCHERETT, LUIZ BERTO, PINTANDO NA PRAÇA & SERRA DO QUATI – CAPOEIRAS

SERRA DO QUATI, CAPOEIRAS - Imagem: Serra do Quati/Capoeiras/Raimundo Lourenço. - Nasci na beira do Una, andejo do dia singrando na vida. ...